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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

A Congregação, o Culto e a Celebração - Primeiro Movimento

 

Por Jânsen Leiros Jr.

 

Quando chamamos de culto aquilo que Deus chama de vida

 

John Stott

" A verdadeira adoração não se limita ao que acontece no templo, mas se expressa na vida inteira vivida sob o senhorio de Cristo. Separar culto de obediência é esvaziar ambos."

A. W. Tozer

" Não podemos afirmar que adoramos a Deus se nossa vida cotidiana permanece intocada por Sua santidade. Toda adoração que não transforma o caráter é apenas ruído religioso."

Lesslie Newbigin

" A Igreja não é um ajuntamento religioso que ocasionalmente testemunha ao mundo, mas uma comunidade moldada por uma história diferente, vivendo publicamente sob o reinado de Deus."

Eugene Peterson

" A espiritualidade cristã não é um momento de intensidade religiosa, mas uma longa obediência na mesma direção, onde o ordinário da vida se torna o lugar do encontro com Deus."

 

Há algo profundamente equivocado na forma como o cristianismo contemporâneo fala sobre culto. Chamamos de culto aquilo que acontece em um dia específico da semana, em um horário determinado, dentro de um espaço previamente organizado — e, ao fazê-lo, deslocamos o centro da fé do cotidiano para o evento, da vida para o rito, da entrega para a agenda.

O resultado é previsível: vidas fragmentadas que se sentem espirituais por algumas horas, mas continuam intactas em sua lógica, valores e práticas ao longo da semana. A consciência se tranquiliza com a participação; a alma, porém, permanece inalterada. Confundimos presença com devoção, frequência com fé, e liturgia com obediência.

A Escritura, no entanto, nunca tratou o culto como um compartimento da vida. Ao contrário, ela insiste em desmontar qualquer tentativa de confinar Deus a um lugar, a uma forma ou a um momento específico. Quando o profeta Amós registra a repulsa divina por solenidades religiosas desconectadas da justiça, ele não está atacando a liturgia em si, mas denunciando uma fé que aprendeu a celebrar sem se converter (Am 5.21–24). Jesus, por sua vez, foi ainda mais incisivo ao afirmar que nem o monte, nem o templo, nem Jerusalém seriam os referenciais do verdadeiro culto, mas a vida rendida “em espírito e em verdade” (Jo 4.21–24).

Talvez o problema não esteja na maneira como realizamos nossos cultos, mas na facilidade com que chamamos de culto aquilo que jamais ousaríamos chamar de entrega total. Talvez estejamos oferecendo a Deus reuniões bem organizadas para evitar oferecer a Ele a própria vida.

Se essa suspeita for verdadeira, então não precisamos de cultos melhores. Precisamos de arrependimento — não daquele que inaugura a fé, mas daquele que a sustenta — porque a Escritura não conhece conversão que dispense transformação.

 

O Culto – A vida que não nos pertence mais

O apóstolo Paulo não escreveu Romanos 12.1 como uma metáfora devocional. Ele não estava sugerindo uma espiritualidade poética, nem oferecendo uma figura de linguagem para embelezar a fé. O que ele faz ali é redefinir radicalmente o que significa cultuar a Deus:

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.”

Paulo não aponta para um lugar, mas para um corpo.

Não indica um rito, mas uma entrega.

Não fala de momentos, mas de pertencimento.

Culto, à luz da Escritura, não é aquilo que fazemos para Deus — é aquilo que nos tornamos diante d’Ele. É a vida inteira colocada no altar, não em estado de morte, mas de disponibilidade contínua. Sacrifício vivo não é o que se oferece uma vez; é o que permanece, dia após dia, sob a soberania daquele a quem agora pertence.

Aqui reside a primeira grande ruptura com o imaginário religioso confortável: se a minha vida é culto, então ela já não me pertence mais. Meus afetos, minhas escolhas, meus impulsos, meus projetos, minha ética, minhas palavras e meus silêncios passam a ser avaliados não pela conveniência pessoal, mas pela fidelidade ao Deus que me chamou. Não há mais áreas neutras, nem compartimentos autônomos. Tudo é vivido coram Deo.

Essa compreensão desmonta a falsa segurança de quem imagina que pode oferecer a Deus uma celebração semanal e, ao mesmo tempo, administrar a própria vida segundo critérios estranhos ao Evangelho. O culto bíblico não convive com duplicidade. Ele exige coerência. Por isso Paulo continua dizendo que esse culto só é possível mediante transformação — não adaptação, não maquiagem espiritual, mas renovação da mente (Rm 12.2). Onde não há transformação progressiva, o que há é apenas religiosidade funcional.

Cultuar a Deus, portanto, é orar sem cessar não como técnica, mas como estado de consciência. É meditar na Palavra não como obrigação devocional, mas como reconfiguração do olhar sobre o mundo. É perceber, no meio do cotidiano, os desvios sutis do coração e, à luz do Espírito, reconsiderar atitudes, confessar pecados, pedir perdão e repaginar decisões. É viver em permanente estado de escuta e resposta[i].

Quando Paulo afirma que fomos comprados por preço e que já não somos de nós mesmos (1Co 6.19–20), ele não está fazendo uma afirmação abstrata sobre redenção, mas estabelecendo uma ética radical de pertencimento. A salvação não nos concede autonomia espiritual; ela nos retira dela. O culto verdadeiro nasce exatamente aí: quando deixamos de nos pertencer.

É por isso que Jesus desloca o culto do espaço sagrado para a verdade vivida. “Em espírito e em verdade” não significa subjetividade emocional, mas correspondência entre aquilo que se confessa e aquilo que se vive. Um culto que não alcança o caráter, as relações, o trato com o próximo e o uso do poder é apenas barulho religioso — ainda que acompanhado de belas canções e discursos eloquentes.

Se a minha vida não é culto, nenhuma celebração conseguirá compensar essa ausência. E se ela é, então o culto não começa quando a congregação se reúne; ele apenas se torna visível.

 

Pare aqui. Respire. Leia de novo.

Esse texto não pede concordância imediata — pede exame de consciência.

No próximo movimento, entraremos em A Congregação – o encontro dos que já vivem em culto e, depois, em A Celebração – o transbordamento comunitário da salvação.

 



terça-feira, 29 de setembro de 2015

O Filho revela o Pai. E nós, o que revelamos?


Por Jânsen Leiros Jr.


17 Voltaram depois os setenta com alegria, dizendo: Senhor, em teu nome, até os demônios se nos submetem. 18 Respondeu-lhes ele: Eu via Satanás, como raio, cair do céu. 19 Eis que vos dei autoridade para pisar serpentes e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo; e nada vos fará dano algum. 20 Contudo, não vos alegreis porque se vos submetem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus. 

21 Naquela mesma hora exultou Jesus no Espírito Santo, e disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos; sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. 22 Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 

23 E voltando-se para os discípulos, disse-lhes em particular: Bem-aventurados os olhos que vêem o que vós vedes. 24 Pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que ouvis, e não o ouviram."
Lucas 10:17-24 - JFA

Não há registro do tempo gasto pelos discípulos nessa missão. O que se pode perceber, contudo, é que houve grande sucesso, pois Jesus comenta sobre as reações enfurecidas de Satanás. Essa passagem é controversa em sua explicitação, mas de certa forma também não teria relevância teológica por definição, se não apenas considerando sua contextualização; de que a missão dos discípulos abalou as hostes do mal.

E por mais enfurecido que ele, Satanás, possa ficar, completa Jesus, nenhum dano lhes poderá causar, pois ele, Jesus, nos deu autoridade para pisarmos serpentes e escorpiões; figuras do mal e de suas representações. Sobre todo o poder do inimigo, de modo que nenhuma retaliação precisará jamais ser temida, quando de nossas investidas a pregar o evangelho do Reino.

Isso é mais do que alentador. É desafiante e revelador, pois muitos há que pensam que ao realizarem a vontade de Deus, sofrerão retaliação do mal, e temem fazer o que lhes está proposto por vocação e chamado. Não estamos falando obviamente de agirmos desafiadoramente, pois não temos espírito de contenda[1], mas em realizando a vontade do Senhor no anúncio e pregação do evangelho da salvação, não temos que temer a quem quer que seja; muito menos investidas do mal.

Notem que não estamos ainda dizendo que nos tornamos inatingíveis ou super-homens. De jeito algum, mas precisamos nos imbuir da confiança de que fazendo a vontade do nosso Senhor e Deus, nada nos acontecerá que Ele mesmo não queira. Ou não cremos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus?[2] Até porque seremos bem-aventurados se, a exemplo de nosso Senhor, formos perseguidos, e se por amor ao seu nome formos mal tratados e caluniados[3]. Em tudo e por tudo daremos graça[4].

Jesus, porém, faz uma importante advertência. Tal autoridade sobre o mal não quer dizer grande coisa. Não é o mais importante. Na verdade não é nada comparado à salvação de nossas almas, cuja garantia é o nome escrito nos céus. Essa autoridade sobre o mal não é um fim em si mesma. Antes ela é apenas um instrumento no avanço do reino de Deus. Aliás, Jesus por vezes coloca tais manifestações em segundo plano, evidenciando contudo o resgate da vida daquele em quem o milagre se deu. A salvação é maior que o milagre. A salvação é o objetivo final; a redenção. A autoridade sobre o mal e o milagre, apenas um meio.

Nos versículos 21 e 22 Jesus então exalta Deus pela inversão do entendimento da essência do seu reino de Deus, entendida e vivenciada pelos pequeninos, desprezados, e sem importância, em detrimento dos doutores e entendidos da lei, mergulhados em religiosidade vil e em nada piedosa. É a sabedoria de Deus se fazendo loucura para o mundo. Além disso, tendo eles, os doutores da lei e seus próximos, rejeitado Jesus como o Filho de Deus, rejeitaram na verdade a Deus, pois somente o Filho revela o Pai[5].

Essa foi a grande loucura à qual jamais se permitiram aquiescer os doutores da lei. Deus escolheu as coisas simples do mundo. Enquanto se esperava o nascimento do Rei Messias através da família real palaciana, ele nasceu de um ramo simples, em uma manjedoura, sendo reconhecido como rei e redentor por religiosos de outros povos,[6] e saudado por pastores[7]. O verdadeiro Messias revelou o Deus invisível a homens igualmente simples, em sua maioria pescadores, a quem o anúncio da salvação foi confiada para a glória de Deus Pai. Uma sabedoria controversa, jamais entendida ou crida por homens loucos, sufocados pela opulência de seus conhecimentos ineficazes à alma.

Quantos homens de Deus, profetas e reis, viveram na esperança de verem a salvação do nossos Deus, e não lhes foi possível, diz Jesus no verso 24. Os discípulos estavam tendo esse grande privilégio, bem como nós o temos nos dias de hoje, que cremos por fé, dom de Deus, pela qual sequer podemos nos gloriar[8]. Vivenciamos a história completa. Somos personagens dela, viventes em um reino divinal estabelecido em nossos corações[9]. Por que temer o mal, se vivemos em nós, pelo Espírito do Senhor, todo o bem?

A autoridade nos foi dada sobre todas as coisas, a exemplo do domínio dado a Adão quando da criação[10]. Não há nada o que temer, por mais assustadora que seja a circunstância, ou mais feroz e implacável que pareça o oponente. Quem apresentamos ao mundo, nós que vivemos o privilégio da graça?

Ainda há quem se pilhe de desculpas para não testemunhar a salvação de Deus; seja por medo, seja por timidez. Jesus, o Filho, revelou Deus, o Pai. E nós, a quem temos revelado? Ser discípulo e testemunha, é revelar o caráter de Cristo em nós. Para que assim como ele revelou a seu Pai, nós revelemos em nós, o salvador de nossas almas. Que o Espírito de Deus nos capacite com confiança e ousadia, para que nossas vidas reflitam a graça que nos alcançou, e possamos experimentar dia a dia, a revelação em nós, do Filho de Deus.



[1]  Romanos 13:13; Filipenses 2:3
[2]  Romanos 8:28
[3]  Mateus 5: 11-12
[4]  Efésios 5:20
[5]  Hebreus 1:1-3
[6]  Mateus 2:1-12
[7]  Lucas 2:15-20
[8]  Efésios 2:8-9
[9]  Lucas 2:25-32
[10]  Gênesis 1:27-28

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A arte da obra em nós



“Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus.”
                      Filipenses 1:6 – RA

De todas as expressões da criatividade humana e sua capacidade de realização, a mais contundente e propícia ao encanto e admiração é a arte. Desde a escrita, passando pela música, teatro e as artes plásticas, todas nascem da concepção do artista, que antevê seu objeto acabado, e o forma passo a passo para ser aquilo que concebeu, passeando pelo prazer da produção e se satisfazendo tanto com a preparação quanto com o resultado final.

Sim, o artista tem prazer na elaboração e execução de sua arte. E não pode ser diferente, pois sem prazer e satisfação não se sustenta a inspiração que o leva à produção. Ele enxerga sempre além do que os demais e se delicia em sua visão extra do que pode se transformar uma ou muitas simples folhas de papel em branco, uma tela vazia, um monte de argila, um tronco de árvore, restos de pau e pedras, ou mesmo ferros retorcidos, que a ninguém mais interessaria, senão para ser jogado fora ou se muito, vendido ao ferro-velho.

O prazer do artista se revela em seu entusiasmo. Entusiasmar-se significa estar imerso em Deus, inspirado, tomado de sua capacidade realizadora. Uma obra de arte não se executa e jamais se completa admirável e encantadora sem entusiasmo. Os museus do mundo inteiro desfilam inúmeras obras que, por eras e sobrevivendo às diferentes tendências da forma e conteúdo, causam as mais variadas reações em seus admiradores, como se tivessem acabado de ficar prontas. O entusiasmo criativo é transcendente.

Bem entendida em suas fases desde a conversão, a vida cristã se assemelha em muito a produção de uma obra de arte. Chegamos ao Reino como um material bruto, sem forma, envolto no caos de nossas existências. Aos poucos, no cotidiano de nosso relacionamento com Deus, o seu Espírito vai-nos moldando e dando a forma e a aparência que de antemão pretendeu que tivéssemos; a imagem de seu Filho.


“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.”
                      Romanos 8:29 - RA

Essa imagem de Cristo em nós é moldada por Deus dia-a-dia. Seja o material de que origem ou qualidade for. Porque a qualidade da obra está exatamente na criação do improvável, do inesperado. O artista vê o que não vemos e realiza o que sequer imaginávamos. Quantas vezes olhamos para trás na história de nossa caminhada cristã, e percebemos o quanto já mudamos em nossas atitudes e predileções, trocando até mesmo nossas reações e impulsos mais instintivos, por outros renovados em suas naturezas.


“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.”
                      2 Coríntios 5:17 - RA


 “10 a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento de Deus; 11 sendo fortalecidos com todo o poder, segundo a força da sua glória, em toda a perseverança e longanimidade; com alegria, 12 dando graças ao Pai, que vos fez idôneos à parte que vos cabe da herança dos santos na luz.”
                      Colossenses 1:10-12 - RA

Portanto somos obra de Deus. Feitura sua. Somos chamados vasos porque feitos artesanalmente como o oleiro fazia seus vasos. Temos propositada utilidade, e cada vaso Seu atende a um propósito. A beleza da obra está no quanto ela atende do propósito para o qual foi criada. Nós fomos chamados para caminharmos em novidade de vida, em uma ética renovada porque refeita por Deus em nossa natureza, e renovadora porque capaz de inspirar e contagiar o mundo.

Assim, deixemos que o Espírito do Senhor realize em nós a obra transformadora a que se pretendeu. Sejamos vasos úteis e crescentemente capacitados para cumprir o propósito de nossa salvação. A Deus toda a Glória.

Bom treino a todos!
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