domingo, 25 de setembro de 2016

Doação, sentido da vida



"16 Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e nós devemos dar a vida pelos irmãos. 17 Quem, pois, tiver bens do mundo, e, vendo o seu irmão necessitando, lhe fechar o seu coração, como permanece nele o amor de Deus? 18 Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obras e em verdade.
1 João 3:16-18


Por Jânsen Leiros Jr.

Não há como negar. Volta e meia ao longo de nossa vida, por diversos motivos, somos levados a fazer-nos uma íntima e inquietante pergunta: pra quê tudo isso? Seja diante de dificuldades nos relacionamentos, seja diante das perdas materiais ou afetivas, ou ainda por conta de insucessos profissionais ou financeiros, a busca por um sentido que seja transcendente a todas as oscilações circunstanciais da vida, segue como a meta mais legítima e ao mesmo tempo mais desafiadora para a alma humana.

Nesse encapelado mar de ideias, impulsos e reações, um propósito para a vida funciona como uma âncora que pode firmar-nos em conceitos e princípios inegociáveis, que nos impeçam de vagar à deriva, jogados por tempestades de emoções imprevisíveis. Um sentido para a vida define a rota, permitindo que saibamos o caminho, não obstante qualquer desventura.

Quando falamos de sentido para a vida, não falamos de objetivos, alvos ou metas. Essas coisas, obviamente importantes, não são o sentido da vida. Todos queremos ser felizes. Todos queremos vivenciar relacionamentos afetivos bem-sucedidos, ou ainda ter uma vida tranquila. Esses alvos ou objetivos, como queiram chamar, são obviamente importantes e louváveis, mas não são o propósito.

Analisando tais metas de vida, quem pode dizer que estejam errados? Certamente qualquer um apreciará quem elencar esses alvos como objetivos de vida, e como sendo o lugar onde pretende chegar em sua caminhada. E isso é extremamente bem-vindo. Aliás, o fato de possuirmos em quase a totalidade na humanidade os mesmos objetivos de vida, por si só já os legitima como aceitáveis, probos e preferíveis.

Acontece que ter alvos definidos diante dos olhos, não garante ao arqueiro que os irá atingir. É preciso ter um sentido, um propósito. É preciso definir a estratégia, o modo de ir até o seu destino. Ao arqueiro será necessário definir a trajetória da flecha, assim como ao navegante ajustar a rota até o ponto de chegada. O sentido da vida é o que determina como eu vou até onde eu quero chegar.


" 12 tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; 13 até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo; 14 para que não mais sejamos meninos, inconstantes, levados ao redor por todo vento de doutrina, pela fraudulência dos homens, pela astúcia tendente à maquinação do erro; 15 antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo,
Efésios 4:12-15


Como cristãos que somos, nossa meta primordial na vida é nos tornarmos iguais a Cristo; nosso alvo por excelência. Mas é preciso ressaltar que para atingirmos esse objetivo, precisaremos de propósitos firmes e transformações convincentes, que se farão o caminho que nos levará ao destino tão pretendido; a imagem de Cristo em nós.

Ora, se Deus é amor, logo o amor é sua forma de existir. Amar é a vida de Deus. E se a doação é a forma invariável como realiza seu amor para com a humanidade[1], a doação é a maneira com que a essência amorosa de Deus melhor se revela para nós. Deus é um doador por excelência e a doação é o seu amor em ação. Deus doa desde o princípio. Dando de si criou os céus, a terra e tudo o que neles há. Doando de si mesmo formou tudo o que trouxe à existência.

Ao doar-nos tudo e tantas coisas, o próprio Deus nos doou o próprio sentido da vida, elaborando um propósito que se sustenta sobre tudo o que Ele mesmo nos deu. Foi assim que ganhamos vida plena e vida em abundância[2]. A vida plena é aquela capaz de desenvolver todas as suas possibilidades em todos as abrangências em que tal vida atua. A vida plena é uma vida que se realiza. E essa realização é tanta, que sobeja, sobra, transborda. É uma vida abundante porque não se cabe. E por não se caber se doa. Por isso doamos vida. Porque a temos além do que podemos viver.

O Deus doador doou-nos também o seu Espírito, e isso é extremamente revelador de sua vontade, e esta em relação a um propósito de vida. Sim, porque Aquele que vivia nos céus e visitava a humanidade conforme relatos do Antigo Testamento, e que durante o ministério de Jesus esteve habitando entre nós, segundo os evangelhos, por seu Espírito fez de nós sua morada, vivendo em nós. Ora, isso não pode significar outra coisa senão que Deus vive através de nós. Não dissemos nós que ser pai é ter o coração batendo fora do corpo, em outros corpos, nos corpos de nossos filhos? A exemplo de Deus, doar de nós mesmos ao próximo é viver nele nossa vida transbordante.

Entre outras tantas coisas doadas por Deus à humanidade, está a sua Palavra, escrita e encarnada, ensinando e instruindo, admoestando e provocando cada indivíduo a uma vida de santidade e devoção por gratidão; Ele nos amou primeiro[3]. E por isso deu-nos sua Palavra encarnada, resgatadora e salvadora de todo aquele que nela crê[4]. Não a compramos. Não demos nada em troca. Foi-nos tudo doado por amor; vida, Palavra, salvação. Não vem de vós, diz o texto de Efésios, é dom de Deus. Não vem dos homens para que ninguém se glorie[5].

Em Deus podemos viver vida santa e reta, em total dedicação ao seu reino e devoção à sua glória. Nesse propósito de vida encontramos satisfação e contentamento, pois n’Ele podemos todas as coisas, inclusive passarmos pelas piores condições de existência[6]. Quando o sentido da vida descansa em tudo aquilo que Deus doou, vivemos contentes porque não olhamos circunstâncias nem situações fugazes. Mesmo que vantajosas; não me guio por vista dizia a canção. Grato a Deus pelas promessas que nos orientam a uma relação íntima com Ele, sabemos que podemos dar sem medo; seu cuidado nos sustenta e seu amor não falha. Fiel é Deus, em quem não há sombra de variação[7]. Nosso trabalho não é vão no Senhor[8].

Portanto, a doação é a forma mais contundente e inegável de nos assemelharmos a Deus. Ao doarmos replicamos a atitude divina de constante doação em amor. E se o propósito da vida é chegar à sua imagem e semelhança, a doação é o grande sentido de nossas vidas. Deus é doador, e importa que os verdadeiros adoradores vivam em espírito de doação.


Veja também o artigo A vida pode ter sentido; 



[1] Salmos 86:15 e 5
[2] João 10:10
[3] 1 João 4:19
[4] João 3:16
[5] Efésios 2:8-9
[6] Filipenses 4:12-13
[7] Tiago 1:16-17
[8] 1 Coríntios 15:58

sábado, 10 de setembro de 2016

Eu, Tio Patinhas e o dízimo


Por Jânsen Leiros Jr.


"8 Pode um ser humano roubar algo de Deus? No entanto estais me roubando! E ainda ousam questionar: ‘Como é que te roubamos?’ Ora, nos dízimos e nas ofertas! 9 Estais debaixo de grande maldição, porquanto me roubais; a nação toda está me roubando. 10 Trazei, portanto, todos os dízimos ao depósito do Templo, a fim de haja alimento em minha Casa, e provai-me nisto”, assegura o SENHOR dos Exércitos, “e comprovai com vossos próprios olhos se não abrirei as comportas do céu, e se não derramarei sobre vós tantas bênçãos, que nem conseguireis guardá-las todas. 11 Também impedirei que pragas devorem as vossas colheitas, e as videiras nos campos não perderão o seu fruto!”, promete Yahweh dos Exércitos. 12 “E todas as nações vos chamarão ‘âshar, bem-aventurados; porque a vossa terra será maravilhosa!”, promete o SENHOR dos Exércitos.
Malaquias 3:8-12 - KJA

Se tem um assunto polêmico e extremamente controverso em nosso meio, é o que trata de dinheiro. Toda vez que lideranças tocam no assunto, ou toda vez que pastores conclamam suas assistências a entregarem seus dízimos e suas ofertas, há em grande parte da plateia, ou mesmo entre os que assistem aos cultos pela TV ou pela internet, um enorme e incômodo desconforto.

Essa polêmica varia em grau conforme o perfil e origem da plateia, mas sempre é polêmica. Há muitos que encobrem suas posições contrárias, e outros que, por medo da avaliação de terceiros, agem conforme a maioria e seguem o fluxo da manada que vai para lá e para cá, muitas vezes sem qualquer sintoma genuíno de aceitação. Já que é para fazer, façamos.

Talvez, por essa razão, me chovam perguntas sobre dízimo e sua pertinência, sobre ofertas e sua necessidade no mundo pós Novo Testamento. Sempre me deparo com gente querendo legitimar sua vontade de reter consigo, o que se vê obrigado a dar. E por isso tentam encontrar, desesperadamente, alguém que lhes indique um caminho para a negação. Porém, mais do que um presumido contexto neotestamentário, o que mais provoca a inquietação com esse assunto está muito mais afeto à ligação que cada indivíduo desenvolve com o dinheiro em seu íntimo.

Num mundo em que tudo é relativo, obrigações e costumes seguem se alternando como legítimos e improcedente, atuais ou caducos, gerando sempre questionamentos sobre aplicabilidades e usos. E com o assunto dinheiro na igreja não poderia ser diferente. Afinal de contas, perguntou um leitor essa semana: o dízimo é ou não uma obrigação?

Por um momento, e para evitar o embate desde o primeiro parágrafo da resposta, vamos deixar temporariamente a palavra obrigação de lado e vamos tecer comentários sobre uma ótica alternativa; porém, bastante interessante, acredito. Sim, porque se tem uma coisa que no reino de Deus parece ter caído em desuso é a obrigação como ato aparente de cumprimento a um rito; esse povo honra-me com seus lábios, mas seu coração está longe de mim. No reino de Deus há um abandono ao que é aparente, e uma extrema valorização do que é essencial. O conhecido Sermão da Montanha traduz isso maravilhosamente bem.

Sendo assim, prefiro encarar o dízimo como um ato de adoração e desafio de fé, como desafiado foi o povo de Israel na passagem de Malaquias acima. Dízimo é adoração porque é desprendimento. Sou eu dizendo para mim mesmo que posso entregar o que recebi, porque por ação e cuidado de Deus haverá sustento, ainda que a princípio tal parcela pudesse fazer falta em meu orçamento doméstico. E o tamanho dessa entrega varia conforme o orçamento, porque muito ou pouco, a décima parte de alguma coisa será sempre a décima parte dessa mesma coisa. Assim, aquele que é fiel no que é pouco também o será no que for muito. Quando dizimista, ninguém o é mais ou menos do que ninguém. Deus não faz acepção de pessoas. Todo dizimista é igual.

A literatura infanto-juvenil nos empresta um personagem ideal para o debate sobre dinheiro: Tio Patinhas. Amante do dinheiro, ele é a imagem do avarento que só acredita no poder do dinheiro para a movimentação e validação de tudo na vida. E por pensar assim, ele se torna um acumulador contumaz, crendo que quanto mais dinheiro retiver, maiores serão suas chances e possibilidades de ter o que pretende. Dar ou doar, são palavras abomináveis para qualquer avarento acumulador.

Quando entregamos o dízimo, não cumprimos uma obrigação tão somente. Damos um passo de fé, crendo que nosso sustento e a nossa vida cotidiana não dependem da décima parte do que ganho, porque quem me supre a vida pode muito mais do que essa décima parte. Está aí implícito um belo e delicioso exercício de fé. Ora, se acreditamos em milagres e curas, se cremos em salvação pela graça, onde eu nada faço por merecê-la, como não creio que Deus me sustentará ainda que com dez por cento menos na minha renda? Será que por ser o bolso a parte mais sensível do corpo humano é que pensamos assim?

Dízimo, assim, é adoração. É honra a Deus em exercício de fé. É a superação íntima de se crer no que se tem, para crer em quem nos tem. Dízimo é entrega e rendição. Porque tudo com o que mais nos importa na vida, quase sempre está ligado àquilo com o que mais gastamos tempo e dinheiro. Por isso dízimo precisa ser prazer e alegria. Aliás, Deus ama o que dá com alegria. Deus ama um coração doador.

Quando colocamos o dízimo como obrigação, colocamos nele um peso de culpa e medo. E o medo não é perfeito em amor. Dízimo é privilégio de quem devolve a Deus por exercício de gratidão, parte de tudo aquilo que Deus já nos deu. Dízimo, portanto, não é barganha. Eu não dou para poder receber. Eu apenas devolvo por fé parte daquilo que já recebi. Dízimo é testemunho de bênção. Se Deus é doador, importa que seus adoradores o adorem doando e doando-se.
                     
Existe sim um mistério nesse processo de doação, de entrega, e de obediência em fé. Quanto mais me entrego e me doo, mais recebo para mais doar e me entregar. É como um canal de fluxo de enchente e vazante, que se alternam ao sabor da vontade daquele que é o dono de todas as coisas. Quanto mais doamos mais parecidos com Deus ficamos, porque Ele é o doador por excelência. Fez isso com a vida, repetiu doando-se na salvação, e seguirá doando vida na ressurreição e pela eternidade afora. Ele dá sem nada pedir em troca. Há, sim, quem não queira receber. Mas ninguém precisa fazer nada para receber o que já está dado. Com Deus não há barganha. Ele não vende nem troca; dá!

O dízimo é um prazer.


Powered By Blogger