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terça-feira, 21 de abril de 2015

Esclarecendo a Teologia... Ou não - Parte 2





“Ó Senhor... Seja-me permitido enxergar a tua luz, embora de tão longe e desta profundidade. Ensina-me como procurar-te e mostra-te a mim que te procuro. Pois, sequer posso procurar-te se não me ensinares a maneira, nem encontrar-te se não te mostrares. Que eu possa procurar-te desejando-te, e desejar-te ao procurar-te, e encontrar-te amando-te, e amar-te ao te encontrar”
Anselmo de Cantuária - 1078 - destaque; em O que é Teologia?
Coleção Teologia ao Alcance de Todos - MK Editora

Seguindo nosso posicionamento explicitado no texto anterior, e embora consideremos teologia como o ato simples mas voluntário de pensar em Deus, Ele mesmo, Deus, não pode ser objeto material de nosso labor teológico, uma vez que nenhum dos nossos sentidos o pode limitar ou definir nem a forma, nem a essência. Antes, o objeto do empreendimento teológico é a revelação de Deus, onde e como essa possa ser encontrada, bem como sua relação com a humanidade, também expressa e registrada em parte das evidências de sua revelação.

Anselmo de Cantuária, autor do texto acima em destaque, parecia entender isso perfeitamente. Ao pedir para enxergar a luz de Deus e não o próprio, sabe que d'Ele apenas a manifestação lhe seria possível perceber, dada a profunda e intransponível distância que os separava. Mas em maior relevância está o entendimento de que a iniciativa de se apresentar emana do próprio Deus, pois mostra-te a mim que te procuro. O caminho de tal conhecimento também parece depender da orientação do Procurado, pois sequer posso procurar-te se não me ensinares a maneira. O labor teológico se exaure na e da revelação de Deus, e essa atende aos seus propósitos.

2.  Mas então, como se labora uma teologia?

Ora, se Deus por sua magnificência não pode ser nosso objeto de estudo, e sua revelação e relação com a humanidade passa a ser em lugar d'Ele nosso material de nossa investigação, onde procurar tal revelação e os indícios dessa relação, se é que há, com a humanidade?


“Para o cumprimento de sua missão, o teólogo, como um investigador, se baseia em evidências a fim de formular suas hipóteses.”
Elisa Rodrigues; em O que é Teologia?
Coleção Teologia ao Alcance de Todos - MK Editora

É importante aqui fazer duas ressalvas pertinentes para a manutenção da coerência de nossa tarefa. A primeira diz respeito ao exercício teológico encontrado na história de diversas outras civilizações, tanto antigas quanto contemporâneas, importantes e altamente colaborativas em nossa linha de raciocínio. Tais elaborações conceituais serão temporariamente deixadas à margem de nosso exercício, apenas por um momento, por conta da especificidade e concentração no labor teológico cristão por nós empreendido. Considerá-los agora poderia nos dispersar a compreensão e nos obrigaria a abrir um leque muito amplo de possibilidades que nos faria perder o foco. Mas as veremos com especial atenção em trabalhos futuros, e como as deixaremos às margens de nosso exercício, poderemos lançar-lhes mão sempre que oportuno.

A segunda ressalva, e essa diretamente ligada ao que diz o último destaque, faz-se importante pelo significado costumeiro da palavra evidência em nosso contexto coloquial, que difere flagrantemente do ali utilizado. Normalmente a expressão "é evidente" pode ser substituída por "é lógico", ou "sem dúvida", dando-nos a impressão obvia de que estamos tratando de algo indiscutível, insofismável, que se prova irrefutável por assim dizer. Porém no texto em destaque, evidência está se referindo a material sobre o qual se poderá exercer investigação, tendo o mesmo um sentido muito mais voltado ao entendimento forense. O que de certa forma é claramente muito mais adequado ao nosso objetivo.

Assim, nos voltamos ao problema inicial. Quais seriam as evidências sobre as quais poderíamos exercer a tarefa de pensar em Deus, através de sua revelação e de sua relação com a humanidade? Como identificar que um determinado fato ou circunstância é uma revelação, ou evidência da relação da humanidade com a divindade? Que características nos dão indícios de que uma ou outra ocorrência seja uma revelação de Deus, ou um ato relacional com sua criação? Uma vez que fizemos a opção temporária de isolar outras percepções teológicas, podemos nos concentrar no texto bíblico que deverá nos auxiliar preliminarmente.


19 Porquanto, o que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. 20 Pois os seus atributos invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas, de modo que eles são inescusáveis;”
Romanos 1:19-20 - JFA


1 Os céus revelam a glória de Deus, o firmamento proclama a obra de suas mãos. 2 Um dia discursa sobre isso a outro dia, e uma noite compartilha conhecimento com outra noite. 3 Não há termos, não há palavras, nenhuma voz que deles se ouça; 4 entretanto, sua linguagem é transmitida por toda a terra, e sua mensagem, até aos confins do mundo.”
Salmos 19:1-4a - KJA

A primeira evidência que destacamos, entre algumas com que podemos trabalhar, considerando as pistas fornecidas pelos próprios autores bíblicos, é a natureza criada. Há quem entenda essa evidência como pouco contundente para revelar Deus em todas as suas possibilidades e atributos, uma vez que pouco se pode afirmar além de seu poder criador. Paulo, contudo, parece não só discordar dessa tese, como demonstra ser partidário de que o que se revela na natureza criada é mais do que suficiente para que alguém conheça Deus e lhe preste culto, sendo possível, portanto, reconhecer-se a divindade revelada.

Lançando mão dos entendimentos das civilizações antigas, encontraremos eco dessa percepção natural da divindade revelada. A história desses povos está repleta de divinizações de fenômenos naturais e de elementos da natureza, bem como de animais e tudo o mais que estivesse fora do ser humano. Um primeiro mas muito importante raciocínio de que, fosse a divindade o que fosse, ela estaria fora do homem - um ser totalmente outro. Ora, se tais civilizações eram capazes de prestar culto a esses ídolos divinizados aos quais atribuíam o poder divinal, Paulo entendia que igual caminho poderia ser trilhado na direção de Deus. Até porque, tal revelação está disponível e foi a única evidência à existência de Deus, por muito mais tempo que outras revelações e evidências, que posteriormente vieram somar no processo de auto-revelação divina.

Assim como Paulo e bem antes dele, o salmista assistia em seu cotidiano a declaração da glória em suas obras manifestas. Ainda que sem qualquer expressão, voz ou palavra, a criação revelava ao devotado rei Davi, o Deus que a criou, sendo ela mesma mensagem suficiente para todos os povos e nações, em qualquer canto do planeta, até os confins do mundo. Em nosso artigo A Relevância de um Deus Criador (aqui mesmo no blog), fazemos alusão sobre a importância basilar que o conceito do Deus Criador tem em todo o processo que chamamos de labor teológico.

Aceitando portanto a natureza criada como evidência primeira e suficiente de revelação de Deus e de seus atributos, ou pelo menos de grande parte dele, que outras evidências poderíamos utilizar nesse árduo, porém delicioso empreendimento, no caminho do conhecimento de Deus? Voltemos ao texto bíblico, agora deixando a criação de lado.


97 Quanto amo a tua Lei! Sobre ela reflito o dia inteiro! 98 Os teus mandamentos me fizeram mais sábio que meus adversários, porquanto estão sempre comigo. 99 Tornei-me mais perspicaz que todos os meus mestres, pois meditei em tuas prescrições.100 Tenho mais discernimento que os anciãos, pois obedeço aos teus preceitos. 101 Desviei meus pés de todas as trilhas do mal para guardar a tua Palavra! 102 Não me afasto de tuas ordenanças, pois tu mesmo me ensinas. 103 Quão doces são os teus decretos ao meu paladar! Mais que o mel à minha boca. 104 Graças aos teus preceitos tenho entendimento; por isso, detesto todos os caminhos da mentira!”
Salmos 119:97-104 - KJA

Uma outra evidência bastante contundente e largamente utilizada é o próprio texto bíblico, que nos registra não só as manifestações e revelações de Deus, como o faz em pleno exercício da relação do próprio Deus com a humanidade. A Bíblia, inclusive, nos permite realizar variações de abordagem e método investigativo, ampliando a capacidade de argumentos na elaboração de todo o conteúdo teológico.

É importante ressaltar que não há muitos outros registros escritos sobre manifestações divinas, excetuando-se, como já dissemos acima, os trabalhos realizados por outras civilizações, aos quais nos voltaremos mais adiante. Mas mesmo eles, é importante que se diga, não apresentam circunstâncias muito diferentes das que encontramos no texto bíblico, em termos de possibilidade e variedade de entendimento sobre o que Deus revela de si mesmo, e de como se relaciona com a humanidade. E novamente nos vemos diante de uma coincidência providencial; que em sua grande maioria as civilizações registram um relacionamento da divindade com a humanidade, demonstrando que o labor teológico está na direção certa, ao tentar compreender o que essa relação é capaz de provocar na existência humana, se existem propósitos claros nessa relação, e se existem, quais são eles.

Concentrando-nos portanto na Bíblia, veremos mais adiante com detalhes, que ela possui um texto extremamente rico em registros de revelações e ensinamentos divinos, que podem ser extraídos concomitantes ou isolados, de um mesmo trecho ou de vários, sendo esses mesmos trechos, registros complementares entre si, e jamais contraditórios, que sustentam a quase totalidade das conclusões teológicas, lhes servindo de orientação racional, ainda que a fé lhe seja ambiente e tema recorrente.

Além dessas evidências, há alguns conteúdos multidisciplinares bastante colaborativos ao labor teológico. As pesquisas históricas, as descobertas arqueológicas e mesmo as especulações cientificas, podem servir de apoio ao elemento elucubrativo da tarefa teológica de pensar em Deus. Sempre lembrando que nenhum desses esforços precisam necessariamente esgotarem-se em si mesmos.

A teologia é por definição dinâmica, à medida que, ainda que trate do pensamento sobre o Imutável, trata do entendimento que se tem daquilo que é revelado sobre Ele. Por essa razão, talvez, identificamos tantas variações nos conceitos teológicos ao longo da história da humanidade. Não que Deus se altere ou varie existencialmente, mas exatamente porque a compreensão de sua revelação e relação com a humanidade, tanto influencia quanto sofre influência das diferentes áreas do conhecimento humano, bem como dos contextos históricos, sócio-econômicos, e até políticos em que estejam inseridos.

Assim, considerando tal dinâmica e sua capacidade de acompanhar a contemporaneidade do pensamento humano, a teologia não pode e nem deve intitular a si mesma e ao conjunto de suas conclusões, verdade absoluta de princípios insondáveis e inquestionáveis. Porque se algum efeito benéfico e direto o labor teológico precisa provocar naquele que o exerce, é a condescendência e a tolerância de quem sabe estar lidando com coisas muito mais elevadas, do que a sua pobre e fraca compreensão pode pretender maniatar em complexas definições. Nossa linguagem será sempre insuficiente para expressar a grandeza do que estudamos, ou mesmo para explicar aquilo em que cremos.

Por isso a comunicação da salvação se faz por testemunho e experiência; por isso ela se dá por conversão e não por convencimento. Mas isso já é assunto para outro artigo... 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Distrações 2 - Bagagens desnecessárias



1 Vocês foram ressuscitados com Cristo. Portanto, ponham o seu interesse nas coisas que são do céu, onde Cristo está sentado ao lado direito de Deus. 2 Pensem nas coisas lá do alto e não nas que são aqui da terra. 3 Porque vocês já morreram, e a vida de vocês está escondida com Cristo, que está unido com Deus. 4 Cristo é a verdadeira vida de vocês, e, quando ele aparecer, vocês aparecerão com ele e tomarão parte na sua glória.”
                      Colossenses 3:1-4 – NTLH


1 Assim nós temos essa grande multidão de testemunhas ao nosso redor. Portanto, deixemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que se agarra firmemente em nós e continuemos a correr, sem desanimar, a corrida marcada para nós. 2 Conservemos os nossos olhos fixos em Jesus, pois é por meio dele que a nossa fé começa, e é ele quem a aperfeiçoa. Ele não deixou que a cruz fizesse com que ele desistisse. Pelo contrário, por causa da alegria que lhe foi prometida, ele não se importou com a humilhação de morrer na cruz e agora está sentado do lado direito do trono de Deus.
3 Pensem no sofrimento dele e como suportou com paciência o ódio dos pecadores. Assim, vocês, não desanimem, nem desistam.”
                      Hebreus 12:1-3 - NTLH

Notem que as passagens acima são as mesmas que utilizamos no texto anterior, pois como havíamos dito, falaríamos em seqüência sobre as distrações que nos sabotam o caminho do crescimento espiritual.

Precisamos tocar num delicado mas imperioso assunto; o que utilizamos como conceito de vida. Na primeira parte falamos sobre o pecado e seus ataques muito mais intensos na atualidade, pela oferta que os meios de comunicação e a tecnologia trazem para o nosso cotidiano. Nessa segunda parte, porém, falaremos sobre a satisfação dos próprios interesses e dos sonhos de realização pessoal, nos moldes da visão humana disseminada na sociedade como objetivo primordial da existência, e prova de sucesso na vida.

Vocês foram ressuscitados com Cristo. Ora, Paulo não está escrevendo para ninguém que esteja ao lado de Deus ou que já tenha ressuscitado fisicamente. Ele está falando a Timóteo que lidera a igreja em Éfeso, formada por pessoas vivas e inseridas no cotidiano da existência humana.

Mas por que ele dá como ocorrido um fato que está na relação dos eventos aguardados por todos nós que cremos, para o Dia do Senhor, dia da sua volta? Simples. Não há aqui qualquer conflito, senão o uso semântico do estado de vida daqueles que já passaram pela morte. Ou seja, se morremos para o mundo e suas paixões, mas continuamos a respirar e a andar nesse mesmo mundo, somos como que mortos, porém vivos. Mortos mas ressuscitados. Mortos para o mundo, mas ressuscitados para Cristo e estando com Cristo.

O que o apóstolo parece querer evidenciar, é que houve uma morte. E no contexto de nossos dias, uma morte para a vida que se levava anterior à conversão, onde o mundo e suas demandas determinavam seus pensamentos, definiam suas atitudes e orientavam sonhos e projetos. A vida orbitava em torno daquilo que a sociedade entende como modelo e fim existencial; ter sucesso, dinheiro e felicidade. A realização pessoal como objetivo primordial da vida de cada individuo. Uma bagagem desnecessária, na viagem que temos que realizar até nossa terra prometida.

É preciso quebrar esse vínculo, fugir desse modelo, ampliar nossa visão de pertinência e de sentido da vida. Pensem nas coisas lá do alto. Nas coisas que serão eternas, e que podem desde já, nos encher de vida e vida em abundância, diferentes da ambição cotidiana que nos arrebata a um estado de tensão e busca incessante por aquilo que não edifica.

É claro que ao abandonarmos esse modelo, a invertermos essa lógica existencial, seremos apontados, criticados, discriminados em meio a uma sociedade que considera louco todo aquele que não adere, ou nem mesmo se deixa seduzir por sua complexa e fugaz definição de valores, onde ter determina o que se é, e o que se é não tem qualquer valor, se o ter não lhe acompanhar como confirmação da aprovação às escolhas e aos procedimentos assumidos na vida.

Paulo afirma que a manutenção do mesmo modelo de vida “nos atrapalha”. Em algumas traduções lemos “nos embaraçam” ou “nos prendem”. Isso deixa claro que tais propósitos na vida, amarram nossas pernas, nos perturbam as passadas no caminho do crescimento espiritual. Impedem que os verdadeiros alvos de nossa vida sejam atingidos, e que nos fortaleçamos para vivermos a carreira que nos está proposta.


5 Portanto, matem os desejos deste mundo que agem em vocês, isto é, a imoralidade sexual, a indecência, as paixões más, os maus desejos e a cobiça, porque a cobiça é um tipo de idolatria. 6 Pois é por causa dessas coisas que o castigo de Deus cairá sobre os que não lhe obedecem. 7 Antigamente a vida de vocês era dominada por esses desejos, e vocês viviam de acordo com eles.
8 Mas agora livrem-se de tudo isto: da raiva, da paixão e dos sentimentos de ódio. E que não saia da boca de vocês nenhum insulto e nenhuma conversa indecente. 9 Não mintam uns para os outros, pois vocês já deixaram de lado a natureza velha com os seus costumes 10 e se vestiram com uma nova natureza. Essa natureza é a nova pessoa que Deus, o seu criador, está sempre renovando para que ela se torne parecida com ele, a fim de fazer com que vocês o conheçam completamente.”
                      Colossenses 3:5-10 – NTLH

Não há como livrar-se de tudo isso, tendo ainda como meta de vida a satisfação pessoal; a conquista dos próprios interesses. Para que fossemos salvos, Jesus esvaziou-se de si mesmo, não tendo por usurpação o ser igual a Deus. Nem mesmo aquilo que lhe era próprio e por direito, o impediu em seu propósito de salvar a humanidade. Como então viveremos ainda nos mesmos moldes seculares de vida, crendo que conseguiremos cumprir assim a vontade de Deus? Para crescer é preciso desprendimento. Não é só andar em um caminho novo, mas andar em novidade de vida.

Que saibamos nos livrar das pesadas bagagens do velho homem, e que a vida cotidiana não nos seja embaraço para fazermos a vontade de Deus a caminho da glória.


Um forte abraço.
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