quinta-feira, 17 de julho de 2014

=> Fragmentos de um debate - O Reino de Deus


Antônio (mas poderia ser José, Joaquim... João)

Você tem razão ao dizer que nossos teólogos, pastores e líderes religiosos não têm muito a dizer sobre o Reino de Deus, senão o uso de “vãs repetições”, chavões, ou como você bem colocou, descrições patéticas de uma riqueza que não possui relevância ou pertinência em nossa sociedade. Uma vez eu li um livro com o título “A Localização Cósmica do céu e do inferno”. Pareceu-me muito engraçada, a tentativa de enxergar em textos bíblicos, um ponto físico no universo onde os dois lugares estariam localizados. Mesmo esse livro, contudo, não descrevia muito bem como seria o Céu e nem mesmo o Inferno, e como seria a existência permanente nesses locais.

Acredito que, de certa forma, os filósofos realmente sejam mais felizes na tentativa de descrever hipoteticamente o Céu e o Inferno, pois o fazem com a liberdade do pensamento que não se prende a peias eclesiásticas. Não pretendem comprovar ou mesmo sustentar nenhum pressuposto religioso ou linha teológica contemporânea. Não obstante, as versões de alguns carecem de uma ótica importantíssima para uma avaliação mais adequada, ou por assim dizer, plausível, uma vez que falamos de um tema ligado a fé e a esperança: O propósito de Deus para a existência desse Reino.

Você pode aí até me considerar pedante por querer ver “... a partir do propósito do próprio Deus”. Mas vamos tentar trilhar esse caminho juntos, raciocinando sem necessariamente usarmos o texto bíblico como base, de modo que possamos sair do lugar comum, e caminhar por uma estrada que nos leve à razão daquilo em que acreditamos. Sim, porque creio, como você, que é preciso fugir dos “clichês” amarelados, desgastados, que não conseguem mais satisfazer as mentes mais atentas. Mentes que não aceitam as tentativas subliminares de manipulação dos ouvintes ou leitores, que circulam flagrantes e sem nenhum pudor no nosso meio. Essa vulgarização do sagrado, talvez, tenha provocado a frase que li, não me lembro onde, que dizia: "O inferno já não assusta, assim como o céu já não encanta mais".

Sinceramente não me espanta que não encante mais. Em plena era da informação, saúde e boa forma, e da tecnologia, em que a sociedade valoriza a atividade constante, seja ela física ou mental, insistimos em considerar como céu, um lugar ou estado de descanso eterno e vida contemplativa. Por isso eu costumo brincar com meus colegas que reclamam que eu durmo pouco: “Dormir para quê? Quando morrer dormirei o resto da vida!”. Há até os que brincam dizendo que se no céu não houver futebol e mulher bonita, preferirão ir para o inferno. É evidente que não pensam isso de verdade. Mas de certa forma denunciam a sensação de incômodo, provocada pela possibilidade de uma próxima existência ser menos interessante e aventureira que a atual. Ninguém prefere o insípido ao saboroso.

Observemos que quase a totalidade das religiões, dependendo de sua origem e das circunstâncias de vida de seus seguidores, o céu ou o reino porvir varia conforme aquilo que julgam ser mais reconfortante e valoroso como prêmio. Transferem suas recompensas e suas esperanças do aqui e agora, para uma existência futura, crendo num porvir mais exuberante. Podemos constatar isso estudando, mesmo que superficialmente, qualquer religião que julgue existente uma vida após a morte.

Mas voltando ao meu petulante prisma do propósito de Deus, precisamos avaliar alguns princípios pertinentes:

1 – Embora a Bíblia seja sempre atual em sua mensagem e em seu poder de revelar Deus à humanidade, seus autores se utilizaram de alegorias comuns à sua época, para que sua comunicação e argumentação pudessem ser persuasivas e convincentes aos seus circunstantes. Ao usar a expressão “Reino de Deus”, Jesus o está diferençando do reino romano que subordinava e oprimia o povo de Israel. Tanto é assim, que o aguardado Messias do Antigo Testamento, segundo a interpretação messiânica judaica, seria um libertador nacional, que devolveria aos judeus a liberdade e a soberania em seu próprio território. O mesmo princípio que orienta João a descrever em Apocalipse uma “Nova Jerusalém”, um lugar totalmente outro do que viviam seus leitores e liderados. Havia ainda o domínio opressor dos sacerdotes e fariseus, que exerciam grande influência negativa sobre as pessoas comuns, comercializando com a fé e manipulando com certo terrorismo religioso os mais piedosos e sinceros devotados. Isso, portanto, indica que o conceito de Reino, mais do que pretender estabelecer a existência de um lugar cósmico e de condições excelente, traduzia na verdade que o “Reino de Deus” seria um “lugar” onde as condições de vida existentes naquela época seriam completamente outras, invertidas... Transformadas. O Reino de Deus é, portanto, anunciado como novidade de vida, transformação das condições existentes, redenção... Ou ainda a passagem do estado de “caos” para “ordem”, criando um paralelo ao que Deus fez quando criou o mundo; “... A Terra, porém, era sem forma e vazia...” traduzida da Torá como “caos e ruínas”.

2 – Se cremos no que colocamos até agora, podemos concluir então que Reino de Deus está mais perto de ser um estado de coisa do que propriamente um lugar, ou um ponto geográfico passível de ser descrito fisicamente ou apontado geograficamente. Assim, qual maior recompensa poderia ter aquele que ama a Deus, do que sua presença? Que maior realização poderia existir no porvir, do que o relacionamento direto com o Pai, a comunhão constante, livre das solicitudes que a vida cotidiana em um mundo conturbado nos impõe?

3 – Seguindo ainda nessa linha, o inferno seria simplesmente o inverso disso. A ausência de Deus, a dor do remorso de tê-Lo rejeitado, banido da própria vida... Evitado o próprio autor da vida. Tal circunstância faria desse estado de coisa, um “lugar” de dor, “de choro e ranger de dentes”... Remorsos, amarguras. Condição imutável na qual não mais caberia arrependimento.

Não posso e não consigo enxergar o Reino de Deus de outra forma. Se o Reino de Deus é para aqueles que O querem, O preferem, O buscam, que maior recompensa ou novidade de vida, do que sua presença constante e muita atividade relacional, num exercício pleno e eterno de interação com nosso Criador?

Descanso? Sim, até acredito que teremos. Mas o descanso da luta contra “a carne”, de vivenciar a injustiça que assola o planeta, da miséria que ceifa milhares de vidas por dia, das guerras travadas por motivos insustentáveis... Talvez seja esse o descanso prometido por Jesus.

Espero Antônio, que minha nova exposição tenha deixado mais clara a minha posição. Continuo concordando com você. Nosso povo e também aqueles que se dizem líderes, deveriam usar mais do poder do discernimento, deixando de lado a preguiça de pensar. Não deveriam alimentar suas almas com “migalhas” da fé. Para mim, a teologia será ainda mais apaixonante quanto mais pragmática e aplicável na vida real ela puder ser, oferecendo conforto e consolo. De modo que, conhecer uma possível descrição física do reino de Deus, nada de novo ou edificante traria para a alma. Seria apenas um saber. Mas como diria Rubem Alves, o sabor, o prazer desse reino estará na comunhão com Aquele por quem anseia a nossa alma. Isso sim nos preenche de esperança, e renova as forças para vivermos o mundo real agora, aguardando o dia em que O poderemos ver “frente a frente”.

Nele, que estabelece seu Reino em nossos corações já nessa vida...

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