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sexta-feira, 24 de abril de 2015

Manso, o mais forte e corajoso





“Bem-Aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra."
     Mateus 5:5 - JFA


1 Não te indignes por causa das más pessoas; nem tenhas inveja daqueles que praticam a injustiça. 2 Pois eles em pouco tempo secarão como o capim, e como a relva verde logo murcharão. 3 Confia no SENHOR e pratica o bem; assim habitarás em paz na terra e te nutrirás com a fé. 4 Deleita-te no SENHOR, e Ele satisfará os desejos do teu coração. 5 Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia nele, e o mais Ele fará. 6 Ele exibirá a tua justiça como a luz, e o teu direito como o sol ao meio-dia. 7 Aquieta-te diante do SENHOR e aguarda por Ele com paciência; não te irrites por causa da pessoa que prospera, nem com aqueles que tramam perversidades. 8 Deixa a ira e abandona o furor; não te impacientes. Não te inflames, pois assim causarás mal a ti mesmo. 9 Pois os malfeitores serão exterminados, mas os que depositam sua esperança no SENHOR herdarão a terra."
     Salmos 37:1-9 - KJA

A terceira bem-aventurança ecoa o livro de Salmos em seu capítulo 37, que é um hino da literatura sapiencial hebréia. Mas ao acrescentar a repetição de sua essência entre as palavras iniciais do sermão do monte, bem como incluir tal menção entre os que choram e os que têm fome e sede de justiça, Jesus dá novo vigor às pretensões de Davi ao dizer descansa no Senhor e espera n'Ele.

Alguns estudiosos sugerem que a mansidão é um ato de gentileza ou de cordialidade extrema, motivado por uma abnegação dos impulsos naturais de querer chamar a atenção para si, ou fazer valer os próprios direitos. Tal entendimento pode ter influenciado algumas traduções, que em lugar de manso utilizaram humildes. Mas me parece que essa perspectiva é limitada, se utilizarmos o texto de salmo como pano de fundo, e muito mais se contextualizarmos a expressão em meio as bem-aventuranças, exatamente como se encontra.

Seguindo a fluidez do texto, vemos que os pobres, aqueles que se percebem carentes de Deus e de seu socorro, que se entendem sem recursos, choram sua condição de penúria espiritual. Lamentam e pranteiam não só como necessitados e dependentes, mas também e principalmente porque lamentarão sempre e prantearão até o fim. Então, diante dessa condição e encarando tal realidade, o indivíduo pode escolher; ou se rebela, tentando tomar sobre os próprios ombros o encargo de mudar sua sorte, já que tantos outros vivem de forma diferente, ou decide, por confiança insofismável, esperar em Deus e em sua justiça. O manso é aquele que decide confiar em Deus, embora toda a circunstância desfavorável.

O indivíduo olha para um lado e vê a injustiça se prolongando em dias. Olha para outro, e vê os malfeitores enriquecendo às custas de sua perversidade. É claro que lhe passa pela cabeça que manter-se probo e reto pode lhe privar de uma condição melhor para si mesmo e os que dele dependem para existir; sua família. Mas o salmista adverte, não inveje o homem injusto. Mais ainda. Confia e espera em Deus; descansa. Os que esperam herdarão a terra.

Notem que essa promessa é contundente mas conflitante, principalmente no contexto de um povo subjugado pelo domínio romano. Receber a terra por herança, equivale a recebê-la por direito sem precisar lutar por ela. Logo os judeus, acostumados a guerras e a se defenderem de nações inimigas por todos os lados. O que Jesus está propondo é larguem suas armas. Não confiem nelas para estabelecerem a pretensa justiça. Se dependem de Deus e choram por suas sortes, dependam e chorem até o fim, sendo manso e confiantes de que é Ele os fartará daquilo de que são carentes. Não reajam, mas confiem.

Falar aqui em mansidão tinha como propósito a sustentação do restante do discurso. Oferecer a outra face, caminhar duas milhas se obrigado a uma, não são atitudes senão de mansidão. Atitudes daqueles que escolhem ser mansos, em vez de agirem em seu próprio favor. Mais tarde Jesus irá se oferecer como cordeiro manso ao sacrifício. Ele será manso diante da guarda que o capturará no Getsêmani, diante do Sinédrio reunido para julgá-lo, e diante de Pilatos que o interrogará. Por todo o seu martírio, Jesus exercerá convicto sua mansidão, tendo em foco o propósito de Deus em tudo que ocorrerá à frente, e a providência divina em seu socorro final. Afinal, ele será o primeiro entre muitos que herdarão a terra.


A mansidão é, portanto, o ato positivo em direção à confiança. É uma ação. Alguns podem confundir a esperança com um ato covarde de não enfrentamento do inimigo. Mas nada disso. O manso é antes aquele que por confiança e esperança guerreia consigo mesmo, para em vez de agir precipitadamente em seu favor, aguardar em Deus, certo de seu cuidado e de sua providência. O manso não é um covarde que teme a reação. É aquele que corajosamente espera confiante no amor de Deus. Sua satisfação e o seu prazer está em esperar pela ação do Pai. Os mansos, sem luta, herdarão a terra.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

=> Independência é bom? Depende...





“A minha salvação e a minha honra dependem de Deus; ele é a minha rocha poderosa e o meu abrigo.”
                      Salmos 62:7 – NTLH


“Ora, desde o ventre materno dependo de ti, das entranhas de minha mãe me separaste; dia após dia és motivo de todo o meu louvor.”
                      Salmos 71:6 - BKJ


27 Todos esses animais dependem de ti, esperando que lhes dês alimento no tempo certo. 28 Tu dás a comida, e eles comem e ficam satisfeitos. 29 Quando escondes o rosto, ficam com medo; se cortas a respiração que lhes dás, eles morrem e voltam ao pó de onde saíram. 30 Porém, quando lhes dás o sopro de vida, eles nascem; e assim dás vida nova à terra.”
                      Salmos 104:27-30 - NTLH

Dos sonhos mais recorrentes que um indivíduo alimenta ao longo de sua vida, a independência é o mais abertamente declarado e desejado na mais íntima e secreta pretensão. E essa desejada independência se estende a diversos segmentos da vida, como o financeiro, afetivo e profissional. Tanto que a dependência é vista como uma condição negativa, incômoda e de constrangedora subordinação.

Ser independente é um conceito que só de falar, já traz em sua sonoridade a idéia de liberdade. Eu não dependo de absolutamente ninguém para viver, enchem o peito com orgulho os arrogantes de ocasião, que bradam aos quatro cantos, gabando-se de uma condição verdadeira ou mesmo falaciosa, que inspire respeito a quem escuta. O independente, é por conceito primário, livre e poderoso sem peias ou cercas.

O conceito de independência esteve presente na sedução do pecado original, e habita o cotidiano dos nossos sonhos, à medida que nos esforçamos para alcançar tal condição, consciente ou mesmo inconscientemente, como inclinação e reação instintiva às provocações e solicitudes do dia-a-dia.

A independência parece em uma primeira análise, um objetivo último do desenvolvimento pessoal. Quando começamos a engatinhar ainda bebês, logo ensaiamos os primeiros passos. E ao andar já tentamos correr. E ninguém fica a nos desestimular dizendo fique sentado, ou deixa disso, você pode cair. Não. Todo o estimulo visa o desenvolvimento que leva à autonomia. E isso é muito bom, porque nos faz autônomos em nossos passos e conscientes em nossas próprias decisões, tornando-nos responsáveis diretos por tudo o que fazemos na vida. Seria o que poderíamos chamar de uma independência funcional, que nos permite agir basicamente com a liberdade necessária para funcionar, sem que terceiros precisem ser incomodados por qualquer debilidade nossa. Mas notem que a linha é tênue e por isso o exercício aqui é bastante difícil; discernir entre autonomia e independência.

Ora, diz o texto de Gênesis que Deus colocou o homem no jardim e ali ele tinha a responsabilidade de trabalhar a terra. Diz ainda, que toda tarde Deus vinha ao jardim conversar com esse homem. Ele, o homem, autônomo em sua função, pois a realizava com recursos físicos próprios e capacidade mental para orientar-se em seu cumprimento, prestava contas do dia e do que fazia. Era dependente da aprovação de Deus e dos resultados de seu trabalho. Ou seja, funcionava sozinho, mas devia submissão a Deus. Até o dia que surgiu a possibilidade de mudar o rumo de sua história.

Não seria mais necessário dar satisfação a ninguém. Saber o que pensar ou deixar de pensar seria um proveito próprio. Decidir o que, quando e como fazer, estaria agora em suas próprias mãos. Não haveria mais qualquer submissão, qualquer subordinação. Ele agora poderia tornar-se igual a Deus... E pagou pra ver.

A autonomia já não bastava ao casal. Queriam mais. Queriam além. Poder satisfazer-se em vez de dar satisfações. Não fazem assim nossos adolescentes, que se aborrecem com toda pergunta que fazemos, por qualquer cobrança que lhes dirigimos. Vai aonde? Vai com quem? Que horas você volta? Eles ficam indignados. Se pudessem sairiam correndo sem dar qualquer resposta. Uns até fazem isso mesmo. É a vontade de independer, de ser livre. De decidir sozinho e exclusivamente sobre a própria vida. De excluir pai e mãe de tudo o que pretendem como próprio e pessoal. Foi essa a intenção do primeiro homem; excluir Deus de sua vida. Viver apesar d’Ele. Ter o controle exclusivo e absoluto da vida, sem qualquer obrigação com quem quer que fosse além de si mesmo.

Acontece que ser autônomo não me obriga a independência, assim como ser dependente, não me retira a autonomia. Sou plenamente capaz de utilizar todos os recursos com que nasci e me desenvolvi, tanto para viver quanto para produzir aquilo com que sustentarei minha existência. Mas sou dependente e preferencialmente dependente de Deus, para que os recursos que estão além de mim, tanto quanto minha própria condição de vida, me sejam mantidas por sua providência e bondade. Sim porque eu posso catar o maná que cair diariamente no arraial, e essa obrigação funcional é mesmo minha, mas não posso garantir que ele caia; é Deus quem o provê.

Posso planejar o meu dia amanhã. Pode agendar tarefas, calcular tempos e deslocamentos, traçar rotas. Mas não posso garantir estar vivo pela manhã. É Deus quem me sustenta a vida. Mas se vivo estiver, preciso realizar tudo com a autonomia e a responsabilidade que recebi d’Ele. Sou autônomo porque fui feito à semelhança de Deus, com atributos funcionais e realizadores. Mas dependo d’Ele porque vim d’Ele, vivo por Ele, e porque Ele quer.

Portanto o exercício diário de dependência de Deus, está em manter minha autonomia para realizar aquilo que Deus, por bondade e graça me concede, tendo prazer na satisfação mutua, de Quem cuida e de quem é cuidado.

Bom exercício a todos!




sexta-feira, 17 de outubro de 2014

=> O imprevisto é certo. Tanto quanto o socorro!





“A vida é como um cavalo chucro. Não obedece prognósticos, não segue vaticínios, não possui lógica. Quando puxamos à direita, segue em frente, quando deixamos as rédeas cederem, acreditando que o cavalo continuará, ele empaca, teimoso. Desperdiçamos enormes pedaços de nossa existência na ânsia de encabrestar esse tal potro selvagem. Mas controlar a vida se torna um desafio estafante, um delírio de nossa falsa onipotência”

                      Ricardo Gondim em Pra Começo de Conversa – pág. 189


Imprevisível. Uma das características mais inquietantes e assustadoras da vida. O mundo contemporâneo nos obriga a viver em sobressaltos, sempre a mercê das intempéries existenciais que, contra nosso gosto, nos sacode as emoções, convicções e crenças, nos lançando inexoravelmente em um roda-moinho de sensações, muitas vezes novas ou indesejadas.

É claro que também há imprevistos ótimos que nos causam grande felicidade. Mas esses não nos causam temores. Ao contrário, torcemos sempre por tais imprevistos e por eles até sonhamos.

Os sustos, porém, nos amedrontam. E no desejo de jamais passarmos por isso, no anseio de termos o controle da vida, desenvolvemos mecanismos diversos, que tentam blindar-nos das surpresas. Os mais variados segmentos da sociedade se dedicam e gastam muitos recursos para conter e limitar as possibilidades imprevisíveis. Ciência e tecnologia estudam e municiam a sociedade de certas previsões que tentam diminuir a sensação de insegurança ou dando um certo conhecimento do futuro. Daí os institutos de meteorologia, por exemplo, ajudando variados setores da economia, bem como a medicina diagnóstica, que permite antever e prevenir doenças ou avanços, o que seria impossível há poucas décadas.

Nesse afã de nivelar os montes, a religião não fica para trás. Em resposta a angustia pelo imprevisto, ela oferece fórmulas para blindar a vida contra o inesperado. Como se passar por percalços fosse sinal de pouca fé ou garantia de felicidade. O que tentam nos oferecer, é uma vida sem dor e sem lágrimas, que na verdade nos está prometida no porvir. Não agora, não aqui, não nesse corpo.

O que se esquece, é que nenhuma promessa foi feita no sentido de termos uma vida tranqüila e livre de sustos. Muito pelo contrário. “Tenho-vos dito isso, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” (Jo 16:33). Ora, se Jesus venceu o mundo onde ocorrem as aflições que nos atingem, muito mais nos fortalecerá para suportarmos tais aflições. Não é que não as sentiremos. Sim, sentiremos. Sim, vai doer. Mas vai passar. Não desanime! O bem final do amor de Deus na vida de uma pessoa é sua transformação interior, seu amadurecimento espiritual. Não seu bem estar físico-social.

A idéia não é nos poupar de eventualidades ou do contingencial. Pelo contrário, precisamos ser experimentados em tudo, na paciência e na esperança, para que a fé se fortaleça e a confiança se aprimore em Deus, pelo poder consolador do Espírito Santo.

Portanto tenhamos confiança diante dos imprevistos. Eles existem e continuarão existindo. O imprevisível continuará a nos surpreender. Mas a confiança no cuidado e no amor de Deus nos fortalecerá em tudo, nos graduando espiritualmente a um coração cheio de fé e devotado a Deus. Sabendo confiadamente que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus. Afinal, “tudo posso naquele que me fortalece.” (Filipenses 4:13).


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