Por Jânsen Leiros
Textos fundamentais: Mateus 8:5–13; Lucas 7:1–10.
Introdução — Quando a fé surpreende a religião
Entre os muitos encontros registrados nos Evangelhos, poucos apresentam uma combinação tão singular de circunstâncias quanto o encontro entre Jesus e o centurião de Cafarnaum.
De um lado, Jesus, judeu, mestre religioso e anunciador do Reino de Deus. De outro, um oficial militar estrangeiro, pertencente a uma estrutura de autoridade associada ao domínio romano sobre a Palestina.
O que aproxima esses dois homens não é uma discussão política, uma disputa religiosa ou uma questão de poder. É o sofrimento de um servo e a convicção extraordinária de seu senhor de que Jesus poderia curá-lo.
O episódio, registrado por Mateus e Lucas, culmina numa das declarações mais surpreendentes atribuídas a Jesus:
Em verdade vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé.
— Mateus 8:10, tradução de trabalho.
A afirmação merece uma investigação cuidadosa.
O que havia na compreensão daquele militar que justificasse tamanha admiração? Tratava-se simplesmente da confiança no poder de um curandeiro extraordinário? Ou estaríamos diante de um reconhecimento mais profundo da natureza da autoridade exercida por Jesus?
E, principalmente, até onde podemos avançar na interpretação de sua fé sem atribuir ao texto afirmações que ele não faz?
Essas questões orientarão nosso estudo.
1. O centurião: um estrangeiro diante do Messias de Israel
O centurião era um oficial militar cuja função estava associada ao comando de uma unidade de soldados, normalmente identificada com uma centúria. Sua autoridade decorria de uma estrutura hierárquica na qual a obediência às ordens constituía um princípio fundamental.
A narrativa não informa seu nome, sua origem geográfica ou a unidade militar a que pertencia.
Sua identificação como romano é bastante natural na leitura tradicional, considerando o título militar empregado e o contexto político da Palestina no primeiro século. Entretanto, uma precisão histórica é necessária.
Cafarnaum situava-se na Galileia, território governado por Herodes Antipas, tetrarca subordinado à ordem imperial romana. É possível, portanto, que o oficial estivesse vinculado a forças locais organizadas segundo padrões militares romanos, embora também seja possível alguma outra vinculação ao aparato imperial.
A declaração de Jesus — “nem mesmo em Israel” — constitui um elemento relevante para a interpretação de sua condição estrangeira.
Entretanto, a expressão contrapõe principalmente a fé daquele homem à encontrada entre o povo de Israel. Ela não identifica, por si mesma, sua unidade militar ou cidadania.
O que se destaca com segurança é sua condição de gentio, alguém situado fora da comunidade étnico-religiosa judaica.
E é precisamente essa condição que torna o episódio tão significativo.
Jesus encontra uma manifestação extraordinária de fé num homem que não pertencia ao povo historicamente depositário das promessas, das alianças e da tradição profética de Israel.
Não significa que Israel estivesse destituído de fé. Significa que a pertença à comunidade religiosa não constituía garantia de uma compreensão superior da autoridade divina.
A fé, naquele episódio, manifestou-se onde talvez muitos não esperassem encontrá-la.
2. Mateus e Lucas: dois relatos, diferentes perspectivas
Mateus 8:5–13 apresenta o centurião dirigindo-se a Jesus e solicitando a cura de seu servo, que estava paralisado e sofria intensamente.
Lucas 7:1–10 acrescenta circunstâncias importantes.
Segundo Lucas, o centurião inicialmente envia anciãos judeus para interceder junto a Jesus. Esses representantes apresentam o oficial como alguém digno de receber sua ajuda, porque amava a nação judaica e havia contribuído para a construção de uma sinagoga.
Posteriormente, quando Jesus já se aproximava da residência, o militar envia amigos com uma mensagem de humildade e confiança.
Essa diferença narrativa admite interpretações distintas.
É possível que Mateus tenha condensado os acontecimentos, atribuindo diretamente ao centurião palavras comunicadas por seus representantes. Essa maneira de narrar, na qual o emissário fala em nome daquele que o enviou, não seria estranha ao mundo antigo.
Também é possível que os evangelistas tenham preservado versões diferentes da tradição sobre o acontecimento.
O mais prudente é reconhecer a diferença sem transformá-la precipitadamente em contradição insolúvel ou em harmonização obrigatória.
Há, contudo, uma convergência fundamental: ambos os evangelistas preservam a declaração de confiança na autoridade de Jesus, a admiração provocada por aquela fé e a cura do enfermo.
Mateus concentra sua narrativa no encontro entre a fé gentílica e a autoridade messiânica. Lucas amplia o cenário, destacando as relações entre o centurião e a comunidade judaica.
3. A autoridade de Jesus: uma percepção que ultrapassa o milagre
A declaração mais importante do centurião encontra-se em Mateus 8:8:
Senhor, não sou digno de que entres em minha casa; mas apenas manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado.
O militar prossegue apresentando uma analogia com sua própria experiência.
Ele também é homem sujeito à autoridade e possui soldados sob suas ordens. Quando manda um ir, ele vai; quando ordena a outro que venha, ele vem.
Essa comparação revela uma compreensão extraordinária.
O centurião sabia que a autoridade verdadeira não dependia da presença física de quem a exercia. A ordem de um comandante continuava válida mesmo quando transmitida à distância.
Aplicando esse princípio a Jesus, reconhecia que sua palavra possuía eficácia independentemente de sua presença junto ao enfermo.
Entretanto, a analogia militar não explica inteiramente a profundidade da declaração.
Um comandante pode ordenar movimentos, deslocamentos e ações de seus subordinados. Não pode, por sua própria autoridade, ordenar que uma enfermidade desapareça.
O centurião, porém, acreditava que Jesus podia fazê-lo.
É justamente nesse ponto que a analogia ultrapassa o domínio militar e alcança uma dimensão teológica.
Aquele homem reconhecia em Jesus uma autoridade capaz de agir sobre a própria condição física de outro ser humano, restaurando-lhe a saúde por meio de uma palavra.
Não se tratava de simples comando sobre pessoas, mas de uma autoridade que alcançava a enfermidade e, por consequência, a preservação da vida.
Isso não demonstra, isoladamente, que o centurião possuísse uma cristologia plenamente desenvolvida. Mas permite considerar uma hipótese importante: sua fé talvez não estivesse limitada ao reconhecimento de Jesus como instrumento de poder divino, podendo incluir a percepção de uma presença singular do próprio Deus naquele homem.
A narrativa não esclarece até onde chegava essa compreensão.
Todavia, a intensidade da confiança manifestada torna legítimo investigar essa possibilidade.
4. A encarnação divina e o universo religioso do centurião
A hipótese de que o centurião pudesse reconhecer em Jesus uma manifestação singular da divindade torna-se ainda mais interessante quando considerada à luz do ambiente religioso greco-romano.
Diferentemente da tradição judaica, fortemente comprometida com a unicidade e transcendência de Deus, o universo religioso greco-romano conhecia narrativas sobre divindades que assumiam formas humanas, visitavam os mortais e interferiam diretamente em seus destinos.
Na mitologia grega, por exemplo, Zeus e Hermes aparecem sob aparência humana no episódio de Báucis e Filêmon, narrado por Ovídio nas Metamorfoses.
Essa familiaridade cultural com manifestações divinas em forma humana poderia tornar menos estranha, para determinados gentios, a possibilidade de uma presença divina extraordinária em Jesus.
Entretanto, devemos estabelecer duas distinções.
A primeira é que a tradição judaica também conhecia manifestações visíveis de Deus, inclusive narrativas de encontros com figuras humanas ou angelicais associadas à presença divina, como em Gênesis 18. Portanto, não seria correto afirmar que a manifestação divina em forma humana fosse absolutamente inconcebível ao pensamento judaico.
A segunda é que as aparições mitológicas de deuses não equivalem à doutrina cristã da encarnação.
Na cristologia cristã, a encarnação não consiste simplesmente numa divindade que assume temporariamente aparência humana. Trata-se da afirmação de que o Verbo se fez carne, conforme João 1:14.
São concepções substancialmente diferentes.
Ainda assim, o ambiente religioso greco-romano pode oferecer uma chave interpretativa interessante.
Um gentio familiarizado com narrativas de manifestações divinas poderia estar culturalmente mais disposto a admitir uma presença extraordinária do sagrado numa pessoa humana.
Isso não comprova que o centurião tenha identificado Jesus como Deus encarnado. Tampouco sabemos quais eram suas crenças religiosas anteriores.
Mas torna intelectualmente legítima a hipótese de que sua compreensão da autoridade de Jesus ultrapassasse a simples expectativa de um milagre.
O que não podemos afirmar como fato histórico é que essa percepção tenha nascido especificamente da mitologia greco-romana.
5. A indignidade declarada: reverência e consciência das barreiras religiosas
A afirmação “não sou digno de que entres em minha casa” merece uma atenção especial.
Tradicionalmente, ela é interpretada como manifestação de humildade.
Essa leitura é correta, mas talvez insuficiente.
Podemos identificar duas dimensões complementares na declaração.
A primeira é a reverência diante da autoridade sagrada.
O centurião reconhecia que Jesus ocupava uma posição extraordinária, diante da qual sua própria autoridade militar perdia importância.
Ele, acostumado a comandar homens, apresenta-se como alguém que não se considera digno de receber Jesus sob seu teto.
Há uma inversão impressionante de posições.
Aquele que estava habituado a ordenar reconhece diante de si uma autoridade superior.
Se sua fé incluía a percepção de uma manifestação divina em Jesus, sua declaração de indignidade adquiria um significado ainda mais profundo: não se trataria apenas de humildade diante de um mestre, mas de reverência diante da presença do sagrado.
A segunda dimensão possível é a consciência das barreiras religiosas existentes entre judeus e gentios.
O centurião poderia saber que a entrada de um judeu observante na residência de um gentio provocaria objeções em determinados círculos religiosos.
O próprio Novo Testamento registra a existência dessas tensões.
Em Atos 10:28, Pedro afirma que a convivência e aproximação com estrangeiros eram consideradas inadequadas segundo as convenções religiosas que conhecia.
Em João 18:28, determinados judeus evitam entrar no pretório para não se contaminarem ritualmente antes da Páscoa.
Esses textos demonstram que havia preocupações concretas envolvendo pureza, alimentação e convivência entre judeus e gentios.
Entretanto, não devemos concluir que a Torá estabelecesse uma proibição universal e automática de entrada na casa de qualquer gentio.
As práticas de separação variavam conforme os grupos e as interpretações religiosas.
Além disso, os Evangelhos não afirmam expressamente que o centurião estivesse tentando proteger Jesus de uma impureza ritual.
Essa é uma possibilidade interpretativa, não uma informação fornecida pelo relato.
Ainda assim, a hipótese merece consideração.
Um homem que demonstrava respeito pela comunidade judaica, a ponto de contribuir para sua sinagoga, provavelmente conhecia algumas de suas sensibilidades religiosas.
É possível, portanto, que sua declaração reunisse reverência pessoal e preocupação em não criar constrangimentos para Jesus.
O resultado é teologicamente significativo.
O centurião não exige que Jesus ultrapasse as barreiras sociais e religiosas para atender ao seu pedido. Sua fé reconhece que a palavra de Jesus é suficiente para ultrapassar até mesmo a distância que essas barreiras estabeleciam.
6. A fé anterior ao milagre: reconhecimento ou conversão?
Uma questão fundamental permanece: aquele centurião era convertido?
Os Evangelhos não registram sua conversão anterior ao encontro com Jesus, nem narram uma conversão posterior.
Entretanto, o silêncio narrativo não constitui prova de inexistência.
Não podemos afirmar que o centurião tenha se convertido. Mas também não podemos afirmar que não tenha experimentado uma transformação religiosa profunda.
O que o texto efetivamente demonstra é que ele possuía uma fé extraordinária na autoridade de Jesus.
E essa fé antecedeu a realização do milagre.
Esse detalhe é decisivo.
O centurião não acreditou porque viu seu servo ser curado. Ele acreditava que Jesus poderia curá-lo antes que a cura acontecesse.
Sua confiança não nasceu da constatação do resultado, mas da compreensão da autoridade daquele a quem recorria.
É importante lembrar que a fé bíblica não se limita à aceitação intelectual de determinadas proposições religiosas.
Ela envolve confiança, reconhecimento e disposição para depender daquele em quem se crê.
Nesse sentido, a atitude do centurião expressa uma confiança pessoal extraordinária em Jesus.
Seria possível que essa confiança existisse sem uma compreensão completa de sua identidade?
Certamente.
Os próprios discípulos levaram tempo para compreender a identidade e a missão de Jesus.
Mas seria igualmente possível que aquele homem já reconhecesse nele uma manifestação singular do próprio Deus?
Também.
O texto não permite resolver definitivamente essa questão.
Contudo, a reação de Jesus demonstra que aquela fé não era superficial.
Não estamos diante de uma aprovação meramente protocolar.
Jesus a apresenta como excepcional, utilizando-a como referência para seus próprios ouvintes.
Portanto, ainda que não possamos demonstrar uma conversão formal, também não seria adequado reduzir a experiência do centurião a uma admiração ocasional por um taumaturgo.
Sua fé foi suficientemente profunda para que Jesus a reconhecesse como exemplar.
7. A declaração de Jesus: nem mesmo em Israel
A reação de Jesus constitui o ponto culminante da narrativa.
Em Mateus 8:10, Jesus declara não ter encontrado tamanha fé em Israel.
Lucas 7:9 preserva declaração equivalente.
O contraste é teologicamente poderoso.
Israel possuía a tradição profética, as Escrituras, a memória das alianças e a expectativa messiânica.
O centurião, por sua vez, não pertencia originalmente a essa tradição religiosa.
Entretanto, foi nele que Jesus identificou uma compreensão extraordinária de sua autoridade.
A declaração não deve ser interpretada como rejeição indiscriminada de Israel, tampouco como afirmação de superioridade espiritual dos gentios.
O próprio Jesus, seus discípulos e os primeiros integrantes de sua comunidade eram judeus.
A questão é outra.
A familiaridade com a revelação não garante, necessariamente, o reconhecimento de sua manifestação.
É possível conhecer as tradições religiosas, dominar suas linguagens e participar de suas instituições sem compreender plenamente aquilo para o qual apontam.
Da mesma forma, alguém situado fora dessas instituições pode manifestar uma fé surpreendentemente profunda.
Mateus amplia essa reflexão ao registrar que muitos virão do Oriente e do Ocidente para participar do banquete com Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos Céus.
A imagem remete à universalidade das promessas divinas e à inclusão escatológica daqueles que, embora não pertencentes etnicamente a Israel, respondem com fé à iniciativa de Deus.
A promessa feita a Abraão, em Gênesis 12:3, de que nele seriam abençoadas todas as famílias da terra, encontra nesse episódio uma antecipação significativa.
A fé do centurião torna-se, assim, mais do que uma virtude individual.
Ela participa da revelação progressiva do alcance universal do Reino de Deus.
8. A autoridade que não precisa estar presente
Há ainda uma dimensão cristológica que merece destaque.
O centurião compreende que a palavra de Jesus possui eficácia independentemente de sua presença física.
Essa percepção aproxima o episódio de um tema recorrente nas Escrituras: o poder criador e realizador da palavra divina.
Em Gênesis 1, Deus cria por sua palavra.
No Salmo 33:9, a eficácia dessa palavra é celebrada: Deus fala, e aquilo que ordena acontece.
Em Isaías 55:10–11, a palavra divina é apresentada como eficaz, não retornando sem realizar o propósito para o qual foi enviada.
Essas passagens não demonstram que o centurião estivesse conscientemente fazendo uma associação com tais textos.
Entretanto, oferecem ao leitor cristão um horizonte teológico para compreender a profundidade de sua declaração.
O homem que comandava soldados sabia que sua palavra dependia de uma autoridade delegada e limitada.
Ao dirigir-se a Jesus, reconheceu uma autoridade cuja eficácia alcançava uma enfermidade que nenhum comando militar poderia dominar.
A diferença entre as duas autoridades é fundamental.
A autoridade do centurião organizava comportamentos humanos.
A autoridade de Jesus restaurava aquilo que o poder humano não conseguia restaurar.
O episódio, portanto, não apresenta apenas uma comparação entre dois comandantes.
Apresenta o encontro entre uma autoridade institucional, sustentada por uma hierarquia humana, e uma autoridade cuja natureza ultrapassava os limites ordinários da experiência.
9. A antecipação de uma questão que reaparecerá em Cornélio
O centurião de Cafarnaum antecipa uma questão que receberá desenvolvimento extraordinário no livro de Atos.
Em Atos 10, outro centurião, Cornélio, será apresentado como homem piedoso, temente a Deus, generoso e perseverante na oração.
Antes mesmo de ouvir a proclamação apostólica de Pedro, Cornélio já será descrito como alguém cujas orações e esmolas haviam chegado à presença de Deus.
Entretanto, sua história prosseguirá com a pregação do Evangelho, o recebimento do Espírito Santo e o batismo.
Os dois relatos não são idênticos.
O centurião de Cafarnaum é apresentado principalmente por sua confiança extraordinária na autoridade de Jesus.
Cornélio será apresentado no contexto da expansão missionária da Igreja e da inclusão dos gentios na comunidade cristã.
Mas ambos suscitam uma questão comum:
Como compreender a atuação da graça divina na vida daqueles que ainda não participam plenamente das estruturas históricas da comunidade da fé?
O primeiro episódio demonstra que Jesus reconheceu uma fé extraordinária fora das fronteiras étnicas de Israel.
O segundo mostrará a iniciativa divina conduzindo um gentio piedoso ao encontro explícito com a mensagem apostólica.
A relação entre os dois acontecimentos merece investigação, mas não devemos antecipar suas conclusões.
Conclusão — O homem que reconheceu a autoridade
O centurião de Cafarnaum representa uma das figuras mais instigantes dos relatos evangélicos.
Militar, estrangeiro e habituado às estruturas de comando, ele encontrou em Jesus uma autoridade diferente de todas aquelas que conhecia.
Sua confiança não exigia demonstração presencial.
Sua reverência não dependia de reconhecimento social.
Sua fé não nasceu da comprovação do milagre.
Antes, foi sua fé que o levou a confiar na possibilidade do milagre.
Não sabemos se aquele homem compreendia plenamente a natureza divina de Jesus. Não sabemos se sua experiência culminou numa conversão religiosa formal, anterior ou posterior ao acontecimento.
Mas sabemos que Jesus reconheceu nele uma fé extraordinária.
E essa constatação é suficiente para conferir ao episódio uma relevância teológica permanente.
A possibilidade de que sua compreensão estivesse relacionada a uma percepção da presença divina em Jesus permanece aberta à investigação, especialmente quando considerada à luz das concepções religiosas do mundo greco-romano.
Da mesma forma, sua declaração de indignidade pode reunir tanto reverência diante do sagrado quanto sensibilidade às barreiras religiosas que separavam judeus e gentios.
Nenhuma dessas hipóteses precisa ser transformada em certeza para enriquecer nossa compreensão do episódio.
O que permanece incontestável é o contraste apresentado pelos evangelistas: um homem situado fora das fronteiras tradicionais de Israel demonstrou uma confiança na autoridade de Jesus que o próprio Cristo destacou como exemplar.
Talvez a maior lição daquele encontro esteja precisamente nisso.
A fé não se mede apenas pela quantidade de conhecimento religioso acumulado, mas pela profundidade com que alguém reconhece e confia na autoridade daquele a quem se dirige.
O centurião não apresentou a Jesus uma elaboração doutrinária.
Apresentou-lhe uma convicção.
E, segundo os Evangelhos, essa convicção surpreendeu o próprio Jesus.
Referências bíblicas para aprofundamento
Mateus 8:5–13: relato do centurião e dimensão escatológica da fé gentílica.
Lucas 7:1–10: mediação dos anciãos, relação com a comunidade judaica e declaração de indignidade.
Gênesis 12:3: promessa de bênção a todas as famílias da terra.
Gênesis 18:1–15: manifestação divina na narrativa patriarcal.
Salmo 33:6–9: eficácia criadora da palavra de Deus.
Isaías 55:10–11: eficácia da palavra divina.
João 1:1–14: identidade do Verbo e encarnação.
João 18:28: preocupações rituais relacionadas ao contato com ambientes gentílicos.
Atos 10:1–48: Cornélio e a inclusão dos gentios na comunidade cristã.
Atos 11:1–18: discussão apostólica sobre a acolhida dos gentios.
Romanos 4:9–12: a fé de Abraão e sua relação com a circuncisão.
Efésios 2:11–22: reconciliação entre judeus e gentios em Cristo.
Referência histórico-literária complementar: Ovídio, Metamorfoses, livro VIII, episódio de Báucis e Filêmon, como testemunho de concepções greco-romanas sobre divindades que se apresentam sob forma humana.





