quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Congregação, Culto e Celebração - Segundo Movimento

 

Por Jânsen Leiros Jr.

 

O encontro dos que já vivem em culto

 

Dietrich Bonhoeffer

“Aquele que ama mais o sonho da comunidade do que a própria comunidade torna-se destruidor dela.”

Stanley Hauerwas

“A Igreja não existe para tornar o mundo mais gerenciável, mas para ser um povo cuja vida, em comum, diga a verdade sobre Deus.”

James K. A. Smith

“Não somos formados primariamente por aquilo que pensamos, mas por aquilo que praticamos juntos, repetidamente, como comunidade.”

 

Se o culto é a vida inteira oferecida a Deus, então a congregação não pode ser confundida com um ajuntamento ocasional de indivíduos religiosos. Ela não é o lugar onde o culto começa, mas o espaço onde ele se torna visível. A congregação não cria o culto; ela o revela. Não o inaugura; o confirma. Não o substitui; o testemunha.

Aqui reside um equívoco frequente e pastoralmente devastador: imaginar que a reunião semanal transforma pessoas que, ao longo da semana, não vivem sob o senhorio de Cristo. A Escritura nunca sustentou essa expectativa. Ao contrário, ela sempre apresentou a congregação como o encontro daqueles que já foram chamados, alcançados, confrontados e reorganizados por Deus no ordinário da vida. A reunião não é o laboratório da fé; é sua expressão pública.

Quando o Novo Testamento fala de Igreja, ele não se refere a um público consumidor de experiências espirituais, mas a um corpo. E corpo pressupõe interdependência, responsabilidade mútua e permanência. Não se entra e sai de um corpo sem consequências. Não se pertence a ele de modo casual. A metáfora paulina é profundamente desconfortável para uma espiritualidade individualista: “Vós sois o corpo de Cristo” (1Co 12.27). Não clientes. Não espectadores. Não usuários ocasionais. Corpo.

A congregação, portanto, não é um serviço religioso oferecido a indivíduos autônomos, mas uma forma de vida compartilhada entre pessoas que já não se pertencem. É a comunhão dos que foram deslocados do centro de si mesmos e agora aprendem, juntos, a viver coram Deo[1]. Isso explica por que o Novo Testamento fala tanto de exortação mútua, de confissão recíproca, de paciência uns com os outros, de carregar fardos alheios. Congregação não é conforto espiritual; é escola de santidade.

Nesse sentido, o encontro congregacional é inevitavelmente formativo. Ainda que não percebamos, somos moldados pelas práticas que repetimos juntos: pela escuta comum da Palavra, pela oração comunitária, pelo cântico compartilhado, pelo partir do pão, pela disciplina espiritual exercida em comunhão. Não nos reunimos apenas para expressar fé; reunimo-nos para sermos continuamente reconfigurados por ela. A congregação é o lugar onde aprendemos, corporal e relacionalmente, o que significa pertencer a Cristo.

Isso também implica reconhecer que a congregação não existe para satisfazer preferências pessoais, estilos individuais ou expectativas de consumo religioso. Quando reduzimos a Igreja a um espaço onde “me sinto bem”, deslocamos seu centro do senhorio de Cristo para o gosto humano. A pergunta bíblica não é “o que essa congregação me oferece?”, mas “que tipo de povo Deus está formando aqui?”. A fidelidade precede o conforto. A comunhão precede a afinidade.

Por isso, não é acidental que a Escritura descreva a vida comunitária como algo que exige perseverança. O livro de Atos não romantiza a Igreja primitiva; ele mostra uma comunidade que precisa aprender a lidar com tensões, conflitos, diferenças culturais, falhas morais e disputas internas. Ainda assim, “perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At 2.42). Congregação não é ausência de conflito; é compromisso em meio a ele.

Talvez um dos maiores sinais da crise eclesial contemporânea seja a facilidade com que se troca de congregação sem discernimento espiritual, como quem troca de prestador de serviço. Isso revela não apenas fragilidade institucional, mas uma compreensão empobrecida do que significa ser Igreja. Pertencer a uma congregação é submeter-se a um processo. É aceitar ser visto, conhecido, confrontado e cuidado. É permitir que outros tenham voz sobre nossa caminhada. Isso não é confortável — mas é profundamente evangélico.

Se o culto é a vida entregue, a congregação é o lugar onde essa entrega é acompanhada. Onde somos lembrados, quando esquecemos, de quem somos e a quem pertencemos. Onde nossa fé privada é colocada sob a luz da comunhão. Onde aprendemos que seguir a Cristo nunca foi um projeto individual.

A congregação, assim, não é o destino final da fé, mas um meio providencial. Ela não substitui a obediência pessoal, mas a sustenta. Não elimina a responsabilidade individual, mas a aprofunda. É ali que o culto vivido ao longo da semana encontra eco, correção e encorajamento.

Somente depois de compreender isso é que podemos falar adequadamente de celebração. Porque a celebração não nasce do vazio, nem da performance, nem da tentativa de produzir emoção coletiva. Ela nasce do encontro dos que, tendo vivido em culto, agora transbordam juntos.

No próximo movimento, entraremos em A Celebração – o transbordamento comunitário da salvação, onde o que foi vivido em silêncio durante a semana ganha voz, forma e expressão pública.


[1] Coram Deo é uma expressão latina que significa “diante de Deus”. Na tradição cristã, refere-se à vida vivida continuamente na presença de Deus, sob Sua autoridade e para Sua glória, sem separação entre o sagrado e o cotidiano.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

A Congregação, o Culto e a Celebração - Primeiro Movimento

 

Por Jânsen Leiros Jr.

 

Quando chamamos de culto aquilo que Deus chama de vida

 

John Stott

" A verdadeira adoração não se limita ao que acontece no templo, mas se expressa na vida inteira vivida sob o senhorio de Cristo. Separar culto de obediência é esvaziar ambos."

A. W. Tozer

" Não podemos afirmar que adoramos a Deus se nossa vida cotidiana permanece intocada por Sua santidade. Toda adoração que não transforma o caráter é apenas ruído religioso."

Lesslie Newbigin

" A Igreja não é um ajuntamento religioso que ocasionalmente testemunha ao mundo, mas uma comunidade moldada por uma história diferente, vivendo publicamente sob o reinado de Deus."

Eugene Peterson

" A espiritualidade cristã não é um momento de intensidade religiosa, mas uma longa obediência na mesma direção, onde o ordinário da vida se torna o lugar do encontro com Deus."

 

Há algo profundamente equivocado na forma como o cristianismo contemporâneo fala sobre culto. Chamamos de culto aquilo que acontece em um dia específico da semana, em um horário determinado, dentro de um espaço previamente organizado — e, ao fazê-lo, deslocamos o centro da fé do cotidiano para o evento, da vida para o rito, da entrega para a agenda.

O resultado é previsível: vidas fragmentadas que se sentem espirituais por algumas horas, mas continuam intactas em sua lógica, valores e práticas ao longo da semana. A consciência se tranquiliza com a participação; a alma, porém, permanece inalterada. Confundimos presença com devoção, frequência com fé, e liturgia com obediência.

A Escritura, no entanto, nunca tratou o culto como um compartimento da vida. Ao contrário, ela insiste em desmontar qualquer tentativa de confinar Deus a um lugar, a uma forma ou a um momento específico. Quando o profeta Amós registra a repulsa divina por solenidades religiosas desconectadas da justiça, ele não está atacando a liturgia em si, mas denunciando uma fé que aprendeu a celebrar sem se converter (Am 5.21–24). Jesus, por sua vez, foi ainda mais incisivo ao afirmar que nem o monte, nem o templo, nem Jerusalém seriam os referenciais do verdadeiro culto, mas a vida rendida “em espírito e em verdade” (Jo 4.21–24).

Talvez o problema não esteja na maneira como realizamos nossos cultos, mas na facilidade com que chamamos de culto aquilo que jamais ousaríamos chamar de entrega total. Talvez estejamos oferecendo a Deus reuniões bem organizadas para evitar oferecer a Ele a própria vida.

Se essa suspeita for verdadeira, então não precisamos de cultos melhores. Precisamos de arrependimento — não daquele que inaugura a fé, mas daquele que a sustenta — porque a Escritura não conhece conversão que dispense transformação.

 

O Culto – A vida que não nos pertence mais

O apóstolo Paulo não escreveu Romanos 12.1 como uma metáfora devocional. Ele não estava sugerindo uma espiritualidade poética, nem oferecendo uma figura de linguagem para embelezar a fé. O que ele faz ali é redefinir radicalmente o que significa cultuar a Deus:

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.”

Paulo não aponta para um lugar, mas para um corpo.

Não indica um rito, mas uma entrega.

Não fala de momentos, mas de pertencimento.

Culto, à luz da Escritura, não é aquilo que fazemos para Deus — é aquilo que nos tornamos diante d’Ele. É a vida inteira colocada no altar, não em estado de morte, mas de disponibilidade contínua. Sacrifício vivo não é o que se oferece uma vez; é o que permanece, dia após dia, sob a soberania daquele a quem agora pertence.

Aqui reside a primeira grande ruptura com o imaginário religioso confortável: se a minha vida é culto, então ela já não me pertence mais. Meus afetos, minhas escolhas, meus impulsos, meus projetos, minha ética, minhas palavras e meus silêncios passam a ser avaliados não pela conveniência pessoal, mas pela fidelidade ao Deus que me chamou. Não há mais áreas neutras, nem compartimentos autônomos. Tudo é vivido coram Deo.

Essa compreensão desmonta a falsa segurança de quem imagina que pode oferecer a Deus uma celebração semanal e, ao mesmo tempo, administrar a própria vida segundo critérios estranhos ao Evangelho. O culto bíblico não convive com duplicidade. Ele exige coerência. Por isso Paulo continua dizendo que esse culto só é possível mediante transformação — não adaptação, não maquiagem espiritual, mas renovação da mente (Rm 12.2). Onde não há transformação progressiva, o que há é apenas religiosidade funcional.

Cultuar a Deus, portanto, é orar sem cessar não como técnica, mas como estado de consciência. É meditar na Palavra não como obrigação devocional, mas como reconfiguração do olhar sobre o mundo. É perceber, no meio do cotidiano, os desvios sutis do coração e, à luz do Espírito, reconsiderar atitudes, confessar pecados, pedir perdão e repaginar decisões. É viver em permanente estado de escuta e resposta[i].

Quando Paulo afirma que fomos comprados por preço e que já não somos de nós mesmos (1Co 6.19–20), ele não está fazendo uma afirmação abstrata sobre redenção, mas estabelecendo uma ética radical de pertencimento. A salvação não nos concede autonomia espiritual; ela nos retira dela. O culto verdadeiro nasce exatamente aí: quando deixamos de nos pertencer.

É por isso que Jesus desloca o culto do espaço sagrado para a verdade vivida. “Em espírito e em verdade” não significa subjetividade emocional, mas correspondência entre aquilo que se confessa e aquilo que se vive. Um culto que não alcança o caráter, as relações, o trato com o próximo e o uso do poder é apenas barulho religioso — ainda que acompanhado de belas canções e discursos eloquentes.

Se a minha vida não é culto, nenhuma celebração conseguirá compensar essa ausência. E se ela é, então o culto não começa quando a congregação se reúne; ele apenas se torna visível.

 

Pare aqui. Respire. Leia de novo.

Esse texto não pede concordância imediata — pede exame de consciência.

No próximo movimento, entraremos em A Congregação – o encontro dos que já vivem em culto e, depois, em A Celebração – o transbordamento comunitário da salvação.

 



terça-feira, 25 de novembro de 2025

A Tentação escatológica do partidarismo cristão

 

Por Jânsen Leiros Jr.

 

Um ensaio teológico sobre a confusão entre Reino e projeto político. O Reino não se constrói por ativismo; manifesta-se pela transformação.

 

Herman Bavinck

" Toda tentativa de identificar o Reino de Deus com um sistema político — seja ele conservador ou progressista — reduz o Evangelho ao tamanho de uma ideologia humana, e destrói a transcendência do Reino que não procede deste mundo."

Abraham Kuyper

" Quando o cristão trata um movimento político como extensão necessária da fé, ele perde a distinção entre graça comum e graça especial, e confunde o que Deus ordenou para o mundo com aquilo que Ele reservou para a Igreja."

Karl Barth

" A Igreja falha quando se deixa arrastar pela corrente das ideologias de seu tempo. Ela é chamada não a repetir a voz do século, mas a anunciar a Palavra que o julga."

Dietrich Bonhoeffer

" O cristão que se confunde com uma causa política perde a capacidade profética de contradizê-la quando ela se torna injusta. A fidelidade de Cristo não admite cativeiro ideológico."

Jonathan Bernis

"O Cordeiro Pascal, sacrificado durante o Êxodo, é uma sombra que aponta diretamente para Yeshua, o verdadeiro Cordeiro de Deus, cuja morte nos liberta de toda escravidão espiritual."

C. S. Lewis

" O diabo não se importa se atacamos o cristianismo de esquerda ou de direita, desde que o adotemos como um partido. O primeiro passo para afastar o homem de Deus é fazê-lo crer que a salvação está na Política."

 

Há fenômenos que não nascem grandes, mas tornam-se ruidosos pela insistência de seus adeptos. Um deles é a obstinação de certos cristãos em aderir ao partidarismo político como se ele fosse parte intrínseca, necessária e imanente da vida cristã — quase um sacramento moderno. Para muitos, ser cristão e ser, ou progressista ou conservador, não são duas identidades distintas: uma “explica” a outra, como se a fé tivesse finalmente encontrado seu braço secular, sua missão pública, ou sua tradução social.

Trata-se de um equívoco antigo em roupagem nova. Não é a primeira vez que cristãos se deixam seduzir pela promessa de uma história com “rumo inevitável”: já o fizemos com impérios, com revoluções, com iluminismos, com nacionalismos. Mas a versão contemporânea tem um fascínio particular, porque imita a linguagem do Evangelho sem carregar sua substância — promete justiça, redenção, igualdade ou moralidade, mas sem o Cordeiro, sem a cruz, sem conversão. E quando o cristão, sedento por relevância, abraça esse discurso, costuma trocar a fonte viva pelas cisternas rotas (Jr 2.13) sem sequer perceber.

O problema, em termos teológicos, é simples de formular e difícil de admitir:
quando o cristão toma um projeto político e o trata como se fosse escatologia, transforma meios em fins e ideologias em evangelho.


1. Quando a política quer ser missão

É verdade que o cristianismo possui uma vocação pública — amar, servir, proteger, reconciliar, denunciar injustiças. Mas a missão da Igreja jamais pode ser confundida com a agenda de qualquer partido, porque “não nos conformamos com este século” (Rm 12.2).

O partidarismo, entretanto, seduz com uma oferta tentadora: uma espécie de “teologia social” laica, ou um “movimento moralista do bem”, onde cada causa é tratada como ministério, cada bandeira como virtude e cada pauta identitária como expressão de amor ao próximo. O que muitos não percebem é que essa estrutura é profundamente humanista, não cristã. Ela parte do princípio de que o ser humano é o agente supremo de transformação — e de que a história avança para melhor por meio da ação política correta.

A Bíblia, ao contrário, afirma que Deus “determinou tempos e limites das nações” (At 17.26), e que nenhum projeto humano contém em si o poder de redenção, qualquer que seja a finalidade de sua aplicação.


2. O erro teológico: transferir escatologia para o Estado

O partidarismo possui, sim, seu próprio “evangelho”:

  • uma antropologia: o homem é naturalmente bom, apenas oprimido ou enganado;
  • uma soteriologia: a libertação vem por reformas sociais ou morais;
  • uma escatologia: a história progride inevitavelmente em direção ao “mundo melhor”.

O cristão que não percebe essa teologia concorrente acaba assumindo-a como complemento da fé — ou pior, como interpretação necessária do ministério de Cristo.
E assim, aos poucos, vai lendo o Evangelho com lentes ideológicas, até que João 18.36 (“meu Reino não é deste mundo”) se torna uma frase incômoda demais, quase inconveniente. Esquece-se que todo sistema político — seja progressista, seja conservador — nasce de um espírito deste século. E Paulo alerta: “Cuidado com as filosofias vazias, segundo os homens” (Cl 2.8).


3. A armadilha psicológica do “lado certo da história”

Uma das seduções mais fortes do progressismo, e do conservadorismo, é a ideia de que existe um “lado moralmente superior” do qual se pode fazer parte. A adesão política vira uma forma de santidade, e o militante se sente iluminado — não pelo Espírito, mas pela narrativa do momento.

Esse impulso não surge do coração transformado, mas da necessidade humana de pertencimento e distinção moral. É o farisaísmo secular: a justiça própria travestida de causa.

Jesus nunca pediu que escolhêssemos “o lado certo da história”. Pediu que escolhêssemos a cruz — onde não há aplauso, nem progressismo, nem conservadorismo.
Há apenas renúncia.


4. Quando a ideologia sequestra a ética

O cristão que se entrega a um movimento político como se fosse extensão obrigatória da fé tende a distorcer doutrina para proteger a causa. Relativiza princípios, flexibiliza textos, reinterpreta moral segundo a conveniência da agenda. “Outro evangelho”, diria Paulo (Gl 1.6–10).

Essa é a etapa mais perigosa: quando Cristo deixa de ser o critério para julgar a política, e a política passa a ser o critério para julgar Cristo. É assim que ideologia de lado a lado, deixa de ser uma posição possível e se torna quase uma liturgia.


5. A alternativa cristã: crítica profética, não adesão devocional

A posição madura é simples: O cristão não é progressista. O cristão não é conservador. O cristão não é liberal. O cristão é de Cristo. E por ser de Cristo: analisa tudo, discerne o espírito por trás das ideias, retém o que é bom, rejeita o que é mal.
(1Ts 5.21-22)

A fé não exige que se renuncie à política; exige que se renuncie à idolatria.
Não é a política que define o cristão, mas o cristão que avalia a política com a mente renovada, independente da ideologia deste ou daquele lado do pensamento.


6. Conclusão – Quando o centro se perde, o norte se dissolve

O progressismo não é o Reino. O conservadorismo, tão pouco. Pode ecoar virtudes do Reino — e às vezes ecoa — mas não nasce dele. E quando o cristão o assume como extensão necessária da fé, incorre no velho erro de transformar instrumentos em dogmas, bandeiras em sacramentos, história em salvação.

No fim, o problema não é a agenda ideológica em si, mas a pretensão escatológica que alguns cristãos lhe atribuem. Porque aquilo que toma o lugar de Cristo — mesmo que seja justiça, inclusão, compaixão ou igualdade — não se torna cristão.
Torna-se ídolo. E o ídolo, por definição, exige culto.

domingo, 16 de novembro de 2025

Consciência dialogante e transformação espiritual - ou ação divina na transformação da consciência

 

Por Jânsen Leiros Jr.

 

Carl Jung: “Aquilo a que você resiste, não apenas persiste: dialoga silenciosamente com você desde o inconsciente.”

Martin Heidegger: “Habitar é escutar.”

Søren Kierkegaard: “A oração não muda Deus; ela muda aquele que ora.”

Paul Tillich: “A fé é o estado de ser tomado por aquilo que exige resposta.”

Vygotsky: “O pensamento se desenvolve através da palavra; na origem do pensamento está o diálogo.”

    

 Muitas vezes me perguntam — algumas com curiosidade sincera, outras com um certo estranhamento: “Por que Teologando Só?”

Afinal, a teologia é, por natureza, uma tarefa comunitária; nasce do encontro, da tradição viva, da escuta plural.

Mas a verdade é que há um “só” que não é isolamento, nem misantropia intelectual. É um “só” que nasce do recolhimento necessário para que o diálogo com Deus não se dissolva no ruído das urgências, e para que a própria alma possa ouvir-se enquanto escuta.

É nesse silêncio denso — não solitário, mas habitado — que a consciência dialogante se acende. E é justamente sobre esse espaço interior, esse lugar onde Deus nos encontra na intimidade mais profunda, que começa o fio do texto a seguir.

Há um fio que atravessa silenciosamente toda a Escritura, ligando Gênesis ao Apocalipse, patriarcas aos profetas, salmistas aos apóstolos, mestres da sabedoria aos primeiros cristãos. Esse fio não é um decreto vertical, nem uma intervenção súbita que destrói a interioridade humana; é um movimento dialogal, uma dança entre voz e escuta, pergunta e resposta, silêncio e inquietação, revelação e assimilação.

Se quisermos nomeá-lo com precisão: trata-se da consciência dialogante, o espaço interior onde o Espírito de Deus encontra a liberdade humana para formar, corrigir, amadurecer e transformar.

Não é acaso que Deus se revela falando; tampouco é acaso que o ser humano responda. A fé bíblica nunca se constituiu como um monólogo — nem de Deus para o homem, nem do homem para Deus. Ela nasce do encontro, da reciprocidade, do entrelaçamento de consciências.

E talvez seja precisamente isso que tenhamos esquecido.

A fé como diálogo e não como imposição

Quando lemos a Escritura com atenção, percebemos que Deus raramente age sem palavras. Ele não é o artesão silencioso que molda a alma à força. Ao contrário: Ele fala, convoca, pergunta, provoca, consola. A transformação espiritual — aquela que vai nos tornando parecidos com Cristo — acontece sempre dentro de um ambiente de diálogo.

Nada amadurece no vazio. Nem a fé.

O ser humano se forma nesse movimento contínuo de ouvir e responder, de ser questionado e também de questionar, de lamentar e discernir, de render-se e recomeçar. É o que estou chamando aqui de consciência dialogante: a capacidade de crescer espiritualmente através da relação — com Deus, com o próximo e consigo mesmo.

A psicologia moderna descreve a consciência como algo que floresce no contato. A filosofia dialogal de Martin Buber ecoa isso: só nos tornamos “eu” diante de um “tu”. E a Bíblia, séculos antes, já vivia a mesma lógica — Deus molda pessoas falando com elas.

A Imago Dei como fundamento dialogal

Fomos criados à imagem de Deus — e Deus é, em sua própria natureza, relação.

A Trindade é diálogo eterno. O Pai direciona sua palavra ao Filho; o Filho responde; o Espírito intercede e traduz. Deus não é solidão — é comunhão viva.

Se é esse Deus que espelhamos, então é impossível formar uma consciência cristã isolada. Quem tenta se formar sozinho perde a própria estrutura do chamado divino, que é relacional.

Identidade, vocação, caráter e fé amadurecem no encontro — não no isolamento. Por isso a Bíblia nos dá voz: para perguntar, confessar, resistir, clamar, agradecer, discernir.

E aqui surge aquela pergunta interior que muitos têm vergonha de admitir:

— Não posso me formar sozinho?

— Não.

— Nem Deus quis assim?

— Justamente: Deus não quis.

Ele escolheu relacionar-se. E a consciência dialogante é o terreno onde esse relacionamento acontece.

A pedagogia divina: Deus transforma conversando

As grandes figuras da história bíblica não foram moldadas por decretos frios, mas por diálogos transformadores.

Abraão — o pai da fé que argumenta

A aliança não nasce de um silêncio, mas de uma conversa. Abraão não recebe a promessa como quem apenas escuta e obedece passivamente; ele se arrisca a perguntar, a expor sua inquietação, a trazer sua dúvida para dentro do diálogo com Deus. “Como saberei…?”, ele ousa dizer (Gn 15:8). E Deus não o repreende — ao contrário, responde ampliando sua visão, abrindo horizontes que Abraão ainda não conseguia enxergar. Assim, pouco a pouco, um homem aprende a crer enquanto se atreve a perguntar; sua fé cresce não apesar das perguntas, mas através delas.

Moisés — o vocacionado que debate

A sarça ardente não é um espetáculo místico, mas um debate pedagógico. Diante do chamado divino, Moisés não se rende de imediato; ele levanta cinco objeções, e para cada uma delas Deus oferece uma resposta, não para silenciá-lo, mas para formá-lo. Moisés não é moldado pela visão extraordinária, e sim pelo diálogo persistente. Deus não elimina sua hesitação — trabalha com ela, acolhendo-a como matéria-prima da vocação que está prestes a nascer.

Davi — onde o diálogo interior se torna cura

Davi nos mostra que o diálogo que cura não acontece apenas entre o homem e Deus, mas também dentro da própria alma. O salmista ora, clama, protesta — e, em meio a essa oração viva, volta-se para dentro: “Por que estás abatida, ó minha alma?” (Sl 42:5). Ele interroga a própria tristeza, nomeia a inquietação, convida a si mesmo à esperança. A psique começa a se reorganizar quando encontra coragem para se escutar, e é nesse movimento interior que a graça frequentemente encontra espaço para agir.

Os profetas — a resistência que conversa

Os profetas encarnam a forma mais aguda dessa coragem de dialogar com Deus. Jeremias protesta, lamenta, hesita, expõe sua dor sem máscaras. Ele diz o indizível, reclama das tarefas que recebeu, confessa o peso que não consegue carregar. E Deus — longe de silenciar o profeta — acolhe o protesto, responde, corrige, redireciona. A profecia não nasce de uma obediência muda, mas da disposição de sustentar uma conversa difícil com o próprio Senhor. É desse embate amoroso que surge a palavra que transforma.

Jesus — o mestre das perguntas

Jesus é o mestre das perguntas — não porque desconheça as respostas, mas porque sabe que o coração humano só se abre quando é convidado a falar. Ele raramente responde de modo direto; prefere desvelar a verdade por meio de interrogações que ampliam o espaço interior: “Quem dizem que eu sou?”, “Queres ser curado?”, “O que queres que eu te faça?”. Cada pergunta é uma porta aberta, um chamado à consciência, um ato de formação espiritual. Jesus não modela discípulos pela imposição, mas pelo diálogo que revela, cura e transforma.

Paulo — o apóstolo que debate consigo mesmo

Paulo — talvez o mais intelectual dos apóstolos — pensa dialogando. Seu método é abertamente conversacional: ele constrói teologia debatendo com um interlocutor imaginário, antecipando objeções, acolhendo resistências, enfrentando contradições. “Mas alguém dirá…”, “Tu que te glorias…”. Em Paulo, a verdade não aparece pronta: ela se encarna no atrito do argumento, na tensão entre objeção e resposta, no vaivém de uma consciência que busca fidelidade. A doutrina se torna carne quando é contestada, atravessada e, então, novamente afirmada.

Maria, Zacarias e Gideão — quando a pergunta revela o coração

Entre as grandes conversas da fé, há duas que acontecem quase lado a lado — a de Maria e a de Zacarias — e que, apesar de semelhantes na forma, revelam intenções muito diferentes.

Maria pergunta ao anjo: “Como será isto…?” Não é resistência, nem cinismo, nem incredulidade. É busca honesta de compreensão. Ela pergunta porque deseja cooperar, não porque duvida. Sua pergunta é oferta, abertura, disponibilidade. Por isso é acolhida sem censura, como foram acolhidas as perguntas de Abraão e de Moisés: perguntas que não bloqueiam a fé, mas a estruturam.

Zacarias, por sua vez, faz uma pergunta que não nasce da perplexidade, mas da impossibilidade:

“Como posso ter certeza disso? Sou velho, e minha mulher também…”

Aqui, a hesitação não se dirige à própria limitação humana — dirige-se ao poder divino. Não é: “Como isso acontecerá em mim?”. É: “Isso não pode acontecer.”

Zacarias não busca entendimento; busca garantias. Seu silêncio posterior não é punição, mas terapia espiritual: um tempo em que o coração aprende novamente a abrir espaço para o possível de Deus.

E há ainda Gideão, cuja história ajuda a decifrar essa diferença. Ele também pede sinais — vários. Mas seus sinais não nascem da dúvida sobre o que Deus pode fazer; nascem da dúvida sobre se ele mesmo está discernindo corretamente a voz de Deus. Gideão teme o engano do próprio coração, não a incapacidade divina. É por isso que Deus o atende com paciência: porque sua pergunta encontra lugar na humildade, não na descrença.

Assim se revelam três movimentos do diálogo espiritual: Maria pergunta para compreender. Gideão pergunta para discernir. Zacarias pergunta porque não acredita. E em cada um deles, Deus responde de modo diferente, não porque as perguntas sejam iguais, mas porque o diálogo revela o coração que pergunta.

A pedagogia de Deus é sempre conversacional.

A consciência dialogante no centro da transformação

Paulo afirma que somos transformados “de glória em glória” (2Co 3:18). Mas essa transformação acontece num campo contínuo de escuta e resposta. É o Espírito que opera, mas opera enquanto dialoga.

O diálogo com Deus — oração como encontro

A oração nunca foi um monólogo bem-comportado, desses que repetimos como quem cumpre um rito diante do invisível. Ela é muito mais viva, mais inquieta, mais ambígua. A oração é encontro — e encontro sempre inclui risco, escuta, espera, e aquele tipo de silêncio que não cessa de falar por dentro. Quem ora, de verdade, se expõe: abre a vida à voz de Deus e, ao mesmo tempo, se permite ouvir a própria voz diante d’Ele, aquela que normalmente abafamos sob urgências, distrações e defesas.

Às vezes esse encontro vem impregnado de paz; noutras, é uma tensão quase dolorosa, como se Deus desorganizasse suavemente as convicções que usamos para nos proteger. Mas é dentro desse diálogo, que acontece tanto na palavra quanto na ausência dela, que a consciência começa a se transformar. Orar é permitir que Deus nos fale — e é, também, permitir que nossas palavras revelem o que realmente somos quando nos colocamos diante d’Aquele que não pode ser enganado.

É ali, nesse espaço onde duas vozes se procuram — a nossa e a d’Ele — que a alma passa a aprender outra linguagem: a da verdade. Porque onde Deus responde, mesmo que em silêncio, algo em nós se ajusta, se alinha, se converte. A oração é, enfim, o lugar onde deixamos de ser apenas nós mesmos… para começarmos a ser nós mesmos diante de Deus.

O diálogo com o outro — maturidade compartilhada

Há uma sabedoria escondida na simplicidade do que Tiago escreveu: a cura não nasce do segredo, mas da confissão compartilhada. Não é que o outro tenha poder mágico para nos restaurar; é que a verdade, quando dita diante de alguém, perde a capacidade de nos aprisionar. Davi sabia disso quando confessou que, enquanto manteve silêncio, “seus ossos envelheciam” dentro dele; a alma, quando se fecha, apodrece devagar — consumida pela culpa, pelo medo da exposição involuntária, pela insegurança de ser descoberto. Há algo profundamente sanador no fato de sermos ouvidos — e, talvez ainda mais, no fato de ousarmos falar.

A maturidade cristã nunca floresceu em jardins solitários. Ela se desenvolve ali onde a palavra do outro nos encontra, nos reflete, nos contesta, às vezes nos fere com cuidado e, em outras ocasiões, nos recolhe com misericórdia. A vida espiritual amadurece quando alguém nos devolve, com delicadeza ou firmeza, aquilo que não percebíamos sobre nós mesmos. E, do outro lado, cresce também quando oferecemos a mesma presença a quem caminha ao nosso lado.

Ninguém se torna inteiro vivendo em isolamento. A fé se alarga na conversa, no atrito brando das diferenças, na escuta paciente que reorganiza a alma, na palavra que chega e nos desloca um pouco mais para perto da verdade. É assim que Deus, muitas vezes, fala conosco: usando a voz de alguém que cruza nosso caminho e, sem saber, se torna cúmplice da nossa transformação interior.

O diálogo consigo mesmo — o campo íntimo da consciência

Há um tipo de palavra que não é dita para fora, mas que, ainda assim, ressoa com força dentro de nós. A Escritura nunca tratou essa conversa interior como suspeita ou secundária; ao contrário, legitimou-a. O salmista, por exemplo, fala com a própria alma como quem tenta puxá-la de volta à luz: “Por que estás abatida…?” É um diálogo íntimo, quase terapêutico, onde o coração procura persuadir-se da esperança que insiste em escapar pelos dedos.

Paulo, por sua vez, deixa entrever o labirinto de sua mente ao perguntar-se sobre o querer e o não querer, sobre o bem desejado e o mal realizado. Não é confusão — é investigação. É consciência abrindo espaço para que o Espírito lhe mostre o que está escondido nos cantos da vontade. É por isso que ele diz que o Espírito “testifica com o nosso espírito”: há uma conversa acontecendo, ainda que silenciosa, e nela Deus toca as cordas mais profundas da interioridade humana.

A consciência não é, portanto, um deserto mudo; é um auditório vivo, sempre ocupado, onde vozes se cruzam, argumentam, contestam, lembram, corrigem, consolam. Santo Agostinho percebia isso com clareza quase dolorosa: para ele, o coração era um palco onde Deus e o homem se encontravam, discutiam, se buscavam — um lugar onde a verdade podia finalmente ser ouvida, não porque gritava, mas porque encontrava espaço para ressoar.

Esse diálogo interior não é delírio, nem fraqueza, nem fuga. É o ambiente onde a alma se revela a si mesma. E é justamente ali, nesse território que ninguém mais vê, que Deus costuma falar mais profundamente — não para nos esmagar com respostas, mas para nos ensinar a fazer as perguntas certas.

A tecnologia, a psique e o retorno ao diálogo

Vivemos cercados por vozes — velozes, dispersas, ruidosas. Cada notificação é uma interrupção; cada feed, uma torrente; cada opinião, um convite para reagir antes de pensar. A consequência disso é uma consciência fragmentada, quase sempre empurrada para a superfície das coisas. Paradoxalmente, nesse mesmo cenário de distrações incessantes, começam a surgir ferramentas que, se usadas com sobriedade, podem nos devolver justamente aquilo que perdemos: profundidade, pausa, escuta.

Há algo de antigo — estranhamente antigo — na possibilidade de estruturar a própria reflexão com a ajuda de tecnologias inteligentes. Não se trata de substituir o Espírito, como alguns temem; nem de competir com a Graça, como outros receiam. É simplesmente reconhecer que Deus sempre se serviu de meios humanos para ampliar o espaço interior da alma. E, no nosso tempo, esses meios podem incluir a própria tecnologia.

Afinal, não é isso que ela nos permite, quando bem utilizada? Ordenar pensamentos que estavam dispersos como folhas ao vento. Examinar inclinações que corriam subterrâneas e nunca ganhavam nome. Detectar contradições que, até então, sobreviviam sob o manto do silêncio. Ouvir as objeções internas — aquelas que tememos formular, mas que moldam nossos gestos. E, quem sabe, permitir que o discernimento espiritual amadureça num terreno mais claro, mais ventilado, mais honesto.

Se Paulo conversava com um interlocutor imaginário para organizar seus argumentos; se Davi ousava dialogar com a própria alma para não sucumbir ao caos interior; se os profetas debatiam com Deus com uma franqueza que beira o escândalo — por que nós hesitaríamos em retomar esse caminho?

A tecnologia não inventa nada disso. Apenas oferece um novo formato para uma prática que é tão antiga quanto a própria fé: o diálogo que transforma, que ilumina, que reorganiza a consciência e prepara o espírito para a voz que realmente importa.

Conclusão: O Espírito transforma dialogando

A ação do Espírito na consciência não se parece com uma cirurgia silenciosa, dessas que acontecem enquanto o paciente dorme. Ela é relacional. É encontro. É diálogo. O Espírito fala — e espera. Questiona — e acolhe. Confronta — e consola. Move-se nesse ritmo vivo, onde cada revelação pede uma resposta, e cada resposta abre espaço para uma nova revelação. Assim, pouco a pouco, entre uma fala e outra, a consciência vai ficando mais clara, mais desperta, mais luminosa.

A transformação espiritual nasce dessa conversa contínua e amorosa. É obra do Espírito, sim, mas é obra que Ele realiza dialogando, conduzindo-nos, pela palavra e pela escuta, ao lugar onde finalmente nos tornamos aquilo que Deus quis que fôssemos; imagem e semelhança do seu Filho.


quarta-feira, 4 de junho de 2025

Profetismo: A voz que borbulha do eterno no tempo presente

 

Por Jânsen Leiros Jr.

 

A urgência da palavra profética como expressão inadiável da vontade de Deus na história. 

 Abraham Heschel

“O profeta é um homem que sente ferozmente. Deus arrancou-lhe o coração e nele pôs o Seu próprio. Suas palavras queimam porque nascem da dor divina.” - A Teologia dos Profetas; Heschel destaca o sofrimento visceral do profeta como alguém tomado pela paixão divina — eco direto da imagem do “borbulhar”, da urgência que arde nos ossos e exige voz.

Walter Brueggemann

“A função central do profeta é imaginar alternativas ao mundo como ele é. É dar voz ao lamento reprimido e à esperança silenciada.” - A Imaginação Profética; Brueggemann reforça o papel do profeta como aquele que rompe com o discurso dominante e propõe uma nova realidade — um paralelo direto ao trecho do seu texto sobre a profecia como denúncia e proposta.

Karl Barth

“O profeta fala com autoridade, não porque é eloquente, mas porque foi interrompido por Deus.” - Dogmática Eclesiástica; Barth toca o cerne da vocação profética: não é uma escolha pessoal, mas uma interrupção divina, uma convocação que rasga o curso natural da existência — exatamente como você expressa na conclusão do texto.

No coração da história da revelação, o profeta não é meramente um anunciador de eventos futuros, mas é, sobretudo, um ser tomado por um fogo incontrolável que o impele a falar. É como uma panela posta ao fogo divino, cuja água borbulha inevitavelmente. A imagem não é apenas estética ou poética — ela expressa a tensão espiritual interna do profeta, a insuportável contenção da verdade revelada. O termo hebraico nabi (נָבִיא), muitas vezes traduzido como "profeta", sugere aquele que é chamado, sim, mas também aquele que é impelido por algo maior que si mesmo — um movimento do Espírito de Deus que não pode ser contido.

Essa compreensão não é isolada. Jeremias exprime isso com crueza: “Há em meu coração um fogo ardente, encerrado nos meus ossos; estou cansado de contê-lo, e não posso” (Jr 20.9). A palavra profética não é opcional. É uma força divina que exige liberação. O profeta não quer falar, mas precisa. Não deseja se expor, mas é compelido. Sua boca não é dele — é da revelação que arde e borbulha como lava sob a crosta da realidade.

A teologia só ganha sentido quando compreendida dentro da história. Deus não se revela em abstrações estéticas, mas nos acontecimentos, nas rupturas e nos processos. O profeta é testemunha dessa revelação. Ele não é um pensador especulativo, mas um canal involuntário da vontade de Deus, um embaixador de urgência, alguém que fala em meio a estruturas quebradas e instituições corrompidas.

Moisés e João Batista ilustram isso de maneira singular. Moisés, como o grande mediador da aliança, não prevê o futuro: ele conduz o presente, moldado pela voz divina que rompe o silêncio do deserto e das escravidões históricas. João Batista é o profeta da hora final, do "agora", que clama com voz que rasga o ermo: “Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus” (Mt 3.2). Sua voz não era decorativa, era disruptiva. João não apontava para si, mas para aquele que viria, cujas palavras arderiam como fogo e separariam o trigo da palha (Mt 3.12).

A imagem do profeta como aquele que “borbulha” é poderosa — e merece atenção especial. Quando a água ferve, há uma fonte de calor constante, uma energia que se acumula até romper a quietude da superfície. Assim é o profeta. Deus aquece-lhe o espírito com a chama da verdade, e a pressão interna cresce até que a fala se torne inevitável. Borbulhar é mais que uma imagem: é uma forma de existência profética. Significa viver sob tensão, com o Espírito Santo como calor constante e a palavra de Deus como líquido em ebulição.

Karl Barth diria que a revelação é uma ação de Deus no tempo presente, e o profeta é o canal dessa irrupção. Walter Brueggemann vê no profeta aquele que denuncia o presente e anuncia uma alternativa moldada pelo coração de Deus. Ele não se acomoda à ordem dominante, nem negocia sua mensagem com as conveniências políticas ou religiosas. Ele borbulha — e a verdade explode, mesmo que doa.

O profeta é um desconforto encarnado. Ele perturba o rei, desmascara os sacerdotes, enfrenta o povo. Sua missão não é agradar, mas alertar. Sua tarefa é ser impopular em nome da verdade. Ele não apenas fala — ele sofre a mensagem. Carrega em seu corpo as marcas da palavra. É queimado por dentro até que as palavras escapem como vapor divino em ebulição.

A mensagem profética é para o "hoje". Ela exige arrependimento imediato, como nos dias de Jonas em Nínive, quando a cidade inteira se dobrou ao clamor da verdade. Ela denuncia a hipocrisia religiosa (Is 1.11-17), a injustiça social (Mq 6.8) e a corrupção das lideranças (Ez 34). Mas também aponta a esperança que nasce mesmo nas ruínas: “E acontecerá, depois, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne…” (Jl 2.28).

O profetismo não é apenas denúncia — é proposta. Não é só confronto — é visão. A verdadeira profecia é um ato de responsabilidade. Dietrich Bonhoeffer entendia o profetismo como resistência à maldade real do mundo, e Jürgen Moltmann via nele a esperança ativa, que transforma a história porque crê no futuro de Deus. O profeta denuncia a injustiça, mas também oferece uma alternativa carregada de justiça, misericórdia e fidelidade (Os 6.6).

Hoje, o profeta é aquele que levanta a voz contra a desumanização, a banalização da fé, a idolatria do poder, o silêncio cúmplice das instituições eclesiásticas. Ele é aquele que vê além da propaganda e ouve o gemido dos que não têm voz. Borbulhar é também se indignar. É recusar a anestesia espiritual. É ter os ossos inflamados pela urgência do Reino.

A missão profética é uma urgência que não se cala. Como disse o apóstolo Paulo: “Ai de mim, se não pregar o evangelho” (1Co 9.16). Não se trata de escolha, mas de imposição do Alto. Não é um projeto pessoal, mas um mandato divino que arde sem consumir, como a sarça diante de Moisés.

O profeta é aquele em quem a Palavra arde. Que borbulha. Que geme. Que denuncia. Que consola. Que não pode se calar. Sua presença é incômoda, sua fala é como martelo que despedaça a rocha (Jr 23.29). Ele não cabe nos púlpitos domesticados, nem nas liturgias ajustadas ao gosto dos poderosos. Ele está na beira do deserto, na beira do abismo, na encruzilhada das decisões.

E talvez seja isso que o mundo mais precise hoje: menos opinadores e mais borbulhantes. Homens e mulheres cuja alma ferve com a verdade de Deus. Corações inflamados que não fazem da profecia um ofício, mas um testemunho ardente. Que sejam vasos em ebulição, onde a água viva da Palavra insiste em romper, porque não há como conter o que Deus está prestes a dizer. 

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