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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Humanidade, propósito de Deus

   

Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.”
Gênesis 1:26-28

Eis o ponto alto da narrativa da criação do universo... A criação do homem. A seqüência dos dias parece e efetivamente converge para esse momento. Até então o cenário vinha sendo preparado e Deus via que “era bom”, ou mais apropriadamente viu Deus que estava adequado para seu intento. Após criar a humanidade, porém, Deus diz que “era muito bom”, como se numa tradução mais livre dissesse “agora sim... está perfeito!” Perfeito?

Sim, perfeito. E não apenas porque estava adequado ao propósito, mas também porque correspondeu perfeitamente ao planejado. E isso precisa ser devidamente destacado: Planejado. E esse planejamento implícito na narrativa, convida o leitor a um olhar diferente para a criação; planejamento pressupõe objetivo, finalidade... Planejamento pressupõe propósito.

Enquanto todas as demais cosmogonias contemporâneas (mitos sobre a criação do mundo) lidavam com o surgimento do planeta como um acaso, uma conseqüência a partir de lutas e guerras entre deuses, onde os elementos nada mais eram do que derivações existenciais dos derrotados, Gênesis trata o planeta como criação planejada e propositada de Deus. E mais, o Homem deixa a condição de apenas mais um espécime animal, evoluída ou derivada de uma matéria primordial, para se tornar “imagem e semelhança de Deus”, conceito completamente novo e estranho até mesmo entre os israelitas saídos do Egito.

“Dominai sobre...”, mais que o estabelecimento de uma atribuição da humanidade, define o Homem como subordinador e não como subordinado a qualquer espécie animal, fosse ela do mar, dos céus ou da terra. Isso contrariava também os cultos aos deuses pagãos, normalmente assemelhados a animais domésticos ou selvagens, que habitavam comumente as regiões de adensamento populacional da época. A criação da humanidade narrada em Gênesis, portanto, inaugura uma visão totalmente nova do ser humano e suas possibilidades sobre a terra.

Portanto, o planeta a partir daqui deixa de ser o foco de Gênesis. No processo de concentração do geral para o particular, a narrativa dá seu primeiro salto. Esse Homem será o objeto das manifestações divinas. Deus movimentará o universo em favor desse Homem. Buscará sua proximidade, sua compreensão e seu amor, sem jamais impor a esse mesmo Homem essa condição. Ele será livre até para negá-lo, mas seu Criador jamais deixará de chamar por ele.

A redenção do ser humano é, portanto, um objetivo traçado e trabalhado por Deus desde sempre. A proclamação do seu amor realizador que busca trazer o Homem do caos à ordem, é uma tarefa nossa, que já vivemos tão grande salvação. Pois o amor de Deus nos constrange.

Que o Deus criador dos céus e da terra, inspire-nos desejo ardente e constante de anunciar a salvação que há em Cristo Jesus, apontando esse Homem como objeto de tão grande amor.

Bom treino!

sábado, 17 de janeiro de 2015

A dieta prescrita por Deus


28 E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra. 29 E disse Deus ainda: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será para mantimento. 30 E a todos os animais da terra, e a todas as aves dos céus, e a todos os répteis da terra, em que há fôlego de vida, toda erva verde lhes será para mantimento. E assim se fez. 31 Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Houve tarde e manhã, o sexto dia”
                      Gênesis 1:28-31 - RA

Finalizando o primeiro capítulo de Gênesis, chegamos aos versículos em que a narrativa conclui o evento da criação. E nessa conclusão, Deus faz algumas recomendações e observações que trazem historicamente certas dificuldades à interpretes e exegetas. Principalmente ao que se refere aos versículos 29 e 30, onde a tradução literal fala sobre aquilo que ao homem estava autorizado usar para mantimento, ou seja, aquilo que poderia e deveria utilizar para se alimentar.

Em pesquisa pela internet encontrei diversos sites onde grupos ligados a ciência da nutrição, defendem que esses versículos sustentam a existência de uma dieta alimentar, que acreditam ser a dieta perfeita. Essa dieta consiste exclusivamente de vegetais naturais em suas variações de origem e possibilidades. Há defesas consistentes e tecnicamente bem sustentadas, que somadas a argumentos ideológicos convincentes, quase me fizeram optar por abandonar fraldinhas, contra-filés e picanhas. Ainda mais na minha idade, quando começamos a buscar tudo que possa ajudar a retardar o estrago que o tempo e as vicissitudes da vida cotidiana, fazem no corpo e na disposição para o dia-a-dia.

Não obstante as vantagens óbvias que uma alimentação saudável traz à vida de quem pode adotá-la, aliada a uma rotina de vida equilibrada e a hábitos que controlem o estresse da vida moderna, o texto bíblico certamente não tem tal conceito como objeto de sua exposição. Ao contrário, a idéia é apresentar diferenças profundas entre a vida contemporânea que os israelitas tinham à época em que o texto foi escrito, e à vida que anteriormente havia sido planejada para a humanidade, antes da queda pelo pecado.


1 Abençoou Deus a Noé e a seus filhos e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra. 2 Pavor e medo de vós virão sobre todos os animais da terra e sobre todas as aves dos céus; tudo o que se move sobre a terra e todos os peixes do mar nas vossas mãos serão entregues. 3 Tudo o que se move e vive ser-vos-á para alimento; como vos dei a erva verde, tudo vos dou agora. 4 Carne, porém, com sua vida, isto é, com seu sangue, não comereis. 5 Certamente, requererei o vosso sangue, o sangue da vossa vida; de todo animal o requererei, como também da mão do homem, sim, da mão do próximo de cada um requererei a vida do homem. 6 Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem. 7 Mas sede fecundos e multiplicai-vos; povoai a terra e multiplicai-vos nela.”
                      Gênesis 9:1-7 - RA

Russell Crowe - Noah, 2014
É importante perceber que os versículos de 28 a 31 do capítulo 1, se repetem em estrutura, abordagem e objetivo em Gênesis 9:1-7 como podemos observar comparativamente. Mas o mais importante nesses dois textos, é que eles se repetem em circunstâncias semelhantes; o começo e o recomeço de uma geração. O que foi dito a Adão e Eva, é repetido a Noé e sua família. Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a. Algumas versões trazem frutificai.

O que podemos extrair em primeira análise, é que ambas as dietas estão intimamente ligadas a um mandado. Para que a ordem de frutificar e se multiplicar pudesse ser cumprida, era necessário pensar na manutenção do corpo. Somente bem nutridos e com o alimento adequado, seria possível realizar a tarefa de frutificar. Ninguém pode frutificar se não for antes alimentado. E a qualidade de seus frutos dependerá da qualidade e consistência de seu alimento.

No início de tudo, quando o ser humano foi criado, apenas vegetais e frutas seriam necessários para seu sustento, de modo que a ordem de frutificar, poderia ser plenamente realizada com um alimento leve. Mas após o dilúvio, à uma família que necessitaria realizar a mesma tarefa em circunstâncias mais adversas do que Adão e Eva tinham no paraíso, Deus lhes acrescentou na dieta alimentos mais pesados e densos em suas constituições.

Há ainda uma outra questão. Se é verdade que um corpo não frutifica sem o alimento, também não é possível multiplicar sem antes frutificar. Não é sem propósito que ambos os deveres são dispostos em seqüência nos dois textos de Gênesis. “...sede fecundos e multiplicai-vos.”, foi a ordem dada por Deus. - Dêem frutos e então naturalmente multipliquem, poderíamos parafrasear, numa interpretação simples e sem esforço.

As sementes que multiplicam a vinha estão em seus frutos.
Ora, o que vemos em muitos lugares é essa seqüência sendo desrespeitada, ou desconsiderada. Há uma sôfrega busca pela multiplicação sem a devida frutificação, que por sua vez não ocorre por falta de alimento adequado e sólido, consistente, que possa conduzir o corpo a frutificar fortalecido, produzindo frutos no tempo certo.

A dieta espiritual ideal consiste em conhecermos sua palavra e aplicá-la em nosso dia-a-dia, frutificando para o testemunho da salvação, que nos transforma os corações em Cristo. A dieta espiritual eficaz permite fortalecer-nos o espírito, para então multiplicarmos sustentados de fé em fé.

Que nossas refeições sejam completas e plenas de nutrientes. De modo que qualquer fraqueza seja revertida em força e confiança em Deus.

Um forte abraço.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

=> Independência é bom? Depende...





“A minha salvação e a minha honra dependem de Deus; ele é a minha rocha poderosa e o meu abrigo.”
                      Salmos 62:7 – NTLH


“Ora, desde o ventre materno dependo de ti, das entranhas de minha mãe me separaste; dia após dia és motivo de todo o meu louvor.”
                      Salmos 71:6 - BKJ


27 Todos esses animais dependem de ti, esperando que lhes dês alimento no tempo certo. 28 Tu dás a comida, e eles comem e ficam satisfeitos. 29 Quando escondes o rosto, ficam com medo; se cortas a respiração que lhes dás, eles morrem e voltam ao pó de onde saíram. 30 Porém, quando lhes dás o sopro de vida, eles nascem; e assim dás vida nova à terra.”
                      Salmos 104:27-30 - NTLH

Dos sonhos mais recorrentes que um indivíduo alimenta ao longo de sua vida, a independência é o mais abertamente declarado e desejado na mais íntima e secreta pretensão. E essa desejada independência se estende a diversos segmentos da vida, como o financeiro, afetivo e profissional. Tanto que a dependência é vista como uma condição negativa, incômoda e de constrangedora subordinação.

Ser independente é um conceito que só de falar, já traz em sua sonoridade a idéia de liberdade. Eu não dependo de absolutamente ninguém para viver, enchem o peito com orgulho os arrogantes de ocasião, que bradam aos quatro cantos, gabando-se de uma condição verdadeira ou mesmo falaciosa, que inspire respeito a quem escuta. O independente, é por conceito primário, livre e poderoso sem peias ou cercas.

O conceito de independência esteve presente na sedução do pecado original, e habita o cotidiano dos nossos sonhos, à medida que nos esforçamos para alcançar tal condição, consciente ou mesmo inconscientemente, como inclinação e reação instintiva às provocações e solicitudes do dia-a-dia.

A independência parece em uma primeira análise, um objetivo último do desenvolvimento pessoal. Quando começamos a engatinhar ainda bebês, logo ensaiamos os primeiros passos. E ao andar já tentamos correr. E ninguém fica a nos desestimular dizendo fique sentado, ou deixa disso, você pode cair. Não. Todo o estimulo visa o desenvolvimento que leva à autonomia. E isso é muito bom, porque nos faz autônomos em nossos passos e conscientes em nossas próprias decisões, tornando-nos responsáveis diretos por tudo o que fazemos na vida. Seria o que poderíamos chamar de uma independência funcional, que nos permite agir basicamente com a liberdade necessária para funcionar, sem que terceiros precisem ser incomodados por qualquer debilidade nossa. Mas notem que a linha é tênue e por isso o exercício aqui é bastante difícil; discernir entre autonomia e independência.

Ora, diz o texto de Gênesis que Deus colocou o homem no jardim e ali ele tinha a responsabilidade de trabalhar a terra. Diz ainda, que toda tarde Deus vinha ao jardim conversar com esse homem. Ele, o homem, autônomo em sua função, pois a realizava com recursos físicos próprios e capacidade mental para orientar-se em seu cumprimento, prestava contas do dia e do que fazia. Era dependente da aprovação de Deus e dos resultados de seu trabalho. Ou seja, funcionava sozinho, mas devia submissão a Deus. Até o dia que surgiu a possibilidade de mudar o rumo de sua história.

Não seria mais necessário dar satisfação a ninguém. Saber o que pensar ou deixar de pensar seria um proveito próprio. Decidir o que, quando e como fazer, estaria agora em suas próprias mãos. Não haveria mais qualquer submissão, qualquer subordinação. Ele agora poderia tornar-se igual a Deus... E pagou pra ver.

A autonomia já não bastava ao casal. Queriam mais. Queriam além. Poder satisfazer-se em vez de dar satisfações. Não fazem assim nossos adolescentes, que se aborrecem com toda pergunta que fazemos, por qualquer cobrança que lhes dirigimos. Vai aonde? Vai com quem? Que horas você volta? Eles ficam indignados. Se pudessem sairiam correndo sem dar qualquer resposta. Uns até fazem isso mesmo. É a vontade de independer, de ser livre. De decidir sozinho e exclusivamente sobre a própria vida. De excluir pai e mãe de tudo o que pretendem como próprio e pessoal. Foi essa a intenção do primeiro homem; excluir Deus de sua vida. Viver apesar d’Ele. Ter o controle exclusivo e absoluto da vida, sem qualquer obrigação com quem quer que fosse além de si mesmo.

Acontece que ser autônomo não me obriga a independência, assim como ser dependente, não me retira a autonomia. Sou plenamente capaz de utilizar todos os recursos com que nasci e me desenvolvi, tanto para viver quanto para produzir aquilo com que sustentarei minha existência. Mas sou dependente e preferencialmente dependente de Deus, para que os recursos que estão além de mim, tanto quanto minha própria condição de vida, me sejam mantidas por sua providência e bondade. Sim porque eu posso catar o maná que cair diariamente no arraial, e essa obrigação funcional é mesmo minha, mas não posso garantir que ele caia; é Deus quem o provê.

Posso planejar o meu dia amanhã. Pode agendar tarefas, calcular tempos e deslocamentos, traçar rotas. Mas não posso garantir estar vivo pela manhã. É Deus quem me sustenta a vida. Mas se vivo estiver, preciso realizar tudo com a autonomia e a responsabilidade que recebi d’Ele. Sou autônomo porque fui feito à semelhança de Deus, com atributos funcionais e realizadores. Mas dependo d’Ele porque vim d’Ele, vivo por Ele, e porque Ele quer.

Portanto o exercício diário de dependência de Deus, está em manter minha autonomia para realizar aquilo que Deus, por bondade e graça me concede, tendo prazer na satisfação mutua, de Quem cuida e de quem é cuidado.

Bom exercício a todos!




quarta-feira, 25 de junho de 2014

=> A Relevância de um Deus Criador

Por Jânsen Leiros Jr. 

Que importância pode haver em se saber se foi mesmo Deus que criou o universo, ou se esse mesmo universo não passa de obra do acaso, de uma geração espontânea de matéria, ou de processo evolutivo autônomo? Talvez para o pragmatismo do mundo moderno, saber “o que”, “quando”, “como”, “quem” e “por que” o universo surgiu, não tenha mesmo a menor relevância, uma vez que se trata de um assunto que na concepção científica, pode ter ocorrido há milhões ou até mesmo bilhões de anos. Um acontecimento tão cronologicamente remoto não pode, numa primeira análise, ter importância alguma para os dias de hoje.

A sociedade moderna anda em busca do novo, do surpreendente, ou do que é ousado. E a menos que o assunto criação venha ao noticiário temperado com revelações surpreendentes, não haverá por ele qualquer interesse. E o que há de novo, diferente ou ousado na clássica discussão sobre a criação do universo? Mesmo nós cristãos, quando falamos da criação, somos infantis, tratando o tema como verdade absoluta e inquestionável (quase intocável), simplesmente porque está na Bíblia, sem qualquer outra forma de argumentação ou crença sustentável. Não que o fato de estar na Bíblia não seja relevante. Muito pelo contrário. Mas creio que a narrativa bíblica da criação seja ainda mais rica do que normalmente utilizamos na defesa de nossa crença. É como se alguém fosse ao teatro e após ter lido a sinopse, se retirasse sem ver a peça, sem ver o que havia por detrás das cortinas.

Mas se por um lado a sociedade moderna passa de largo pela questão da criação, de outro, perguntas como “quem somos”, “de onde viemos”, e “para onde vamos”, continuam a freqüentar a mente humana, incomodando-a, e a deixando continuamente instável, pois se é verdade que não se deve viver o presente lamentando a culpa pelo passado, ou ansiando pelo futuro, também é verdade que a vida no presente perde a referência, se eu desconheço o meu passado, ou sofro a insegurança de desconhecer meu futuro.

O que acontece na verdade, é que a sociedade moderna vive uma grave crise de convicção. Por seu caráter dinâmico, instável e evolutivo, quase que diariamente, pressupostos científicos considerados inquestionáveis são derrubados por novos pressupostos, baseados em novas descobertas promovidas pelo avanço tecnológico. Métodos produtivos e comerciais consagrados tornam-se obsoletos numa velocidade tão grande, que muitas das vezes nem mesmo chegam a ser compreendidos em todas as suas possibilidades, e já são postos de lado pela geração seguinte de profissionais. O prazo de validade dos conceitos e ideologias está tão curto, que muitas das vezes não conseguem sequer chegar às prateleiras, para consumo daqueles que anseiam por acreditar em alguma coisa que lhes faça algum sentido. Na sociedade moderna, aquilo que é verdade hoje, pode amanhecer amanhã como uma desprezível visão míope daqueles que a defendiam.

Nessa realidade conjuntural, ninguém quer se comprometer com idéia alguma, ou defender conceito algum que possa lhe caracterizar como alguém ultrapassado. E o que pode ser mais ultrapassado na sociedade moderna do que a fé num Deus Criador? Não que a crença na existência de Deus ou numa força superior seja considerada antiquada. Não. Na verdade, está cada vez mais em moda especular sobre Deus, confessar-se uma pessoa de fé, declarar-se interessado nas questões espirituais, metafísicas ou extra-sensoriais. Nunca a mídia abriu tanto espaço para a religiosidade. Em nenhum outro momento da sociedade moderna se falou tanto em sobrenatural como agora. Religiões orientais avançam poderosamente, conquistando devotos das mais variadas posições sociais e condições econômicas. O cristianismo reascendeu com o movimento carismático e a popularidade do neo-pentecostalismo. Além disso, os espiritualistas se propagam rapidamente entre os tendenciosamente gnósticos. Isso sem falarmos dos chamados esotéricos de última hora, que na falta de compromisso com uma só filosofia, crêem em quase tudo ao mesmo tempo, misturando doutrinas e superstições.

Ora, se o “sagrado”, o “espiritual” e o “metafísico” estão na moda, por que um Deus Criador é uma idéia considerada antiquada? Simplesmente porque a criação Divina foi, ao longo do tempo, banalizada pelo uso de interpretações que, em vez de tentar levar às pessoas a compreensão do “porque” e do “para quê” o universo foi criado, tentavam explicar aquilo para o qual a própria Bíblia não se apresenta como fonte: o “quando” e o “como” se deu a criação. Diante de uma postulação muitas das vezes impúbere e desprezível à luz da sociedade moderna, a humanidade correu para tentar explicar o universo através daquilo que pudesse parecer mais aceitável. Nessa busca pelo racionalmente provável e crível, descartou-se por completo a idéia de que Deus criou o universo, e se avançou a favor das teorias evolucionistas, e filosofias cosmosóficas, onde até se pode admitir a existência de Deus, mas não sua participação direta na criação. A partir daí, passamos a conhecer algumas teorias absurdamente contraditórias. Ainda que o método científico prime por postular sobre aquilo que possa ser comprovado, trabalham com hipóteses tão remotas e conjecturas tão criativas, que às vezes é preciso mais fé para crer naquilo que defendem, do que na Criação Divina.

Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo.
Colossenses 2:8; RA


Diga a essa gente que deixe de lado as lendas e as longas listas de nomes de antepassados, pois essas coisas só produzem discussões. Elas não têm nada a ver com o plano de Deus, que é conhecido somente por meio da fé. Essa ordem está sendo dada a fim de que amemos uns aos outros com um amor que vem de um coração puro, de uma consciência limpa e de uma fé verdadeira. Alguns abandonaram essas coisas e se perderam em discussões inúteis. Eles querem ser mestres da Lei de Deus, mas não entendem nem o que eles mesmos dizem, nem aquilo que falam com tanta certeza.
1 Timóteo 1:4-7; NTLH


Fiel é esta palavra, e quero que, no tocante a estas coisas, faças afirmação, confiadamente, para que os que têm crido em Deus sejam solícitos na prática de boas obras. Estas coisas são excelentes e proveitosas aos homens. Evita discussões insensatas, genealogias, contendas e debates sobre a lei; porque não têm utilidade e são fúteis.
Tito 3:8-9; RA

Há que se destacar ainda, que a teologia praticada com displicência também tem sua parcela de culpa, contribuindo, ainda que indiretamente, no afastamento do Homem da noção do Deus Criador. Não por defender o princípio incondicional de que Deus criou o universo, o que continuam defendendo heroicamente, mas pela aventura a que alguns teólogos se lançaram, ao debaterem nuances secundárias, que desviam o pensamento piedoso daquilo que na verdade importa na questão da origem do universo e da vida no planeta. Ora, que importância teológica há, em se saber se o período da criação corresponde a uma semana do nosso calendário, ou se o autor de Gênesis está fazendo alusão a um período de centenas, milhares ou milhões de anos? Que diferença faz crer na Teoria do Intervalo, ou acreditar que a criação foi um ato progressivo e cronológico? É sobre temas como esses que Paulo fala nos textos acima. Para ele, questões como estas são vãs e sem proveito para o espírito do homem. Não me surpreende, portanto, que a sociedade atual tenha se distanciado do Deus Criador. Fracassamos em apresentá-Lo ao homem moderno, quando não destacamos aquilo que realmente pode lhe servir de conforto, na sua busca frenética pela verdade que o liberte de seus questionamentos e dúvidas inconfessáveis.

Há um fator muito importante que nos deve orientar na apresentação do Deus Criador. Não é o pretenso conhecimento da verdade dos fatos que nos aproxima d’Ele, mas sim, o que Ele nos revela de seu Ser na narrativa da criação. Isso sim pode influenciar diretamente o relacionamento da criatura com seu Criador. Não é o saber teológico ou uma presunçosa erudição que opera o fortalecimento espiritual, mas o que o próprio Deus revela de Si mesmo através das Escrituras, e da interação que cada indivíduo estabelece com Ele. Assim, reconhecer que no princípio criou Deus os céus e a terra, é mais do que tomar conhecimento da autoria de uma obra. Através dela e de tudo que a envolveu e a circunstanciou, podemos conhecer a Pessoa que a realizou. Isso mesmo; a Pessoa do Criador é o objetivo final da narrativa da criação.

Aí está a grande diferença entre o movimento espiritualizante presente na sociedade, e a narrativa sempre atual da Criação. No primeiro, temos a crença num deus energia, cósmico, abstrato, ou ainda em um deus observador, distante e ausente, características concluídas do conjunto das idéias defendidas por esses modernos religiosos. Em contrapartida, nos sugere a narrativa bíblica, crer num Deus Criador é crer num Deus que pretendeu, planejou e quis criar o universo. Quis trazer você, eu, nossas famílias, todos e todas as coisas à existência por amor. Ele se importou comigo mesmo antes de eu existir. Nem você, nem eu, nem ninguém é obra do acaso. Deus se envolveu na criação, cuidou de tudo nos mínimos detalhes, realizou toda a obra de forma participativa e soberana, estabelecendo formas, métodos, princípios... Tudo o que fosse necessário para que ao final pudesse dizer: “... muito bom!”.

Tu és digno, Senhor e Deus nosso, receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas.
Apocalipse 4:11; RA

Somos o que somos e estamos onde estamos, pela vontade realizadora de Deus. Ele, muito embora pleno e tendo em si mesmo a satisfação de tudo o que envolve sua existência eterna, quis criar a humanidade para, com ela, dividir a glória de existir, de ter vida. E para isso não mediu esforços. Nem mesmo a falta de matéria para criar o universo o impediu de realizar sua vontade de trazer à existência aquilo que concebeu. Deus cria do nada aquilo que antes não existia. Não por pura exibição de poder, mas por sua determinação última em criar um ser à Sua imagem e semelhança, a quem viria dar o domínio de tudo o que criasse. O amor de Deus expresso em sua soberana vontade criadora, não conheceu barreiras que o pudesse deter. Não é de se estranhar que este mesmo Deus se concentre em buscar o homem, em resgatá-lo. Trazê-lo para perto, e estabelecer com ele intenso e sincero relacionamento, comunhão estreita, Criador e criatura, Deus e Homem... Pai e filho.

Acreditar em Deus como criador do universo é mais que um conceito teológico. É perceber que Ele se revela na criação. Não é em vão que o apóstolo Paulo afirma que “... o que se pode conhecer a respeito de Deus está bem claro para elas (pessoas que dizem não crer em Deus), pois foi o próprio Deus que lhes mostrou isso. Desde que Deus criou o mundo, as suas qualidades invisíveis, isto é, o seu poder eterno e a sua natureza divina, têm sido vistas claramente. Os seres humanos podem ver tudo isso nas coisas que Deus tem feito e, portanto, eles não têm desculpa nenhuma. Eles sabem quem Deus é...” (Romanos 1:19-21; BLH).

Podemos concluir, então, que há grande relevância em se crer que Deus é o Criador do universo. Essa crença determina a visão como cidadão do cosmos, amplia a compreensão da vida em todos os seus aspectos, e influência o grau de relacionamento com Ele. Pois quando não acreditamos no Criador, O limitamos em sua capacidade realizadora e anulamos em essência seus atributos. Fazemo-lo espectador da história, mero observador da vida, que se desenrola alheio a sua vontade e controle.

Não crer num Deus Criador, é destroná-lo, fazê-lo impotente. Um fantoche, produto do imaginário coletivo, resultado da fragilidade humana. Porque se Deus não criou o universo e tudo o que nele há a quem é que adoramos? Em quem é que cremos? Porque se Ele não criou, também não se envolveu. E se não se envolveu também não se interessou e nem se interessa pela humanidade, ou apenas o faz naquilo que O convém. Logo, nos entrega à própria sorte. Ora, um Deus assim não ama. E sem amor, como poderia se esvaziar de si mesmo para encarnar e salvar o mundo? Se Deus não é Criador, então o cristianismo é uma grande fraude, e somos todos infelizes, loucos e alienados. Se Deus não é Criador, em que se sustenta a nossa fé?

De certa forma, a Criação está para o Antigo Testamento no que se refere à sustentação do poder realizador de Deus em benefício do seu povo, como a Encarnação está para o Novo Testamento, no que diz respeito ao poder redentor de Deus e sua vontade de salvar a humanidade. Paralelamente, tanto a criação quanto a encarnação revelam um Deus pessoal, cheio de amor, agindo incondicionalmente e acima de toda e qualquer dificuldade. Primeiro para criar um ser com quem dividisse a glória de sua existência, e com Ele se relacionasse, e segundo para resgatar esse Homem e novamente restabelecer relacionamento com Ele. Ambos os fatos, cada um em seu contexto histórico, são os detentores fatuais da demonstração maior do interesse de Deus pela humanidade, do seu desejo último de ter esse Homem por perto em íntima comunhão e estreita interação.

Levantai ao alto os olhos e vede. Quem criou estas coisas? Aquele que faz sair o seu exército de estrelas, todas bem contadas, as quais ele chama pelo nome; por ser ele grande em força e forte em poder, nem uma só vem a faltar.
Isaías 40:26;RA

Assim diz Deus, o Senhor, que criou os céus e os estendeu, formou a terra e a tudo quanto produz; que dá fôlego de vida ao povo que nela está e o espírito aos que andam nela.
Isaías 42:5; RA

Assim diz o Senhor, que te redime, o mesmo que te formou desde o ventre materno: Eu sou o Senhor, que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus e sozinho espraiei a terra;
Isaías 44:24; RA

Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?
Romanos 8:31-35; RA

Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.
Filipenses 2:5-8; RA

Por esta razão, em alguns textos do Antigo Testamento, principalmente nos capítulos 40 a 57 de Isaías, a criação é citada antes da predição do que Deus pretende fazer a favor do seu povo. Da mesma forma os escritores do Novo Testamento sempre sustentaram suas afirmações sobre a misericórdia e o amor de Deus, no fato de ter Ele enviado seu filho em favor de nós. O que na verdade os autores pretendiam, era conclamar seus ouvintes e leitores a crerem que, o que virá adiante, é obra do Deus que criou e do Deus que encarnou. Estão, na verdade, chamando-os à fé. Numa palavra, à luz do que diz o autor em Hebreus 11:3, tanto crer num Deus Criador, quanto crer num Deus Redentor é uma atitude de . E , é por si só, uma atitude definitivamente relevante.


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