domingo, 6 de julho de 2014

* Por que estudar Teologia. E não Por que DEVEMOS estudar Teologia?




- O que? Biologia?
- Não, não. Teologia!
- Ah!... Legal. E a pessoa responde normalmente sem graça. E aí pensa: Teologia? Será que ele quer ser padre? Mas ele não é evangélico? Xii... Se eu esticar a conversa, já já ele vai querer pregar para mim... Isso tudo enquanto olha através de mim, buscando na imaginação uma boa desculpa para fugir para bem longe. Algumas outras pessoas um pouco mais interessadas, sinceramente perguntam: - Mas por que teologia? E aí a conversa fica ainda mais louca.
Intelectualmente vaidoso, sempre procurei elaborar uma resposta que fosse ao mesmo tempo consistente, pertinente, admirável e racional. Um malabarismo conceitual que me obrigava a rechear a resposta com lógicas e motivações de senso comum, que me fizessem parecer um jovem equilibrado, maduro. Um religioso longe de ser apontado como fanático, superficial, ou tendencioso. Perdi a conta de quantas vezes me arrependi das coisas que disse ao me justificar. Tudo na intenção camuflada de ser reconhecido positivamente, bem aceito, e não ser flagrado num ativismo secundário e sem importância. Vaidade de vaidade. Tudo é vaidade.

No fundo, por mais que eu quisesse passar a idéia de ser alguém livre das convenções, fui iludido e me fartei do mesmo manjar. Minha escolha pela teologia precisava ter contornos de utilidade prática e importância social. Eu precisava sentir-me admirado e intelectualmente respeitado. O impulso que orientou minha opção estava certo. Mas a convicção que sustenta o caminho era fraca. E diante das demandas da vida e obrigações que se impuseram, sucumbi. Como na parábola do semeador, em que as sementes caem entre os espinhos.

Muitas noites se seguiram em elucubrações sem fim, com o peito ardendo. Queria entender e identificar para mim mesmo o sentido prático em estudar teologia. Até o dia em que consegui perceber o que sempre esteve diante dos meus olhos; na verdade dentro de mim. Eu sinto prazer em fazer teologia. Isso mesmo; prazer.

Nosso modelo ocidental despreza o prazer como motivação aceitável para toda e qualquer atividade que se possa julgar legítima, e razoavelmente relevante. Prazer está relacionado à satisfação pessoal e íntima, remetendo ao lascivo e ao egoísta. Logo, aquilo que é prazeroso, seguindo-se essa ótica, não pode ser considerado de interesse comum, ou nobre em seu mote original. Apenas o fruto do sacrifício, ou daquilo que é realizado por obrigação, ganha a chancela do louvável. Por essa razão, tantas pessoas narram seus feitos, recheando a história com dificuldades aumentadas, e sacrifícios admiráveis. – Foi difícil, sabe? Mas apesar de tudo, cumpri com minhas obrigações. Era a minha missão! E o orgulho de si mesmo escorrendo pelos cantos da boca. Uma compulsão por sentir-se cumprindo um sacerdócio.

Talvez eu até esteja frustrando alguns, que gostariam de ler uma fantástica história de chamado, que justificasse minha escolha. Um relato que homologasse uma vocação inexorável. Se eu puxar pela memória, talvez possa até identificar uma ou outra circunstância que seja interpretada como um chamado. Mas desculpem os acusadores de plantão. Se não sentisse tanto prazer, talvez não me gastasse tanto, nem me dedicasse tanto. Mas é difícil analisar qualquer circunstância baseado em escolhas que não tomamos. Não há como avaliar como teria sido a vida que não escolhi ter.

Mas afinal, não é o próprio prazer em realizar, uma vocação intrínseca? Não seria a atração por Deus um inquestionável chamado?


"Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos."
Oséias 6:6 - RA


É claro que, seguindo os mais aceitáveis e conhecidos padrões apologéticos, seria possível destacar algumas relevantes razões para o estudo da teologia. Razões que passeiam tanto pela defesa da fé, quanto pelo “Ide” de Jesus. Os grandes mestres da Teologia Sistemática foram prodigiosos em relacionar motivações diversas e muito bem sustentadas. Mas eu prefiro a afirmação relacional de Anselmo de Cantuária; Não estudamos para crer; estudamos porque cremos. É a minha fé que me impulsiona a estudar. É meu amor por Deus que me faz querer conhecê-lo. Estudar teologia está para o cristão, assim como a poesia para os amantes. É gastar-se em pensar, e falar sobre as manifestações do seu amor.
   
Talvez eu até fosse mais considerado, lido e ouvido, se dissesse que estudo teologia por dever. Mas por vício de conduta, prefiro dizer com toda a convicção, que o faço tão somente pelo prazer de pensar Deus todo o tempo; minha motivação única e mais que suficiente. Afinal, para onde iria eu se tu tens as palavras de vida eterna?

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