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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Contra pedaladas fiscais, pedaladas dominicais



Por Jânsen Leiros Jr.


Cerca de 1 milhão de pessoas confirmaram presença em uma manifestação contra a presidente Dilma Rousseff, no domingo (15). Organizada principalmente por três grupos, Vem Pra Rua, Movimento Brasil Livre e Revoltados ON LINE, a passeata está marcada para às 14h, em frente do Masp, na Avenida Paulista. Entre as reivindicações, está o pedido de impeachment da presidente.
O protesto remete, assim, ao movimento Caras-pintadas, de 1992, que foi às ruas de todo o país exigindo a saída do então presidente Fernando Collor de Melo, o primeiro e único a sofrer impeachment. “Existem algumas semelhanças entre os atos”, afirma Hilton Fernandes, cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. “Em sua maioria, apresentam-se como apartidários e estão incomodados com a situação do país.”
Há, entretanto, uma diferença bastante significativa. "Não há nenhuma investigação contra a presidente Dilma, diferentemente de Collor, cujo envolvimento com um esquema de corrupção estava comprovado”, explica Fernandes.
Fonte: http://vejasp.abril.com.br/materia/manifestacoes-impeachment-caras-pintada-dilma-collor/

Que estamos vivendo circunstâncias inusitadas em nosso país, me parece que é um sentimento comum à grande maioria da população. O que eu não tenho percebido nessa mesma maioria, contudo, é a disposição de discutir com coragem o que está efetivamente se passando diante de nossos olhos, muitas vezes distraídos com cortinas de fumaça, ora estendida pela mídia comprometida, ora pelos políticos, mestres na arte de dissimular o que realmente importa, trazendo a discussão para patamares menores e de nenhuma ou quase nenhuma importância.

Desde o anúncio de que o presidente da câmara, Deputado Federal Eduardo Cunha havia acatado o processo de impeachment contra a Presidente Dilma Rousseff, uma verdadeira batalha pelo apoio popular instaurou-se nos corredores da política, da mídia e nas próprias ruas, tentando, cada lado, gerar indignação e revolta contra as manobras e as argumentações defendidas pelo movimento opositor. Situação e oposição lutam pela alma insegura e atônita dos populares, que parecem não saber exatamente para que lado olhar ou a quem escutar. É, mas pelo visto, só parece.

De certa forma, o que se pode chamar de fracasso das manifestações marcadas para esse último domingo, treze de dezembro, traduz o sentimento da população brasileira com relação a esse processo. Em vez de manifestações de massa com adesão de diversos seguimentos da sociedade, o que se viu nesse domingo de sol forte e dia lindo na maioria do território nacional, foram famílias passeando e gente bonita aproveitando para pedalar em suas bicicletas pelas vias interditadas.

E por que isso? Porque não era dessa forma que a população queria que o processo fosse instaurado. Ou pelo menos não por essas razões e não com essas conduções. Sim, porque que outra explicação poderia traduzir a inapetência das ruas, logo quando acontece o que mais a população a uma só voz vinha manifestando desejo?

Dissimuladores de ambos os lados se apresaram a, com o cinismo que lhes é peculiar, distorcerem a realidade do recado da população. Não é verdade que a falta de adesão às manifestações demonstraram apoio da população à presidente Dilma e ao seu governo. Isso é querer fingir e dissimular que não há uma grossa e ameaçadora corda no pescoço. Mas por outro lado, também não é verdade que a população apenas está ensaiando para manifestações futuras de maior relevância, ou que o lindo dia de sol esvaziou as passeatas. Dissimulação de ambos os lados, com vistas a nublar os olhos atentos ou interessados do povo.

Sim, o governo Dilma tem astronômica rejeição por parte da população, e isso graças a incompetência demonstrada na condução da economia e de gestão da máquina pública, claramente exposta e flagrada aos borbotões. Nem vale a pena aqui repassar tais questões. E não foi por apoia-la ou não concordar com seu impeachment que a população não foi para a rua. O que a população não conseguiu vislumbrar, foi legitimidade nesse processo, e isso sim, lhes incomoda e não lhes estimula ao engajamento por uma causa que, ainda que lhe interesse, não traduz na forma, sua indignação.

O processo carece de fundamento moral. Pedaladas fiscais, no país do jeitinho, não soa como crime hediondo, mas como manobra de quem quer achar pelo em ovo para atingir  um objetivo que, pela manobra descarada, acaba por cheirar a interesse incerto e suspeito. E sabendo que por suspeito e inconsistente, tal processo correrá muito mais por conta e na onda dos ajustes e conchavos políticos, a população retira sua chancela, e se coloca como mera expectadora de um processo que, se não se caracterizar por uma grande manipulação jurídica para se efetivar um impeachment, será mais uma festa política a terminar em pizza.

Há legitimidade em um processo de impeachment? Sim. A constituição prevê tal instrumento para defender o país de aproveitadores e usurpadores da coisa pública. Utilizá-lo é golpe, como defende o discurso petista? De modo algum, pois o próprio PT aderiu e patrocinou o Fora Collor como guerreiro de primeira hora. O que não é legítimo, é utilizar tal processo para coagir o governo petista a defender o presidente da Câmara dos Deputados de um processo de cassação pelo Conselho de Ética da Câmara. Porque não se enganem. Nenhum processo seria instaurado caso esse senhor não estivesse em maus lençóis. Conveniência e casuísmo. A população está cansada de ser manipulada por isso.


Portanto, aos oportunistas de ambos os lados fica o recado. Não acreditem que o povo apoia o governo Dilma. Seu índice de rejeição e as conversas de corredor, por todos os corredores, demonstram que a população está cansada de sua incompetência e falta de gestão. Mas também não pensem que levantando bandeiras piratas, vão provocar adesão das massas como no Fora Collor. Ali tínhamos um presidente da república a expulsar. Mas o que temos hoje é um presidente da câmara tentando se safar. Não vai colar. 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

É legítimo o poder a qualquer preço?





“Não sou juiz eleitoral. Portanto não me cabe análise justa, senão dizer daquilo que me causa sensação de desconforto. Assim o que digo não é um julgamento. Está mais para desabafo. E desabafar ainda é um direito meu.”
                      JLjr


Há tempos venho evitando entrar na discussão política. Sempre acreditei que minhas convicções, que considero tão particulares, deveriam ficar restritas aos meus familiares, aos amigos mais próximos, e a colegas de trabalho com quem divido meu dia-a-dia. Nas últimas semanas, porém, constrangido pelo desconforto com as flagrantes e escabrosas manipulações de fatos, índices e números, e diante da intensa polarização a que estão submetendo a população, me senti na obrigação de me posicionar de forma contundente e clara, declarando minhas opções, e exercendo na plenitude o meu legítimo e insofismável direito como cidadão.

É aceitável o poder a qualquer preço? Qual seria o limite para a manipulação das massas, com vistas a um objetivo pretensiosamente legítimo? Há um limite? É aceitável que se manipule, por mais nobre que se apregoe tal finalidade? Obviamente não, e a razão é muito simples; como diria minha avó pau que dá em Chico dá em Francisco. Por mais bem intencionada que sejam as lideranças que se utilizam dessa prática – para não entrarmos no mérito do caráter pessoal, a régua que define a linha tênue entre o que é bom e o que é ruim para uma nação, jamais pode ficar na mão de um determinado grupo político, qualquer que seja ele, independente de classe social, econômica ou tendências ideológicas a que pertença tal grupo. É um princípio democrático que jamais deve ser quebrado.

Se um determinado grupo político, independente de sua origem se utiliza do método da manipulação de dados e informações, ou promove a sugestão de realidade e circunstâncias com vistas a manipular o inconsciente coletivo, e atingir assim seus objetivos, mesmo acreditando tal grupo que sabe o que é melhor para o povo, esse mesmo grupo, por princípio, perde a legitimidade do poder que lhe é outorgado. Isso por que usurpa tanto o poder como mandado consentido, quanto à concessão que lhe é feita conceitualmente por mérito de competência. Reafirmo; qualquer que seja esse grupo. A manipulação, portanto, desqualifica a opção, porque realizada sobre bases propositadamente equivocadas.

Ora, como então o Partido dos Trabalhadores imagina legitimar-se no poder, sendo flagrado manipulando informações, fatos e circunstâncias, como observamos principalmente nas últimas semanas? E pior; o cinismo com que vem respondendo aos flagrantes que sofre nesses atos voluntários de inverdades. Foi assim nas imagens da escola em Minas com obras falsamente suspensas ou abandonadas, no estado de conservação e realidade das obras de transposição do São Francisco onde tudo parece perfeitamente pronto, das obras do metrô em algumas capitais, cuja conclusão foi relacionada como realizada durante o debate na Rede Record... Pra ficar em poucas. Ademais, a candidata se insufla a dizer que no seu governo os “maus feitos” foram investigados e os responsáveis foram presos, quando na verdade quase todos já tiveram relaxamento no cumprimento de suas penas, e o ex-presidente Lula insiste em dizer “... não houve mensalão”.

Não bastasse isso, o discurso do PT vem promovendo o acirramento de uma pretensa luta de classes, dividindo os eleitores entre “eles” e “nós”, como se não fossemos todos brasileiros e todos desejosos de um país melhor para todos. O contágio desse separatismo idiota é tão grande, que as conseqüências vêm sendo percebidas nas ruas e até nas redes sociais, onde verdadeiras batalhas de ódio e intolerância se multiplicam e fazem estragos em relações de amizade e companheirismo. Em vez de divergentes, temos oponentes e por oponentes, inimigos. E isso já se traduziu na votação para deputado federal e estadual. Mas isso será assunto para outra oportunidade.

É importante ressaltar que não tomo aqui o PSDB como partido inocente e cândido. De forma alguma. Se mexermos no seu tonel certamente acharemos sujeiras, e das grossas! E também não serão poucas. Porque não há nesse meio e no jogo político, partido algum que se possa autodenominar inocente ou invariavelmente probo. Estão aí denúncias do mensalão mineiro, de fraude no metro de SP e mais recentemente as declarações do ex-diretor da Petrobrás, Sr. Paulo Roberto, sobre propina paga ao então presidente do PSDB, o falecido Sérgio Guerra. Portanto não há mesmo quem possa atirar pedra no telhado alheio entre partidos políticos. Mas o povo, que detém o poder e lhos outorga os mandados, tem não só o direito, mas o dever de exigir explicações.


Minha preocupação, porém, se concentra no uso do imaginário coletivo, que historicamente, foi danoso e de graves conseqüências para todas as nações que o sofreram. E a história está repleta de exemplos disso! Estivesse o PSDB utilizando do mesmo expediente de forma flagrante e escusa, se faria merecedor de igual acusação e repulsa por parte da população brasileira. Mas não é essa a sensação que me causam. Pelo menos não nesse momento.

Não se pode negar, obviamente, alguns valorosos legados que o PT deixou para o país. Ao assumir o poder após a era FHC já em declínio por diversas conjunturas – falei outro dia aqui sobre a salutar alternância de poder para a sociedade, o Partido dos Trabalhadores encaminhou o país num momento positivo da economia nacional, e permitiu avanços importantes nas políticas sociais, onde melhoramos alguns importantes indicadores. Isso, porém, não os legitima a manipular a população para se manter no poder e atender sua sanha de controlar o país e o seu povo. Somos e queremos manter-nos como um país democrático. Mesmo aqueles que por convicção e direito inalienável, acreditam fazer a coisa certa ao votarem na candidata do PT, querem um país democrático, tenho certeza. E aí é que tal manipulação se torna ainda mais cruel; ao conduzir de forma obscura, a boa fé daqueles que acreditam nas inverdades propaladas.

Por fim, corre nas redes sociais o boato de que o PT planeja realizar movimentos calculados para gerar comoção nacional em torno da saúde do ex-presidente Lula, sabidamente uma figura querida em âmbito nacional, com o intuito de carregar votos para a candidata do PT, a exemplo do que naturalmente ocorreu com a então candidata a vice-presidente Marina Silva, após a tragédia que vitimou o ex-governador de Pernambuco e candidato a presidência pelo PSB, Eduardo Campos. Ora, a se concretizarem tais boatos, uma orquestração dessa magnitude e conteúdo, por si só já não levantaria suspeita sobre as intenções que tal partido tem para se manter no poder? Será que chegariam a tal ponto? Custo a acreditar, mas sinto muito não poder duvidar.

Portanto, a resposta nas urnas tem que ser: Não, não aceitamos e não queremos ser manipulados, por quem quer que seja. Por que motivo for, por mais nobre que possa parecer. E que tal resposta, sirva de aviso para pleitos futuros, para que nenhum futuro aventureiro, candidato ou partido, se pretenda a tanto mais uma vez.
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