Mostrando postagens com marcador liberdade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador liberdade. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 24 de março de 2025

Bereshit Bara - o eterno amor criador de Deus

Por Jânsen Leiros Jr. 

Bereshit bara Elohim

  • Hebraico: בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים
  • Grego (Septuaginta): ν ρχ ποίησεν Θες
  • Inglês: In the beginning, God created
  • Português (versão RA): No princípio, criou Deus 

Na teologia cristã, a primeira palavra do Gênesis, Bereshit (בְָרֶאִשִׁיתְ), carrega um significado profundo e essencial para a compreensão da criação. Traduzida geralmente como "No princípio", Bereshit não marca um ponto temporal específico, mas, em vez disso, indica uma intencionalidade divina: um desejo que brota do amor pleno de Deus em Sua eternidade, onde não há noção de tempo, mas um querer divino. Deus, sendo eterno, não é limitado pelo tempo. Assim, o que se revela aqui não é apenas um "início", mas uma vontade divina que se cumpre imediatamente — não por mágica ou sem processos, mas porque nada pode impedir o querer de Deus de se realizar. "Querendo Eu, quem impedirá?" (Isaías 43:13). Não há distância entre o querer e a realização, mas isso não significa ausência de tempo ou processo; ao contrário, Deus age no tempo e em conformidade com ele, mas Sua vontade transcende o tempo, porque Ele é Senhor do tempo.

Santo Tomás de Aquino define Deus como ipsum esse subsistens (o próprio Ser subsistente), enfatizando que Ele é a fonte última e razão de toda existência. A doutrina da creatio ex nihilo (criação a partir do nada) ensina que Deus não utilizou uma matéria pré-existente, mas trouxe a realidade à existência pelo poder de Sua Palavra: "Bereshit bara Elohim..." ("No princípio criou Deus...") — Gênesis 1:1.

No entanto, a questão que se coloca é: se Deus criou todas as coisas do nada, como se dá essa criação? E mais importante, qual a motivação divina para tal ato? A teologia cristã propõe que a criação é, antes de tudo, um ato de amor. Deus, sendo amor em Sua essência (1 João 4:8), cria não por necessidade, mas por um transbordamento de Sua plenitude. Nesse contexto, Bereshit não marca apenas um "início", mas revela um movimento de doação. Deus, que nada precisa, escolhe criar para compartilhar com a criatura o Seu amor.

Ao deslocarmos a compreensão para o "querer" de Deus, entendemos que a criação não está subordinada a um processo temporal ou a uma causalidade física, mas sim a uma vontade divina plena. Em Deus, não há intervalo entre o querer e sua concretização, porque Ele não está limitado pela cronologia. No entanto, isso não significa uma criação instantânea sem processos ou sem o prazer de Deus na construção do momento certo. Deus se alegra nos processos que Ele mesmo institui, respeitando as condições adequadas e o instante plenamente oportuno para Sua ação. A criação, portanto, é um ato de liberdade plena, mas também uma ação ordenada, que respeita as condições estabelecidas por Deus, sem que isso implique em limitações para Ele. A criação não é fruto do acaso, nem de uma sequência de causas físicas ou químicas. O que importa não é o "como" ou o "quando" da criação, mas o "querer" divino, que se realiza sempre no momento ideal, segundo o Seu plano perfeito.

Essa compreensão amplia a visão teológica do relato de Gênesis. O texto mosaico não tem a preocupação de descrever o mecanismo da criação, mas sim sua motivação. A criação não é apenas um evento cósmico; é um ato de amor, um gesto de doação plena do Criador. Deus não apenas chama a existência, mas chama para a comunhão. Seu amor transborda na criação como um convite para a criatura participar de Sua plenitude. Esse padrão de doação se repete ao longo da revelação bíblica: Deus se entrega na criação, na aliança com Seu povo e, finalmente, na encarnação de Cristo, que é a suprema expressão do amor divino. "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito..." (João 3:16). A criação, portanto, não é um fim em si mesma, mas o início de uma história de amor, que culmina na redenção e na comunhão eterna entre Criador e criatura.

Bara: A Criação como Ato de Doação Divina

Se Bereshit nos introduz ao princípio absoluto, Bara nos revela a essência do ato criador de Deus. Diferente do verbo hebraico que poderia ser traduzido como "fazer" ou "moldar", Bara é usado exclusivamente para Deus e significa "trazer à existência" algo que antes não existia. Isso nos leva a uma questão fundamental: de onde vem tudo o que existe?

A resposta, dentro da compreensão do amor divino, está na própria essência de Deus. Ele não apenas decide criar; Ele se doa para que a criação exista. Isso significa que não há uma matéria preexistente fora de Deus da qual o universo pudesse ser formado. O "nada" absoluto, como imaginamos, não poderia coexistir com Deus, pois Ele é o próprio ser absoluto, e nada poderia existir além d'Ele antes do ato criador. Assim, quando Deus cria, Ele não usa algo externo a Ele; Ele concede ser àquilo que antes não existia, e o faz como um ato de amor.

Essa compreensão nos afasta do panteísmo, que dilui Deus na criação, e nos aproxima de uma visão panenteísta ajustada: tudo vem de Deus, mas Deus não é tudo. A criação é uma extensão do Seu amor, não uma redução de Sua essência. Ele não se esgota ao criar; ao contrário, Ele manifesta sua plenitude ao doar-se.

Esse princípio se torna ainda mais claro quando olhamos para a progressão da criação. Deus não apenas cria seres inanimados, mas também doa autonomia às suas criaturas: "árvores com frutos, e dentro dos frutos suas sementes" (Gn 1:11), um ciclo perpétuo de vida que não prescinde da fonte, mas também não é um prolongamento absoluto dela. O mesmo ocorre com o ser humano, dotado da capacidade de gerar vida, não como um criador absoluto, mas como um participante desse amor criador.

O ato criador de Deus, então, não é um mero gesto de poder, mas um autoesvaziamento amoroso. Se a criação já carrega em si um vislumbre desse amor doador, a encarnação de Cristo será a expressão máxima desse princípio. Aquele que "trouxe à existência" o universo através de Bara também se "esvazia" para restaurá-lo (Fp 2:7).

Assim, a criação e a redenção se tornam um único ato de amor: Deus que doa ser às criaturas para que elas existam, e Deus que se doa a Si mesmo para que elas voltem a Ele. O amor não poderia ser um mandamento imposto; ele é uma resposta natural ao amor que primeiro nos criou.

Dessa forma, Bara não é apenas um verbo da criação; é a expressão da própria natureza de Deus: Aquele que, por amor, doa-se para que tudo o mais exista.

A Criação Consumada no Amor: O Propósito Final de Deus

Portante, se em Bereshit compreendemos a intencionalidade divina e em Bara entendemos a criação como um ato de doação total de Deus, então a plenitude dessa obra encontra sua expressão final na cruz, no momento em que Cristo declara: "Está consumado" (João 19:30).

Não se trata de dizer que a criação se encerrou ali no sentido cronológico, mas sim que ali se revelou sua finalidade: o amor doador de Deus encontrou sua realização suprema na entrega de Cristo. O mesmo Deus que trouxe todas as coisas à existência por um ato de amor, agora se doa plenamente para redimir sua criação, restaurando nela a relação perdida pelo pecado.

Ao longo da história bíblica, vemos um movimento progressivo no qual Deus não apenas cria, mas se envolve, sustenta e direciona sua criação para um ponto de culminância. Em Cristo, Deus não apenas "fala" com sua criação, mas entra nela, assumindo sua própria substância para resgatar aqueles que formou. Esse movimento não contradiz Bara, mas o exalta: a criação começa no amor doador de Deus e se consuma quando esse amor atinge sua expressão máxima na redenção.

A ascensão de Cristo e a descida do Espírito Santo completam esse ciclo, pois, assim como Deus deu autonomia à criação no princípio, agora Ele concede à humanidade a possibilidade de corresponder livremente ao Seu amor. O Espírito não apenas confirma a obra de Cristo, mas também faz dela uma realidade interior na vida dos que creem, conduzindo a criação não apenas ao seu começo, mas ao seu propósito final.

Dessa forma, a frase "Está consumado" ressoa em harmonia com "No princípio criou Deus". O ato de criação e o ato de redenção não são distintos em essência, mas sim manifestações do mesmo amor eterno que é a própria essência de Deus. Tudo foi criado para que o amor divino se derramasse, e tudo se consumou para que esse amor fosse plenamente recebido.

Assim, ao refletirmos sobre a criação, vemos o amor como a força motriz e fundamental que sustenta tudo. E é justamente esse amor, ao longo da história, que nos convida a uma resposta contínua, até o momento em que toda a criação se unirá novamente ao Criador.

Criação e Doação: Deus como Fonte e Matéria da Existência

O conceito de criação remete a reflexões filosóficas antigas, como o Apeiron de Anaximandro, que representa um princípio ilimitado e primordial. No entanto, ao contrário da filosofia grega, a visão bíblica revela um Criador pessoal, cuja ação é intencional e amorosa.
Atos 17:28 declara: "Porque nele vivemos, nos movemos e existimos". Isso implica que Deus não é apenas a origem de tudo, mas também Aquele que continuamente sustenta todas as coisas. Contudo, a tradição cristã rejeita o panteísmo (a ideia de que tudo é Deus). A criação é distinta do Criador, embora dependa d'Ele para continuar existindo.
Orígenes e Gregório de Nissa propuseram que a criação é uma manifestação dos atributos divinos, sem que Deus perca Sua transcendência. O Logos (João 1:1) é a ponte entre Deus e o mundo criado, a expressão divina que permite a existência e a redenção. Nesse sentido, Bereshit não indica apenas um começo temporal, mas um princípio sustentador e permanente, um ato contínuo de amor e doação.

Deus se Doando na Criação: Um Amor Kenótico

Se a criação é um ato de amor, então Deus, ao criar, está se doando. Esse princípio se encontra na base do conceito de kenosis (autoesvaziamento), que atinge seu clímax na Encarnação de Cristo (Filipenses 2:7). Deus, que nada necessita, escolhe dar-Se ao mundo, sustentá-lo e, mais tarde, entrar nele na pessoa de Jesus Cristo.
Esse amor desapegado também encontra um paralelo no conceito judeu do Tzimtzum, da tradição cabalística: Deus, para criar, "contrai" Sua presença infinita, permitindo que algo além d'Ele venha à existência. Embora essa não seja uma doutrina cristã, ela oferece um paralelo interessante para entender a kenosis divina: um Deus que, por amor, "abre espaço" para que outros seres possam existir e escolher livremente amá-Lo.

O Amor que Sustenta e Convida

Deus não apenas cria e abandona a criação; Ele a sustenta continuamente (Colossenses 1:16-17). Esse sustento não é um mero mecanismo impessoal, mas um ato de relação e compromisso. O amor divino não é coercitivo, mas convidativo. Deus doa a existência, a liberdade e a graça, chamando o ser humano a corresponder a esse amor.
A parábola do filho pródigo (Lucas 15:11-32) ilustra essa relação. O pai concede ao filho sua parte da herança, permitindo-lhe sair e experimentar as consequências de suas escolhas. No entanto, quando o filho retorna, o pai o recebe com amor incondicional. Assim é Deus: um Criador que dá a existência, respeita a liberdade de Suas criaturas, mas permanece pronto a acolhê-las de volta em comunhão.

Conclusão: O Amor como Princípio e Fim

A criação é a primeira grande expressão do amor de Deus. Bereshit revela um princípio não apenas de tempo, mas de intencionalidade amorosa. Deus não apenas criou, mas sustenta, guia e chama Sua criação ao retorno para Si.
Se a criação nasce do amor e é sustentada pelo amor, então o destino final também é o amor: a plena comunhão com Deus. Como afirma Agostinho: "Nos criaste para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti" (Confissões, I,1). Se fomos criados por amor e para o amor, só nele encontraremos nossa plenitude. Bereshit não é apenas um princípio, mas um convite eterno ao relacionamento com o Criador.

Com isso, encerramos esta primeira parte sobre a criação. Agora, podemos avançar para a compreensão dos dias da criação dentro desta mesma linha de raciocínio, aprofundando como cada momento do gênese reflete esse movimento doador e redentor de Deus.

 

 

 

 

 


domingo, 2 de outubro de 2016

Caffé com Teologia - Graça, liberdade extrema


=> Deus não desiste de você. Será?



"Não precisamos ir longe na análise da Bíblia para entendermos que a ideia de que Deus não pode desistir de nós é uma verdadeira falácia. Facilmente podemos entender que o Senhor pode, sim, abandonar quem lhe despreza.
Quando passamos a acreditar que Deus não desiste de nós, nossa consciência pode, paulatinamente, ser induzida a acreditar que não corremos o risco de perder a salvação.
Sendo assim, abre-se, diante de nós, um leque abrangente de possibilidades de transgressão dos mandamentos divinos. "


Por Jânsen Leiros Jr.

Me perdoem decepcionar vocês, amigos, mas esse texto é uma tremenda demonstração de legalismo, e de um conveniente pensamento pragmático, muito pouco reflexivo, e de uma assustadora miopia quanto ao amor de Deus e sua contextualização bíblica. Ele se utiliza de um texto ambientado na dispensação da lei, e supõe que a punição à rejeição a Deus, limita o seu amor, ou impõe finitude à sua misericórdia. Além disso, tenta introduzir legalismo em ambiente de graça citando um texto em 1 Coríntios[1]. Legalistas adoram uma lei e um rigor a que eles mesmos não dão conta de seguir; judaizantes. Estou farto de gente se prestando ao papel de guardião da verdade, como se a conhecesse incondicionalmente e a detivesse.
                       
O Novo Testamento está repleto de demonstrações de que Deus não desiste de ninguém. E é claro que Ele teria liberdade soberana para isso, mas não o faz. As parábolas da dracma perdida, da ovelha perdida e do filho pródigo, encerram plena e perfeitamente esse traço do amor infinito e incansável de Deus; amor que não se impõe, mas está sempre de braços abertos a receber todo e qualquer arrependido, seja lá o momento em que tal arrependimento acontecer, ou depois de quantos arrependimentos ocorrer. Até setenta vezes sete, lembram-se? Não há limites para o amor, perdão e reconciliação.

Aqui alguém poderá me interpelar, sacando como pretenso argumento incontestável, o fato de que muita gente se diz arrependido, mas que tal arrependimento nem é genuíno, e assim vivem se "arrependendo" da boca para fora, achando que podem brincar com Deus. É claro que isso acontece aos milhões. Mas tal atitude humana não invalida a imutabilidade do amor de Deus. Se alguém pensa enganar Deus com atuações teatrais, sinto muito, Ele não se relaciona com personagens. Mas por outro lado, tal comportamento humano não provocará a finitude do amor de Deus, e muito menos provocar o seu cansaço em esperar por quem quer que seja. E é claro que, se mesmo esse contumaz mentiroso, encenador de arrependimento arrepender-se genuinamente, Deus que sonda os corações e enxerga até onde não podemos enxergar, poderá e irá perdoá-lo. Seu amor não tem fim; não pode negar-se a si mesmo. Deus é amor.
                       
Na contramão do que o autor tenta passar como verdade insofismável, de que se Deus não desistisse de nós, abriria brecha para uma vida de pecado contumaz, Paulo, em sua carta aos Romanos, afirma que uma vez livres do pecado, fomos feitos servos da justiça. Servos aqui não é escravo no sentido de subjugado, mas de serviçal, no sentido de quem vive a serviço da justiça de Deus. Ora, em sua primeira carta, o chamado apóstolo do amor, João, afirma que os filhos de Deus não vivem pecando. E a razão disso é simples; não temos prazer nisso, porque pelo poder do Espirito Santo que habita em nós, passamos a viver realizando, preferível e prazerosamente a vontade de Deus, perseguindo a santidade, e buscando sempre agradar o coração de Deus. E mais; nós temos a mente de Cristo.
                        
Há, na verdade, um perigoso hábito legalista diluído nessas afirmações; a de que precisamos criar certos terrorismos em nossa pregação, de modo a provocar a sensação de que não se pode brincar com Deus. É claro que não se brinca com Deus. E não só isso, mas tenho a certeza de que Ele conhece tais brincalhões. Mas isso não nos habilita a distorcer os atributos de seu amor, em favor de um discurso que tenta dar uma mãozinha a Deus, em sua presumida tarefa de admoestar as pessoas quanto aos rigores de sua lei, ou "limites" de sua paciência. Alguém considera imperfeito ou mesmo insuficiente o trabalho realizado pelo Espírito de Deus no convencimento do pecado, da justiça e do juízo? Ou não dizia Paulo que nem por força e nem por violência, mas pelo Espírito de Deus. Convencimento algum será maior ou mais genuíno, se dermos, por nossa conta, uma pitada de medo e terror.
              
O amor de Deus não desiste de ninguém. "Aquele que vem a mim, de maneira nenhuma o lançarei fora". Novamente é preciso lembrar que Deus sonda os corações. Ele conhece a sinceridade de todos os nossos atos; não se deixaria enganar por quem quer que fosse.
    
- Ah! Mas e se alguém se utilizar do infinito amor de Deus, e achar então que pode pecar à vontade, que depois é só se arrepender que estará tudo certo, perguntaria alguém. Ora, se alguém acha que pode fazer isso, primeiro, nunca conheceu Deus, seu amor ou mesmo a sua graça. Pois quem, sinceramente constrangido pelo amor de Deus e salvo por sua graça, pensaria aproveitar-se da graça para sua própria recreação? Outra vez, os filhos de Deus não vivem pecando. Não têm prazer no pecado. E segundo, ainda que alguém se pretenda a isso, ainda assim o amor de Deus não se tornaria finito, apenas para impedir que seja usurpado por algum espertalhão. Nesse caso ele não terá perdão, não porque o amor de Deus tem limite, mas porque não se arrependeu genuinamente; mas a Deus pertence sondar e julgar tal coração, e então conceder ou não seu perdão.

O que mais me assusta nisso tudo, é a imaginação de que os imutáveis atributos de Deus podem ser manipulados em suas essências, amplitudes ou aplicações, conforme suposta necessidade de tornar mais contundente a pregação do evangelho, ou mais firme e segura a realidade de que sem fé é impossível agradar a Deus. Ora, ao fazermos isso não estamos alterando o conteúdo bíblico? Não estamos distorcendo a Palavra para atender nossas conveniências, por mais probas e bem-intencionadas pudessem parecer? Deus não muda o que é, para atender nossa necessidade de fazê-lo parecer com nossos impulsos humanos, ou para adequar-se a nossos pressupostos rigores muito mais adequados e firmes; há quem pense que Deus, na graça, ficou bonzinho demais com o pecador. - Ah! Se eu fosse Deus. Ou ainda. - Ah! Se Deus fosse como eu. A pregação do medo não opera o poder de Deus.

Por último, ainda se poderia perguntar: Mas não pode alguém achar que, já que temos a graça, podemos errar? Ora, para pensar isso é preciso achar que a graça compactua com o pecado. Pior. Quem assim entende, imagina que a lei é mais eficaz para colocar a humanidade na linha. E se alguém então pensa assim, faz-se igual aos judaizantes tão combatidos pelo apóstolo Paulo, e não entendeu até hoje o evangelho. Porque "ouviste o que foi dito... Eu porém vos digo". No conhecido Sermão da Montanha, Jesus desconstruiu a ideia da lei formal, que tinha ênfase na aparência, e implantou a ideia de que o essencial era muito mais importante, sendo tão mais condenador do que o aparente; a incompreensão de Nietzsche.

Portanto, mesmo que a graça seja ainda mais profunda e reveladora do coração humano, ela é a expressão do amor ilimitado de Deus, que acolherá e perdoará todo aquele que genuinamente se arrepender. E se alguém não se arrepender legitimamente, desse amor e dessa graça não se tornará participante. Simples assim. Aliás, simples como tudo no reino de Deus. Mas nós estamos sempre achando que podemos dar um toque pessoal e melhorar o que Deus já fez. Aliás, querer ser igual a Deus em possibilidades e julgamentos, sempre nos colocou em graves apuros.




[1] 1 Coríntios 10:12

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Vai faltar bandeira



Por Jânsen Leiros Jr.


5 Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo, 6 não servindo somente à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus, 7 servindo de boa vontade como ao Senhor, e não como aos homens. 8 Sabendo que cada um, seja escravo, seja livre, receberá do Senhor todo bem que fizer.
Efésios 6:5-8 - JFA


22 Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo somente à vista como para agradar aos homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor. 23 E tudo quanto fizerdes, fazei-o de coração, como ao Senhor, e não aos homens, 24 sabendo que do Senhor recebereis como recompensa a herança; servi a Cristo, o Senhor. 25 Pois quem faz injustiça receberá a paga da injustiça que fez; e não há acepção de pessoas.
Colossenses 3:22-25 - JFA


9 Mas evita questões tolas, genealogias, contendas e debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs. 10 Ao homem faccioso, depois da primeira e segunda admoestação, evita-o, 11 sabendo que esse tal está pervertido, e vive pecando, e já por si mesmo está condenado.
Tito 3:9-11 - JFA


13 Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom procedimento as suas obras em mansidão de sabedoria. 14 Mas, se tendes amargo ciúme e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. 15 Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica. 16 Porque onde há ciúme e sentimento faccioso, aí há confusão e toda obra má. 17 Mas a sabedoria que vem do alto é, primeiramente, pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia. 18 Ora, o fruto da justiça semeia-se em paz para aqueles que promovem a paz..
Tiago 3:13-18 - JFA

As redes sociais continuam cumprindo um papel importantíssimo na sociedade, principalmente o de lançar na nossa cara a realidade de que continuamos lutando pelo que menos importa, fazendo de coisas menores e sem importância, bandeiras que hasteamos em nome de predileções pessoais, como se estivessem eivadas do que é certo, em contraste de bandeiras outras, defendidas por outros, que reputamos arrogantemente como erradas, ou na melhor das hipóteses impróprias. Um comportamento faccioso de origem; um outro lado de uma mesma moeda.

Falo da disputa insana e descabida de qual dos fatos deve obter maior consternação e solidariedade na mídia; o desastre de Mariana-MG, ou os atentados terroristas de Paris. Em uma corrida frenética e desmedida, diversas pessoas através de suas páginas nas redes sociais, disputaram a preferência de seus amigos e seguidores, crendo que a tragédia que defendiam, merecia chocar mais, condoer mais, trazer maior e mais amargo sofrimento que o outro, desfilando um corolário de motivos relacionados às pressas, mas sustentados em pura opção pessoal e simpatia.

Sim, por simpatia reafirmo. Porque qualquer pessoa minimamente isenta, percebe que tanto um fato quanto o outro, merece toda a atenção, preocupação, e reflexão de nossa parte. Por circunstâncias e razões diferentes, é verdade, mas impulsionadas por um mesmo motor; a temerária intervenção humana na causa, na execução e no desfecho de ambos.

Se por um lado o descaso, a falha de monitoramento ou de operação, provocou o desastre em Mariana-MG, por outro a intolerância religiosa de extremistas radicais, provocou uma das mais sanguinárias matanças urbanas dos últimos anos. Ora, tanto um fato quanto o outro originou-se da atitude humana, um pelo espírito sabotador, e o outro pelo espírito faccioso. Nos aprofundaremos nesses dois aspectos nas reflexões seguintes.

Temos diante de nós dois grandes dramas, cujas causas precisam ser efetivamente combatidas, e suas consequências dirimidas para o bem do futuro do planeta e das futuras gerações. Sim, porque do contrário, viveremos sobressaltados e inseguros, com medo das circunstâncias mais simples, e de momentos o mais improváveis para uma terrível e amarga experiência de risco de morte. Ou quem poderia imaginar que um rio de lama invadiria casas, ruas e cidades inteiras, matando pessoas, fauna e boa parte da flora das regiões por onde passou? E quem poderia imaginar que a consagrada noite parisiense, pudesse reservar momentos de pânico, terror e morte? Sempre nos chocamos diante do improvável, e nos indignamos perante o inaceitável. Ainda bem que é assim.

Ora, se toda vez que um drama se abater sobre uma região, cidade ou país, disputarmos qual delas necessita de maior visibilidade, solidariedade e consternação, estaremos nos concentrando no que menos importa; qual deles tem maior importância? Desse jeito faltará espaço para tantas bandeiras nas fotos de perfil. É preciso dar atenção ao socorro, à reconstrução da normalidade, e principalmente ao que possa impedir, em futuro próximo, que fatos como esses voltem a se repetir.


Mariana ou Paris, tanto faz. Nem uma nem outra, ou na verdade as duas. Tanto uma tragédia quanto a outra precisa receber de nós toda a atenção, empenho e solidariedade. As soluções variam, os planejadores divergem, mas em comum precisa existir a verdadeira e permanente vontade de ajudar além do que é possível, contribuindo no espaço de mundo à volta de cada um de nós, com atitudes que inspirem mudança de comportamento, tanto do sabotador, quanto do faccioso. Para que nem o descaso e nem o radicalismo sigam história a fora, fazendo vítimas e causando tristeza sobre tristeza, naqueles que com tantas dificuldades tentam encaminhar suas vidas cotidianas; as pessoas comuns.

domingo, 14 de junho de 2015

Unção; poder e capacitação



Por Jânsen Leiros Jr.


14 Então voltou Jesus para a Galiléia no poder do Espírito; e a sua fama correu por toda a circunvizinhança. 15 Ensinava nas sinagogas deles, e por todos era louvado. 16 Chegando a Nazaré, onde fora criado; entrou na sinagoga no dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler.17 Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías; e abrindo-o, achou o lugar em que estava escrito: 18 O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, 19 e para proclamar o ano aceitável do Senhor.20 E fechando o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele. 21 Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta escritura aos vossos ouvidos."
Lucas 4:14-21 - JFA;

No último texto, em que falamos do episódio de Pedro andando sobre as águas no Mar da Galiléia, comentamos que a convicção de Jesus para realizar seus feitos, vinha da ação do Espírito de Deus em sua vida, no cotidiano de seu ministério, durante o tempo em que viveu sobre a terra. Mas por que dissemos isso? Que fatores nos levam a identificar as realizações de Jesus, como dependentes da atuação do Espírito Santo em sua vida? No texto de hoje nos deteremos nesse aspecto de sua vida com maior atenção; Jesus, o ser humano perfeito, segundo a vontade de Deus.

O texto de Lucas é bastante contundente, e apresenta com excelência a convicção que Jesus tinha de quem era, e do que haveria de realizar no mundo; hoje se cumpriu esta escritura. Imaginem o quão corajoso foi Jesus, ao afirmar que ele próprio era o cumprimento daquela profecia, tendo os seus próprios feitos como sinal de seu messianismo.  Tendo somente Lucas a narra esse fato, não há muito como analisar historicamente o ocorrido, de modo a medir com precisão quanto tempo se passou entre o fim dos quarenta dias no deserto, e aquele sábado na sinagoga de Nazaré. Mas é patente que Jesus já havia realizado muitos milagres e acumulado feitos expressivos diante do povo, pois sua alusão ao texto de Isaias[1], relaciona tais sinais à profecia.

De onde vinha tamanha coragem e convicção? Sabidamente Jesus corria o risco de ser considerado blasfemo, e por blasfêmia condenado à morte. Ora ainda que tal destino já lhe fosse familiar, haveria um tempo para que isso ocorresse, tempo ainda não chegado naquele sábado. Vim proclamar o ano aceitável do Senhor. O novo tempo em que Deus dará resgate aos pobres, liberdade aos cativos, visão aos cegos, e o cancelamento das dívidas aos falidos espirituais[2]. Jesus não tinha qualquer dúvida de que a ele estava conferida a responsabilidade de cumprir as escrituras. Mas por quê?

No versículo 14, o evangelista diz que Jesus retornou dos quarenta dias no deserto, no poder do Espírito Santo - en tê dunamei, no grego - que trás a idéia de capacitado para realizar algo; autoridade para e poder para. Isso trás à tona a realidade de que, o que Jesus realizava em seu ministério, tanto os milagres quanto a autoridade com que proclamava as boas novas dos céus, o fazia por total e plena capacitação pelo Espírito Santo de Deus, que nele atuava plenamente, à medida que também ele, Jesus, era plenamente submisso à vontade de Deus, dada sua relação íntima e comprometida com o pai.

É importante ressaltar que Jesus não estava investido de todo esse poder realizador por ser Deus, condição à qual abdicou em favor da humanidade[3]. Não por isso, mas porque e exclusivamente, se submetia à condução do Espírito Santo de Deus. A submissão é um paradoxo do comportamento cristão. Quanto mais submisso, dedicado, fraco e dependente, maior a capacitação, o poder realizador, a força e convicção de caminhar conforme a vontade de Deus. Pois quando sou fraco, aí é que sou forte[4].

A narrativa do livro de Gênesis sobre o pecado original, apresenta um homem rebelando-se contra Deus e sua instrução. A desobediência é instrumental, é apenas a forma reveladora da atitude rebelada do homem; serei igualmente deus, conhecedor do bem e do mal. Não dependo mais de Deus. Era o que estava por trás da desobediência, influenciando-a e a determinando como inevitável. A humanidade decidiu livrar-se de Deus, e de sua dependência dele. Viver atendendo às próprias vontades e satisfazendo os próprios desejos. A simples presença de Deus já os incomodava.

Ao contrário de Adão, desde cedo Jesus é treinado na obediência, submetendo-se a seus pais[5], embora já apresentasse indícios de que sabia contundentemente qual seria o seu papel no mundo[6]. Os evangelhos narram inúmeras passagens em que Jesus se retira para orar. Se afasta para estar a sós com Deus. Ele sabe que depende de seus Espírito. Mais. Ele deseja estar com Deus. O prefere a si mesmo. Tem seu prazer em realizar a sua vontade, ainda que essa vontade o conduza inexoravelmente à morte, e morte de cruz. Sua submissão é total. Ele obedece por amor. E na dependência do Espírito de Deus, torna-se capaz e convicto, para realizar tudo o que Deus lhe coloca por tarefa.

Vivemos tempos de falta de convicção, como falei no texto anterior. Mas isso porque nos falta submissão e entrega. O custo dessa entrega é medido. Nossa dedicação, comedida. Concedemos apenas aquilo que não nos é efetivamente essencial para nossos projetos pessoais, ou para a realização de nossos sonhos mais íntimos. Ao contrário disso, nenhuma realização de Jesus foi sem custo. Ele andou de cidade em cidade. Orientava seus discípulos diária e diuturnamente. Curava os enfermos, falava às multidões. E por fim, não bastasse tudo isso, sua dedicação e submissão, custou-lhe a vida. Se possível, passa de mim esse cálice. Porém faça-se a tua vontade[7]. Ele foi obediente até o fim[8].

Sejamos nós igualmente submissos, para que o poder realizador do Espírito do Senhor nos capacite a realizar tudo aquilo que Deus nos propõe. Que nossas vidas espelhem entrega e dedicação, para que convictos, sejamos veículos de bênçãos, para a honra e a glória de Deus.




[1]  Isaias 61:1e2
[2]  No Antigo Testamento, o cativeiro diz respeito ao exílio de Israel (Lc 1.68-74). Aqui, o cativeiro alude ao pecado (Lc 1.77; 7.47; 24.47; At 2.38; 5.31; 10.43; 13.38; 26.18). Jesus deu vista aos cegos, uma referência às Suas obras milagrosas (Lc 7.22), com implicações espirituais (Lc 1.78,79; 10.23,24;18.41-43). Jesus pôs em liberdade os oprimidos. Esse era originalmente o chamado de Israel, mas a nação fracassou em sua tarefa (Is 58.6). O que Israel não conseguiu fazer, Jesus fez. A ilustração aqui remete à realidade física e espiritual. Jesus proclamou o ano aceitável do Senhor, uma alusão ao Jubileu. Este acontecia a cada 50 anos e, nesta época, os débitos eram perdoados, os escravos conseguiam sua liberdade, as terras voltavam para seus donos originais. O Ano do Jubileu permitia que se recomeçasse (Lv 25.10). Jesus ofereceu o cancelamento total da dívida espiritual e um novo começo àqueles que cressem em Sua mensagem.

[3]  Filipenses 2:5-8
[4]  2 Coríntios 12:9-10
[5]  Lucas 2:51
[6]  Lucas 2:49
[7]  Lucas 22:42
[8]  Filipenses 2:8
Powered By Blogger