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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Se conselho fosse bom, solução?





“Não havendo sábia direção, toda a nação é arruinada; o que a pode restaurar é o conselho de muitos sábios."
Provérbios 11:14 - KJA

 “O caminho do insensato é reto aos seus olhos; mas o que dá ouvidos ao conselho é sábio."
Provérbios 12:15 - JFA

“A arrogância só produz contendas, mas a sabedoria está com aqueles que buscam conselho."
Provérbios 13:10 - KJA

“Onde não há conselho, frustram-se os projetos; mas com a multidão de conselheiros se estabelecem."
Provérbios 15:22 - JFA

“quem parte para a guerra necessita de orientação estratégica, pois com muitos conselhos se conquista a vitória!"
Provérbios 24:6 - KJA

“Mais vale um jovem pobre e sábio do que um rei ancião e insensato, que em sua arrogância já não aceita mais conselhos."
Eclesiastes 4:13 - KJA

"Se conselho fosse bom ninguém dava; vendia." É o que diz a sabedoria popular. E interessante! esse ditado é argumento tanto para quem quer aconselhar, mas teme a reação de seu interlocutor, quanto para quem efetivamente não quer aceitar qualquer conselho sobre um assunto qualquer, principalmente se esse conselho sugere não realizar alguma coisa da qual se está muito interessado em fazer. Normalmente ouvimos de bom grado os conselhos que nos atendem as próprias inclinações. Servem sempre e convenientemente para justificar atitudes, ou para criar o "bode expiatório" a quem culparemos pelo que quer que dê errado. - Tá vendo?! Fui ouvir você... Olha no que deu!

Nesse cenário por onde caminha a realidade da conduta humana e suas conveniências, parece até desaconselhável, emitir conselhos sobre qualquer que seja o assunto, em quaisquer que sejam as circunstâncias, sob pena de ser inoportuno diante da inflexibilidade do aconselhado, ou de ser responsabilizado pela desventura daquele a quem se pretendeu ajudar. Dura é a vida do conselheiro. Bem faz o consultor que cobra pelo conselho que dá. Afinal, conselho bom se vende.

Mas nosso foco aqui não será o conselheiro e nem mesmo o conselho em si, mas a atitude sábia de se aconselhar, de se enriquecer com o máximo de informações e percepções sobre um determinado assunto, antes de tomar uma decisão, ou firmar posição. Na multidão dos conselhos habita a sabedoria. Mas qual é a conexão de tomar conselho, com o exercício filosófico a que se pretende a mania de pensar no que cremos? Eu diria que total.

Uma das características mais marcantes da filosofia é o seu método. No trabalho incessante de buscar respostas para suas questões, chegar a alguma resposta é menos importante que o próprio processo de se buscá-las. O exercício da investigação, é de fato, a chama inextinguível do pulsar filosófico. E isso se dá em grande medida, não se sabendo bem o que é causa e o que é efeito, porque a filosofia não trabalha com verdades absolutas, ensimesmadas que são de particulares observações do mundo à volta do filósofo, ainda que suas afirmações, oriundas de diferentes e variadas contribuições de seu cotidiano, sempre se pretendam à universalidade.

Desse modo, não havendo por princípio uma verdade absoluta a que alguém possa chegar por particular observação, a investigação de certas questões sempre estarão a mercê de sucessivos exercícios elucubrativos, que alternarão os assuntos em seus laboratórios, conforme circunstâncias históricas e sociais, que demandem posicionamento ou orientação do pensamento humano e de senso comum.

Esse perfil da atividade filosófica, é milenar. Nas escolas filosóficas da antiguidade, os alunos eram sempre estimulados por seus mestres a buscarem entendimentos divergentes de suas observações. Em vez de lhes ensinar apenas a conclusão a que chegavam, instruía-os no caminho que trilhavam até uma determinada idéia, incentivando-os a autonomia de pensamento. Assim, eram estimulados a discordarem e a criticarem seus mestres, trazendo novas concepções e possibilidades de entendimento das questões sobre as quais se debruçavam.

Ora, no mundo das idéias o tempo cronológico não limita e muito menos impede o debate entre os diversos pensadores da história universal. Ora contradizendo, ora corroborando, pensadores se sucedem na tarefa de trazer às suas ágoras contemporâneas, questões que serão discutidas livremente por diversos filósofos, quer estejam presentes fisicamente, quer se façam presentes por intermédio de suas obras, registros, ou tradição oral a eles atribuídas. Uma verdadeira academia do pensamento, onde o mundo pode se aconselhar com as idéias e contribuições deixadas por cada um dos seus membros históricos.

Esses conselhos a que me refiro, são contrapostos, criticados, discutidos e comentados. Quer aceitos na íntegra ou em partes, quer rejeitados por completo, todos inexoravelmente servirão de parâmetros que tangerão o pensamento humano pela história, em suas demandas por conhecimento e direcionamento existencial. A cada fase da nossa história, novos membros vão compondo essa academia do pensamento, enriquecendo todo e qualquer debate, e contribuindo para visões cada vez mais adequadas à contemporaneidade do debate mais recente. Na multidão dos conselhos habita a sabedoria. Não é erro de digitação. Estou repetindo essa frase propositalmente.

Não obstante a costumeira demonização da atividade pensante no que se refere a investigação das razões de nossa fé, penso que na multidão dos conselhos habita a sabedoria. Ou seja, quanto mais rodeado de conselhos, quanto mais enriquecido pela atividade do pensamento humano, quer para confirmá-lo, quer para rejeitá-lo, tanto mais consistente serão minhas posições, uma vez que frutos de uma conclusão robusta, não oriunda de uma mímica conveniente e oportunista qualquer, mas nascida de uma atividade responsável e prazerosa; a renovação do nosso entendimento, para entendemos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.[1]

A essa altura muitos já devem ter torcido o nariz. Mas haverá quem rasgue as próprias vestes[2]. Porque o questionamento bem como a confrontação de idéias e visões de mundo, são, em tese, os melhores e mais bem-sucedidos métodos de aprofundamento do conhecimento, qualquer que seja a disciplina ou ciência na qual esteja inserido. Inclusive na teologia. Ou não foi assim que avançou a revelação de Deus ao longo da história da humanidade, mais particularmente na história de Israel?

O questionamento das tradições judaicas, bem como a confrontação dos costumes religiosos dos escribas e fariseus, estão espalhados por todo o relato dos evangelhos. As idéias convenientemente estabelecidas sobre o que era religiosidade, davam à elite religiosa uma confortável condição de destaque, concedendo prestígios e acumulando-lhes vantagens oportunas. Mas Jesus lhes questionava a pertinência dos hábitos e a natureza das intenções. Ele confrontava repetidamente a superficialidade de seus ritos, como a realidade maldosa de suas pretensões. Não foi sem motivo que esses profissionais da religião e aproveitadores da boa fé do povo, foram chamados, sem hesitação, de hipócritas e de sepulcros caiados, dado o fingimento com que se apresentavam como piedosos e probos religiosos.

Paulo não agiu muito diferente. Toda sua teologia, em visível construção ao longo de suas cartas, é fruto do questionamento e confrontação do que se acreditava, com aquilo que se descortinava diante de seus olhos, a medida que a experiência da vida transformada lhe propiciava novas percepções sobre a relação da humanidade com Deus. Confrontando idéias e questionando a si mesmo, aquele zeloso judeu que consentiu com a morte de Estevão e empreendeu viagem para prender e julgar os seguidores de Jesus, tornou-se o principal expoente do cristianismo, sendo o principal evangelizador entre os gentios.

Ora, é preciso sair do casulo. Abrir os olhos. Tomar conselho com a vida e suas possibilidades. Rasgar as receitas de existências pré-moldadas, e se lançar às experiências enriquecedoras que a relação com Deus e as pessoas que nos cercam são capazes de produzir. Precisamos correr o risco do inédito em nosso cotidiano. Prestar um culto racional pela transformação da nossa mente. É na mente que são produzidas as idéias. É na mente que se armazena o entendimento. Se não cremos porque entendemos, é por entendermos que sustentamos e enriquecemos nossa relação com Deus, e somos renovados em nossas inclinações e conduta.


“Um homem sábio é poderoso, e quem possui entendimento potencializa sua força;"
Provérbios 24:5 - KJA

Portanto reitero o convite. Leia, ouça, assista, debata, pergunte e questione. Leia incessantemente sua Bíblia e abra espaço para outras literaturas. Ouça louvores e adore a Deus com inteireza de coração, mas não deixe ouvir poesia e cantar a vida em verso e prosa. Assista na TV seus programas prediletos e não perca a oportunidade de analisá-los comentá-los; a ficção ajuda a debater o mundo real. Do que entende e conhece, ensine; o que não sabe, pergunte. O que não compreende questione. Mente vazia, dizia minha avó, é oficina do diabo. Afinal de contas, é na multidão dos conselhos que habita a sabedoria.



[1] Romanos 12:1-2
[2] Mateus 26:65; Joel 2:13

terça-feira, 21 de abril de 2015

Esclarecendo a Teologia... Ou não - Parte 2





“Ó Senhor... Seja-me permitido enxergar a tua luz, embora de tão longe e desta profundidade. Ensina-me como procurar-te e mostra-te a mim que te procuro. Pois, sequer posso procurar-te se não me ensinares a maneira, nem encontrar-te se não te mostrares. Que eu possa procurar-te desejando-te, e desejar-te ao procurar-te, e encontrar-te amando-te, e amar-te ao te encontrar”
Anselmo de Cantuária - 1078 - destaque; em O que é Teologia?
Coleção Teologia ao Alcance de Todos - MK Editora

Seguindo nosso posicionamento explicitado no texto anterior, e embora consideremos teologia como o ato simples mas voluntário de pensar em Deus, Ele mesmo, Deus, não pode ser objeto material de nosso labor teológico, uma vez que nenhum dos nossos sentidos o pode limitar ou definir nem a forma, nem a essência. Antes, o objeto do empreendimento teológico é a revelação de Deus, onde e como essa possa ser encontrada, bem como sua relação com a humanidade, também expressa e registrada em parte das evidências de sua revelação.

Anselmo de Cantuária, autor do texto acima em destaque, parecia entender isso perfeitamente. Ao pedir para enxergar a luz de Deus e não o próprio, sabe que d'Ele apenas a manifestação lhe seria possível perceber, dada a profunda e intransponível distância que os separava. Mas em maior relevância está o entendimento de que a iniciativa de se apresentar emana do próprio Deus, pois mostra-te a mim que te procuro. O caminho de tal conhecimento também parece depender da orientação do Procurado, pois sequer posso procurar-te se não me ensinares a maneira. O labor teológico se exaure na e da revelação de Deus, e essa atende aos seus propósitos.

2.  Mas então, como se labora uma teologia?

Ora, se Deus por sua magnificência não pode ser nosso objeto de estudo, e sua revelação e relação com a humanidade passa a ser em lugar d'Ele nosso material de nossa investigação, onde procurar tal revelação e os indícios dessa relação, se é que há, com a humanidade?


“Para o cumprimento de sua missão, o teólogo, como um investigador, se baseia em evidências a fim de formular suas hipóteses.”
Elisa Rodrigues; em O que é Teologia?
Coleção Teologia ao Alcance de Todos - MK Editora

É importante aqui fazer duas ressalvas pertinentes para a manutenção da coerência de nossa tarefa. A primeira diz respeito ao exercício teológico encontrado na história de diversas outras civilizações, tanto antigas quanto contemporâneas, importantes e altamente colaborativas em nossa linha de raciocínio. Tais elaborações conceituais serão temporariamente deixadas à margem de nosso exercício, apenas por um momento, por conta da especificidade e concentração no labor teológico cristão por nós empreendido. Considerá-los agora poderia nos dispersar a compreensão e nos obrigaria a abrir um leque muito amplo de possibilidades que nos faria perder o foco. Mas as veremos com especial atenção em trabalhos futuros, e como as deixaremos às margens de nosso exercício, poderemos lançar-lhes mão sempre que oportuno.

A segunda ressalva, e essa diretamente ligada ao que diz o último destaque, faz-se importante pelo significado costumeiro da palavra evidência em nosso contexto coloquial, que difere flagrantemente do ali utilizado. Normalmente a expressão "é evidente" pode ser substituída por "é lógico", ou "sem dúvida", dando-nos a impressão obvia de que estamos tratando de algo indiscutível, insofismável, que se prova irrefutável por assim dizer. Porém no texto em destaque, evidência está se referindo a material sobre o qual se poderá exercer investigação, tendo o mesmo um sentido muito mais voltado ao entendimento forense. O que de certa forma é claramente muito mais adequado ao nosso objetivo.

Assim, nos voltamos ao problema inicial. Quais seriam as evidências sobre as quais poderíamos exercer a tarefa de pensar em Deus, através de sua revelação e de sua relação com a humanidade? Como identificar que um determinado fato ou circunstância é uma revelação, ou evidência da relação da humanidade com a divindade? Que características nos dão indícios de que uma ou outra ocorrência seja uma revelação de Deus, ou um ato relacional com sua criação? Uma vez que fizemos a opção temporária de isolar outras percepções teológicas, podemos nos concentrar no texto bíblico que deverá nos auxiliar preliminarmente.


19 Porquanto, o que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. 20 Pois os seus atributos invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas, de modo que eles são inescusáveis;”
Romanos 1:19-20 - JFA


1 Os céus revelam a glória de Deus, o firmamento proclama a obra de suas mãos. 2 Um dia discursa sobre isso a outro dia, e uma noite compartilha conhecimento com outra noite. 3 Não há termos, não há palavras, nenhuma voz que deles se ouça; 4 entretanto, sua linguagem é transmitida por toda a terra, e sua mensagem, até aos confins do mundo.”
Salmos 19:1-4a - KJA

A primeira evidência que destacamos, entre algumas com que podemos trabalhar, considerando as pistas fornecidas pelos próprios autores bíblicos, é a natureza criada. Há quem entenda essa evidência como pouco contundente para revelar Deus em todas as suas possibilidades e atributos, uma vez que pouco se pode afirmar além de seu poder criador. Paulo, contudo, parece não só discordar dessa tese, como demonstra ser partidário de que o que se revela na natureza criada é mais do que suficiente para que alguém conheça Deus e lhe preste culto, sendo possível, portanto, reconhecer-se a divindade revelada.

Lançando mão dos entendimentos das civilizações antigas, encontraremos eco dessa percepção natural da divindade revelada. A história desses povos está repleta de divinizações de fenômenos naturais e de elementos da natureza, bem como de animais e tudo o mais que estivesse fora do ser humano. Um primeiro mas muito importante raciocínio de que, fosse a divindade o que fosse, ela estaria fora do homem - um ser totalmente outro. Ora, se tais civilizações eram capazes de prestar culto a esses ídolos divinizados aos quais atribuíam o poder divinal, Paulo entendia que igual caminho poderia ser trilhado na direção de Deus. Até porque, tal revelação está disponível e foi a única evidência à existência de Deus, por muito mais tempo que outras revelações e evidências, que posteriormente vieram somar no processo de auto-revelação divina.

Assim como Paulo e bem antes dele, o salmista assistia em seu cotidiano a declaração da glória em suas obras manifestas. Ainda que sem qualquer expressão, voz ou palavra, a criação revelava ao devotado rei Davi, o Deus que a criou, sendo ela mesma mensagem suficiente para todos os povos e nações, em qualquer canto do planeta, até os confins do mundo. Em nosso artigo A Relevância de um Deus Criador (aqui mesmo no blog), fazemos alusão sobre a importância basilar que o conceito do Deus Criador tem em todo o processo que chamamos de labor teológico.

Aceitando portanto a natureza criada como evidência primeira e suficiente de revelação de Deus e de seus atributos, ou pelo menos de grande parte dele, que outras evidências poderíamos utilizar nesse árduo, porém delicioso empreendimento, no caminho do conhecimento de Deus? Voltemos ao texto bíblico, agora deixando a criação de lado.


97 Quanto amo a tua Lei! Sobre ela reflito o dia inteiro! 98 Os teus mandamentos me fizeram mais sábio que meus adversários, porquanto estão sempre comigo. 99 Tornei-me mais perspicaz que todos os meus mestres, pois meditei em tuas prescrições.100 Tenho mais discernimento que os anciãos, pois obedeço aos teus preceitos. 101 Desviei meus pés de todas as trilhas do mal para guardar a tua Palavra! 102 Não me afasto de tuas ordenanças, pois tu mesmo me ensinas. 103 Quão doces são os teus decretos ao meu paladar! Mais que o mel à minha boca. 104 Graças aos teus preceitos tenho entendimento; por isso, detesto todos os caminhos da mentira!”
Salmos 119:97-104 - KJA

Uma outra evidência bastante contundente e largamente utilizada é o próprio texto bíblico, que nos registra não só as manifestações e revelações de Deus, como o faz em pleno exercício da relação do próprio Deus com a humanidade. A Bíblia, inclusive, nos permite realizar variações de abordagem e método investigativo, ampliando a capacidade de argumentos na elaboração de todo o conteúdo teológico.

É importante ressaltar que não há muitos outros registros escritos sobre manifestações divinas, excetuando-se, como já dissemos acima, os trabalhos realizados por outras civilizações, aos quais nos voltaremos mais adiante. Mas mesmo eles, é importante que se diga, não apresentam circunstâncias muito diferentes das que encontramos no texto bíblico, em termos de possibilidade e variedade de entendimento sobre o que Deus revela de si mesmo, e de como se relaciona com a humanidade. E novamente nos vemos diante de uma coincidência providencial; que em sua grande maioria as civilizações registram um relacionamento da divindade com a humanidade, demonstrando que o labor teológico está na direção certa, ao tentar compreender o que essa relação é capaz de provocar na existência humana, se existem propósitos claros nessa relação, e se existem, quais são eles.

Concentrando-nos portanto na Bíblia, veremos mais adiante com detalhes, que ela possui um texto extremamente rico em registros de revelações e ensinamentos divinos, que podem ser extraídos concomitantes ou isolados, de um mesmo trecho ou de vários, sendo esses mesmos trechos, registros complementares entre si, e jamais contraditórios, que sustentam a quase totalidade das conclusões teológicas, lhes servindo de orientação racional, ainda que a fé lhe seja ambiente e tema recorrente.

Além dessas evidências, há alguns conteúdos multidisciplinares bastante colaborativos ao labor teológico. As pesquisas históricas, as descobertas arqueológicas e mesmo as especulações cientificas, podem servir de apoio ao elemento elucubrativo da tarefa teológica de pensar em Deus. Sempre lembrando que nenhum desses esforços precisam necessariamente esgotarem-se em si mesmos.

A teologia é por definição dinâmica, à medida que, ainda que trate do pensamento sobre o Imutável, trata do entendimento que se tem daquilo que é revelado sobre Ele. Por essa razão, talvez, identificamos tantas variações nos conceitos teológicos ao longo da história da humanidade. Não que Deus se altere ou varie existencialmente, mas exatamente porque a compreensão de sua revelação e relação com a humanidade, tanto influencia quanto sofre influência das diferentes áreas do conhecimento humano, bem como dos contextos históricos, sócio-econômicos, e até políticos em que estejam inseridos.

Assim, considerando tal dinâmica e sua capacidade de acompanhar a contemporaneidade do pensamento humano, a teologia não pode e nem deve intitular a si mesma e ao conjunto de suas conclusões, verdade absoluta de princípios insondáveis e inquestionáveis. Porque se algum efeito benéfico e direto o labor teológico precisa provocar naquele que o exerce, é a condescendência e a tolerância de quem sabe estar lidando com coisas muito mais elevadas, do que a sua pobre e fraca compreensão pode pretender maniatar em complexas definições. Nossa linguagem será sempre insuficiente para expressar a grandeza do que estudamos, ou mesmo para explicar aquilo em que cremos.

Por isso a comunicação da salvação se faz por testemunho e experiência; por isso ela se dá por conversão e não por convencimento. Mas isso já é assunto para outro artigo... 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

=> Conhecer o que cremos. Um exercício inexgotável.

         

“antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós,”
                   1 Pedro 3:15 – RA


“Não estudamos para crer; estudamos porque cremos”
                   Anselmo de Cantuária

Um dos mais espetaculares privilégios do cristianismo é a liberdade que temos de acessar, meditar e estudar a Bíblia, crida por nós como a Palavra de Deus. Negada por séculos aos cristãos comuns, sendo restritamente liberada apenas a párocos, professores ou teólogos, a leitura pessoal e individual da Bíblia foi popularizada desde o advento da Reforma Protestante, que entendeu como responsabilidade estendida a cada cristão, aprender de Deus e crescer no seu conhecimento, a partir do exercício da leitura devocional e do estudo piedoso do texto bíblico.

Pelo hábito de consultar a Bíblia, fosse em culto, fosse na leitura pessoal, por anos carregamos esse livro de capa preta embaixo do braço, motivo pelo qual éramos apontados e chamados pejorativamente de “Bíblias”. Uns envergonhavam-se, outros se orgulhavam. Mas na prática tínhamos uma identidade que trazia ao homem natural, por mais que discordasse de nossos modelos e hábitos, a idéia de que o costume de estudar a Bíblia era uma característica nossa. E como era comum sermos abordados, até por chacota, para que elucidássemos, pelo conhecimento bíblico presumido, uma questão religiosa qualquer, ou um princípio ético de difícil compreensão. - Pergunta ali pro crente. Ele deve saber.

O avanço tecnológico nos presenteou com facilidades maravilhosas. E hoje, em vez de carregarmos a Bíblia para todos os lugares, podemos carregar dentro de um só equipamento, não só uma bíblia inteira, mas quantas Bíblias quisermos. De variadas versões, edições comentadas, edições em linguagem coloquial, sistema de busca... As gincanas que fazíamos na adolescência para ver quem abria a Bíblia mais rapidamente, perderam completamente o sentido. Tudo está ao alcance das mãos, a um simples toque dos dedos. Ficou tudo muito mais fácil.

Acontece, porém, que paradoxalmente e não obstante termos à mão todos os recursos para lermos, estudarmos e nos deleitarmos na leitura bíblica, trocamos os textos e os contextos da narrativa bíblica, por consumíveis palavras de ordem, frases feitas, conceitos enxertados, que nenhum contato têm com a piedade, senão o de criar uma aparência superficial de religiosidade, mantendo a maioria de nossa gente numa devoção delirante e num conhecimento raso da vontade e do conhecimento de Deus.


6 Estou muito admirado com vocês, pois estão abandonando tão depressa aquele que os chamou por meio da graça de Cristo e estão aceitando outro evangelho. 7 Na verdade não existe outro evangelho, porém eu falo assim porque há algumas pessoas que estão perturbando vocês, querendo mudar o evangelho de Cristo. 8 Mas, se alguém, mesmo que sejamos nós ou um anjo do céu, anunciar a vocês um evangelho diferente daquele que temos anunciado, que seja amaldiçoado! 9 Pois já dissemos antes e repetimos: se alguém anunciar um evangelho diferente daquele que vocês aceitaram, que essa pessoa seja amaldiçoada! 10 Por acaso eu procuro a aprovação das pessoas? Não! O que eu quero é a aprovação de Deus. Será que agora estou querendo agradar as pessoas? Se estivesse, eu não seria servo de Cristo.”
                   Gálatas 1:6-9 - NTLH

O que buscamos com isso? Onde queremos chegar? O que temos para apresentar ao mundo sobre a esperança que há em nós? E o que é que esperamos? No que é que cremos? O mundo continua sedento por uma mensagem penetrante e transformadora. Que lhes confronte a realidade de uma vida sem a comunhão com Deus, sem a salvação em Cristo Jesus, e sem as consolações do Espírito Santo. A cruz e a ressurreição sumiram de nossa pregação, que se voltou a aproximar a mensagem de um evangelho hedonista, aos hábitos e desejos do homem natural, à imagem e semelhança de suas impiedades, capazes de envolvê-los e cativá-los.

E o que foi que nos trouxe a esse estado de superficialidade? O abandono da leitura da Bíblia e do aprofundamento no entendimento de sua doutrina. Trocamos o efeito do crescimento no conhecimento de Deus, pelas frases de efeito que atrofiam membros, mente, e que alimentam apenas o coração enganoso.


1 Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: 2 prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. 3 Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; 4 e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. 5 Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério..”
                   2 Timóteo 4:1-5 - RA

O que tememos ao pregar o evangelho da cruz e da ressurreição? Rejeição? Ora, não é da cruz e da ressurreição que somos testemunhas? Não pode nos assustar a rejeição, assim como não nos deve causar medo a discriminação, o isolamento, a perseguição e a dor por amor a Cristo e por nossa submissão a Deus. Pois fomos chamados para anunciar uma vida plena e abundante na comunhão com Deus, e não uma vida em conta gotas, que se alimenta de pequenas doses de falácias e afirmações fugazes, que não podem levar ninguém à reflexão e ao confronto com sua realidade mais íntima.

Que o Senhor que se empenhou em nos oferecer de si mesmo em sua Palavra e em Cristo, nos inspire a um profundo e inesgotável desejo pelo retorno à Bíblia, para que a carreira que nos está proposta seja enriquecida pelo aprofundamento no conhecimento do Santo.
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