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quarta-feira, 30 de abril de 2025

Cristão - Um subversivo no mundo real

 

Por Jânsen Leiros Jr.

 

Seguir Jesus é romper com os sistemas deste mundo. Uma fé autêntica não se curva — confronta, denuncia e transforma.

 

 “Se o evangelicalismo se torna apenas mais uma marca política, ele não tem nada diferente a oferecer ao mundo. O evangelho não é uma plataforma partidária; é uma cruz.” - (Russell Moore, em entrevistas e artigos publicados pela Christianity Today)

 “A igreja americana corre o risco de perder sua alma, pois muitos pastores estão mais preocupados em atrair multidões do que em formar discípulos.” - (Eugene Peterson, em entrevistas e no livro “O Pastor Contemplativo”)

 

“Mas vem cá... ser cristão de verdade não é meio perigoso demais hoje em dia?” — foi o que me perguntou um jovem numa roda de conversa depois de uma palestra. A pergunta era simples, mas carregava uma inquietação legítima. Não respondi de imediato. Fiquei com ela na cabeça. Porque, no fundo, ele estava certo em se espantar. O cristianismo genuíno, quando levado a sério, não cabe nos moldes prontos que o mundo e o evangelicalismo moderno[1] oferecem.

A verdade é que o cristão autêntico nunca foi domesticável. Desde os profetas do Antigo Testamento até o escândalo da cruz, o chamado de Deus sempre confrontou sistemas injustos, poderes corrompidos e religiões confortáveis. Seguir Jesus é, em si, um ato de subversão. Neste texto, vamos falar dessa postura — não como um conceito distante, mas como um jeito de viver que incomoda, denuncia e propõe outro caminho. Vamos explorar esse tema teológica, bíblica e socialmente, resgatando a tradição profética, o exemplo de Jesus e dos apóstolos, e as tensões vividas por quem ainda ousa caminhar na contramão.

A Subversão Cristã: Desafiando Sistemas de Poder

Você já reparou como, às vezes, viver de forma honesta, justa e amorosa parece ser quase um protesto silencioso? É disso que estamos falando. O cristão subversivo é aquele que, como Jesus, não se dobra às estruturas de poder do mundo. Em João 18:36, Jesus declara: “O meu Reino não é deste mundo” — e isso não é uma figura de linguagem devocional, é um posicionamento radical. Ele estava diante de Pilatos, o representante do império, e não recuou. Sua afirmação rompe com toda tentativa de conciliação entre o Reino de Deus e os reinos deste mundo.

Para o cristão, então, a lealdade a esse Reino eterno deve superar qualquer comprometimento com estruturas políticas, religiosas ou econômicas. E, sejamos honestos, isso incomoda. Porque o cristão subversivo não vive para ser aceito pelo sistema, mas para obedecer à lógica do Reino — e essa lógica é quase sempre o oposto do que o mundo valoriza: enquanto o mundo celebra a força, o Reino exalta a mansidão; onde o mundo busca lucro, o Reino proclama generosidade; onde se cultua o ego, o Reino prega o serviço.

Essa postura não é ingênua nem romântica. É profética. Porque, ao viver os valores do Reino, o cristão acaba por se tornar uma ameaça real aos mecanismos de opressão, à manipulação da fé, ao uso indevido do nome de Deus. Ele se torna como uma pedra no sapato da ordem estabelecida. E isso não é novo.

O Cristão Subversivo na Tradição Profética

Se voltarmos às Escrituras, veremos que essa subversão não surgiu no Novo Testamento. Ela pulsa desde os profetas antigos. Eles não eram apenas vozes do futuro, eram denúncias vivas do presente. Gente que andava nas praças, nas portas da cidade, enfrentando reis e sacerdotes corruptos. Veja Amós. Um simples boiadeiro. Mas sua voz ecoa como um trovão contra os poderosos de Israel: “Aborrecem na porta ao que repreende, e abominam o que fala com integridade” (Amós 5:10). Ele grita por justiça como quem tem fogo nos ossos: “Corra o juízo como as águas, e a justiça como um ribeiro perene” (v. 24).

Jeremias, ainda jovem, tentou recuar, mas Deus o impediu: “Não digas: Eu sou uma criança; porque a todos a quem eu te enviar, irás” (Jeremias 1:7). E o que ele teve de enfrentar? Uma nação inteira afundada na hipocrisia religiosa e alianças políticas podres. E mesmo assim, proclamou: “Não confiem em palavras enganosas, dizendo: 'Templo do Senhor, templo do Senhor!'” (Jeremias 7:4). A crítica era clara: uma religião que justifica injustiça é uma blasfêmia.

João Batista, já no Novo Testamento, continuou essa linhagem. Vestido de forma estranha, morando no deserto, comia gafanhotos e mel silvestre — e suas palavras queimavam como uma tocha: “Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da ira futura?” (Mateus 3:7). Confrontou a vida pessoal de Herodes, o governador, e pagou com a cabeça. Isso é subversão. Isso é coragem profética. O cristão de hoje, se quiser ser fiel ao evangelho, terá de carregar esse mesmo espírito.

O Cristão Subversivo no Mundo Contemporâneo

Hoje, a subversão cristã não se dá mais diante de impérios romanos ou de tronos monárquicos. Mas os impérios continuam aí, com outros nomes: sistemas econômicos predatórios, religiões mercantilizadas, ideologias políticas idólatras. E, em meio a isso, o cristão que vive o evangelho de forma sincera e radical aparece como uma voz dissonante.

Pense bem: num mundo que valoriza a estética acima da ética, o consumo acima da compaixão e a imagem acima da integridade, viver os valores do Reino é um escândalo. O cristão subversivo não negocia seus valores por conveniência, não se cala para manter privilégios, não coopera com sistemas que oprimem — mesmo que isso custe amigos, posição ou segurança.

E isso não significa ser beligerante ou reativo. Jesus ensinou: “Bem-aventurados os pacificadores” (Mateus 5:9). Mas paz, aqui, não é ausência de conflito; é presença do Reino. O cristão é aquele que leva a paz de Cristo para dentro das tensões do mundo, não aquele que foge delas. Ele fala quando todos preferem o silêncio. Ele age quando o comum é cruzar os braços. Ele vive em fidelidade quando a hipocrisia é moeda corrente.

O Ódio Produzido pela Subversão Cristã

E não se engane: essa fidelidade gera reações. “Se o mundo vos odeia, saibam que me odiou antes de vós” (João 15:18). O próprio Jesus nos advertiu: viver o evangelho de forma autêntica incomoda, porque expõe, revela, confronta. E o mundo, em suas estruturas corrompidas, não tolera ser confrontado.

A história da Igreja é uma galeria de mártires. Homens e mulheres que não abriram mão de sua convicção, mesmo quando isso lhes custou tudo. Estêvão, o primeiro mártir, morreu apedrejado por anunciar um Reino que não se dobrava ao templo nem à tradição. Pedro foi crucificado. Paulo, decapitado. E ao longo dos séculos, milhares seguiram esse mesmo caminho. Ainda hoje, em muitos lugares do mundo, há cristãos presos, perseguidos e mortos — não por serem violentos, mas por serem fiéis demais.

Mas o mais doloroso é que a perseguição, às vezes, vem de dentro. Da institucionalização da fé. Da religiosidade que se vende ao sistema. Do evangelicalismo de mercado que transforma o evangelho em produto e os fiéis em consumidores. O cristão subversivo se vê, muitas vezes, sozinho — mas nunca abandonado.

A Vida do Cristão Subversivo e a Perseguição

Viver como subversivo do Reino é viver com os olhos na eternidade e os pés no chão. É entender que esta vida é uma missão e não um palco de conquista pessoal. O cristão subversivo carrega a cruz — não como símbolo decorativo, mas como estilo de vida. E cruz não é apenas sofrimento; é entrega, é serviço, é fidelidade até o fim.

Ele sabe que o caminho é estreito (Mateus 7:13-14), que o mundo odiará sua luz (João 3:19-20), mas também sabe que a fidelidade produz fruto, mesmo que invisível aos olhos. O Reino cresce como fermento na massa (Mateus 13:33), silenciosamente, mas com poder transformador.

E, por fim, ele vive com a esperança que sustenta: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus” (Mateus 5:10). Essa é sua certeza, seu consolo, sua glória. Porque, ainda que o mundo o rejeite, ele é aceito por Aquele que venceu o mundo (João 16:33).

Um chamado irrecusável

Talvez você tenha lido tudo até aqui e esteja se perguntando: “Mas então... dá mesmo para viver assim hoje? Vale a pena?” E eu te digo: não só dá, como é a única forma verdadeiramente cristã de existir neste mundo. O restante é caricatura, verniz, religião domesticada — e isso Jesus nunca aprovou. Lembra-se do que Ele disse aos mornos de Laodiceia? “Porque és morno, e não és quente nem frio, vomitar-te-ei da minha boca” (Apocalipse 3:16). Forte, não? Mas necessário.

O tempo da omissão acabou. O tempo da conveniência acabou. O tempo de usar o nome de Cristo para proteger zonas de conforto ou ideologias humanas está sendo exposto e derrubado como ídolo frágil. O Espírito de Deus está convocando os que têm ouvidos para ouvir. E o chamado é claro: ou você se posiciona no Reino, ou será engolido pelo sistema.

Não há mais espaço para uma fé que se esconde atrás de versículos fora de contexto. Não há mais tempo para discursos que não se tornam prática. A cruz não é enfeite de pescoço. É sentença de morte para o velho eu. É caminho estreito. É entrega total. Paulo disse: “Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20). Isso é mais do que poesia: é a anatomia da nova vida. E essa nova vida é, por natureza, subversiva.

Se o seu cristianismo não incomoda o mundo à sua volta, talvez ele não seja o evangelho de Jesus, mas um simulacro moldado para agradar. E se o Cristo que você segue nunca confronta nada em você nem ao seu redor, talvez você tenha domesticado o Leão de Judá em um cordeirinho de pelúcia. Mas Jesus não veio para afagar consciências. Ele veio para despertá-las.

Então, pense: que tipo de cristão você tem sido? Um agente de manutenção do status quo? Ou um discípulo que, como os de Atos 17:6, vira o mundo de cabeça para baixo? A hora de decidir não é amanhã. É agora. Porque o Reino já chegou. E sua justiça — aquela que incomoda os poderosos e exalta os humildes — está batendo à sua porta.

A mudança é urgente. A exigência é certa. E o chamado é irrecusável.

 



[1] O termo “evangelicalismo moderno”, está se referindo, com senso crítico, a uma vertente do evangelicalismo que, embora se identifique com os princípios da fé cristã, muitas vezes acaba:

·         Acomodando-se aos padrões culturais dominantes, buscando aceitação ou relevância social a qualquer custo;

·         Reduzindo o Evangelho a slogans ou fórmulas de sucesso pessoal, esvaziando seu caráter profético, contracultural e profundamente ético;

·         Aderindo a estruturas de poder político e econômico, tornando-se cúmplice de ideologias que contradizem os valores do Reino de Deus;

·         Negligenciando a centralidade de Cristo crucificado, substituindo o discipulado pelo triunfalismo ou moralismo;

·         Transformando a fé em produto de mercado religioso, com culto à performance, à visibilidade e ao crescimento numérico.

Esse “evangelicalismo moderno”, portanto, é o que denunciamos como superficial, domesticado e incapaz de encarnar a radicalidade do seguimento de Jesus — que é, essencialmente, subversivo, transformador e incompatível com os ídolos deste século.

 

terça-feira, 22 de abril de 2025

Entre o trono e o espelho - quando o louvor se torna autoajuda


 Por Jânsen Leiros Jr.

 O que estamos realmente cantando quando louvamos?

Uma provocação necessária: estaríamos exaltando a Deus — ou apenas massageando nossos egos pilhados de religiosidade?

Bob Kauflin

“O louvor é a prática de valorar Cristo acima de tudo; é o transbordar de um coração cativado pela cruz.”

Matt Redman

“A chave para um louvor verdadeiro são os adoradores, não a performance; é um povo rendido que responde ao Rei.”

John Piper

“Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos n’Ele, e o verdadeiro louvor nasce dessa satisfação, não de auto exaltação.”

John MacArthur

“O louvor não existe para entreter a Deus, mas para nos humilharmos e exaltar o Seu nome em espírito e em verdade.”

O QUE SE TORNOU, AFINAL, O LOUVOR CONTEMPORÂNEO?

Onde antes exaltávamos a majestade de Deus, sua santidade e soberania — cantando a um Deus que é o totalmente outro — hoje parece que temos nos voltado para canções que nos colocam no centro. A liturgia da adoração deu lugar à liturgia da autoafirmação. O trono foi substituído pelo espelho. Este texto é um convite à reflexão sobre essa mudança silenciosa, porém profunda, que transformou parte do louvor em uma espécie de autoajuda espiritualizada — e sobre o urgente retorno ao louvor bíblico: reverente, rendido, centrado em Deus e não em nós.

É verdade: não se trata de rejeitar a beleza melódica ou a qualidade técnica das canções modernas. Existem, sim, louvores profundamente bíblicos e espiritualmente saudáveis sendo compostos hoje. Mas meu incômodo vai além do som. Trata-se do centro. De quem ou do que se tornou o sujeito oculto, ou antes, o sujeito evidente da adoração: nós mesmos.

Muitas das canções mais entoadas atualmente giram em torno de frases como “você tem valor”, “você é precioso”, “Deus vai te exaltar”, “te dar vitória”, “abrir portas”, “curar sua alma ferida”. Tudo verdade, se lido no contexto certo. Mas, isolado, isso se torna a catequese de um hedonismo piedoso — onde o homem se torna o fim último da ação divina. E Deus, um tipo de gênio da lâmpada celestial.

Mas a oferta de Deus, como bem diz o apóstolo Paulo, foi a cruz — “porque a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo, mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus” (1 Coríntios 1.18). Ele não ofereceu uma promessa de conforto, mas um chamado ao discipulado — com renúncia, cruz, perseverança: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (Lucas 9.23), “Se alguém quiser ser meu discípulo, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16.24). O Filho amado não veio para nos mimar, mas para nos salvar. E isso nos deveria bastar: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele” (João 3.16-17).

A lógica do Reino é esta: “Se com Ele sofremos, com Ele também seremos glorificados” (Romanos 8.17) — mas a glória só vem depois da cruz.

O louvor que se oferece como alento emocional, mas não conduz ao arrependimento, é um embuste. A música que massageia o ego, mas não leva ao trono de Deus, é apenas entretenimento religioso. E isso é um risco grave. Como nos alertava A. W. Tozer, “o cristianismo moderno se tornou racionalista e centrado no homem, em vez de ser espiritual e centrado em Deus”.

No passado, nossos hinos diziam “Tu és fiel, Senhor”, “Santo, Santo, Santo”, “Grandioso és Tu”, “Te exaltamos, ó Cordeiro”. A gramática da adoração era vertical, sacra, cheia de reverência. Hoje, muitas letras parecem mais janelas de autoajuda que altares de rendição. Onde antes dizíamos “Tu és”, agora dizemos “Eu sou”. Onde se dizia “Te exaltamos”, agora se ouve “eu vencerei”.

E não é que toda música moderna seja má. Deus tem levantado adoradores sinceros nesta geração — compositores e ministros que compreendem que louvor é sacrifício, não agrado, como declara a Escritura: “Por meio de Jesus, ofereçamos a Deus, continuamente, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13.15). Mas são minoria. E não podemos confundir exceção com regra.

O louvor bíblico é centrado em Deus e na sua glória. Ele nasce do temor — “Tema toda a terra ao Senhor; temam-no todos os habitantes do mundo” (Salmo 33.8), passa pela gratidão — “Entrem por suas portas com ações de graças e em seus átrios com louvor; deem-lhe graças e bendigam o seu nome” (Salmo 100.4), floresce na confiança — “Ele pôs um novo cântico em minha boca, um hino de louvor ao nosso Deus. Muitos verão isso e temerão, e confiarão no Senhor” (Salmo 40.3), e se consuma na obediência — “Acaso o Senhor tem tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? A obediência é melhor do que o sacrifício” (1 Samuel 15.22). Ele não é um lugar de consolo terapêutico apenas, mas de consagração total. Ele não massageia o coração do homem; ele o oferece, quebrantado, diante do trono — “Os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito quebrantado; um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás” (Salmo 51.17).

Precisamos voltar. Voltar ao Deus que não bajula, mas santifica. Que não promete conforto, mas dá propósito. Que nos leva aos desertos não por crueldade, mas por misericórdia — “Lembrem-se de como o Senhor, o seu Deus, os conduziu por todo o caminho no deserto durante estes quarenta anos, para humilhá-los e pô-los à prova, a fim de saber o que estava em seus corações... Ele os humilhou, fazendo-os passar fome e depois os sustentou com maná... para ensinar-lhes que nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca do Senhor” (Deuteronômio 8.2-3). A confiança, como diz Paulo, nasce da perseverança, não da comodidade — “a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança” (Romanos 5.3-4).

Como escreveu Dietrich Bonhoeffer, mártir da fé diante do nazismo: “A graça barata é o inimigo mortal da Igreja. É a graça sem discipulado, sem cruz, sem Jesus Cristo vivo e encarnado.”

Que o nosso louvor, então, não seja barato. Que ele custe nosso orgulho, nossa vontade, nosso centro. E devolva o trono a quem de direito: ao Rei dos reis. 

O Cordeiro no Trono - A Surpreendente Vitória do Amor


Por Jânsen Leiros Jr.

 

A ressurreição é mais do que uma demonstração mágica de poder. É a manifestação da vitória da vida sobre a morte — o caminho trilhado pelo Cordeiro rumo ao trono.

Karl Barth

"A majestade de Deus se revela na humilhação de Jesus Cristo; seu trono não está acima do sofrimento humano, mas bem no centro dele."

Jürgen Moltmann

"A ressurreição de Cristo é a resposta de Deus à crucificação; o trono do Cordeiro é o lugar onde a esperança ressurge do coração da dor."

Tomás de Aquino

"O Cristo que reina é o mesmo que se entregou; não há glória sem a cruz, pois nela se manifesta o amor que salva."

Dietrich Bonhoeffer

"A ressurreição de Cristo não é o cancelamento da cruz, mas sua confirmação. O Crucificado é o Ressurreto, e é assim que Ele reina — não escapando da dor, mas triunfando através dela."

N. T. Wright

"A ressurreição é o momento em que a nova criação irrompe dentro da velha; é o trono erguido no coração da tragédia, onde o Cordeiro reina não apesar da morte, mas por ter passado por ela."

Karl Barth

"A ressurreição não é a glorificação de um herói caído, mas a proclamação de que o Cordeiro morto está vivo — e, exatamente por isso, é digno de abrir o livro e governar o mundo."

No calendário cristão, o Domingo da Ressurreição é o clímax da esperança. Após a dor da cruz e o silêncio do sepulcro, o anúncio da vida rompe o véu da desesperança e inaugura uma nova realidade. No entanto, o que poucos percebem é que a ressurreição não é apenas o ponto final de um drama — é o ponto de partida de uma entronização. O túmulo vazio não é só sinal de milagre; é selo de autoridade.

Ao ressuscitar, Jesus não apenas vence a morte — Ele inaugura um novo tipo de reinado. Não é entronizado com pompas humanas, mas como o Cordeiro, ferido e vitorioso. No centro da revelação apocalíptica, João nos conduz além do jardim vazio e da pedra removida. Ele nos transporta ao trono de Deus, onde a verdadeira cena pascal se desenrola com toda sua beleza paradoxal.

A TEOLOGIA DO CORDEIRO: FORÇA NA FRAGILIDADE

Entre os ecos celestes e os mistérios que envolvem o trono eterno, há uma cena que desafia toda lógica humana: um Cordeiro. Mas não qualquer cordeiro — um Cordeiro que parecia ter sido morto. Não um leão rugindo em glória, não um rei revestido de guerra, mas um Cordeiro — frágil na aparência, mas absoluto em autoridade.

Apocalipse 5:6 descreve: “E olhei, e eis que estava no meio do trono... um Cordeiro como havendo sido morto.” O contraste é proposital. João ouve a proclamação do Leão de Judá, mas quando olha, vê um Cordeiro. Essa inversão revela o coração da teologia cristã: a verdadeira realeza de Cristo não está em sua força militar, mas em sua entrega sacrificial. O poder que conquista não é o da espada, mas o da cruz. A autoridade que prevalece não é a que domina, mas a que se entrega.

UM REINADO QUE DESAFIA O ESPÍRITO DO MUNDO

Essa cena confronta diretamente o espírito triunfalista que permeia muitos púlpitos modernos, nos quais Cristo é apresentado quase como um coach espiritual, um general bélico ou um empresário celestial pronto a empoderar seus seguidores para o sucesso terreno. Mas o trono que João vê não é ocupado por um conquistador ufanista — é ocupado por um Cordeiro imolado.

A lógica do Reino de Deus subverte a lógica do mundo. Em vez de glória visível, há feridas visíveis. Em vez de louros terrenos, há marcas de cravos. Jesus não é coroado apesar da cruz, mas por causa dela. Filipenses 2:8–9 expressa isso com clareza: “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso Deus também o exaltou soberanamente...”

A vitória da ressurreição, portanto, não é uma negação do sofrimento, mas sua redenção. E isso é escandaloso para uma fé que insiste em suprimir o sofrimento em nome de uma espiritualidade triunfante.

A ADORAÇÃO CÓSMICA AO CORDEIRO

A resposta do céu a essa entronização é a adoração. Toda a criação — anjos, anciãos, seres viventes e vozes incontáveis — se prostram diante do Cordeiro. Apocalipse 5:12 registra: “Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor.” A centralidade de Cristo é absoluta. Não há outro digno. Nem sistema religioso, nem profeta, nem nação, nem ideologia. O trono pertence ao Cordeiro, e só a Ele.

É importante destacar: Cristo não reina apesar de ter sido morto — Ele reina como aquele que foi morto. A sua morte é o ato fundador do seu Reino. A cruz não foi um contratempo no plano — foi o plano.

A ESPIRITUALIDADE DA ENTREGA: UM CHAMADO AO SEGUIDOR

Esse retrato do Cristo glorificado deve ser um espelho para os discípulos. A igreja é chamada a seguir o Cordeiro por onde quer que vá (Ap 14:4), o que significa viver segundo a mesma lógica da entrega, da humildade, do serviço e da confiança na justiça de Deus — ainda que essa justiça demore a se revelar plenamente.

Isso desafia a teologia de vitrine, que vende “milagres” como se fossem produtos e a fé como moeda de troca. O Cristo do Apocalipse não se parece com esses ídolos. Ele reina não para nos mimar, mas para nos formar. Não para nos dar o mundo, mas para nos ensinar a carregar a cruz até a glória.

CONCLUSÃO: UM REINO DE ESPERANÇA CONTRA TODA ESPERANÇA

O Cordeiro no trono é o anúncio de que a última palavra não pertence ao império, ao pecado ou à morte. Ela pertence àquele que venceu, não por esmagar, mas por se deixar moer (Isaías 53:5–7).

A ressurreição é o selo dessa vitória silenciosa, escandalosa, divina. Em um tempo de adorações distraídas, fé superficial e espiritualidade de palco, o chamado é para nos rendermos novamente — ou talvez pela primeira vez — ao Cordeiro.

Porque Ele vive, o trono está ocupado. E porque o trono está ocupado, há esperança.

 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

De quem mais se confia mais se espera


Por Jânsen Leiros Jr.


"35 Estejam cingidos os vossos lombos e acesas as vossas candeias; 36 e sede semelhantes a homens que esperam o seu senhor, quando houver de voltar das bodas, para que, quando vier e bater, logo possam abrir-lhe. 37 Bem-aventurados aqueles servos, aos quais o senhor, quando vier, achar vigiando! Em verdade vos digo que se cingirá, e os fará reclinar-se à mesa e, chegando-se, os servirá. 38 Quer venha na segunda vigília, quer na terceira, bem-aventurados serão eles, se assim os achar.  

39 Sabei, porém, isto: se o dono da casa soubesse a que hora havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a sua casa. 40 Estai vós também apercebidos; porque, numa hora em que não penseis, virá o Filho do homem.  

41 Então Pedro perguntou: Senhor, dizes essa parábola a nós, ou também a todos? 42 Respondeu o Senhor: Qual é, pois, o mordomo fiel e prudente, que o Senhor porá sobre os seus servos, para lhes dar a tempo a ração? 43 Bem-aventurado aquele servo a quem o seu senhor, quando vier, achar fazendo assim. 44 Em verdade vos digo que o porá sobre todos os seus bens. 45 Mas, se aquele servo disser em teu coração: O meu senhor tarda em vir; e começar a espancar os criados e as criadas, e a comer, a beber e a embriagar-se, 46 virá o senhor desse servo num dia em que não o espera, e numa hora de que não sabe, e cortá-lo-á pelo meio, e lhe dará a sua parte com os infiéis. 47 O servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoites; 48 mas o que não a soube, e fez coisas que mereciam castigo, com poucos açoites será castigado. Daquele a quem muito é dado, muito se lhe requererá; e a quem muito é confiado, mais ainda se lhe pedirá."
Lucas 12:35-48 - JFA

"O Rei está voltando, o Rei está voltando. A trombeta está soando; o meu nome a chamar!... Aleluias Ele vem me buscar!". Essa é parte da letra de um dos hinos mais cantados nos cultos cristãos, nas mais diversas e variadas denominações em todo o Brasil, na década de 70 e 80. Naquela época, lembro-me bem, a agenda de proclamação da igreja tinha como máxima a volta iminente de Jesus. Maranata! Ora vem Senhor Jesus!

Nessa época, o texto acima e seus paralelos tanto em Mateus quanto em Marcos eram lidos muitas vezes, e sustentavam pregações que proclamavam, desde os púlpitos até praças e cultos nos lares, a volta iminente de Jesus. Jesus está voltando, Gritávamos aos quatro cantos. Vivíamos ainda os últimos ares da chamada Guerra Fria, e a possibilidade de uma guerra nuclear que acabasse com o planeta, dava o pano de fundo dessa pregação.

Com o fim da Cortina de Ferro, esse discurso foi considerado, na prática, impopular e pouco convidativo. Beirava ao desagradável, entenderam, pois vivíamos tempos de reconstrução e recuperação de diversas economias internas. E assim, quase que no mesmo tempo, perceberam que o discurso insuflado da teologia da prosperidade se fazia mais atraente, e conseguia arrebatar uma multidão infinitamente maior de fiéis ou interessados, às suas igrejas e ajuntamentos.

Hoje vemos muito pouco dessa mensagem nas literaturas ou agendas de púlpito. Jesus agora está ocupado em atender à multidão de pedidos que lhe devem chegar em profusão, interessados quase sempre em bem estar e satisfação pessoal, ou realização de sonhos e conveniências individuais. O Rei até pode voltar, mas primeiro Ele tem muita coisa que fazer para me agradar. Lógico que essa frase jamais é proferida por alguém; mas ela determina a atitude de um sem número de pessoas espalhadas por todo o mundo evangélico.

A verdade é que a lógica se inverteu, e em vez de sermos servos vigilantes, ávidos e aptos ao serviço do reino de Deus, colocamos Jesus a nosso serviço, providenciando tudo o que queremos e pretendemos ter. Aquele a quem deveríamos servir, foi colocado por nosso hedonismo desenfreado e já não tão camuflado, como nosso fiel e sobrenatural serviçal.

Bem-aventurados aqueles servos, aos quais o senhor, quando vier, achar vigiando! Vigiar é estar acordado, de prontidão para servir ao senhor que chegará a qualquer momento. É manter-se em serviço de prontidão, preparado e preparando-se para servir ainda mais, pois tudo e todos nos são confiados. Não podemos dormir o sono de quem se perde em sonhos e devaneios de uma vida fugaz e sem propósito. O sentido da vida não está em nos realizarmos, mas em realizarmos a vontade de nosso Pai celestial. Ou não somos peregrinos em terra estranha?

Daquele a quem muito é dado, muito se lhe requererá; e a quem muito é confiado, mais ainda se lhe pedirá. A pregação do evangelho nos foi confiada. A vontade de Deus de que sejamos suas testemunhas da graça e da salvação em Cristo, desde sempre nos é conhecida. Por isso a responsabilidade desse serviço nos foi requerida. Estamos vigiando prontos para o serviço, ou nos gastamos diariamente naquilo que  não pode servir a Deus?


Vivemos mergulhados numa preocupação medíocre com a própria vida. Pedimos bênçãos o tempo todo, mas pouco nos disponibilizamos a ser benção na vida de alguém. Vivemos evangelhos de resultados, onde a "fé" e a "dedicação" se medem por conquistas materiais. Eis que cedo venho. Quem tiver ouvidos para ver que fale.
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