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domingo, 24 de janeiro de 2016

E pra falar de Fé, é preciso crer?


Por Jânsen Leiros Jr.


" Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem."
Hebreus 11:1 - JFA

" Ora, a fé é a certeza de que haveremos de receber o que esperamos, e a prova daquilo que não podemos ver."
Hebreus 11:1 - KJA

"στιν δ πίστις λπιζομένων πόστασις, πραγμάτων λεγχος ο βλεπομένων."
Hebreus 11:1 - Grego

" Now faith is [the] substantiating of things hoped for, [the] conviction of things not seen."
Hebreus 11:1 - Darby Bible Translation


Há algum tempo, em virtude dos textos que divulgo aqui, sou questionado por diversas pessoas que, ora querem uma explicação mais detalhada sobre algum texto, ora querem entender melhor alguma posição doutrinária que tenha declarado. Não poucas vezes, porém, há quem queira questionar fundamentos da cristandade, ou mesmo os fundamentos da divindade.

Um dos textos que mais gera esse tipo de retorno é o intitulado Impossível explicar Deus[1]. Uns respondem que "é claro que se pode explicar Deus", talvez me considerando um herege. Outros, porém, na outra extremidade, afirmam que crer em Deus seja um delírio, utilizando-se do título do livro Deus um delírio, de Richard Dawkins.

De qualquer forma, não são poucas as vezes que preciso reafirmar ou ampliar a sustentação de minhas posições, já que aquilo a que nos pretendemos com esse blog tem sido alcançado. Provocar o pensamento e a fé, ou não, dos que se ocupam em pensar em Deus. Teólogos de ocasião ou por dedicação, que fazem do tema uma deliciosa e prazerosa fonte de devoção, seja por aceitação ou negação.

Assim, e motivado por esses adoráveis interlocutores, passo a descrever alguns desses debates, obviamente ocultando o nome dos participantes, até mesmo porque adaptamos algumas partes e editamos outras, com vistas a melhor compreensão de quem dele participará a partir desse novo texto. Espero que lhes seja relevante.
. . .


Por que vocês consideram a fé uma prova de coisas que não podem ser vistas? Como a fé pode ser prova de alguma existência? Se alguém tiver absoluta na existência de duendes eles passam a existir?


Ótima observação. Mas há mesmo um equívoco nisso. A fé não prova nada. Não no sentido jurídico, que é o sentido como entendemos prova em nossa cultura. A fé me faz agir mas não baseado em prova, e sim em convicção. Quando o texto traduz prova, dá a ideia de que o objeto da fé não pode sequer ser questionado, que no senso comum, sugere algo semelhante a fato irrefutável ou inquestionável. Creio que a palavra seria melhor traduzida como convicção, o que melhor demonstraria o poder impulsionador da fé. Diante daquilo para o que não há qualquer prova ou evidência irrefutável, o que nos move é a convicção, o que nos impulsiona é tão somente a fé.

O valor da fé está exatamente em conduzir ao improvável. Caso a fé se baseasse em fatos e evidências, como ressalto no texto, não seria fé, mas apenas constatação razoável, uma conclusão inevitável, que não deixaria qualquer margem de dúvida. Não há como crer ou não crer no que é irrefutável; apenas aceita-se ou não. Mas não cabe fé ou não fé quando o fato está diante dos próprios olhos. O apóstolo Paulo faz bem essa advertência . Por isso insisto que a tentativa de explicar Deus não pode ser, senão, uma elucubração sobre a experiência pessoal com ele, que apesar de poder ser comunicada, é uma realidade individual e intransferível.

Obviamente ter fé de que duendes existem não os farão existir no mundo e nem para todos. Mas os farão existir para aqueles que neles acreditam. Você encontrará quem relate encontros com duendes, como há quem creia em ETs, e garante com todas as suas forças e argumentações, tê-los vistos, ter conversado com eles, ou mesmo ter sido raptado e até operado por eles. Isso nos leva a uma outra e pertinente questão, em que o ponto de distinção não está na fé como exercício da convicção, mas no que é que se tem fé.
O texto que você leu, entre outros aspectos, tem o intuito de dizer aos demais crentes em Deus, nosso Criador, e em seu Filho Jesus, nosso Salvador, que aquilo em que nós cremos e aceitamos, que aquilo que nos impulsiona e nos faz viver, pode, no máximo, ser comunicado, mas jamais imposto a ninguém. Por quê? Porque a fé é uma experiência única e exclusivamente individual. Ela é intransferível, ainda que comunicável pelo testemunho e pela argumentação. A afirmação é direito de quem crê, mas jamais a imposição ou o sugestionamento. Do contrário, onde estaria a legitimidade da fé? Voluntariedade, uma outra característica insofismável da fé. Não há nada pior do que alguém infernizando o nosso juízo, querendo nos impor uma crença ou mesmo uma não crença, pela qual não temos impulso íntimo e genuíno.

Portanto, fé não é prova, mas uma convicção que me impulsiona a vida.


Discordo totalmente da ideia de que ter fé faça com que algo exista para uma determinada pessoa. A existência não está condicionada a crença e sim a realidade. Se uma pessoa tiver muita fé de que pode voar e se jogar do prédio, ela não vai cair pra mim e voar para ela...

Achar que existe valor em acreditar sem boas evidências (veja que não estou usando o termo prova mas sim evidências), é tão absurdo que você só abre exceção para a religião, pois se abrisse para o resto das questões cotidianas o mais provável é que acabasse morto.

Como tenho por meta acreditar na maior quantidade de coisas possíveis que sejam verdadeiras e na menor possível que sejam falsas, me baseio no método que se mostrou mais eficiente para esta função até hoje que é só acreditar naquilo para o que existam boas evidências, e portanto não considero bom para ninguém basear suas crenças na , ela estará somente aumentando as chances de estar errada.

Por isso apesar de saber que é com boas intenções, e que você não vê a fé como algo negativo como eu vou te pedir que não peça para que eu tenha fé.

Foi ótimo você usar a palavra evidência, porque outra vez voltamos para dentro do texto que eu escrevi, base de todo nosso debate até agora. Exatamente pelo que disse antes, não há qualquer prova da existência de Deus, como também não há de sua inexistência, senão as evidências que considero relevantes em minha relação íntima com ele. E o campo de atuação dessa eventual relação é a psiqué, onde ninguém mais além de mim, pode entrar e encontrar as evidências que encontro. Deus se revela separadamente a cada ser humano, ainda que determinadas evidências sejam públicas e disponíveis a todos. Eu explico.

O salmista afirma que os céus declaram a glória de Deus, e que eles anunciam as obras das suas mãos[2]. Ora, se declaram e anunciam o fazem a todos, pois todos têm acesso aos céus e às coisas criadas; as evidências. Porém elas não são provas para mim, mas hipóteses ou indícios de que há Deus. O que me levará a essa convicção impulsionadora à relação com ele é exatamente a fé. Portanto a convicção induz e conduz à crença.

Mas usando o próprio exemplo que você mesmo deu, veja como a fé é capaz de movimentar o indivíduo na direção daquilo em que acredita. Convicto de que há dinheiro na conta, alguém pode sair gastando esse dinheiro acreditado, porém não creditado. Ainda que não existente, ele agirá nessa fé. Convicto de que poderá voar, alguém pode atirar-se de um penhasco e morrer. E foi em sua fé que terá morrido.

Então retornamos ao ponto em que, a diferença, se estabelece pelo objeto em que é que se tem fé, e não na propriamente dita. Sim, porque confiando que suas ideias poderiam ser revolucionárias, Steve Jobs e Bill Gates se lançaram no mercado de informática, que ainda engatinhava, e se tornaram milionários com suas criações. Da mesma forma, crendo que seria capaz de desenvolver um equipamento que nos viabilizasse voar, Santos Dumont criou o avião. E tantas outras pessoas trouxeram à existência o que antes não existia, baseados em suas crenças e em suas convicções.

Ao contrário disso, muitos outros homens e mulheres, diante das mesmas evidências não creram ser possíveis os mesmos intentos ou inventos. As condições e possibilidades eram públicas, ainda que não populares. As tecnologias de sustentação eram acessíveis. Porém somente eles creram ser possível e realizaram. O nome disso? , ou convicção. Pode escolher.

É claro que eles poderiam ter acreditado intensamente, mas ainda assim não terem chegado a nada. Claro que poderiam ter morrido na praia. O 14 Bis não foi o primeiro protótipo de Santos Dumont. O mesmo deve ter acontecido com os mestres da informática. Mas suas convicções os mantiveram na perseguição daquilo em que acreditavam. A fé é mesmo impulsionadora e sustentadora. Mas se não tivessem chegado jamais aos seus objetivos, a fé deles teria sido em vão? De jeito algum, pois teria cumprido o seu papel; suas convicções os movimentaram, motivaram, e lhes foi incentivo permanente. Logrado o êxito, a fé acaba. Porque o que se crê então se torna realidade. E sendo realidade irrefutável e provada, não há mais em que se crer. É fato e é consumado.

Ora, os crentes em Jesus Cristo creem na salvação pela graça de Deus. Têm convicção disso e têm o Espírito como penhor dessa salvação[3]. Nessa fé se sustentam dia a dia, e por ela vivem[4]. Não se baseiam em fatos ou circunstâncias, mas na promessa de Deus[5]. E sabemos em quem temos crido[6]. Mas não há qualquer fato que nos garanta isso, senão as evidências que se revelam ao longo de nossa vida de relacionamento com Deus[7]. E mesmo essa relação se sustenta pela fé. E mesmo essa fé um dia deixará de ser necessária. Porque quando o objetivo da alma for alcançado, quando o reino de Deus for fato, então não se crerá mais em nada disso. Porque deixará de ser esperança para ser realidade.

Você diria a essa altura. Mas o reino de Deus é improvável. Sim, é verdade. Improvável. Mas a fé é o que nos move incondicionalmente. E eu amo viver por essa fé. Porque fé é exatamente isso. Crer no improvável; esperar contra a esperança. Talvez por isso seja tão difícil entender a fé. Quem vive dela não busca verdades. As tem, as vive. Insofismavelmente e ainda que ilogicamente. Pela fé se vive; pela fé se morre. E não são poucos aqueles que ao longo da história morreram por sua fé. Quem os poderá julgar? Mas ainda que os julgue, o que neles mudará tal julgamento?

De modo que, realidade ou não realidade, a fé continuará a mover o mundo. Crendo ou não crendo em Deus, pela mesma fé me convenço de que Ele continuará a se relacionar com a humanidade, queira ou não, quem quer que seja. Haverá perpetuamente quem, contrariado, se incomodará e tentará aniquilar a fé. Ela porém permanecerá até o fim. É inerente à humanidade. E por que permanecerá? Porque invisível e intransferível, ela existe na alma. Inatingível por quem quer que seja.

Mas pode alguém perder a fé? Talvez sim, talvez não. Quem o pode saber? Mas isso já é assunto para outro post.



[2]  Salmo 19:1
[3]  Efésios 1:13-14; 2 Coríntios 5:5
[4]  Habacuque 2:4; Romanos 1:17; Gálatas 3:11; Hebreus 10:38
[5]  2 Coríntios 5:7
[6]  2 Timóteo 1:12
[7]  Romanos 8:15-17

sábado, 18 de abril de 2015

Esclarecendo a Teologia... Ou não - Parte 1




Falamos anteriormente sobre os pilares para um labor teológico, argumentando que tal exercício requer alguma metodologia e uma atitude por parte de seu estudioso, que lhe garanta condições e circunstâncias favoráveis para um trabalho honesto, desde as suas pretensões até a lisura de seus propósitos.

Mas a que se pretende o labor teológico? Aliás, o que é exatamente a teologia e quais são seus objetivos? Ela é uma ciência? E que tipo de ciência seria? O fascínio que o conhecimento de Deus exerce sobre grande parte da população mundial, nos estimula a empreender algum aprofundamento nessa direção, buscando ajudar com alguma compreensão que se apresente, se não verdadeira, ao menos minimamente pertinente. Quem sabe se, como que tateando não lhe possamos encontrar?


“Deus assim procedeu para que a humanidade o buscasse e provavelmente, como que tateando, o pudesse encontrar, ainda que, de fato, não esteja distante de cada um de nós;”
Atos 17:27 - KJA

1.  Mas afinal, o que é mesmo teologia?

                 
               Qualquer dicionário teológico-filosófico é capaz de nos elucidar essa questão, desde que, ainda que por mínimo esforço acadêmico, ocupe-se na tarefa de esclarecer variações sobre o tema, que vão desde o significado do termo e sua origem, até as diferentes atribuições e contextos históricos pelos quais passeou, influenciando e sendo influenciado.

Oriunda do grego e sendo assim constituída, TEO+LOGIA (théos=Deus; lógos=estudo, discurso ou raciocínio), a teologia pode ser classicamente entendida como o estudo do conjunto de conhecimentos relativos a Deus, a seus atributos, e à sua relação com a humanidade. Simples, mas ao mesmo tempo bastante elaborado.

Contrariando a lógica comum da vaidade humana, em que habitualmente se atribui glamour e importância essencial àquilo a que se aplica com dedicação, gosto de entender a teologia como o simples ato natural e quase intuitivo de pensar em Deus, qualquer que seja o entendimento primordial que cada indivíduo tenha sobre quem ou o que seja Deus.

E por que defendo isso? Porque independente da conclusão a que a investigação teológica empreendida por quem quer que seja chegue, o objeto dessa mesma investigação, no caso Deus, permanece sendo quem é, imutável e absoluto; invariável em sua essência e dinâmico em sua revelação, dando-se e mantendo-se disponível ao conhecimento. E tal conhecimento pode advir tanto pelo esforço elucubrativo do estudioso, quanto por uma aproximação intuitiva e empírica. Deus não se esconde de ninguém, assim como não faz qualquer acepção de pessoas.

Assim, qualquer que seja a conclusão a que o pensamento sobre Deus venha a elaborar como idéia final, o simples pensar sobre Deus e em sua direção, é por assim dizer teologia, uma vez que Deus foi quem exerceu atração da atenção e do esforço filosófico do pensador, seja como tema de interesse, objeto de curiosidade, ou mesmo como agente provocador da inquietação humana pelo Deus conosco, pelo relacionamento efetivo e perene.

Em Introdução à Teologia Evangélica, Karl Barth faz a seguinte explanação inicial:


“O termo "teologia" parece indicar que ela, por ser uma ciência particular (e muito particular!) visaria perceber, compreender e tematizar Deus.
Mas ao termo "Deus" podem ser atribuídos os mais variados sentidos. Assim, também há muitas teologias diferentes. Não existe ser humano que, de maneira consciente, inconsciente ou subconsciente, não tenha seu Deus ou seus deuses como objeto de seu desejo e confiança mais elevados, como base de sua vinculação e compromisso mais profundos. Nesse sentido, qualquer ser humano é teólogo. E não há nem religião, nem filosofia, nem cosmovisão que - quer seja profunda, quer superficial - não se relacione com alguma divindade, interpretada e circunscrita desta ou daquela forma, e que, portanto, não seja teologia. Isto se aplica..." "também a situações nas quais se nega a existência dessa divindade; nestes casos o que acontece em termos práticos é que exatamente a dignidade e função da divindade são transferidas à "natureza", a um impulso vital inconsciente e amorfo, à "razão", ao progresso, ao ser humano de pensamento e ação progressista, ou, quiçá, a um "nada" redentor considerado destino último do ser humano. Também tais ideologias aparentemente "ateias" são teologia.”
op; pág.9, 9a. edição revisada -2007;EST, Editora Sinodal

Esse entendimento sobre o que vem a ser teologia, amplia consideravelmente a gama de seus agentes realizadores, fazendo com que o exercício teológico se torne mais popular e perceptível, saltando para além dos muros acadêmicos das universidades e seminários, onde convencionou-se aprisionar o conhecimento teológico, exclusivamente ensinado e comunicado por seus oficiais. Como diz Israel Belo no prefácio dos volumes da coleção Teologia ao Alcance de Todos, da MK Editora, quando discorre sobre a necessidade de apresentarmos interação pertinente na conjuntura em que estamos inseridos, apresentando respostas "claras e precisas" aos seus questionamentos provocados pelo desenvolvimento científico-tecnológico. "Essa é uma tarefa para a teologia. Que não pode ser feita por poucos para quase nenhuns.".

Entender a teologia como todo e qualquer pensamento sobre Deus, não diminui em nada sua importância acadêmica, e muito menos impede que continuemos a considerá-la como ciência. Muito pelo contrário. À medida que o exercício teológico se estende aos diversos núcleos e modelos de convívio social, mais amplas se tornam suas possibilidades, enriquecendo o labor teológico de material elucubrativo, ao mesmo tempo que passa a demandar um modelo que lhe oriente a tarefa responsável, bem como elabora inevitavelmente conceitos preliminares que sustentarão preferencialmente o empenho honesto no conhecimento de Deus.

Semelhante aos demais campos do conhecimento humano, sempre haverá diferentes entendimentos, abordagens, suspeitas e conclusões. Assim como temos engenheiros, técnicos em edificações, mestres de obras e pedreiros, todos lidando com construções de formas e tamanhos variados, a teologia continuará a produzir seus especialistas eruditos, cientistas-estudiosos, sacerdotes e curiosos, cada qual na medida de sua dedicação e vocação, todos igualmente envolvidos pela mesma motivação primordial; conhecer Deus.

Por fim, a vantagem de se ampliar a abrangência do labor teológico, é que, de sementes aleatoriamente espalhadas por pássaros, rios, vento e outros animais, surgem as grandes e importantes florestas. A desvantagem? É que teremos de dar duro para cuidar de sua inevitável variedade de vida, na totalidade de sua biodiversidade.


Que Deus nos inspire sempre a incessantemente pensarmos n'Ele.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Divididos como homens e agindo como crianças





1 Irmãos, não vos pude falar como a pessoas espirituais, mas como a pessoas carnais, como a crianças em Cristo. 2 O que vos dei para beber foi leite e não alimento sólido, pois não podíeis recebê-lo, nem ainda agora podeis, 3 porque ainda sois carnais. Visto que campeia entre vós todo tipo de inveja e discórdias, por acaso não estais sendo carnais, vivendo de acordo com os padrões exclusivamente mundanos? 4 Pois, quando alguém alega: “Eu sou de Paulo”, e outro “Eu sou de Apolo”, não estais agindo absolutamente segundo os padrões dos homens?
5 Quem é, portanto, Apolo? E quem é Paulo? Servos por intermédio dos quais viestes a crer, e isto conforme o ministério que o Senhor concedeu a cada um. 6 Eu plantei; Apolo regou; mas foi Deus quem deu o crescimento. 7 De forma que nem o que planta nem o que rega são de alguma importância, mas unicamente Deus, que realiza o crescimento. 8 O que planta e o que rega ministram de acordo com um propósito, e cada um será premiado segundo o seu próprio trabalho. 9 Porquanto nós somos colaboradores de Deus; vós sois a lavoura de Deus e edifício de Deus.
10 Segundo a graça de Deus que me foi outorgada, eu, como prudente construtor, lancei o alicerce e outro está edificando sobre ele. Entretanto, reflita bem cada um como constrói. 11 Porque ninguém pode colocar outro fundamento além do que está posto, o qual é Jesus Cristo! 12 Se alguma pessoa edifica sobre esse alicerce utilizando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, 13 sua obra será manifesta, porquanto o Dia a trará à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a qualidade da obra de cada um. 14 Se a obra que alguém construiu permanecer, este receberá sua recompensa. 15 Se a obra de alguém se queimar, este sofrerá prejuízo; ainda assim, será salvo como alguém que escapa por entre as chamas do fogo.
16 Não sabeis que sois santuário de Deus e que o seu Espírito habita em vós? 17 Se alguma pessoa destruir o santuário de Deus, este o destruirá; pois o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado."
                      1 Coríntios 3:1-16

Facções, tribos, grupos, turma... séquitos. A humanidade sempre conviveu com separações entre iguais. Pessoas que, espontaneamente e por variados motivos, se aproximam, se irmanam e se distinguem umas das outras, por afinidade de realidade, por semelhança de idéias e valores, ou ainda predileções outras menos identificáveis, mas não menos reais e efetivas em seu poder segregador.

Sim, segregador. Porque no que junta uns, separa os demais, escolhendo entre tantos, aqueles que apresentam os mesmos interesses e predileções, preferindo-se entre si e afastando-se dos outros. A união de uns, significa o isolamento de tantos outros, já que a quantidade dos que se unem em torno de qualquer coisa ou idéia, é sempre menor do que a quantidade daqueles que não penetram o grupo, qualquer que seja a diferença que os separa, seja tal diferença relativa a conteúdo ou forma. Nosso impulso separatista é intrínseco, não apenas por atitudes inclusivas, mas também e até, por comportamentos auto-excludentes; - isso não me representa! Pra usar um termo da moda.

Quando Paulo escreveu aos coríntios, lamentou muito não poder aprofundar seu ensino, considerando que ainda lidava com a infantilidade flagrante entre os cristãos daquela região. Havia um arraigado sentimento faccioso, uma divisão que ameaçava a unidade na fé, e por conseguinte a perenidade da igreja naquele lugar. Ora, se ainda se prendiam a rudimentos tão humanos, tão carnais, como reagiriam quando fossem atacados pelos judaizantes que vinham atrás de Paulo, tentando e até conseguindo persuadir algumas igrejas a guardarem mandamentos de homens?

A preocupação de Paulo está impregnada de seu conceito mais abrangente, de que tudo e qualquer coisa além da cruz de Cristo é por si só uma distração no caminho de salvação, e por assim dizer, uma preocupação secundária e desnecessária para a consolidação e amadurecimento da fé.

A disputa de quem era de Apolo e quem era de Paulo não passava de uma birra infantil e uma criancice. Era uma demonstração de que o apóstolo lidava com carnais, ainda inclinados a questões humanas e ultrapassadas. Quer dizer, deveriam estar ultrapassadas, caso já estivessem em um grau de amadurecimento espiritual mais avançado. Não eram, portantos, crentes espirituais. Não estava, no entanto, como insistem alguns, referindo-se a pecado ou a conversão. Isso não estava em discussão no texto.

Não importa, na carreira cristã, por quem viemos a conhecer a Cristo ou por quem somos alimentados. Isso não nos faz mais ou menos crentes, pois é Deus quem dá o crescimento. Isso é excepcional, pois retira de qualquer líder a legitimidade em se envaidecer por qualquer crescimento espiritual apresentado por seus liderados, bem como individualiza a cada cristão, a responsabilidade de dar-se ao crescimento e a dedicar-se a ele. Reflita bem cada um como constrói.

É importante ressaltar o que o apóstolo diz relativamente ao fundamento sobre o qual se edifica o edifício espiritual em que nos tornamos cada um. Sendo o alicerce um só, ninguém deve desprezar o edifício alheio por conta do material nele utilizado, seja nobre ou não. Sua robustez e consistência serão provadas, sem que contudo haja condenação àqueles cujo edifício não suportar o fogo. O fundamento da salvação é um só, e não depende de quem quer ou de quem corre, mas de ter usado Deus de grande misericórdia para conosco, por Jesus, autor e consumador de nossa fé.

Ora, comparar linhas e conceitos teológicos, pertinências e aplicações, regras, formas, métodos e doutrinas, nada têm de proveitoso para a edificação de nossa casa espiritual. Não passam de vaidades humanas, filigranas, ineficazes no fortalecimento e amadurecimento da fé, servindo apenas para dividir e desagregar-nos. Se é que fundamentados todos na graça de Deus.

Por fim, se somos templos do Espírito Santo, tanto sou templo, quanto templo é o meu irmão, que como eu crê em Jesus como seu salvador. Não tenho que lutar contra ele, nem preciso vencê-lo em discussão ou disputa alguma, por mais revestida que esteja de boas intenções. Não precisamos estar em lados opostos, muito menos nos enfrentarmos com acusações e medidas em réguas criadas pela vaidade humana; nossas carnalidades.

Que o Senhor nos inspire à unidade, independente de qualquer outro principio, entendendo que somos individualmente responsáveis por nosso crescimento, empenhando-nos com sinceridade e inteireza de coração, no firme propósito de conhecer a Deus e fazer sua vontade. Tendo para com todos grande tolerância e espírito de acolhimento. Como aprendeu Pedro num susto, não devemos considerar impuro aquilo que Deus purificou.

Terno e forte abraço...
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