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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Je crains. E não é que está piorando!...


         
“Todos aqueles que se julgam possuidores da verdade são inquisidores.
... A tentação dos absolutos é uma característica universal do espírito humano. Todos queremos possuir a verdade. E para possuir a verdade é preciso que se a engaiole. E para engaiolar a verdade é necessário engaiolar a liberdade e o pensamento”.
                                                           Rubem Alves em Religião e Repressão

Em outubro do ano passado, motivado pela crescente onda de calor que atravessou a discussão política no Brasil por conta das eleições presidenciais, manifestada até e talvez principalmente pelo Facebook, escrevi dois textos, um no dia 06 e outro no dia 18, falando do receio de que determinadas posições intransigentes, viessem a gerar uma forte onda de intolerância às diferenças e às divergências. Na época, tinha em mente algumas amizades e relações afetivas abaladas, não pela discordância, mas pela falta de aceitação de que o outro possa pensar e sentir diferente.

Ontem o mundo inteiro foi sacudido pelo atentado terrorista à sede do Charlie Hebdo, onde chargistas foram cruelmente assassinados pela ação intolerante de quem acredita defender não só a pureza de suas crenças, mas também e principalmente, demonstrar que quem não pensa exatamente igual não merece e não pode sequer existir. Estágio último da intolerância; a eliminação dos diferentes e a execução sumária dos divergentes.

Há quem diga, como bem me chamou a atenção meu amigo marcos França, que os chargistas “pegaram pesado ao publicarem charges consideradas ofensivas e desrespeitosas”. Mas isso seria o mesmo que dizer que a culpa do estupro foi da vítima e não do estuprador. E é uma analogia bastante coerente, pois somos continuamente tentados a atenuar o crime, desqualificando a vítima. Crime é crime e vítima é vitima. Se alguém se sente afetado ou ofendido que acione a justiça. Por isso temos leis e tribunais. Um atentado como esse é crime de ódio em seu mais alto grau de manifestação.

Mas se ainda assim quisermos discutir as motivações dos terroristas eu pergunto: qual o problema em sofrer críticas e confrontações no que seja considerado em uma caricatura de nossas crenças e atitudes? Sim, porque não há charge senão do que se evidencia pelo exagero e pelo descolamento do comportamento médio social. A crítica do humor nasce dos absurdos. Recebem críticas as incoerências dos políticos, os desmandos dos estadistas, a violência dos cruéis e a hipocrisia dos religiosos. Aliás, criticar hipocrisia religiosa já mandou gente pra cruz!...

A história universal está repleto de exemplos terríveis, das conseqüências devastadoras da intolerância política, racial e religiosa. Multidões de vidas ceifadas simplesmente por pensarem diferente, terem na pele um tom diferente, possuírem hábitos e costumes diferentes, ou ainda crerem diferente. É preciso manter em alta atividade a indignação com a intolerância e redobrarmos a atenção, pois não há quem esteja livre dela. A intolerância não se fixa em um único aspecto. Ela se transforma e se espreita perseguindo tudo que não é igual ao que é, pensa ou faz o intolerante. Um dia ela chega até qualquer um de nós. Como diria minha avó: pau que dá em Chico dá em Francisco.

Se a crítica é bem vinda sempre que exacerbamos ou erramos, com humor é ainda mais gostosa, porque empresta à confrontação o lirismo necessário para que o incômodo do reconhecimento do erro, se transforme em graça e simplicidade, ajudando a superar a falha com menos dor e culpa. Até porque, como diz Caetano (acho que é ele mesmo quem diz. Se não me desculpe o autor original), de perto ninguém é normal. Ora, se ninguém está livre de cometer excessos, logo ninguém está livre de receber crítica. Que venham as críticas sempre e de preferência com muito bom humor.

Enfim, o atentado de ontem em Paris tenta calar e algemar a liberdade de expressão em suas diferentes possibilidades e manifestações. Defender a liberdade não é necessariamente concordar com as atitudes ou pensamento dessa ou daquela pessoa, mas é antes de mais nada, defender e garantir que ela tenha, como eu, o direito de manifestar-se, com a legitimidade que a liberdade lhe outorga, sem que por isso seja eliminada ou retaliada. Garantindo a liberdade do outro, garantida estará a minha.

Que Deus nos ensine a aceitar o diferente, entender o divergente e acolher os débeis. Mas que nos livre da intolerância e do fim de nossas liberdades.


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