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segunda-feira, 7 de abril de 2025

Quando o milagre não depende de você

Por Jânsen Leiros Jr. 

A fé cristã é racional porque se fundamenta em evidências e experiências, ainda que transcenda a razão.” - Alister McGrath; teólogo anglicano e cientista; Dúvida: Certeza e Compromisso na Vida Cristã

"A luz da razão e a luz da fé provêm ambas de Deus; por isso, não se podem contradizer entre si." - Santo Tomás de Aquino; Fides et Ratio, Encíclica de João Paulo II citando Aquino

"A soberania de Deus nunca anulou a responsabilidade humana. Deus age conforme Sua vontade, e nossa confiança deve repousar em Sua providência." - Augustus Nicodemus; teólogo e pastor presbiteriano

"Que não nos envergonhemos da doutrina bíblica da absoluta soberania de Deus, não peçamos desculpas pela verdade de Deus, mas que antes, venhamos a proclamá-la." - A.W. Pink; teólogo reformado

"A espera em Deus é uma lição que poucos aprendem plenamente." - Charles Spurgeon; pregador; Sermões

"Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer." -Romanos 9:18

Nos dias atuais, tem se tornado comum encontrar publicações que romantizam a chamada “fé cega” como virtude superior, exaltando a atitude de Pedro no episódio da pesca milagrosa (Lucas 5) como uma obediência inquestionável, fruto de uma fé pronta, convicta e até exemplar. Alguns chegam a usar esse modelo como prova de que é justamente a fé desmedida, irracional e submissa que move o coração de Deus. No entanto, uma leitura mais acurada e conectada ao contexto bíblico e humano do episódio revela nuances muito mais profundas — e, paradoxalmente, mais reveladoras sobre o que é, de fato, a fé cristã.

Em Lucas 5:5, quando Pedro responde a Jesus: "Sob a tua palavra, lançarei as redes", muitos estudiosos e pregadores interpretam essa atitude como uma obediência absoluta, uma confiança plena no que Jesus dizia. Contudo, ao analisar o contexto, fica claro que Pedro não estava, de fato, demonstrando uma fé cega ou incondicional. Em vez disso, ele estava fazendo uma aposta — uma aposta na possibilidade de que Jesus fosse mais do que o "mestre itinerante" que as multidões falavam. Ele não estava apenas obedecendo sem questionar; ele estava disposto a testar se, de fato, Jesus era quem ele dizia ser. E, nesse ato de testar, Pedro se posiciona no limiar entre a dúvida e a fé, entre o ceticismo e a possibilidade de um encontro genuíno com o Divino.

Pedro, como pescador experiente, sabia que a melhor hora para pescar era durante a noite, quando os peixes estavam mais ativos. Ele havia passado toda a noite sem sucesso, e sua experiência e conhecimento técnico o haviam levado a concluir que nada mais seria possível. Quando Jesus, sem ser pescador, sugeriu que ele lançasse as redes novamente, Pedro não estava simplesmente obedecendo. Ele estava, talvez de forma relutante, dando a Jesus a chance de provar algo novo. O texto revela a complexidade da resposta de Pedro: “Mas, já que tu mandas, vou lançar as redes.” Ele não se entregou a uma fé sem questionamento, mas aceitou um desafio, disposto a ir além do que a razão e a experiência lhe diziam.

A visão de que Pedro obedeceu sem questionar é uma simplificação excessiva do que realmente aconteceu. Ao invés de uma fé sem razão ou sem questionamentos, Pedro foi fisgado pela possibilidade de que algo extraordinário poderia acontecer, o que, de fato, aconteceu quando as redes se encheram de peixes. Esse milagre não foi apenas um teste da fé de Pedro, mas uma manifestação do poder soberano de Deus, algo que transcende nossa capacidade de compreendê-lo completamente, mas que não exige nossa aceitação passiva ou irracional.

Essa dimensão do questionamento como parte do caminho da fé é recorrente nas Escrituras. Abraão, o “pai da fé”, questiona a Deus sobre como poderia se tornar pai de uma grande nação se já era avançado em idade e Sara, sua esposa, estéril e idosa (Gênesis 15:2-6; 17:17). Moisés, diante da sarça ardente, hesita diante da missão divina, apontando suas limitações pessoais e seu receio de não ser ouvido pelo povo (Êxodo 3:11; 4:1,10). E Maria, ao ouvir do anjo a promessa da concepção virginal, indaga: "Como se fará isso, pois não conheço homem algum?" (Lucas 1:34). Em todos esses casos, Deus não repreende o questionamento. Ao contrário, Ele reafirma sua promessa e revela o “como” realizará sua vontade. A fé, portanto, não exclui o desejo de compreensão; ela se fortalece na Palavra explicada, sustentada pela própria revelação divina. É nesse chão de diálogo — entre o humano que pergunta e o divino que responde — que nasce uma fé vigorosa, comprometida e real.

A interpretação da fé de Pedro como sendo um “teste” e não uma fé cega também nos ajuda a entender melhor outros episódios da vida de Pedro. Ele era um homem cheio de falhas e incertezas, como evidenciado por sua reação ao ser convidado a andar sobre as águas (Mateus 14:28-31) ou pelo episódio de negar a Jesus (Mateus 26:69-75). A fé de Pedro não foi uma fé inquestionável e sem falhas; foi, sim, uma fé construída por meio de provas, questionamentos, dúvidas e, acima de tudo, encontros com Jesus que o transformaram.

A fé cristã não se constrói em um vazio de ignorância ou passividade. A fé que a Bíblia nos chama a ter é aquela que se baseia na revelação de Deus, que é tanto racional quanto experimental, que se desenvolve por meio do relacionamento com Deus e não por uma simples obediência a um conjunto de regras ou palavras. Quando Jesus confronta Pedro, não está chamando à obediência cega, mas à confiança baseada no que Ele estava prestes a mostrar.

O mesmo se aplica a outras histórias que destacam o caráter soberano de Deus na realização de milagres. Por exemplo, no episódio da viúva de Naim (Lucas 7:11-17), vemos uma mulher que perdeu seu único filho e estava em um lamento profundo. Ela não pediu nada a Jesus, mas Ele, movido por compaixão, restaurou a vida de seu filho. O milagre não foi resultado da fé ou do pedido da mãe; foi uma ação soberana de Jesus, que não aguardou que a mulher pedisse ou demonstrasse uma fé específica. Isso é uma evidência clara de que os milagres de Deus não dependem de nossa fé ou de nossas palavras, mas de Sua misericórdia e soberania.

A ideia de que Deus responde apenas à nossa fé, como se Ele fosse movido por nossas atitudes, pode levar a uma visão distorcida de Deus, como se Ele fosse um ser que faz negócios conosco, em vez de um Deus soberano que age de acordo com Sua vontade. O perigo de afirmar que o milagre depende exclusivamente de nossa fé é colocar Deus na posição de um "ídolo", de quem esperamos algo em troca de nossas ações ou palavras. Isso pode transformar a fé em uma moeda de troca, onde nossa confiança em Deus é condicionada a resultados visíveis e imediatos, algo totalmente alienado da verdadeira essência do cristianismo.

Essa concepção de que Deus tem uma “caixa de milagres” individual, que seria aberta à medida que alcançamos certo grau de fé ou demonstramos as atitudes "certas", se aproxima perigosamente de uma espiritualidade meritocrática, onde a graça se torna uma recompensa e não um dom. Reduz-se a providência divina a um sistema de “input e output” espiritual, como se Deus estivesse preso a um roteiro que depende exclusivamente de nossas emoções, palavras ou gestos. Essa leitura condiciona o agir de Deus ao nosso desempenho, como se o Criador estivesse limitado por nossos acertos, e não fosse Ele mesmo a origem de toda boa dádiva (Tiago 1:17).

A ideia de que Deus funciona segundo um “algoritmo espiritual”, abrindo compartimentos de bênçãos conforme a intensidade ou qualidade da nossa fé, de fato distorce completamente a doutrina da graça e coloca o ser humano no centro do processo, como se fosse ele o protagonista do milagre, e não Deus. Esse é um dos grandes desvios da espiritualidade contemporânea, que é o culto ao “mover” como espetáculo e à fé como técnica.

Trata-se, no fundo, de uma tentativa de controlar o incontrolável — de transformar o mistério da ação de Deus em uma fórmula previsível. Uma espécie de “misticismo evangélico” em que a bênção é tratada como um prêmio por obediência performática, ou a fé como um mecanismo mágico que aciona o céu. Essa perspectiva enfraquece a confiança na soberania divina e nos afasta da experiência bíblica, que mostra um Deus que age conforme Sua vontade, movido por misericórdia e compaixão — e não por regras humanas ou expectativas de comportamento espiritual. O Deus revelado nas Escrituras não é um gênio da lâmpada acionado por frases certas, mas um Pai que conhece nossas limitações e cuida de nós com liberdade, graça e soberania.

Por isso, o verdadeiro milagre é o próprio Deus vindo ao nosso encontro, mesmo quando não temos forças para buscá-Lo. Não é sobre “se posicionar”, mas sobre ser alcançado. Não é sobre acionar promessas, mas sobre confiar em um Deus que age por quem n’Ele espera (Isaías 64:4).

E esperar, às vezes, é tudo o que conseguimos fazer. E, por graça, é tudo o que Ele pede.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Se conselho fosse bom, solução?





“Não havendo sábia direção, toda a nação é arruinada; o que a pode restaurar é o conselho de muitos sábios."
Provérbios 11:14 - KJA

 “O caminho do insensato é reto aos seus olhos; mas o que dá ouvidos ao conselho é sábio."
Provérbios 12:15 - JFA

“A arrogância só produz contendas, mas a sabedoria está com aqueles que buscam conselho."
Provérbios 13:10 - KJA

“Onde não há conselho, frustram-se os projetos; mas com a multidão de conselheiros se estabelecem."
Provérbios 15:22 - JFA

“quem parte para a guerra necessita de orientação estratégica, pois com muitos conselhos se conquista a vitória!"
Provérbios 24:6 - KJA

“Mais vale um jovem pobre e sábio do que um rei ancião e insensato, que em sua arrogância já não aceita mais conselhos."
Eclesiastes 4:13 - KJA

"Se conselho fosse bom ninguém dava; vendia." É o que diz a sabedoria popular. E interessante! esse ditado é argumento tanto para quem quer aconselhar, mas teme a reação de seu interlocutor, quanto para quem efetivamente não quer aceitar qualquer conselho sobre um assunto qualquer, principalmente se esse conselho sugere não realizar alguma coisa da qual se está muito interessado em fazer. Normalmente ouvimos de bom grado os conselhos que nos atendem as próprias inclinações. Servem sempre e convenientemente para justificar atitudes, ou para criar o "bode expiatório" a quem culparemos pelo que quer que dê errado. - Tá vendo?! Fui ouvir você... Olha no que deu!

Nesse cenário por onde caminha a realidade da conduta humana e suas conveniências, parece até desaconselhável, emitir conselhos sobre qualquer que seja o assunto, em quaisquer que sejam as circunstâncias, sob pena de ser inoportuno diante da inflexibilidade do aconselhado, ou de ser responsabilizado pela desventura daquele a quem se pretendeu ajudar. Dura é a vida do conselheiro. Bem faz o consultor que cobra pelo conselho que dá. Afinal, conselho bom se vende.

Mas nosso foco aqui não será o conselheiro e nem mesmo o conselho em si, mas a atitude sábia de se aconselhar, de se enriquecer com o máximo de informações e percepções sobre um determinado assunto, antes de tomar uma decisão, ou firmar posição. Na multidão dos conselhos habita a sabedoria. Mas qual é a conexão de tomar conselho, com o exercício filosófico a que se pretende a mania de pensar no que cremos? Eu diria que total.

Uma das características mais marcantes da filosofia é o seu método. No trabalho incessante de buscar respostas para suas questões, chegar a alguma resposta é menos importante que o próprio processo de se buscá-las. O exercício da investigação, é de fato, a chama inextinguível do pulsar filosófico. E isso se dá em grande medida, não se sabendo bem o que é causa e o que é efeito, porque a filosofia não trabalha com verdades absolutas, ensimesmadas que são de particulares observações do mundo à volta do filósofo, ainda que suas afirmações, oriundas de diferentes e variadas contribuições de seu cotidiano, sempre se pretendam à universalidade.

Desse modo, não havendo por princípio uma verdade absoluta a que alguém possa chegar por particular observação, a investigação de certas questões sempre estarão a mercê de sucessivos exercícios elucubrativos, que alternarão os assuntos em seus laboratórios, conforme circunstâncias históricas e sociais, que demandem posicionamento ou orientação do pensamento humano e de senso comum.

Esse perfil da atividade filosófica, é milenar. Nas escolas filosóficas da antiguidade, os alunos eram sempre estimulados por seus mestres a buscarem entendimentos divergentes de suas observações. Em vez de lhes ensinar apenas a conclusão a que chegavam, instruía-os no caminho que trilhavam até uma determinada idéia, incentivando-os a autonomia de pensamento. Assim, eram estimulados a discordarem e a criticarem seus mestres, trazendo novas concepções e possibilidades de entendimento das questões sobre as quais se debruçavam.

Ora, no mundo das idéias o tempo cronológico não limita e muito menos impede o debate entre os diversos pensadores da história universal. Ora contradizendo, ora corroborando, pensadores se sucedem na tarefa de trazer às suas ágoras contemporâneas, questões que serão discutidas livremente por diversos filósofos, quer estejam presentes fisicamente, quer se façam presentes por intermédio de suas obras, registros, ou tradição oral a eles atribuídas. Uma verdadeira academia do pensamento, onde o mundo pode se aconselhar com as idéias e contribuições deixadas por cada um dos seus membros históricos.

Esses conselhos a que me refiro, são contrapostos, criticados, discutidos e comentados. Quer aceitos na íntegra ou em partes, quer rejeitados por completo, todos inexoravelmente servirão de parâmetros que tangerão o pensamento humano pela história, em suas demandas por conhecimento e direcionamento existencial. A cada fase da nossa história, novos membros vão compondo essa academia do pensamento, enriquecendo todo e qualquer debate, e contribuindo para visões cada vez mais adequadas à contemporaneidade do debate mais recente. Na multidão dos conselhos habita a sabedoria. Não é erro de digitação. Estou repetindo essa frase propositalmente.

Não obstante a costumeira demonização da atividade pensante no que se refere a investigação das razões de nossa fé, penso que na multidão dos conselhos habita a sabedoria. Ou seja, quanto mais rodeado de conselhos, quanto mais enriquecido pela atividade do pensamento humano, quer para confirmá-lo, quer para rejeitá-lo, tanto mais consistente serão minhas posições, uma vez que frutos de uma conclusão robusta, não oriunda de uma mímica conveniente e oportunista qualquer, mas nascida de uma atividade responsável e prazerosa; a renovação do nosso entendimento, para entendemos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.[1]

A essa altura muitos já devem ter torcido o nariz. Mas haverá quem rasgue as próprias vestes[2]. Porque o questionamento bem como a confrontação de idéias e visões de mundo, são, em tese, os melhores e mais bem-sucedidos métodos de aprofundamento do conhecimento, qualquer que seja a disciplina ou ciência na qual esteja inserido. Inclusive na teologia. Ou não foi assim que avançou a revelação de Deus ao longo da história da humanidade, mais particularmente na história de Israel?

O questionamento das tradições judaicas, bem como a confrontação dos costumes religiosos dos escribas e fariseus, estão espalhados por todo o relato dos evangelhos. As idéias convenientemente estabelecidas sobre o que era religiosidade, davam à elite religiosa uma confortável condição de destaque, concedendo prestígios e acumulando-lhes vantagens oportunas. Mas Jesus lhes questionava a pertinência dos hábitos e a natureza das intenções. Ele confrontava repetidamente a superficialidade de seus ritos, como a realidade maldosa de suas pretensões. Não foi sem motivo que esses profissionais da religião e aproveitadores da boa fé do povo, foram chamados, sem hesitação, de hipócritas e de sepulcros caiados, dado o fingimento com que se apresentavam como piedosos e probos religiosos.

Paulo não agiu muito diferente. Toda sua teologia, em visível construção ao longo de suas cartas, é fruto do questionamento e confrontação do que se acreditava, com aquilo que se descortinava diante de seus olhos, a medida que a experiência da vida transformada lhe propiciava novas percepções sobre a relação da humanidade com Deus. Confrontando idéias e questionando a si mesmo, aquele zeloso judeu que consentiu com a morte de Estevão e empreendeu viagem para prender e julgar os seguidores de Jesus, tornou-se o principal expoente do cristianismo, sendo o principal evangelizador entre os gentios.

Ora, é preciso sair do casulo. Abrir os olhos. Tomar conselho com a vida e suas possibilidades. Rasgar as receitas de existências pré-moldadas, e se lançar às experiências enriquecedoras que a relação com Deus e as pessoas que nos cercam são capazes de produzir. Precisamos correr o risco do inédito em nosso cotidiano. Prestar um culto racional pela transformação da nossa mente. É na mente que são produzidas as idéias. É na mente que se armazena o entendimento. Se não cremos porque entendemos, é por entendermos que sustentamos e enriquecemos nossa relação com Deus, e somos renovados em nossas inclinações e conduta.


“Um homem sábio é poderoso, e quem possui entendimento potencializa sua força;"
Provérbios 24:5 - KJA

Portanto reitero o convite. Leia, ouça, assista, debata, pergunte e questione. Leia incessantemente sua Bíblia e abra espaço para outras literaturas. Ouça louvores e adore a Deus com inteireza de coração, mas não deixe ouvir poesia e cantar a vida em verso e prosa. Assista na TV seus programas prediletos e não perca a oportunidade de analisá-los comentá-los; a ficção ajuda a debater o mundo real. Do que entende e conhece, ensine; o que não sabe, pergunte. O que não compreende questione. Mente vazia, dizia minha avó, é oficina do diabo. Afinal de contas, é na multidão dos conselhos que habita a sabedoria.



[1] Romanos 12:1-2
[2] Mateus 26:65; Joel 2:13

segunda-feira, 30 de março de 2015

Se cremos por convencidos, convertidos?





1 Ora, a fé é a certeza de que haveremos de receber o que esperamos, e a prova daquilo que não podemos ver. 2 Porquanto foi mediante a fé que os antigos receberam bom testemunho.
3 Pela fé compreendemos que o Universo foi criado por intermédio da Palavra de Deus e que aquilo que pode ser visto foi produzido a partir daquilo que não se vê. "
     Hebreus 11:1-3 - RA

Ainda falando da fé como independente de provas e contra-provas, seria interessante reafirmarmos o caráter incondicional da crença no contexto da redenção. Sim, porque num mundo que se caracteriza pelo pragmatismo das utilidades e de seus resultados, tudo o que um indivíduo empreende necessita, por vício de adequação social, estar ligado a alguma utilidade que conduza a um certo resultado prático. Nesse contexto maniqueísta, qualquer conjunto de crenças precisa estar sustentado por alguma racionalidade, algum sentido lógico, mesmo que não resistam tais crenças a argumentações preliminares sobre suas coerências e pertinências. O importante é ter fé em alguma coisa, diz a sabedoria popular.

Mas na prática, em que é que se deve crer, para que a defesa do conjunto das crenças que nos tocam, seja aos mesmo tempo capaz de satisfazer a consciência que se percebe necessitada do sagrado, bem como capaz de conferir um certo status de admiração e respeito pela racionalidade pretendida por essa mesma fé. Assim, quanto mais comprovações daquilo que se acredita puder ser reunida, sobre qualquer pretexto, é preciso relacionar em um conjunto de argumentações bem organizadas e arrumadas criteriosamente, para que a defesa daquilo que se crê, possa ter grande penetração e convencimento.

Convencimento! Essa então parece ser uma palavra mágica, capaz de inebriar algumas pessoas na perseguição do poder de impor a outros aquilo em que acredita. Quanto mais convincente, atraente. E quanto mais atraente, sedutor. A sedução é capaz de encantar as massas; e encantadas, as massas são manipuláveis. A manipulação confere poder. E poder é tudo que mais interessa, àqueles que argumentam sobre a pertinência de suas próprias crenças, com vistas a sobrepujar a fé de outros.

Ora, nem precisamos ir tão longe de onde estamos, para conferir se o que proponho tem algum fundo de realidade. Na internet, nas diversas comunidades teológicas, evangélicas, e em milhares de vídeos pelo Youtube, lideranças religiosas e estudiosos proeminentes se digladiam diuturnamente, buscando convencer seus interlocutores de que seus pressupostos são mais verdadeiros que os de seus oponentes, utilizando textos bíblicos e pensamentos de toda ordem. Às vezes o fazem baseados em um mesmo texto bíblico, contextualizados obviamente nas conveniências particulares de cada um.

Ora, se hipoteticamente eu me coloca-se entre esses diversos defensores de suas crenças particulares, e de suas argumentações depende-se para decidir em que é que eu iria crer, aquele que me fosse mais sedutor, dado o seu contundente esclarecimento, teria sobre mim exercido poder, convencendo-me de que suas idéias fazem mais sentido que a do outro. Ou seja, finda a batalha pela minha alma, o vencedor levaria por despojos de guerra uma mente convencida da razoabilidade de um determinado conjunto de crenças, que se tenha demonstrado mais aceitável ou provável, segundo minha capacidade de percepção. No entanto, meu coração não necessariamente estaria cativo junto com a minha mente. Aliás, as sensações costumam mesmo não seguir a razão. Convencimento, portanto, não é conversão.


6 Em verdade, sem fé é impossível agradar a Deus; portanto para qualquer pessoa que dele se aproxima é indispensável crer que Ele é real e que recompensa todos quantos se consagram a Ele."
     Hebreus 11:6 - KJA

Quando Deus se revela ao longo da narrativa bíblica, Ele não o faz para tornar-se provável em sua existência, ou mesmo para definir um modelo de conduta, ou uma filosofia de vida que deva ser seguida por um grupo de pessoas a quem denomina Seu povo. Aliás, a existência de Deus é um conceito não problematizado pela Bíblia. Não há nela trecho algum que se ocupe em defender sua existência. Ao contrário, partindo do pressuposto de que quem de Deus se aproxima crê que Ele existe, a Bíblia ocupa-se em revelar Deus e toda sua essência pessoal,

Perdoem-me a analogia improvisada, mas a entendo plenamente adequada ao que queremos demonstrar. A coisa funciona mais ou menos como em um chat pela internet. Duas pessoas, sem trocar fotos, iniciam um papo interessante e agradável. Um e outro vão se revelando em gostos e predileções, escolhas e formas de ver o mundo. Ao longo de muitas conversas essas pessoas se encantam mutuamente, mesmo sem terem se visto. Nem rosto ou silhueta, uma da outra. Passado algum tempo, percebem que já não sabem mais viver uma sem a outra. A vida de ambas se resume em horas intermináveis diante do computador, e o fato de ainda não se conhecerem fisicamente já não faz a menor diferença. Suas verdades intrínsecas, suas personalidades desnudas, revelaram mutuamente que foram feitas uma para a outra. Suas essências se encontraram antes de suas formas temporais e corruptíveis. Desse encontro às cegas nasceu o amor.

Mal comparando, repito, esse é o propósito da Bíblia. Revelar o Criador de forma crescente e harmoniosa, cadenciada, de modo que o desvelo de seu ser vá descortinando um alguém impressionantemente interessado por mim. Amoroso e zeloso, que ainda que não faça qualquer distinção entre as pessoas, move tudo e qualquer coisa para me buscar e me manter perto d'Ele. E diante desse insondável ser, flagrando-me completamente envolvido por seu cuidado e encantado por seu amor, já não me importa nem um pouco qualquer coisa que se pretenda provar a seu respeito. Porque informação alguma, argumento algum, por mais racional que seja, por mais contundente que se apresente, mesmo que extremamente sedutor, me afastará, ou me fará desistir desse amor, que surgiu não de mim para Ele, mas que nasceu em mim em resposta ao amor revelado n'Ele.


38 Portanto, estou seguro de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, 39 nem altura nem profundidade, nem qualquer outra criatura poderá nos afastar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor."
     Romanos 8:38-39 - KJA

Portanto a Bíblia revela o encontro de Deus com a humanidade. A narrativa bíblica apresenta um Deus Criador, cuidadoso e dedicado. Detalhista nas condições de sustentabilidade e autonomia, gerando um ser humano capaz e cheio de potencialidades. A relação com sua criação é próxima e interativa, porém compulsória, à medida que esse homem desconhece qualquer outra possibilidade. Assim, tal relação ainda que intensa é desprovida de plena liberdade. O amor não é pleno em ambiente em que não haja liberdade. O amor pleno só pode existir legitimamente, quando há liberdade para que os amantes decidam entre amar e não amar.

A Bíblia avançou na história, e revelou uma humanidade rebelada, desejosa de uma independência capaz de lhe atender os próprios interesses. O homem abandonou o Criador, em atitude unilateral, supondo que esse mesmo criador lhe escondia algo; uma capacidade encoberta de ser tão deu,s quanto Deus era o Criador. Já não bastava ser essencialmente imagem do Criador. Era desejável e atraente o seu poder e conhecimento irresistível. Se o homem pudesse ser tão deus quanto Ele, o Ser criador já não seria tão primordial e necessário. A humanidade então exerceu o pleno direito de liberdade e rejeitou Deus e sua relação com Ele.

Longe de Deus e exilado de seu cuidado, uma vez que dele mesmo partiu a iniciativa de ser livre, a humanidade inteira caminhou errante, protagonizando situações alternadas de aproximação e afastamento, que construíram ao longo dos séculos um conhecimento do Criador, a quem ela mesma virou as costas. Acontecimentos narrados de modo a revelar um Deus constantemente desejoso de resgatar e reaproximar o homem.

Assim, a narrativa bíblica subverte a lógica das relações, em que o ofensor deve buscar o ofendido para resgate da relação rompida. E em vez disso, o próprio Deus, o ofendido, o abandonado, aquele a quem viramos as costas, faz o caminho no sentido da humanidade. E na impossibilidade do homem se fazer deus, Ele se faz homem, redimindo toda sua criação e resgatando a relação com todos nós, um a um, por intermédio de Jesus, o seu Cristo. O redentor.

Findo o registro histórico na Bíblia, inaugura-se um tempo de salvação em que a relação Deus-humanidade se faz fruto da decisão divina de nos amar. Passamos a desejar outra vez ser iguais a Ele, mas agora com Ele e para Ele, e não mais como Ele e no lugar d'Ele.

Resumindo-se assim, pretensiosamente, a revelação divina contida na Bíblia, pode alguém apontar em que parte caberiam incondicionalmente? A Bíblia não fala de regras, mas da incapacidade dessas mesmas regras aproximarem o homem de Deus. Não fala de filosofia de vida ou inteligência de comportamento; isso privilegiaria uns em detrimento de outros conforme circunstâncias inimputáveis. A Bíblia, em lugar disso tudo fala de amor, revela um Deus amoroso, que espera que por esse seu amor sejamos atraídos. E não por provas. Afinal, bem-aventurados aqueles que não viram, mas creram.

domingo, 6 de julho de 2014

* Por que estudar Teologia. E não Por que DEVEMOS estudar Teologia?




- O que? Biologia?
- Não, não. Teologia!
- Ah!... Legal. E a pessoa responde normalmente sem graça. E aí pensa: Teologia? Será que ele quer ser padre? Mas ele não é evangélico? Xii... Se eu esticar a conversa, já já ele vai querer pregar para mim... Isso tudo enquanto olha através de mim, buscando na imaginação uma boa desculpa para fugir para bem longe. Algumas outras pessoas um pouco mais interessadas, sinceramente perguntam: - Mas por que teologia? E aí a conversa fica ainda mais louca.
Intelectualmente vaidoso, sempre procurei elaborar uma resposta que fosse ao mesmo tempo consistente, pertinente, admirável e racional. Um malabarismo conceitual que me obrigava a rechear a resposta com lógicas e motivações de senso comum, que me fizessem parecer um jovem equilibrado, maduro. Um religioso longe de ser apontado como fanático, superficial, ou tendencioso. Perdi a conta de quantas vezes me arrependi das coisas que disse ao me justificar. Tudo na intenção camuflada de ser reconhecido positivamente, bem aceito, e não ser flagrado num ativismo secundário e sem importância. Vaidade de vaidade. Tudo é vaidade.

No fundo, por mais que eu quisesse passar a idéia de ser alguém livre das convenções, fui iludido e me fartei do mesmo manjar. Minha escolha pela teologia precisava ter contornos de utilidade prática e importância social. Eu precisava sentir-me admirado e intelectualmente respeitado. O impulso que orientou minha opção estava certo. Mas a convicção que sustenta o caminho era fraca. E diante das demandas da vida e obrigações que se impuseram, sucumbi. Como na parábola do semeador, em que as sementes caem entre os espinhos.

Muitas noites se seguiram em elucubrações sem fim, com o peito ardendo. Queria entender e identificar para mim mesmo o sentido prático em estudar teologia. Até o dia em que consegui perceber o que sempre esteve diante dos meus olhos; na verdade dentro de mim. Eu sinto prazer em fazer teologia. Isso mesmo; prazer.

Nosso modelo ocidental despreza o prazer como motivação aceitável para toda e qualquer atividade que se possa julgar legítima, e razoavelmente relevante. Prazer está relacionado à satisfação pessoal e íntima, remetendo ao lascivo e ao egoísta. Logo, aquilo que é prazeroso, seguindo-se essa ótica, não pode ser considerado de interesse comum, ou nobre em seu mote original. Apenas o fruto do sacrifício, ou daquilo que é realizado por obrigação, ganha a chancela do louvável. Por essa razão, tantas pessoas narram seus feitos, recheando a história com dificuldades aumentadas, e sacrifícios admiráveis. – Foi difícil, sabe? Mas apesar de tudo, cumpri com minhas obrigações. Era a minha missão! E o orgulho de si mesmo escorrendo pelos cantos da boca. Uma compulsão por sentir-se cumprindo um sacerdócio.

Talvez eu até esteja frustrando alguns, que gostariam de ler uma fantástica história de chamado, que justificasse minha escolha. Um relato que homologasse uma vocação inexorável. Se eu puxar pela memória, talvez possa até identificar uma ou outra circunstância que seja interpretada como um chamado. Mas desculpem os acusadores de plantão. Se não sentisse tanto prazer, talvez não me gastasse tanto, nem me dedicasse tanto. Mas é difícil analisar qualquer circunstância baseado em escolhas que não tomamos. Não há como avaliar como teria sido a vida que não escolhi ter.

Mas afinal, não é o próprio prazer em realizar, uma vocação intrínseca? Não seria a atração por Deus um inquestionável chamado?


"Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos."
Oséias 6:6 - RA


É claro que, seguindo os mais aceitáveis e conhecidos padrões apologéticos, seria possível destacar algumas relevantes razões para o estudo da teologia. Razões que passeiam tanto pela defesa da fé, quanto pelo “Ide” de Jesus. Os grandes mestres da Teologia Sistemática foram prodigiosos em relacionar motivações diversas e muito bem sustentadas. Mas eu prefiro a afirmação relacional de Anselmo de Cantuária; Não estudamos para crer; estudamos porque cremos. É a minha fé que me impulsiona a estudar. É meu amor por Deus que me faz querer conhecê-lo. Estudar teologia está para o cristão, assim como a poesia para os amantes. É gastar-se em pensar, e falar sobre as manifestações do seu amor.
   
Talvez eu até fosse mais considerado, lido e ouvido, se dissesse que estudo teologia por dever. Mas por vício de conduta, prefiro dizer com toda a convicção, que o faço tão somente pelo prazer de pensar Deus todo o tempo; minha motivação única e mais que suficiente. Afinal, para onde iria eu se tu tens as palavras de vida eterna?
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