Afinal, o que é teologia?




Falamos anteriormente sobre os pilares para um labor teológico, argumentando que tal exercício requer alguma metodologia e uma atitude por parte de seu estudioso, que lhe garanta condições e circunstâncias favoráveis para um trabalho honesto, desde as suas pretensões até a lisura de seus propósitos.

Mas a que se pretende o labor teológico? Aliás, o que é exatamente a teologia e quais são seus objetivos? Ela é uma ciência? E que tipo de ciência seria? O fascínio que o conhecimento de Deus exerce sobre grande parte da população mundial, nos estimula a empreender algum aprofundamento nessa direção, buscando ajudar com alguma compreensão que se apresente, se não verdadeira, ao menos minimamente pertinente. Quem sabe se, como que tateando não lhe possamos encontrar?


“Deus assim procedeu para que a humanidade o buscasse e provavelmente, como que tateando, o pudesse encontrar, ainda que, de fato, não esteja distante de cada um de nós;”
Atos 17:27 - KJA

1.  Mas afinal, o que é mesmo teologia?

Qualquer dicionário teológico-filosófico é capaz de nos elucidar essa questão, desde que, ainda que por mínimo esforço acadêmico, ocupe-se na tarefa de esclarecer variações sobre o tema, que vão desde o significado do termo e sua origem, até as diferentes atribuições e contextos históricos pelos quais passeou, influenciando e sendo influenciado.

Oriunda do grego e sendo assim constituída, TEO+LOGIA (théos=Deus; lógos=estudo, discurso ou raciocínio), a teologia pode ser classicamente entendida como o estudo do conjunto de conhecimentos relativos a Deus, a seus atributos, e à sua relação com a humanidade. Simples, mas ao mesmo tempo bastante elaborado.

Contrariando a lógica comum da vaidade humana, em que habitualmente se atribui glamour e importância essencial àquilo a que se aplica com dedicação, gosto de entender a teologia como o simples ato natural e quase intuitivo de pensar em Deus, qualquer que seja o entendimento primordial que cada indivíduo tenha sobre quem ou o que seja Deus.

E por que defendo isso? Porque independente da conclusão a que a investigação teológica empreendida por quem quer que seja chegue, o objeto dessa mesma investigação, no caso Deus, permanece sendo quem é, imutável e absoluto; invariável em sua essência e dinâmico em sua revelação, dando-se e mantendo-se disponível ao conhecimento. E tal conhecimento pode advir tanto pelo esforço elucubrativo do estudioso, quanto por uma aproximação intuitiva e empírica. Deus não se esconde de ninguém, assim como não faz qualquer acepção de pessoas.

Assim, qualquer que seja a conclusão a que o pensamento sobre Deus venha a elaborar como idéia final, o simples pensar sobre Deus e em sua direção, é por assim dizer teologia, uma vez que Deus foi quem exerceu atração da atenção e do esforço filosófico do pensador, seja como tema de interesse, objeto de curiosidade, ou mesmo como agente provocador da inquietação humana pelo Deus conosco, pelo relacionamento efetivo e perene.

Em Introdução à Teologia Evangélica, Karl Barth faz a seguinte explanação inicial:


“O termo "teologia" parece indicar que ela, por ser uma ciência particular (e muito particular!) visaria perceber, compreender e tematizar Deus.
Mas ao termo "Deus" podem ser atribuídos os mais variados sentidos. Assim, também há muitas teologias diferentes. Não existe ser humano que, de maneira consciente, inconsciente ou subconsciente, não tenha seu Deus ou seus deuses como objeto de seu desejo e confiança mais elevados, como base de sua vinculação e compromisso mais profundos. Nesse sentido, qualquer ser humano é teólogo. E não há nem religião, nem filosofia, nem cosmovisão que - quer seja profunda, quer superficial - não se relacione com alguma divindade, interpretada e circunscrita desta ou daquela forma, e que, portanto, não seja teologia. Isto se aplica..." "também a situações nas quais se nega a existência dessa divindade; nestes casos o que acontece em termos práticos é que exatamente a dignidade e função da divindade são transferidas à "natureza", a um impulso vital inconsciente e amorfo, à "razão", ao progresso, ao ser humano de pensamento e ação progressista, ou, quiçá, a um "nada" redentor considerado destino último do ser humano. Também tais ideologias aparentemente "ateias" são teologia.”
op; pág.9, 9a. edição revisada -2007;EST, Editora Sinodal

Esse entendimento sobre o que vem a ser teologia, amplia consideravelmente a gama de seus agentes realizadores, fazendo com que o exercício teológico se torne mais popular e perceptível, saltando para além dos muros acadêmicos das universidades e seminários, onde convencionou-se aprisionar o conhecimento teológico, exclusivamente ensinado e comunicado por seus oficiais. Como diz Israel Belo no prefácio dos volumes da coleção Teologia ao Alcance de Todos, da MK Editora, quando discorre sobre a necessidade de apresentarmos interação pertinente na conjuntura em que estamos inseridos, apresentando respostas "claras e precisas" aos seus questionamentos provocados pelo desenvolvimento científico-tecnológico. "Essa é uma tarefa para a teologia. Que não pode ser feita por poucos para quase nenhuns.".

Entender a teologia como todo e qualquer pensamento sobre Deus, não diminui em nada sua importância acadêmica, e muito menos impede que continuemos a considerá-la como ciência. Muito pelo contrário. À medida que o exercício teológico se estende aos diversos núcleos e modelos de convívio social, mais amplas se tornam suas possibilidades, enriquecendo o labor teológico de material elucubrativo, ao mesmo tempo que passa a demandar um modelo que lhe oriente a tarefa responsável, bem como elabora inevitavelmente conceitos preliminares que sustentarão preferencialmente o empenho honesto no conhecimento de Deus.

Semelhante aos demais campos do conhecimento humano, sempre haverá diferentes entendimentos, abordagens, suspeitas e conclusões. Assim como temos engenheiros, técnicos em edificações, mestres de obras e pedreiros, todos lidando com construções de formas e tamanhos variados, a teologia continuará a produzir seus especialistas eruditos, cientistas-estudiosos, sacerdotes e curiosos, cada qual na medida de sua dedicação e vocação, todos igualmente envolvidos pela mesma motivação primordial; conhecer Deus.

Por fim, a vantagem de se ampliar a abrangência do labor teológico, é que, de sementes aleatoriamente espalhadas por pássaros, rios, vento e outros animais, surgem as grandes e importantes florestas. A desvantagem? É que teremos de dar duro para cuidar de sua inevitável variedade de vida, na totalidade de sua biodiversidade.

Que Deus nos inspire sempre a incessantemente pensarmos n'Ele.

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