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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

A Congregação, o Culto e a Celebração - Primeiro Movimento

 

Por Jânsen Leiros Jr.

 

Quando chamamos de culto aquilo que Deus chama de vida

 

John Stott

" A verdadeira adoração não se limita ao que acontece no templo, mas se expressa na vida inteira vivida sob o senhorio de Cristo. Separar culto de obediência é esvaziar ambos."

A. W. Tozer

" Não podemos afirmar que adoramos a Deus se nossa vida cotidiana permanece intocada por Sua santidade. Toda adoração que não transforma o caráter é apenas ruído religioso."

Lesslie Newbigin

" A Igreja não é um ajuntamento religioso que ocasionalmente testemunha ao mundo, mas uma comunidade moldada por uma história diferente, vivendo publicamente sob o reinado de Deus."

Eugene Peterson

" A espiritualidade cristã não é um momento de intensidade religiosa, mas uma longa obediência na mesma direção, onde o ordinário da vida se torna o lugar do encontro com Deus."

 

Há algo profundamente equivocado na forma como o cristianismo contemporâneo fala sobre culto. Chamamos de culto aquilo que acontece em um dia específico da semana, em um horário determinado, dentro de um espaço previamente organizado — e, ao fazê-lo, deslocamos o centro da fé do cotidiano para o evento, da vida para o rito, da entrega para a agenda.

O resultado é previsível: vidas fragmentadas que se sentem espirituais por algumas horas, mas continuam intactas em sua lógica, valores e práticas ao longo da semana. A consciência se tranquiliza com a participação; a alma, porém, permanece inalterada. Confundimos presença com devoção, frequência com fé, e liturgia com obediência.

A Escritura, no entanto, nunca tratou o culto como um compartimento da vida. Ao contrário, ela insiste em desmontar qualquer tentativa de confinar Deus a um lugar, a uma forma ou a um momento específico. Quando o profeta Amós registra a repulsa divina por solenidades religiosas desconectadas da justiça, ele não está atacando a liturgia em si, mas denunciando uma fé que aprendeu a celebrar sem se converter (Am 5.21–24). Jesus, por sua vez, foi ainda mais incisivo ao afirmar que nem o monte, nem o templo, nem Jerusalém seriam os referenciais do verdadeiro culto, mas a vida rendida “em espírito e em verdade” (Jo 4.21–24).

Talvez o problema não esteja na maneira como realizamos nossos cultos, mas na facilidade com que chamamos de culto aquilo que jamais ousaríamos chamar de entrega total. Talvez estejamos oferecendo a Deus reuniões bem organizadas para evitar oferecer a Ele a própria vida.

Se essa suspeita for verdadeira, então não precisamos de cultos melhores. Precisamos de arrependimento — não daquele que inaugura a fé, mas daquele que a sustenta — porque a Escritura não conhece conversão que dispense transformação.

 

O Culto – A vida que não nos pertence mais

O apóstolo Paulo não escreveu Romanos 12.1 como uma metáfora devocional. Ele não estava sugerindo uma espiritualidade poética, nem oferecendo uma figura de linguagem para embelezar a fé. O que ele faz ali é redefinir radicalmente o que significa cultuar a Deus:

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.”

Paulo não aponta para um lugar, mas para um corpo.

Não indica um rito, mas uma entrega.

Não fala de momentos, mas de pertencimento.

Culto, à luz da Escritura, não é aquilo que fazemos para Deus — é aquilo que nos tornamos diante d’Ele. É a vida inteira colocada no altar, não em estado de morte, mas de disponibilidade contínua. Sacrifício vivo não é o que se oferece uma vez; é o que permanece, dia após dia, sob a soberania daquele a quem agora pertence.

Aqui reside a primeira grande ruptura com o imaginário religioso confortável: se a minha vida é culto, então ela já não me pertence mais. Meus afetos, minhas escolhas, meus impulsos, meus projetos, minha ética, minhas palavras e meus silêncios passam a ser avaliados não pela conveniência pessoal, mas pela fidelidade ao Deus que me chamou. Não há mais áreas neutras, nem compartimentos autônomos. Tudo é vivido coram Deo.

Essa compreensão desmonta a falsa segurança de quem imagina que pode oferecer a Deus uma celebração semanal e, ao mesmo tempo, administrar a própria vida segundo critérios estranhos ao Evangelho. O culto bíblico não convive com duplicidade. Ele exige coerência. Por isso Paulo continua dizendo que esse culto só é possível mediante transformação — não adaptação, não maquiagem espiritual, mas renovação da mente (Rm 12.2). Onde não há transformação progressiva, o que há é apenas religiosidade funcional.

Cultuar a Deus, portanto, é orar sem cessar não como técnica, mas como estado de consciência. É meditar na Palavra não como obrigação devocional, mas como reconfiguração do olhar sobre o mundo. É perceber, no meio do cotidiano, os desvios sutis do coração e, à luz do Espírito, reconsiderar atitudes, confessar pecados, pedir perdão e repaginar decisões. É viver em permanente estado de escuta e resposta[i].

Quando Paulo afirma que fomos comprados por preço e que já não somos de nós mesmos (1Co 6.19–20), ele não está fazendo uma afirmação abstrata sobre redenção, mas estabelecendo uma ética radical de pertencimento. A salvação não nos concede autonomia espiritual; ela nos retira dela. O culto verdadeiro nasce exatamente aí: quando deixamos de nos pertencer.

É por isso que Jesus desloca o culto do espaço sagrado para a verdade vivida. “Em espírito e em verdade” não significa subjetividade emocional, mas correspondência entre aquilo que se confessa e aquilo que se vive. Um culto que não alcança o caráter, as relações, o trato com o próximo e o uso do poder é apenas barulho religioso — ainda que acompanhado de belas canções e discursos eloquentes.

Se a minha vida não é culto, nenhuma celebração conseguirá compensar essa ausência. E se ela é, então o culto não começa quando a congregação se reúne; ele apenas se torna visível.

 

Pare aqui. Respire. Leia de novo.

Esse texto não pede concordância imediata — pede exame de consciência.

No próximo movimento, entraremos em A Congregação – o encontro dos que já vivem em culto e, depois, em A Celebração – o transbordamento comunitário da salvação.

 



terça-feira, 22 de abril de 2025

Entre o trono e o espelho - quando o louvor se torna autoajuda


 Por Jânsen Leiros Jr.

 O que estamos realmente cantando quando louvamos?

Uma provocação necessária: estaríamos exaltando a Deus — ou apenas massageando nossos egos pilhados de religiosidade?

Bob Kauflin

“O louvor é a prática de valorar Cristo acima de tudo; é o transbordar de um coração cativado pela cruz.”

Matt Redman

“A chave para um louvor verdadeiro são os adoradores, não a performance; é um povo rendido que responde ao Rei.”

John Piper

“Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos n’Ele, e o verdadeiro louvor nasce dessa satisfação, não de auto exaltação.”

John MacArthur

“O louvor não existe para entreter a Deus, mas para nos humilharmos e exaltar o Seu nome em espírito e em verdade.”

O QUE SE TORNOU, AFINAL, O LOUVOR CONTEMPORÂNEO?

Onde antes exaltávamos a majestade de Deus, sua santidade e soberania — cantando a um Deus que é o totalmente outro — hoje parece que temos nos voltado para canções que nos colocam no centro. A liturgia da adoração deu lugar à liturgia da autoafirmação. O trono foi substituído pelo espelho. Este texto é um convite à reflexão sobre essa mudança silenciosa, porém profunda, que transformou parte do louvor em uma espécie de autoajuda espiritualizada — e sobre o urgente retorno ao louvor bíblico: reverente, rendido, centrado em Deus e não em nós.

É verdade: não se trata de rejeitar a beleza melódica ou a qualidade técnica das canções modernas. Existem, sim, louvores profundamente bíblicos e espiritualmente saudáveis sendo compostos hoje. Mas meu incômodo vai além do som. Trata-se do centro. De quem ou do que se tornou o sujeito oculto, ou antes, o sujeito evidente da adoração: nós mesmos.

Muitas das canções mais entoadas atualmente giram em torno de frases como “você tem valor”, “você é precioso”, “Deus vai te exaltar”, “te dar vitória”, “abrir portas”, “curar sua alma ferida”. Tudo verdade, se lido no contexto certo. Mas, isolado, isso se torna a catequese de um hedonismo piedoso — onde o homem se torna o fim último da ação divina. E Deus, um tipo de gênio da lâmpada celestial.

Mas a oferta de Deus, como bem diz o apóstolo Paulo, foi a cruz — “porque a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo, mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus” (1 Coríntios 1.18). Ele não ofereceu uma promessa de conforto, mas um chamado ao discipulado — com renúncia, cruz, perseverança: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (Lucas 9.23), “Se alguém quiser ser meu discípulo, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16.24). O Filho amado não veio para nos mimar, mas para nos salvar. E isso nos deveria bastar: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele” (João 3.16-17).

A lógica do Reino é esta: “Se com Ele sofremos, com Ele também seremos glorificados” (Romanos 8.17) — mas a glória só vem depois da cruz.

O louvor que se oferece como alento emocional, mas não conduz ao arrependimento, é um embuste. A música que massageia o ego, mas não leva ao trono de Deus, é apenas entretenimento religioso. E isso é um risco grave. Como nos alertava A. W. Tozer, “o cristianismo moderno se tornou racionalista e centrado no homem, em vez de ser espiritual e centrado em Deus”.

No passado, nossos hinos diziam “Tu és fiel, Senhor”, “Santo, Santo, Santo”, “Grandioso és Tu”, “Te exaltamos, ó Cordeiro”. A gramática da adoração era vertical, sacra, cheia de reverência. Hoje, muitas letras parecem mais janelas de autoajuda que altares de rendição. Onde antes dizíamos “Tu és”, agora dizemos “Eu sou”. Onde se dizia “Te exaltamos”, agora se ouve “eu vencerei”.

E não é que toda música moderna seja má. Deus tem levantado adoradores sinceros nesta geração — compositores e ministros que compreendem que louvor é sacrifício, não agrado, como declara a Escritura: “Por meio de Jesus, ofereçamos a Deus, continuamente, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13.15). Mas são minoria. E não podemos confundir exceção com regra.

O louvor bíblico é centrado em Deus e na sua glória. Ele nasce do temor — “Tema toda a terra ao Senhor; temam-no todos os habitantes do mundo” (Salmo 33.8), passa pela gratidão — “Entrem por suas portas com ações de graças e em seus átrios com louvor; deem-lhe graças e bendigam o seu nome” (Salmo 100.4), floresce na confiança — “Ele pôs um novo cântico em minha boca, um hino de louvor ao nosso Deus. Muitos verão isso e temerão, e confiarão no Senhor” (Salmo 40.3), e se consuma na obediência — “Acaso o Senhor tem tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? A obediência é melhor do que o sacrifício” (1 Samuel 15.22). Ele não é um lugar de consolo terapêutico apenas, mas de consagração total. Ele não massageia o coração do homem; ele o oferece, quebrantado, diante do trono — “Os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito quebrantado; um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás” (Salmo 51.17).

Precisamos voltar. Voltar ao Deus que não bajula, mas santifica. Que não promete conforto, mas dá propósito. Que nos leva aos desertos não por crueldade, mas por misericórdia — “Lembrem-se de como o Senhor, o seu Deus, os conduziu por todo o caminho no deserto durante estes quarenta anos, para humilhá-los e pô-los à prova, a fim de saber o que estava em seus corações... Ele os humilhou, fazendo-os passar fome e depois os sustentou com maná... para ensinar-lhes que nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca do Senhor” (Deuteronômio 8.2-3). A confiança, como diz Paulo, nasce da perseverança, não da comodidade — “a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança” (Romanos 5.3-4).

Como escreveu Dietrich Bonhoeffer, mártir da fé diante do nazismo: “A graça barata é o inimigo mortal da Igreja. É a graça sem discipulado, sem cruz, sem Jesus Cristo vivo e encarnado.”

Que o nosso louvor, então, não seja barato. Que ele custe nosso orgulho, nossa vontade, nosso centro. E devolva o trono a quem de direito: ao Rei dos reis. 

sábado, 10 de setembro de 2016

Eu, Tio Patinhas e o dízimo


Por Jânsen Leiros Jr.


"8 Pode um ser humano roubar algo de Deus? No entanto estais me roubando! E ainda ousam questionar: ‘Como é que te roubamos?’ Ora, nos dízimos e nas ofertas! 9 Estais debaixo de grande maldição, porquanto me roubais; a nação toda está me roubando. 10 Trazei, portanto, todos os dízimos ao depósito do Templo, a fim de haja alimento em minha Casa, e provai-me nisto”, assegura o SENHOR dos Exércitos, “e comprovai com vossos próprios olhos se não abrirei as comportas do céu, e se não derramarei sobre vós tantas bênçãos, que nem conseguireis guardá-las todas. 11 Também impedirei que pragas devorem as vossas colheitas, e as videiras nos campos não perderão o seu fruto!”, promete Yahweh dos Exércitos. 12 “E todas as nações vos chamarão ‘âshar, bem-aventurados; porque a vossa terra será maravilhosa!”, promete o SENHOR dos Exércitos.
Malaquias 3:8-12 - KJA

Se tem um assunto polêmico e extremamente controverso em nosso meio, é o que trata de dinheiro. Toda vez que lideranças tocam no assunto, ou toda vez que pastores conclamam suas assistências a entregarem seus dízimos e suas ofertas, há em grande parte da plateia, ou mesmo entre os que assistem aos cultos pela TV ou pela internet, um enorme e incômodo desconforto.

Essa polêmica varia em grau conforme o perfil e origem da plateia, mas sempre é polêmica. Há muitos que encobrem suas posições contrárias, e outros que, por medo da avaliação de terceiros, agem conforme a maioria e seguem o fluxo da manada que vai para lá e para cá, muitas vezes sem qualquer sintoma genuíno de aceitação. Já que é para fazer, façamos.

Talvez, por essa razão, me chovam perguntas sobre dízimo e sua pertinência, sobre ofertas e sua necessidade no mundo pós Novo Testamento. Sempre me deparo com gente querendo legitimar sua vontade de reter consigo, o que se vê obrigado a dar. E por isso tentam encontrar, desesperadamente, alguém que lhes indique um caminho para a negação. Porém, mais do que um presumido contexto neotestamentário, o que mais provoca a inquietação com esse assunto está muito mais afeto à ligação que cada indivíduo desenvolve com o dinheiro em seu íntimo.

Num mundo em que tudo é relativo, obrigações e costumes seguem se alternando como legítimos e improcedente, atuais ou caducos, gerando sempre questionamentos sobre aplicabilidades e usos. E com o assunto dinheiro na igreja não poderia ser diferente. Afinal de contas, perguntou um leitor essa semana: o dízimo é ou não uma obrigação?

Por um momento, e para evitar o embate desde o primeiro parágrafo da resposta, vamos deixar temporariamente a palavra obrigação de lado e vamos tecer comentários sobre uma ótica alternativa; porém, bastante interessante, acredito. Sim, porque se tem uma coisa que no reino de Deus parece ter caído em desuso é a obrigação como ato aparente de cumprimento a um rito; esse povo honra-me com seus lábios, mas seu coração está longe de mim. No reino de Deus há um abandono ao que é aparente, e uma extrema valorização do que é essencial. O conhecido Sermão da Montanha traduz isso maravilhosamente bem.

Sendo assim, prefiro encarar o dízimo como um ato de adoração e desafio de fé, como desafiado foi o povo de Israel na passagem de Malaquias acima. Dízimo é adoração porque é desprendimento. Sou eu dizendo para mim mesmo que posso entregar o que recebi, porque por ação e cuidado de Deus haverá sustento, ainda que a princípio tal parcela pudesse fazer falta em meu orçamento doméstico. E o tamanho dessa entrega varia conforme o orçamento, porque muito ou pouco, a décima parte de alguma coisa será sempre a décima parte dessa mesma coisa. Assim, aquele que é fiel no que é pouco também o será no que for muito. Quando dizimista, ninguém o é mais ou menos do que ninguém. Deus não faz acepção de pessoas. Todo dizimista é igual.

A literatura infanto-juvenil nos empresta um personagem ideal para o debate sobre dinheiro: Tio Patinhas. Amante do dinheiro, ele é a imagem do avarento que só acredita no poder do dinheiro para a movimentação e validação de tudo na vida. E por pensar assim, ele se torna um acumulador contumaz, crendo que quanto mais dinheiro retiver, maiores serão suas chances e possibilidades de ter o que pretende. Dar ou doar, são palavras abomináveis para qualquer avarento acumulador.

Quando entregamos o dízimo, não cumprimos uma obrigação tão somente. Damos um passo de fé, crendo que nosso sustento e a nossa vida cotidiana não dependem da décima parte do que ganho, porque quem me supre a vida pode muito mais do que essa décima parte. Está aí implícito um belo e delicioso exercício de fé. Ora, se acreditamos em milagres e curas, se cremos em salvação pela graça, onde eu nada faço por merecê-la, como não creio que Deus me sustentará ainda que com dez por cento menos na minha renda? Será que por ser o bolso a parte mais sensível do corpo humano é que pensamos assim?

Dízimo, assim, é adoração. É honra a Deus em exercício de fé. É a superação íntima de se crer no que se tem, para crer em quem nos tem. Dízimo é entrega e rendição. Porque tudo com o que mais nos importa na vida, quase sempre está ligado àquilo com o que mais gastamos tempo e dinheiro. Por isso dízimo precisa ser prazer e alegria. Aliás, Deus ama o que dá com alegria. Deus ama um coração doador.

Quando colocamos o dízimo como obrigação, colocamos nele um peso de culpa e medo. E o medo não é perfeito em amor. Dízimo é privilégio de quem devolve a Deus por exercício de gratidão, parte de tudo aquilo que Deus já nos deu. Dízimo, portanto, não é barganha. Eu não dou para poder receber. Eu apenas devolvo por fé parte daquilo que já recebi. Dízimo é testemunho de bênção. Se Deus é doador, importa que seus adoradores o adorem doando e doando-se.
                     
Existe sim um mistério nesse processo de doação, de entrega, e de obediência em fé. Quanto mais me entrego e me doo, mais recebo para mais doar e me entregar. É como um canal de fluxo de enchente e vazante, que se alternam ao sabor da vontade daquele que é o dono de todas as coisas. Quanto mais doamos mais parecidos com Deus ficamos, porque Ele é o doador por excelência. Fez isso com a vida, repetiu doando-se na salvação, e seguirá doando vida na ressurreição e pela eternidade afora. Ele dá sem nada pedir em troca. Há, sim, quem não queira receber. Mas ninguém precisa fazer nada para receber o que já está dado. Com Deus não há barganha. Ele não vende nem troca; dá!

O dízimo é um prazer.


sábado, 5 de março de 2016

Se Deus não habita em templos...


Por Jânsen Leiros Jr.


"22 Sendo assim, Paulo levantou-se no meio da reunião do Areópago e discursou: “Caros atenienses! Percebo que sob todos os aspectos sois muitíssimo religiosos, 23 pois, caminhando pela cidade, observei cautelosamente seus objetos de adoração e encontrei até um altar com a seguinte inscrição: AO DEUS DESCONHECIDO. Ora, pois é exatamente este a quem cultuais em vossa ignorância, que eu passo a vos apresentar. 24 O Deus que criou o Universo e tudo o que nele existe é o Senhor dos céus e da terra, e não habita em santuários produzidos por mãos humanas. 25 Ele também não é servido pelas mãos dos homens, como se precisasse de algo, porquanto Ele mesmo concede a todos a vida, o fôlego e supre todas as nossas demais necessidades. 26 De um só homem fez Deus todas as raças humanas, a fim de que povoassem a terra, havendo determinado previamente as épocas e os lugares exatos onde deveriam habitar. 27 Deus assim procedeu para que a humanidade o buscasse e provavelmente, como que tateando, o pudesse encontrar, ainda que, de fato, não esteja distante de cada um de nós: 28 ‘Pois nele vivemos, nos movimentamos e existimos’, como declararam alguns de vossos poetas: ‘Porquanto dele também somos descendentes’. 29 Portanto, considerando que somos geração de Deus, não devemos acreditar que a Divindade possa ser semelhante a uma imagem de ouro, prata ou pedra, esculpida pela arte e idealização humana. 30 Em épocas passadas, Deus não levou em conta essa falta de sabedoria, mas agora ordena que todas as pessoas, em todos os lugares, cheguem ao arrependimento. 31 Porque determinou um dia em que julgará o mundo com o rigor de sua justiça, por meio do homem que para isso estabeleceu. E, quanto a isso, Ele deu provas a todos, ao ressuscitá-lo dentre os mortos!"
Atos 17:22-31 - KJA

Seguimos com enorme prazer respondendo aos amigos e leitores que nos encaminham as mais variadas perguntas. Temos respondido a todas, mas algumas selecionamos para dividir com todos os que nos acompanham, crendo que pode ajudar a mais gente. E é nesse propósito que hoje falaremos sobre o texto sublinhado acima, baseado no qual recebemos a seguinte pergunta: Se Deus não habita em templo feito por mão humanas, então não temos necessidade de construirmos templos e igrejas, certo?

Como já afirmamos anteriormente e nunca é demais reafirmar, não podemos fazer afirmações sobre textos, sem considerar seus contextos, sob pena de refletirmos sobre apenas uma parte da ideia do autor, ou mesmo não considerarmos o sentido em que ele estabelece esse ou aquele conceito. E esse é um exemplo clássico disso. Senão vejamos.

Lendo isoladamente o versículo 24, podemos ser levados a concluir que Paulo está dizendo não haver necessidade de construirmos templos para servir de santuário às igrejas, pois Deus não mora neles. Junta-se a isso a fala de alguns argumentadores de plantão de que a igreja primitiva não tinha templos, mas se reunia nas casas, e está montado o castelo de cartas. Por isso sempre digo que texto sem contexto vira pretexto.

Retornando então ao contexto que transcrevemos acima, notamos que Paulo está discursando aos atenienses, em pleno Areópago[1], uma espécie de tribunal onde se reunia o conselho local, e onde ideias eram debatidas entre os notáveis atenienses. nesse discurso ele está explicando os fundamentos de sua doutrina, e encaminha brilhantemente o assunto, ao reconhecer o comportamento religioso e devotado daquela gente. Isso o torna simpático aos ouvidos, uma vez que ele demonstra se agradar de um traço pertinente àquela sociedade, do qual ela mesma se orgulha.

Mas Paulo não está ali para adula-los, mas sim para anunciar as boas novas de salvação. E assim ele aponta para um altar onde está escrito "Ao Deus desconhecido". Inspirado, Paulo diz que é exatamente sobre esse Deus que eles não conhecem que vem falar-lhes, pois sendo o criador de todas as coisas, provavelmente não está ali como todos os demais deuses de sua mitologia, representado por suas imagens e esculturas, porque sendo o autor do universo, não habita em templos feitos por mãos humanas.

Ao dizer isso, Paulo está diferençando Deus de todos os demais deuses mitológicos, demonstrando ser pertinente e assertiva a inexistência de uma escultura qualquer naquele altar ao Deus Desconhecido reservado, já que não pode ser representado por qualquer imagem, ainda que esculpida em ouro ou qualquer outro material. E Paulo vai além, dizendo que também não seria semelhante aos outros deuses, pois não necessita ser servido ou agradado com ofertas, como se alguma necessidade tivesse em que pudesse o homem supri-lo.

Portanto ao dizer que Deus não habita em templos feitos por mãos humanas, Paulo não está dizendo profeticamente que nossos templos atuais são desnecessários e ineficazes para servir de moradia de Deus, porque tal ineficácia nos é, não só conhecida como crida. Tal crença em contrário nos seria herética, pois como poderíamos  pensarmos que Deus faria habitação em qualquer prédio ou lugar que fosse[2]. Paulo está se dirigindo a uma sociedade que acredita aprisionar seus deuses em templos e representa-los com imagens e esculturas. O Deus Desconhecido não habita em prédios!

Por outro lado, a pergunta do nosso leitor não é de toda infundada, pois há mesmo quem acredite que templos guardam a presença de Deus em suas paredes, como se de tais habitação fizesse uso. Ora, nos dias atuais, dado o avanço da revelação universal de alguns atributos de Deus, tais crenças chegam a ser absurdas mesmo aos olhos dos ímpios, que entendem naturalmente que Deus não pode ser guardado a sete chaves.

Portanto é claro que templos são desnecessários e ineficazes se tiverem como objetivo servirem de morada para Deus. Mas são extremamente úteis para o serviço da adoração e da comunhão dos santos que, sim, no passado se reuniam em casas, mas que hoje possuem a liberdade de se reunirem em templos construídos com a contribuição de seus adeptos, como um bem comum, e uma referência local para onde se pode afluir a congregação de adoradores.

É óbvio que a presença de Deus não se faz exclusiva nesses lugares. Por seu Espírito Deus habita o homem. O seu Espírito foi derramado sobre toda a carne[3]. Somos nós os seus templos. De modo que os templos que construímos em si nada é, mas nos são extremamente úteis e precisam ser adequados e preparados para o propósito que lhes conferimos; servir de lugar de adoração, comunhão e aprendizado da Palavra.

Ora, não podemos fazer isso em nossas casas? Claro que podemos. E Deus estará presente? Claro que estará. Mas não teríamos condição de reunir tanta gente. mas há lugares onde proibido o cristianismo e ajuntamentos religiosos, bem se faz uso de casas, lojas e até porões. Graças a Deus não precisamos disso no Brasil. Pelo menos não nos dias de hoje.

Portanto a pergunta se repete: Os templos são necessários? Sim, são. Para encontrarmos Deus que habita ali? Claro que não. Mas podemos ter o privilegio de os utilizarmos para o conforto da reunião dos que o adoram em espírito e em verdade.



[1]  Areópago (em grego antigo: ρειος Πάγος areios pagos, "Colinas de Ares") era a parte nordeste da Acrópole em Atenas e também o nome do próprio conselho que ali se reunia. Além de supremo tribunal, o conselho também cuidou de assuntos como educação e ciência por algum tempo.
[2]  João 4:15-26
[3]  Atos 2:17

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

=> Desconhecidos íntimos - o milagre do Espírito em nós





“São milhares que jamais vimos. Multidões a quem nunca nos dirigimos. E somos tomados de cumplicidade e confiança, pela unidade da fé. É uma troca espontânea e intensa, em nada imposta por regras ou artifícios. Um prazer que nos embala e arrebata, porque n’Ele somos um; desconhecidos íntimos.”
                      JLjr


42 E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. 43 Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. 44 Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. 45 Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. 46 Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, 47 louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.”
                      Atos 2:42-47 - RA

Em tempos em que as relações se pautam por conveniências e interesses os mais diversos e suspeitos, a comunhão da igreja e o convívio espontâneo e prazeroso pela unidade da fé, soa provocante aos corações e mentes, anunciando com contundência e poder, o cuidado e a salvação que nos foi dada em Cristo, nosso Senhor.

Adolescente, ávido por viver tudo ao mesmo tempo e intensamente, e sendo vizinho da Igreja Batista de Cachambi por anos, lembro que me causava alguma estranheza ver tanta gente perder o domingo inteiro na igreja, enquanto eu e meus colegas nos divertíamos jogando bola na mesma rua. Digo alguma, porque no fundo, embora criticasse com pilhérias os crentes que ousavam passar pelo meio de nosso campo de futebol, havia em mim uma inquietante pergunta sem resposta; o que os motivava a tanta dedicação?

Não demorou muito para que, durante a semana da Escola Bíblica de Férias – EBF, eu passasse a conhecer de dentro, o que impelia aquela gente a um convívio tão continuado e intenso; o prazer. Sim, porque afirmação alguma, ou qualquer que seja o mandamento, nada supera o apelo do prazer legítimo que a comunhão gera em nossos corações. E como gosto de afirmar, sensações são mais fortes que argumentos. Por isso “Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união! É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes.” (Salmos 133:1 e 2 - RC). A comunhão é um perfume que agrada os que nos rodeiam e nos reveste de encanto.

É claro que não falo de uma mera reunião ou ajuntamento. Com certeza já participamos de grupos em que a proximidade não passava de conveniente formalidade ou atitude protocolar. Nos mais variados ambientes, e não excluo aqui os religiosos, percebemos olhares ocos, sentimos abraços frios, e amargamos apertos de mãos sem vida. Por muito tempo alegria foi sinônimo de pouco siso. Sorrisos não combinavam com piedade, e efusivas demonstrações de afetos entre os irmãos eram vistas com estranheza e suspeição. O cuidado com o outro era responsabilidade de pastores e líderes.

Que fique ainda mais claro, que também não falo de demonstrações frívolas e inconsistentes de proximidade, com palavras pré-moldadas ou frases colocadas, todas para criarem uma falsa aparência de afinidade e emoção. De nada adiantam lábios que se adulam mutuamente, com corações distantes e interesses conflitantes ou divergentes. Intimidade se constrói sobre propósitos confluentes e o prazer sincero de estarmos junto do outro, com o outro, e pelo outro. O milagre de sermos um, sendo muitos; o poder do Espírito que habita em nós.

Ora, o que é a comunhão para nós, senão o exercício legítimo da unidade da fé? E esta mesma fé não é o dom de Deus derramado em nós por sua bondade e graça, mediante o sacrifício de Jesus? Logo podemos afirmar sem qualquer medo ou insegurança, que a vivência permanente e o convívio dos santos, em amor, são uma das mais contundentes e profícuas pregações que a Igreja pode fazer ao mundo sobre tão grande salvação. A unidade da fé e a comunhão em amor são proféticas ao mundo.

Portanto não temos e não devemos nos envergonhar de nada que vivemos ou produzimos, irmanados que estamos em Deus. Vivendo em comunhão e amor, louvando e adorando o Autor da vida, pregamos a salvação. Porque se o amamos é porque Ele nos amou primeiro. E se somos um, é porque ele nos salvou. Louvado seja o nosso salvador. Amém.

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