Provérbios - Lição XXI


Provérbios 11:1-31 - JFA


"1 A balança enganosa é abominação para o Senhor; mas o peso justo é o seu prazer.
2 Quando vem a soberba, então vem a desonra; mas com os humildes está a sabedoria.  
3 A integridade dos retos os guia; porém a perversidade dos desleais os destrói.  
4 De nada aproveitam as riquezas no dia da ira; porém a justiça livra da morte.  
5 A justiça dos perfeitos endireita o seu caminho; mas o ímpio cai pela sua impiedade.  
6 A justiça dos retos os livra; mas os traiçoeiros são apanhados nas, suas próprias cobiças.  
7 Morrendo o ímpio, perece a sua esperança; e a expectativa da iniqüidade.  
8 O justo é libertado da angústia; e o ímpio fica em seu lugar.  
9 O hipócrita com a boca arruína o seu próximo; mas os justos são libertados pelo conhecimento.  
10 Quando os justos prosperam, exulta a cidade; e quando perecem os ímpios, há júbilo.  
11 Pela bênção dos retos se exalta a cidade; mas pela boca dos ímpios é derrubada.  
12 Quem despreza o seu próximo é falto de senso; mas o homem de entendimento se cala.  
13 O que anda mexericando revela segredos; mas o fiel de espírito encobre o negócio.  
14 Quando não há sábia direção, o povo cai; mas na multidão de conselheiros há segurança.  
15 Decerto sofrerá prejuízo aquele que fica por fiador do estranho; mas o que aborrece a fiança estará seguro.  
16 A mulher aprazível obtém honra, e os homens violentos obtêm riquezas.  
17 O homem bondoso faz bem à sua, própria alma; mas o cruel faz mal a si mesmo.  
18 O ímpio recebe um salário ilusório; mas o que semeia justiça recebe galardão seguro.  
19 Quem é fiel na retidão encaminha, para a vida, e aquele que segue o mal encontra a morte.  
20 Abominação para o Senhor são os perversos de coração; mas os que são perfeitos em seu caminho são o seu deleite.  
21 Decerto o homem mau não ficará sem castigo; porém a descendência dos justos será livre.  
22 Como jóia de ouro em focinho de porca, assim é a mulher formosa que se aparta da discrição.  
23 O desejo dos justos é somente o bem; porém a expectativa dos ímpios é a ira.  
24 Um dá liberalmente, e se torna mais rico; outro retém mais do que é justo, e se empobrece.  
25 A alma generosa prosperará, e o que regar também será regado.  
26 Ao que retém o trigo o povo o amaldiçoa; mas bênção haverá sobre a cabeça do que o vende.  
27 O que busca diligentemente o bem, busca favor; mas ao que procura o mal, este lhe sobrevirá.  
28 Aquele que confia nas suas riquezas, cairá; mas os justos reverdecerão como a folhagem.  
29 O que perturba a sua casa herdará o vento; e o insensato será servo do entendido de coração.  
30 O fruto do justo é árvore de vida; e o que ganha almas sábio é.  
31 Eis que o justo é castigado na terra; quanto mais o ímpio e o pecador!  

Seguimos com a novidade das exposições curtas e pragmáticas, iniciadas no capítulo 10. Como falamos na última lição, não devemos nos deixar induzir pelo aparente isolamento das sentenças, como se não fizessem parte de uma apresentação mais ampla e abrangente. Na verdade, o sábio se mantém na confrontação de duas naturezas de atitude: injusta e perversa, contra a que é justa e bondosa. Ele segue desenvolvendo o texto do livro, no antagonismo das manifestações e resultados a que levam tais atitudes.

Esses provérbios, portanto, tanto podem ser utilizados efetivamente isolados em citações dirigidas a fatos específicos, como trabalhados no conjunto de seus contextos mais amplos, onde as peculiaridades de cada postura moral humana, será evidenciada em sua expressão mais cotidiana e real. Ambas as possibilidades se prestam maravilhosamente ao ensino e à orientação dos que buscam a sabedoria. Em razão disso, o sábio fará menção alternadamente das motivações e conseqüências, tanto da maldade quanto da bondade, evidenciando o sentido permanente do fruto da bondade, em comparação com o caráter provisório das aparentes vantagens da maldade. Como já havia feito no capítulo anterior.

A balança enganosa tipifica tanto as relações comerciais iníquas, onde a fraude pretende trazer lucro indevido ao seu fraudador, como também remete à perversidade do julgamento injusto, onde o desfavorecido é ainda mais espoliado pelo julgamento tendencioso, de quem busca favorecimento do beneficiado pelo veredito viciado. Tratar quem quer que seja injustamente, feria e fere o ensinamento de amar ao próximo como a nós mesmos[1]. A balança enganosa é condenada tanto na lei judaica[2] quanto nos profetas[3], sendo uma atitude perversa, cruel e abominável, o que significa que causa desconforto e repulsa, como um estômago revirado.

Na verdade a balança é símbolo universal de medida, e está ligada ideologicamente ao conceito de justiça. Toda vez que uma balança é utilizada como símbolo, há uma mensagem de equilíbrio entre pesos, idéias, possibilidades, demandas e pleitos. O que ela nos empresta cognitivamente, é uma certa tranqüilidade de que tudo que for justo acontecerá, diante de sua capacidade de identificar aquilo que está injusto, tornando justo. É a esperança na justiça. Porém as fraudes em pesos e medidas, em critérios de avaliação do direito, é condenado, ainda mais porque fere essa esperança. A esperança da gente que recorre a quem deveria, no mínimo, servir de socorro ao injustiçado e desvalido. Essas fraudes voltarão a servir de tema mais à frente, aqui mesmo no Baú de Provérbios.[4]

Embora alguns comentaristas realizem um belíssimo trabalho, detalhando cada uma das frases ou pequenos conjuntos de frases, escandindo-lhes cirurgicamente os significados, prefiro ler o texto como uma obra ampla e aberta, no sentido de que seus aforismos podem na verdade pertencer a um grande novelo que se desfia frase a frase, falando se uma só condição com muitas expressões.


Como por exemplo a passagem do primeiro versículo para o restante do capítulo. Iniciando pela balança enganosa, que se destaca muito mais como atitude do que como objeto, o sábio apresenta tal atitude como expressão de um comportamento reprovável, que adiante se desvela em outras expressões igualmente danosas, injustas e cruéis. Estou falando da soberba.

Quando se chega a determinado patamar da soberba, tudo gira em torno do próprio umbigo; o mundo, as pessoas, suas próprias necessidades, e aquilo que se pretende ter ou alcançar. Nesse caminho, nada mais tem importância, ou nada mais tem importância maior ou mais urgente que as próprias demandas. Retidão, justiça, integridade e compadecimento, são virtudes abandonadas no caminho da conquista dos próprios interesses. Pelo que se quer e almeja, o soberbo é capaz de tudo, a começar por uma balança enganosa, que lhe garanta recursos extorsivos, riquezas ilegítimas, além de boa fama, mesmo que comprada. A fraude é o caminho mais curto entre seu desejo e a conquista.

Mentiras, injúrias e maldades, serão atitudes corriqueiras no caminho do que anseia por riquezas, e reputação. O mundo precisará e deverá funcionar condicionados às suas vontades mais íntimas. Pequenos resultados imediatos, acabarão por dar a falsa sensação de que poses e bens servirão de segurança para uma vida boa e uma velhice tranqüila, independente de sua origem e do preço pago por muitos, para que tudo fosse alcançado a contento. Mas aquele que segue o mal, encontra a morte.

Há porém, entre tantos provérbios importantes e contundentes nesse capítulo, um que me impressiona demais; o versículo 31. Ele revela uma questão demasiadamente debatida, principalmente por quem busca sofregamente encontrar motivos para não crer em Deus, ou deixar de fazer o que é reto, crendo que um pouco de malícia lhe fará prosperar; o sofrimento dos justos e seu castigo. Ora, como pode o justo ser castigado? Que mundo é esse e que Deus é esse que permite o sofrimento de um justo. Questões como essas vêem à tona, principalmente quando de tragédias de grandes proporções, ou quem casos isolados em que  morrem pessoas sabidamente justas, ou pelo menos assim percebidas pela sociedade. - De que adiantou ser tão correto? Pergunta quem está louco para fazer o que não é correto.

Porém o texto aqui não se pretende explicar isso. Na verdade ele parte dessa constatação insofismável, como se ela não fosse relevante, e vai adiante. Se o justo, que é justo, recebe castigo, quanto mais será castigado o ímpio, o perverso, e o iníquo. Isso ele ressalta no final, exatamente porque o sábio passa todo o capítulo dizendo que não haverá boa recompensa àquele que age perversamente. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça. A riqueza não lhe poderá garantir ou assegurar nada. Seu conforto é passageiro. Seus bens se desfarão. Sua angústia será grande, e seu castigo inexorável. De nada valerá invejar o mal; ele não reterá o bem. Só o fruto do justo é árvore da vida.



[1] Levítico 19:18
[2] Levítico 19:35 e 36
[3]  Miquéias 6:10 e 11
[4] Provérbios 16:11; 20:10,23

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