quinta-feira, 19 de novembro de 2015

No espelho, em frente o inimigo



Por Jânsen Leiros Jr.


5 Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo, 6 não servindo somente à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus, 7 servindo de boa vontade como ao Senhor, e não como aos homens. 8 Sabendo que cada um, seja escravo, seja livre, receberá do Senhor todo bem que fizer.
Efésios 6:5-8 - JFA


22 Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo somente à vista como para agradar aos homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor. 23 E tudo quanto fizerdes, fazei-o de coração, como ao Senhor, e não aos homens, 24 sabendo que do Senhor recebereis como recompensa a herança; servi a Cristo, o Senhor. 25 Pois quem faz injustiça receberá a paga da injustiça que fez; e não há acepção de pessoas.
Colossenses 3:22-25 - JFA

Ontem falamos das tragédias ocorridas em Mariana-MG e em Paris-França, onde motivações diferentes causaram perdas materiais mas sobretudo humanas, causando grande consternação em todo o mundo. A reboque, deixaram um rastro de medo e de dúvida sobre o que virá à frente. Tais fatos são estopins, ou desfechos? Olhando a história, ainda que considerando as diferenças de suas origens, percebemos que não passam de mais um triste capítulo na história da humanidade.

Também ontem falamos que tais episódios se caracterizavam por duas matrizes distintas, sustentadas no comportamento humano viciado; o descaso e o radicalismo, que chamamos respectivamente de espírito sabotador e espírito faccioso. Pois então hoje nos concentraremos no primeiro; o sabotador que provoca acidentes, desastres e tragédias, com pequenos ou grandes prejuízos. Nem mesmo ele sai ileso. Seu inimigo íntimo.

Antes de mais nada é necessário entender que, ao usarmos espírito, não falamos de uma pessoa, um único personagem. Não estamos aqui tentando encontrar um vilão estabelecendo um culpado. Estamos identificando, isso sim, um comportamento temerário, uma atitude de desleixo e descaso, que ora por preguiça, ora por falta de interesse naquilo que não lhe é próprio ou conveniente, faz com que distrações ou questões menores recebam atenção e empenho, no lugar de tarefas ou preocupações realmente imperiosas e vitais. A inversão das prioridades.

O que convencionamos chamar de espírito sabotador, é aquela ambiência em que tudo se faz por menos. Menos empenho, menos atenção, menos cuidado, menos planejamento, e principalmente menos atitude responsável com tudo aquilo que não seja eu. Esse comportamento é aquele que não completa as tarefas necessárias, não cumpre os prazos acordados, não segue as normas definidas, não age com prudência, e que se exime de seguir toda e qualquer regra. O espírito sabotador é aquele em que se pensa levar vantagem em transgredir a conduta que se espera de nós. - É pra eu fazer isso, mas como eu sou eu, então eu não faço isso, ou faço o contrário ou aquilo. Um protagonista do desvio ou um antagonista ao bem.

O sabotador transgride por princípio e sabota por costume. Ele compra o material mais barato ainda que de menor qualidade e fora das especificações, ele induz processos normativos para atender seus interesses, ele vicia concorrências para se favorecer de dinheiro público, ele enrola durante o expediente e jamais realiza o que se espera dele. E se algo precisa dar certo, ele inercialmente torce contra e visceralmente espera que dê tudo errado, para que então possa dizer que ninguém faz melhor que ele. Ou seja, o espírito sabotador é um câncer que adoece mortalmente qualquer instituição, seja ela uma empresa, um órgão público, uma ONG, um clube, ou mesmo uma simples e despretensiosa família. Vidas são ceifadas no rastro do sabotador. Inclusive a dele. E depois ele diz, o inferno são os outros.

Quando determinados cuidados precisaram ser tomados no monitoramento das barragens de Mariana, certamente o sabotador agiu minimizando os riscos e preferindo análises superficiais a custos mais baixos. Quando algum funcionário precisou realizar diligentemente suas inspeções, ele fez por menos pois tinha algum outro compromisso ou interesse para o mesmo horário. Quando os índices de controle precisaram ser checados e conferidos, faltou exatidão e empenho na tarefa, pois o que o responsável menos queria era estar ali, cumprindo seu papel com enfado e à meia-boca. A característica mais aguda do sabotador é ser preferencialmente relapso.

Não é difícil perceber, portanto, que para o sabotador, o único interesse é ele mesmo. O custo de ser diligente e agir preventivamente, pensa ele, diminui seu lucro ou lhe gera prejuízo, seja ele financeiro, social ou apenas casual. O sabotador trabalha em favor do caos, ainda que às vezes inconscientemente, para que ele se apresente como solução. Vaidade, arrogância e presunção; lucro e vantagem desejados na sabotagem.

Quando Paulo escreve os textos acima, tanto em sua Carta aos Efésios quanto em sua Carta aos Colossenses, ele muda a ótica do servo, ou trabalhador nos dias atuais. Ele sabe que muitos servos realizam suas tarefas contrariados, mal suportando viverem sob a dominação romana, ou mesmo não aceitando suas condições de trabalho ou exigências e circunstâncias. Paulo precisa orientar tais servos, deixando claro que qualquer descaso no cumprimento de suas tarefas, bem denota desrespeito com Aquele que nos concede todas as coisas.

Paulo também sabe que o comportamento humano natural, é agir corretamente apenas diante daqueles que possuem alguma autoridade ou superioridade hierárquica. Assim ele atravessa o mundo das desculpas que justificariam o menos, e lhes diz que suas atitudes e realizações, mesmo que sem a supervisão de alguém, devem ser, como ato de adoração, executadas com diligência e esmero, como se para o Senhor o fosse. Isso igualava tanto servos quanto livres, tanto os felizes quanto os insatisfeitos. A ótica de realizar como se para Deus o tivesse realizando, iguala toda a humanidade, independendo de condição social, profissional ou ideológica. Assim não há espaço para o sabotador, pois não se trata mas de não fazer o errado, mas antes esmerar-se em fazer sempre certo, como oferta ao Senhor.

O mundo inteiro está infestado do espírito sabotador. O Brasil, por sua vez, lotado dele, desde seus governantes, até os mais simples cargos em uma empresa privada qualquer. O espírito sabotador passa por prestadores de serviço, hospitais, delegacias, quartéis, repartições públicas, e órgãos de serviços essenciais. Acha que eu exagero? Tente depender de qualquer desses entes em casos prementes, e então repense sua dúvida. O espírito sabotador é aquele que gera a dificuldade, para que então possa vender a facilidade. Ele se alimenta de pequenas e desprezíveis vantagens.

Quando nosso empenho está alicerçado fora de nós e de nossos umbigos, quando nossos interesses estão olhando para além de nós mesmos e de nossas conveniências, o espírito sabotador perde força. Um clima de boa vontade e generosidade se instala, mobilizando pessoas que jamais pensávamos que se engajariam em qualquer ideologia ou método exemplar de conduta profissional. A negligência da lugar à diligência e o relapso é substituído pelo dedicado e devotado. Todos buscam um bem comum.


Portanto, diz Paulo, aquele que trabalha, trabalhe como que para Deus, que em segredo recompensa. O que espera reconhecimento humano, por esse reconhecimento viverá a sabotar a si e aos outros. Mas quem descansa no cuidado de Deus e em sua justiça, sabe a quem deve agradar com seu labor. Quem sabe assim, outras tragédias não venham a ser evitadas, outras vidas e bens sejam poupados, o mundo inteiro seja livrado desse mal? Que Deus nos inspire a isso.

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