sábado, 30 de março de 2024

Fiz porque quis!

 Por Jânsen Leiros Jr.


Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.”  

Filipenses 2:5-8

 A sexta-feira que antecede ao Domingo de Páscoa, a chamada Sexta-feira Santa, ou Sexta-feira da Paixão, é um feriado cristão lembrado em quase todo o mundo[1]. E mesmo fora das comunidades cristãs, a história da crucificação de Jesus é amplamente conhecida, e rememorada como um fato aceito, no mínimo, como realidade histórica. Isso o torna extremamente popular, e sua importância é reconhecida por senso comum.

Que Jesus foi morto em uma cruz, portanto, não é segredo pra ninguém, e poucos são os contestadores desse evento que ultrapassa as paredes da crença religiosa, e se traduz em pinturas, esculturas e diversas outras expressões artísticas e culturais mundo afora há mais ou menos dois mil anos.

O que não é muito comum, e desde tempos idos, é a cruz tomar o centro da pregação da salvação proclamada pelas igrejas, no Brasil e no mundo. Poderíamos atribuir isso às novidades culturais da pós-modernidade, mas estaríamos escondendo uma realidade já denunciada no Novo Testamento, e que preocupava demasiadamente o apóstolo Paulo, por exemplo, como se pode notar em alguns textos bíblicos[2].

Não que sobre a crucificação como fato histórico paire qualquer dúvida plausível, uma vez que sustentado, inclusive, por documentos não religiosos[3]. Mas grande é o número daqueles que entendem a crucificação como um martírio consequente, causado pelos assim considerados posicionamentos políticos e religiosos assumidos por Jesus, e não como um sacrifício espontâneo, em que o Cristo de Deus se ofereceu como Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Considerado como mártir, e ainda como um homem cuja mensagem de amor e paz estava muito à frente da sociedade de seu tempo, Jesus tem sua cruz considerada como um final inevitável para quem contrariou os interesses dos dominadores da época, ou mesmo dos pretenciosos rebeldes, que buscavam um líder que comandasse alguma insurgência contra o Império Romano[4].

As distorções sobre o significado da cruz na história da salvação, no entanto, não ficam do lado de fora, nem mesmo dos muros do próprio cristianismo, ou das mentes de seus dedicados fiéis. Infelizmente. E não foi por falta de empenho de quem, logo cedo, percebeu que tal descaminho poderia acontecer em algumas comunidades cristãs ainda no primeiro século.

É importante ressaltar a essa altura, que ao enfatizarmos a cruz como mensagem central do evangelho, não o estamos fazendo com a finalidade de sacraliza-la como objeto primordial da cristandade. Jamais. Em vez disso, a ideia é posicioná-la como instante de realização do sacrifício vicário de Jesus em nosso lugar. Como ápice de seu propósito redentor. Lugar de expiação dos nossos pecados[5].

                    Além disso, e não menos importante, precisamos entender que a crucificação tem sua relevância na história da redenção, não meramente como modelo de morte, sem sombra de dúvida agressivo, desumano e indigno, e que por isso tenha elevado o caráter sacrificial de Jesus ao tomar nosso lugar em expiação. Até porque, ele não foi o único a sofrer tal sentença de morte[6]. Mas então, por que na cruz?

Digamos que a sentença de morte para o crime pelo qual Jesus foi condenado, em vez de crucificação fosse o enforcamento. Será que o texto do apóstolo Paulo não teria sido porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este enforcado? Certamente sim. E por que? Simplesmente porque Paulo não está se referindo ao modo pelo qual Jesus foi morto, mas sim ao fato de ter se entregado à morte em nosso lugar. Espontaneamente, e resoluto, até a totalidade de seu sacrifício. Mas por qual razão a cruz chamava tanto a atenção do apóstolo, a ponto de fazê-lo trocar qualquer argumento humano convincente, pela aparente vergonha da cruz?

Naqueles tempos, e desculpem dizer mas será necessário para melhor compreensão do argumento, além da crucificação, alguns outros métodos de execução eram passíveis de uso. Pessoas morriam pela espada, perfuradas por flechas e lanças, rompidas ao meio por métodos que variavam desde serem cruelmente cerradas, até puxadas pelos membros por juntas de cavalos em direções contrárias, e ainda atiradas de um penhasco ou enforcadas, como adiantamos acima. Todas execuções relativamente rápidas e diretas, que variavam em crueldade, mas que davam ao executado pouca ou nenhuma chance de resistir à morte, ou ao menos prolongar seus instantes finais.

Já a crucificação, como método de execução, tinha possibilidades múltiplas. A primeira e mais interessada ao Império, era o seu caráter didático, por incrível que pareça. Havia uma exposição imensa do executado, desde os momentos que antecediam à sua execução. Já pendurado na cruz, os motivos de sua condenação eram declarados ao público, e por um tempo razoavelmente longo, a execução ficava à vista das pessoas, que iam, segundo entendiam, sendo ensinadas a não cometerem crimes que as levassem a semelhante desfecho. Mas também havia um mórbido pensamento velado de que, pendurado na cruz, o executado teria algum tempo de pensar no fez, e arrepender-se do mal cometido, o que era utilizado como uma espécie de minimização da crueldade daquela pena de morte.

        Olhando pelo prisma do tempo transcorrido entre a execução e o efetivo falecimento do executado, ele não somente tinha tempo para se arrepender, como também, contava com a possibilidade de ver seus entes queridos, e falar com eles uma última vez antes de calar-se definitivamente. No caso de Jesus, o tempo entre ser levantado na cruz e morrer efetivamente, não só permitiu-lhe as últimas palavras, ainda que em agonia, mas oportunizou em sua história mais um instante de provação de seu amor por nós. E por que concluímos isso?

Em seu livro "A Última Tentação de Cristo" o renomado escritor grego Nikos Kazantzakis[7], retratou a vida de Jesus Cristo de uma maneira ficcional, claro, explorando questões existenciais e espirituais bastante relevantes, sobre os momentos vividos pelo Senhor na cruz. Segundo o escritor, e o que me parece extremamente plausível, por todo o tempo pendurado na cruz, Jesus foi tentado, pela dor e agonia que experimentava, a descer dali, estancando repentinamente o plano de salvação da humanidade, e cessando toda a imensa aflição que lhe acometia.

Na prática, a suposição romanceada de Kazantzakis, ressaltou que, na cruz, um importante traço de espontaneidade e determinação de propósito foi revelado por Jesus. Não há uma fatalidade incidental em sua morte “e morte de cruz”. Antes, seu sacrifício é uma escolha dele e de Deus. Não foi um acaso ou muito menos uma lamentável imponderável infelicidade. Ele quis e efetivamente morreu pela humanidade. Ainda que doído, e doído até o fim. Tudo isso deixando evidente, que seu amor por nós foi além do limite da agonia e do interesse pessoal pelo alívio e pela continuidade da própria vida. Ele poderia ter pedido ao Pai para tirá-lo dali. Poderia ter desistido do processo que já o vinha angustiando como no Getsêmani. Em vez disso, e apesar da sensação de desamparo, preferiu dar-se por nós, dando tudo por “consumado”, e entregando o espirito nas mãos de Deus. Uma declaração pra lá de poderosa, do imenso e incondicional amor de Deus por você e por mim.   

            É claro que há muitos outros aspectos relevantes na morte de Jesus. Mas todos eles convergem para um mesmo e importante lugar; foi amor e foi espontâneo. Não o tivesse sido, o caráter acidental e inevitável do feito, apagaria o aspecto vicário do sacrifício, reduzindo o feito do Senhor a um ativismo ideológico, e a um martírio consequente à luta por uma causa. Não deixaria de ser historicamente relevante, mas jamais seria redentor. Em vez disso, suas escolhas reveladas antes e sobretudo na cruz, nos fazem praticamente ouvi-lo dizer: Foi por você. Fiz por amor e fiz porque quis.

[1] A Sexta-feira Santa, que marca a crucificação de Jesus Cristo, é uma tradição cristã que remonta aos primeiros séculos do Cristianismo. Sua comemoração foi instituída pela Igreja Católica como parte da Semana Santa, que culmina na celebração da Páscoa. A data específica da instituição da Sexta-feira Santa como feriado nacional varia de país para país.

No Brasil, a Sexta-feira Santa é reconhecida como feriado nacional devido à influência do Cristianismo, predominantemente católico, na cultura do país.

[2] 1 Coríntios 1:18-25; Gálatas 6:11-14; Hebreus 12:2

[3] Existem vários textos e documentos históricos não religiosos que mencionam a crucificação de Jesus como um evento histórico. Aqui estão alguns exemplos:

Flávio Josefo: Um historiador judeu do primeiro século, em sua obra "Antiguidades Judaicas", menciona Jesus e sua crucificação, embora algumas partes tenham sido questionadas por estudiosos quanto à autenticidade.

Tácito: Um historiador romano do primeiro e segundo séculos, em suas "Anais", faz referência à crucificação de Jesus sob o reinado de Tibério, durante o governo de Pôncio Pilatos.

Plínio, o Jovem: Um escritor e administrador romano do primeiro e segundo séculos, em suas cartas ao imperador Trajano, menciona os seguidores de Jesus e seus costumes, indicando a existência de Jesus e sua crucificação. 

Luciano de Samósata: Um escritor e satírico grego do segundo século, em sua obra "A Morte de Peregrino", faz menção a Jesus e sua crucificação.

Esses são apenas alguns exemplos de fontes não religiosas que corroboram a crucificação de Jesus como um evento histórico. Esses escritos fornecem evidências de que a crucificação de Jesus era conhecida e discutida por historiadores e escritores contemporâneos, independentemente de suas crenças religiosas.

 [4] Algumas correntes filosóficas, pensadores e até mesmo religiões não cristãs podem interpretar a crucificação de Jesus como um evento motivado principalmente por questões políticas e religiosas da época, em vez de um sacrifício redentor voluntário. Aqui estão algumas dessas perspectivas:

Perspectiva Judaica: Do ponto de vista judaico, a crucificação de Jesus pode ser vista como resultado de sua oposição às autoridades religiosas judaicas da época e às tensões políticas com o governo romano. Jesus foi considerado uma ameaça ao status quo religioso e político, levando à sua condenação à morte.

Perspectiva Secular: Alguns filósofos e historiadores seculares podem interpretar a crucificação de Jesus como um evento político em vez de um evento divino. Eles podem ver Jesus como um líder religioso e social que desafiou as estruturas de poder estabelecidas e foi executado como resultado de sua contestação política.

Perspectiva Filosófica: Certos filósofos podem analisar a crucificação de Jesus como um exemplo de conflito entre o indivíduo e o sistema estabelecido. Eles podem ver Jesus como um mártir que defendeu seus princípios éticos e morais, mesmo que isso o levasse à morte nas mãos das autoridades.

Perspectiva Religiosa Não Cristã: Em algumas tradições religiosas não cristãs, a crucificação de Jesus pode ser vista como um evento histórico sem significado divino. Ele pode ser considerado apenas como um líder religioso que encontrou oposição das autoridades e foi executado como resultado de sua pregação e atividades.

[5] Efésios 2:16; Colossenses 1:20-22

[6] É difícil fornecer um número exato, pois os registros históricos são limitados e muitos casos podem não ter sido documentados. No entanto, a crucificação era uma forma de punição comum no Império Romano, especialmente para criminosos considerados ameaças à ordem pública, como rebeldes, escravos e criminosos violentos. Durante o período em que a prática foi utilizada, milhares de pessoas foram crucificadas, incluindo judeus e pessoas de diversas outras nacionalidades. O número exato varia de acordo com diferentes estimativas e períodos históricos, mas é razoável afirmar que um grande número de pessoas foi submetido a essa forma brutal de execução durante o domínio romano.

[7] "A Última Tentação de Cristo" foi publicado em 1955. Já o filme, homônimo, foi lançado em 1988 e dirigido pelo renomado cineasta Martin Scorsese. Kazantzakis também é conhecido por outras obras influentes, como "Zorba, o Grego", que também foi adaptado para o cinema e 1964 e "Alexis Zorba".

quarta-feira, 13 de março de 2024

O Livro de Jó - O Problema do Sofrimento - Parte 2

 Por Jânsen Leiros Jr.


 

 “...o livro de Jó não se limita a ser um tratado sobre o sofrimento humano, mas abrange uma ampla gama de temas teológicos e filosóficos... o sofrimento é apenas um aspecto da obra e há uma complexidade maior na mensagem do livro... o livro de Jó levanta questões sobre a justiça divina, a natureza de Deus, e a resposta humana à adversidade... o sofrimento de Jó serve como cenário para explorar essas questões mais profundas, mas não é o foco da narrativa.”

 Artigo: "The Theology of the Book of Job" (A Teologia do Livro de Jó)

Fonte: The Evangelical Quarterly, Volume 10, Issue 4, outubro de 1938, páginas 302-315.

Norman H. Snaith

Tradução do autor


Pode parecer até aqui que a análise que estamos iniciando em nossas reflexões no livro de Jó despreze, como sofrimento, os fatos e circunstâncias cotidianas da vida comum, assim como todos os transtornos, e consequências desagradáveis que tais fatos provocam em cada ser humano. Mas não é isso. Muito pelo contrário. É mais do que evidente que aquilo que parece um simples infortúnio para mim pode ser verdadeira causa de aflição severa para outros, dependendo apenas do significado que tal idêntica condição tenha para mim, comparando com o que provoca nos outros.

O desemprego, por exemplo, é sem dúvida um revés bastante desconcertante, para qualquer pessoa que não o pretenda, sendo capaz de causar consequências devastadoras no indivíduo e na sociedade[1]. Para um jovem de vinte e poucos anos, porém, terá um significado bem menos preocupante, considerando apenas o aspecto etário, do que para uma pessoa de mais de cinco décadas de vida, a poucos anos da aposentadoria. Para este, o desemprego inesperado pode mesmo trazer consequências devastadoras, causando, na ponta, severa aflição. Se este mesmo jovem desempregado, porém, for arrimo de família, a falta de um salário poderá causar muita angústia e medo, diante da insegurança e da incerteza que o afligirá.

Diante disso, então, se condições semelhantes podem provocar diferentes graus de desconforto e angústia, variando mesmo entre simples infortúnio e devastadora tragédia, o que exatamente, em meio ao caos, estabelece o que fará de qualquer acontecimento ou condição fator incontestável de severa aflição? Talvez a diferença não esteja na natureza e nem mesmo no cenário em que o sofrimento ocorra, independentemente de suas variáveis, mas sim no grau de desesperança[2] por presumida inexistência de solução, ou mesmo de reversão das consequências advindas de uma determinada realidade.

                  Ou seja, o que pretendemos destacar e isolar, para melhor análise e compreensão, é que o sofrimento não está necessariamente ligado à natureza objetiva do evento em si, mas sim à interpretação subjetiva que cada indivíduo faz dele. Em outras palavras, o que determina se uma situação é fonte de aflição severa ou não é a percepção de esperança ou desesperança diante das mais variadas circunstâncias.

O Sofrimento como tema bíblico

O tema do sofrimento é sem dúvida uma das questões mais recorrentes e relevantes em toda a Bíblia[3], merecendo atenção especial de qualquer estudioso das Escrituras. Desde os relatos mais antigos até as cartas apostólicas do Novo Testamento, o sofrimento é uma realidade enfrentada pela maioria dos personagens bíblicos e abordada de diversas maneiras. Mas há, claro, casos bem marcantes, que confirmam a relevância do tema.

No Antigo Testamento, além do livro de Jó, claro, um exemplo notável é o do povo de Israel durante seu período de escravidão no Egito, conforme registrado no livro de Êxodo. Os israelitas enfrentaram condições extremamente difíceis devido à opressão dos egípcios, sofrendo sob o jugo da escravidão. Sua história, no entanto, é marcada pela libertação miraculosa por parte de Deus, que os conduziu através do deserto em direção à Terra Prometida.

Ainda nos Salmos, encontramos expressões profundas de sofrimento e angústia, mas também de esperança e confiança em Deus. O Salmo 22, por exemplo, descreve vividamente o sofrimento do salmista, que clama a Deus em meio à dor: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que te alongas do meu auxílio e das palavras do meu bramido?" (Salmo 22:1, ARC). No entanto, o salmo também expressa confiança na fidelidade de Deus, que eventualmente trará livramento ao aflito.

Já no Novo Testamento, o próprio Jesus é apresentado como alguém que experimentou sofrimento de forma intensa. Desde seu nascimento em condições adversas, até sua crucificação, Jesus viveu uma vida marcada pelo desconforto, pela dor e pelo sacrifício. No Jardim do Getsêmani, momentos antes de sua prisão, ele expressou angústia profunda, orando ao Pai: "Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres" (Mateus 26:39, ARC).

Além disso, as epístolas do Novo Testamento, escritas pelos apóstolos, abordam o tema do sofrimento de várias maneiras. O apóstolo Paulo, por exemplo, escreveu sobre suas próprias experiências de aflição e perseguição, destacando a importância de suportar o sofrimento com fé e esperança. Em sua segunda carta aos Coríntios, ele escreve: "Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente" (2 Coríntios 4:17, ARC).

O que podemos, com razoável segurança, inferir desse resumido painel que apresenta o sofrimento como tema presente em toda a extensão do texto bíblico é que, de maneira abrangente e profunda, a reflexão sobre a condição humana do sofrimento sempre esteve profundamente ligada à esperança e à confiança em Deus, como sua opositora e cura.

Tudo isso considerado, quando falamos de sofrimento no livro de Jó, estamos falando de tragédias e circunstâncias em série, que cercaram o personagem central da história por todos os lados, atirando-o numa condição de total desesperança diante da realidade que lhe tomou de assalto. Luto pelos filhos, perdas patrimoniais e enfim a própria saúde, se somam em um ambiente trágico paralisante, diante do qual, de pronto, dificilmente alguém consegue posicionar-se equilibradamente, sem sentir-se totalmente desamparado e sem saída. A morte se apresenta como sombra. Iminente possibilidade. O desespero tolda todo e qualquer pensamento. Um estado inevitável de aflição severa toma conta da alma.

Norman H. Snaith
                  Assim, o que podemos concluir até aqui sobre a primeira questão quanto a ser o livro de Jó, efetivamente, uma narrativa que se ocupe em debater o sofrimento humano, é que o sofrimento ao qual o personagem é exposto é efetivamente uma aflição severa, e não apenas condição incômoda da vida, cuja solução seria possível, em maior ou menor grau, e cuja reversão se fizesse plausível, pela ação direta ou indireta do próprio Jó. Antes disso, Jó estava totalmente impossibilitado de tudo, desde sua integridade física, até acesso ao que lhe pudesse produzir qualquer conforto. Sem dinheiro, sem família e sem saúde. Quase nada lhe restava, senão apenas amaldiçoar a Deus, e morrer.[4]

A natureza do sofrimento de Jó e sua singularidade

Um outro aspecto que precisamos apurar sobre a questão do sofrimento que se abate sobre Jó, é a natureza do que lhe aflige. Ou seja, seria o seu sofrimento causado por infortúnios casuais, coincidentemente sequenciados e devastadores em série, ou tal aflição vem a reboque do acumulo de tragédias a ele impostas, que buscavam provocar-lhe exatamente a condição aflitiva em que acaba por se encontrar? Ou ainda, e mais especificamente falando, o sofrimento de Jó é consequência de seus próprios atos ou decisões equivocadas, ou surge de fatores completamente imponderáveis, dos quais Jó não teria qualquer controle ou possibilidade de evitar? Seus amigos vão achar exatamente que a aflição de Jó tem causa em alguma atitude sua. Algum pecado seu, quer sabido ou oculto até a ele mesmo. Nós, porém, sabemos que não.

O que me parece relevante apontar nesse segundo aspecto sobre o sofrimento, portanto, é que ao longo de nossas existências, há desconfortos imponderáveis e outros pelos quais poderíamos não estar passando, caso nossas condutas ou escolhas tivessem apontado para outra direção. O que significa dizer, que há sofrimentos em que apenas estamos colhendo o que plantamos, pagando pelo que causamos, ou qualquer outra condição em que o efeito vivido vem em confronto àquilo que nós mesmos provocamos. O caso de Jó, contudo, não parece ser este.

Ora, se a diversidade de causas e circunstâncias do sofrimento não invalida o grau da dor experimentada por cada indivíduo, sendo o sofrimento uma experiência subjetiva e real independentemente de suas origens, uma vez que tal diversidade não é apresentada na narrativa de modo a tornar o conteúdo abrangente e exaustivo, mesmo que tipificado fosse, afirmar que o tema central do livro é o sofrimento humano puro e simples, é simplificar a reflexão, e encurtar a profundidade da discussão que a história de Jó nos oferece. Desprezar outros fatores até mais profundamente abordados do que o próprio sofrimento, nos impede de perceber as questões éticas, teológicas e existenciais exploradas na narrativa, que ampliam sua relevância e significado para além do simples registro do sofrimento humano. Precisamos de uma compreensão mais profunda e contextualizada do livro e de sua mensagem.

               Talvez não seja sem razão que a narrativa do livro comece exatamente qualificando Jó, e não com elogios feitos por amigos, empregados ou familiares. Quem o qualifica como homem íntegro, temente a Deus e que se desvia do mal[5] é o próprio Deus. E o faz duas vezes, afirmando e reafirmando na história, que Jó não tinha absolutamente nada em sua reputação, que pudesse ser considerado mácula causadora do que viria a sofrer adiante. Ou seja, o sofrimento de Jó não foi consequente, mas proposital. Tão pouco fora casual, no sentido de natureza acidental. Não veio do acaso. Jó é um sofredor totalmente inocente, e cuja condição de aflição servirá apenas como pano de fundo para um propósito que vai além de si mesmo. Não é, por assim dizer, um instrumento que potencialize qualquer mudança nele, ainda que ambiente a completa transformação de sua relação com Deus.

Assim, ao refletirmos sobre a história de Jó, somos convidados a considerar não apenas o papel do sofrimento em nossas vidas individuais, mas também a dimensão espiritual e transcendental que pode estar além de nossa percepção imediata. Tendo Jó como exemplo, somos desafiados a confrontar conclusões superficiais ou de lugar comum. E muito embora o sofrimento seja uma realidade inevitável na vida humana, não podemos pensar nele como meio determinante de crescimento pessoal, sob pena de confinarmos o conteúdo do livro, a um determinismo implacável e meramente mecanicista.



[1] Desemprego, trabalho sem proteção social e saúde: uma análise do indivíduo e do contexto. Tese apresentada ao Programa de PósGraduação em Saúde Pública da Universidade Federal de Minas Gerais; Luana Giatti Gonçalves

[2] A Psicologia da Esperança: Um Revestimento Revolucionário para a Vida; 2000; C. R. Snyder

Embora não se concentre exclusivamente na desesperança em situações de aflição, o autor discute como a esperança pode ser um fator crucial na superação de adversidades e na construção de resiliência.

Snyder explora como a desesperança pode surgir em diferentes contextos de vida, como doença, luto, desemprego e outros eventos estressantes. Ele argumenta que a desesperança é uma resposta comum a essas situações, independentemente de sua natureza específica.

[3] algumas publicações e seus respectivos autores que abordam o tema do sofrimento como recorrente ao longo do texto bíblico:

"The Problem of Pain" (O Problema da Dor); C.S. Lewis

"Suffering and the Sovereignty of God" (O Sofrimento e a Soberania de Deus); John Piper, Justin Taylor (editores)

"Where Is God When It Hurts?" (Onde Está Deus Quando Dói?); Philip Yancey

"The Gift of Pain" (O Dom da Dor); Paul Brand, Philip Yancey

"Walking with God through Pain and Suffering" (Caminhando com Deus através da Dor e do Sofrimento); Timothy Keller

[4] Jó 2:9; Neste versículo, a esposa de Jó, vendo o sofrimento do marido, sugere que ele amaldiçoe a Deus e morra. Esta passagem está mais profundamente comentada nos artigos seguintes.

[5] Jó 1:1 e Jó 2:3

O Livro de Jó - O Problema do Sofrimento - Parte 1

 Por Jânsen Leiros Jr.


 

 

“... sofrimento é um estado de aflição severa, associado a acontecimentos que ameaçam a integridade (manter-se intacto) de uma pessoa. Sofrimento exige consciência de si, envolve as emoções, tem efeitos nas relações pessoais da pessoa, e tem um impacto no corpo.16

 

The nature of suffering and the goals of medicine; Oxford University Press; 2004

https://www.scielo.br/j/bioet/a/mhFhLXsrNGTgMKKyCLfGjsM/

Cassell EJ

Iniciando nosso mergulho pelas diversas compreensões sobre quais temas versa efetivamente o Livro de Jó, começaremos pelo que é mais comumente admitido; o sofrimento humano. E claro, não seria prudente realizar qualquer tarefa nesse sentido, sem antes definirmos mais adequadamente o que convencionaremos chamar de sofrimento. Isso nos ajudará em não perder tempo com aquilo que não é sofrimento, confusão muito comum, principalmente em nossos dias, quando melindres exacerbados ou relevâncias impertinentes, dominam as pautas de discussões acadêmicas e populares diariamente.

 Sofrimento – o que, o que não é, e o que pode acabar sendo

 Na definição do médico e biocientista dr. Eric J. Cassel, cujo resumo acima tomamos emprestado, sofrimento é um estado de aflição severa. Vamos guardar esse trecho como um extrato concentrado, que de certa forma encerra em si, a explicação do que define bem especificamente o sofrimento; uma aflição severa.

 Esta definição preliminar é necessária, repito, para que não confundamos pequenos infortúnios ou condições existenciais desfavoráveis, com aquilo que é efetivamente um sofrimento. Não são poucas as vezes que escutamos pessoas dizerem estou sofrendo muito, fazendo menção a reveses comuns à vida humana. Desemprego, endividamento, fim de um relacionamento ou traições, são exemplos de reveses da vida, que nos causam sim, tristeza, melancolia, angústia ou indignação, reações pra lá de legítimas diante de tais realidades. Ainda assim, porém, não são um estado de aflição severa, e assim definidos como sofrimento propriamente dito. O estágio de transitoriedade razoavelmente curto de tais circunstâncias, somado à possibilidade latente de reversão da condição experimentada, reduzem a severidade da aflição, assim desqualificando-as como sofrimento.

 De qualquer forma, e para que nossos argumentos mais adiante não se tornem pobres e tendenciosos, e carentes de sustentação, vejamos resumidamente o que outras correntes, além da biociência, costumam definir como sofrimento, admitindo-se, inclusive, que mesmo aquilo que em princípio não pode ser aferido como sofrimento no rigor da análise, não está livre de tornar-se sofrimento, dependendo de contextos, variações circunstanciais ou prolongado estágio de permanência.

Compreensões filosóficas do sofrimento

Segundo a Filosofia, o sofrimento humano é um tema bastante complexo, analisado e abordado por diferentes correntes de pensamento ao longo da história. Existem, tanto na literatura filosófica, quanto em sua tradicional forma de problematizar uma questão, diversas interpretações sobre o que constitui o sofrimento, assim como aquilo que não é considerado como tal. Os mais comuns, são:

Perspectiva Existencialista

De acordo com os filósofos como Jean-Paul Sartre[1] e Søren Kierkegaard[2], o sofrimento humano surge da angústia existencial causada pela consciência da própria finitude, liberdade e responsabilidade, questões que lançam o ser humano em um debate interno interminável e questionador sobre si mesmo, suas possibilidades, feitos e continuidade. Para ambos, o sofrimento está enraizado na condição fundamental da existência humana, que busca por sentido em um universo aparentemente sem significado intrínseco; as clássicas perguntas: Por quê existimos? De onde viemos? Para onde vamos?

Visão Budista

Já na filosofia budista[3], o sofrimento é condição central para a compreensão da existência humana. O conceito de "dukkha" refere-se ao sofrimento causado pela insatisfação, pelo apego e pela impermanência das coisas. Para os budistas, a superação do sofrimento envolve a compreensão da natureza transitória e ilusória da realidade e a prática do desapego e da compaixão. Ou seja, à medida que nos aliviamos do peso da importância que damos a coisas e condições totalmente temporais, e portanto efêmeras, o sofrimento reduz. É o estado permanente de resignação e desprendimento a tudo que nos cerca, que pode diminuir o sofrimento, pois que, anulado pela compreensão, o poder de afetação que pessoas, coisas e fatos têm sobre nossas vidas, se anula por completo.

Perspectiva Ética

Alguns filósofos abordam o sofrimento humano do ponto de vista ético, considerando-o como resultado de injustiças, desigualdades e violações dos direitos humanos[4]. Nessa visão, o sofrimento é frequentemente visto como algo a ser combatido e mitigado por meio da justiça social, da solidariedade e da ação política. De certa forma, tal abordagem entende a ética aplicada como uma espécie de tábua de salvação, para a redução do sofrimento em nossa sociedade. Uma vez éticos em todas as interações da vida, a falta de conflitos pela manutenção dos direitos, regras e deveres, aliviariam a humanidade do sofrimento que lhe aflige.

Filosofia da Dor

                  Há também correntes de pensamento que se dedicam especificamente ao estudo da dor física e emocional, entendendo que uma pode naturalmente implicar na outra, sendo ao mesmo tempo, causa e efeito entre si. Filósofos como Elaine Scarry[5] exploram a natureza da dor e sua relação com a linguagem, o corpo e a experiência subjetiva. Esse conceito tem relação com a questão do luto e suas consequências perceptíveis na vida do enlutado. A dor da perda, incompreendida ou inaceitável, provoca sofrimento permanente, capaz de alterar o estado de existência e até mesmo a vontade de seguir vivendo. Nesta abordagem, inclusive, podemos incluir ainda a questão das falas agressivas, cujo conteúdo hostil e contundente podem trazer marcas e traumas, muitas vezes difíceis de serem superados.


Já quanto ao que não se deve considerar efetivo sofrimento, mas cujas fronteiras são sutis e sensíveis a variações intrínsecas, há relevantes pensamentos que dependem exclusivamente da perspectiva filosófica adotada, diante das circunstâncias. Alguns exemplos:

Desafios e Adversidades

Algumas visões filosóficas consideram que enfrentar desafios e adversidades pode ser uma oportunidade de crescimento e autotransformação, em vez de apenas causar algum sofrimento, ou mesmo significar sofrimento em si mesmos. Nesse sentido, o sofrimento pode ser percebido como parcela inevitável, mas não necessariamente negativa, da condição humana, tornando-se nada mais que um catalisador que impulsiona o desenvolvimento pessoal. Seria uma espécie de sofrimento instrumental, em que sua existência realiza de forma intrinsecamente planejada, na busca da melhoria da pessoa afligida. O que, em certa medida, em nada reduz a legitimidade do sofrimento e seu aspecto de aflição severa, se assim se constituir, no caso.

Experiências Próprias da Vida

Algumas formas de experiência, como alegria, prazer e contentamento, são vistas por muitos como opostas ao sofrimento. Há filósofos, no entanto, que argumentam que até mesmo essas experiências, aparentemente positivas, podem conter elementos de sofrimento, quer seja pela sua transitoriedade, quer seja por sua natureza efêmera, porque causariam aflição pela impossibilidade da continuidade do estágio de alegria. Uma espécie de sofrimento causado por um fim de festa ou pelo sorvete que cai. Isso é um pensamento contido no mito da Ferida de Fisher King[6], por exemplo, e que reforça o conceito de Spinoza[7], que entendia a alegria como verdadeira mola propulsora para o potente estado de realização humana. A perda do estado permanente de contentamento, no entanto, não deve mesmo ser considerado necessariamente como um sofrimento ou aflição severa.

Indiferença ou Apatia

                Em certos contextos filosóficos, a falta de sensibilidade ou preocupação com a própria condição desfavorável, ou mesmo pelo sofrimento alheio, pode ser vista como ausência de empatia e compaixão, que podem provocar, em estágios prolongados, sofrimento em si. Ainda que não se traduzam como aflição severa em um primeiro momento, a ausência de indignação, reação ou vontade de transformação de um determinado e incômodo status quo, pode gerar nostalgia, melancolia, e ainda desesperança, gerando sim, no tempo, permanente aflição.

Baseado no que vimos até agora, fica claro que os diferentes pontos de vista sobre o que é sofrimento ou não, são incapazes de qualificar ou desqualificar, de forma categórica, o que é ou não um estado de aflição severa, ou sofrimento. Assim, em vez de buscarmos entender de qual sofrimento trata o argumento teológico que entende o Livro de Jó como um tratado sobre o sofrimento humano, talvez seja muito mais interessante avaliarmos se, independente do grau ou natureza da aflição severa apresentada na narrativa, o sofrimento é mesmo o mote e tema central do autor do livro. Isso implicará em uma abordagem mais holística e contextualizada da obra, em que juntos buscaremos compreender os temas e mensagens que o autor pretendeu transmitir, em vez de nos concentrar exclusivamente nos aspectos intrínsecos ao sofrimento.

O próximo capítulo, portanto, provocará uma infinidade de confrontações com paradigmas e ideias pré-concebidas, sedimentadas em nós por análises diversas realizadas sobre o Livro de Jó ao longo de nossas vidas. E como eu sei? Porque passei pelas mesmas angustias construindo o conteúdo que você acessará agora. Mas não se preocupe. A qualquer momento você poderá apertar o botão e chamar a tripulação[8]. Iremos socorrer você.



[1] Jean-Paul Sartre foi um filósofo, escritor, dramaturgo e crítico francês, nascido em 21 de junho de 1905 e falecido em 15 de abril de 1980. Ele é uma figura proeminente na história do existencialismo e uma das figuras mais influentes da filosofia do século XX. Sartre é conhecido por sua obra filosófica, literária e política, incluindo textos como "O Ser e o Nada", onde desenvolve sua filosofia existencialista, e sua peça teatral "Entre Quatro Paredes". Sartre também foi um ativista político engajado, especialmente ligado ao marxismo e ao socialismo, e teve uma influência significativa na cultura francesa e global.

[2] Søren Kierkegaard foi um filósofo, teólogo e escritor dinamarquês do século XIX, nascido em 5 de maio de 1813 e falecido em 11 de novembro de 1855. Ele é amplamente considerado o pai do existencialismo, uma corrente filosófica que enfatiza a existência individual, a liberdade e a responsabilidade pessoal.

Kierkegaard produziu uma obra vasta e influente, explorando temas como a angústia, a fé, a liberdade, o desespero e a responsabilidade ética. Entre suas obras mais importantes estão "O Conceito de Angústia", "Ou-Ou: Um Fragmento de Vida", "Temor e Tremor", "O Desespero Humano" e "A Doença Mortal".

[3] A filosofia budista é uma tradição de pensamento que se originou a partir dos ensinamentos de Siddhartha Gautama, conhecido como Buda, na Índia, por volta do século VI a.C. Ela busca compreender a natureza da existência humana, o sofrimento e o caminho para a libertação do sofrimento.

Uma de suas principais bases filosóficas é o conceito de Quatro Nobres Verdades, que formam o cerne dos ensinamentos de Buda. Essas verdades afirmam que a vida é permeada pelo sofrimento (dukkha), que o sofrimento tem uma causa (tanha, ou desejo), que existe um fim para o sofrimento (nirvana) e que há um caminho para alcançar o fim do sofrimento, conhecido como o Nobre Caminho Óctuplo.

Além disso, a filosofia budista enfatiza a impermanência (anicca) de todas as coisas, a ausência de um eu permanente ou alma (anatta), e a interdependência de todos os fenômenos (pratitya-samutpada). Esses conceitos são fundamentais para a compreensão da existência humana e são explorados em profundidade nas várias escolas e tradições do budismo.

[4] Alguns filósofos que contribuíram significativamente para a compreensão do sofrimento humano no contexto das injustiças sociais, desigualdades e violações dos direitos humanos, oferecendo insights éticos e políticos sobre como lidar com essas questões.

1.       Karl Marx: Ele discutiu o sofrimento humano em termos de desigualdades econômicas e sociais, argumentando que o sistema capitalista cria injustiças que causam sofrimento aos trabalhadores.

2.       Friedrich Engels: Junto com Marx, Engels também analisou o sofrimento humano dentro do contexto das desigualdades sociais e econômicas, especialmente no que diz respeito à exploração da classe trabalhadora.

3.       John Stuart Mill: Mill abordou o sofrimento humano em seu utilitarismo, argumentando que a busca pelo maior bem-estar para o maior número de pessoas é fundamental para reduzir o sofrimento causado por injustiças sociais e políticas.

4.       John Rawls: Rawls discutiu o sofrimento humano em termos de justiça distributiva, defendendo princípios que buscam reduzir as desigualdades e promover o bem-estar de todos os membros da sociedade.

5.       Amartya Sen: Sen explorou o sofrimento humano em relação à privação de liberdades básicas e oportunidades, destacando a importância de abordar as causas estruturais das desigualdades para reduzir o sofrimento humano.

[5] Elaine Scarry é uma renomada filósofa, escritora e professora universitária norte-americana, nascida em 30 de junho de 1946. Ela é conhecida por seu trabalho interdisciplinar que abrange campos como filosofia política, teoria literária, estudos de gênero e direitos humanos.

Scarry é professora de Estudos e de Literatura Inglesa na Universidade de Harvard, onde leciona desde 1999. Antes disso, lecionou na Universidade de Chicago e na Universidade da Pensilvânia. Seus interesses de pesquisa incluem questões de dor, violência, beleza, linguagem e justiça.

Entre suas obras mais conhecidas está "The Body in Pain: The Making and Unmaking of the World" (1985), onde ela examina o conceito de dor física e suas implicações sociais, políticas e éticas. Scarry também escreveu sobre outros temas, como direitos humanos, guerra, tortura e literatura. Sua abordagem analítica e sua capacidade de conectar ideias filosóficas complexas com questões práticas da vida cotidiana lhe renderam reconhecimento internacional.

[6] A Ferida de Fisher King é um conceito que tem suas raízes na mitologia celta e foi popularizado na obra "O Herói de Mil Faces", de Joseph Campbell, e também na análise de mitos realizada por Carl Jung. O termo "Fisher King" vem da lenda do Rei Pescador, que é associada ao ciclo arturiano e ao Santo Graal.

Segundo a lenda, o Rei Pescador, que também é conhecido como Rei Ferido ou Rei Aleijado, é o guardião do Santo Graal, o cálice sagrado. Ele está ferido ou doente de alguma forma, e essa ferida está relacionada à terra, à fertilidade e ao bem-estar de seu reino. A incapacidade do Rei Pescador de curar sua própria ferida reflete-se na terra ao seu redor, que se torna árida e estéril.

A busca pelo Santo Graal muitas vezes envolve a busca por uma cura para a ferida do Rei Pescador. O herói que consegue encontrar e devolver o Graal ao Rei Pescador é capaz de curar sua ferida e restaurar a fertilidade e a prosperidade ao reino.

A Ferida de Fisher King é um símbolo poderoso que representa a conexão entre o bem-estar individual e o bem-estar do mundo ao nosso redor. Ela também é vista como uma metáfora para a jornada espiritual do herói em busca de cura, redenção e renovação.

[7] Baruch Spinoza, de ascendência judaica, foi um filósofo holandês, do século XVII, considerado um dos grandes racionalistas da filosofia ocidental. Ele é conhecido principalmente por sua obra "Ética", na qual desenvolve uma filosofia que combina elementos de panteísmo, determinismo e racionalismo. Spinoza argumentava que Deus e a natureza são uma mesma realidade substancial e que tudo o que acontece no universo é determinado por leis naturais. Ele defendia uma ética baseada na razão, no autoconhecimento e na liberdade interior, buscando a felicidade através do conhecimento e da compreensão da ordem natural das coisas. Suas ideias influenciaram significativamente o pensamento moderno nas áreas da filosofia, teologia, política e ética.

[8] Como os textos aqui do blog são sequenciados e pertencentes a uma obra aberta, em caso de dúvida e querendo esclarecer qualquer coisa, entre em contato com o os administradores do blog. Basta colocar suas considerações, perguntas ou críticas, nos comentários de cada texto. Teremos enorme prazer em responder a todos.

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