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segunda-feira, 24 de março de 2025

Bereshit Bara - o eterno amor criador de Deus

Por Jânsen Leiros Jr. 

Bereshit bara Elohim

  • Hebraico: בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים
  • Grego (Septuaginta): ν ρχ ποίησεν Θες
  • Inglês: In the beginning, God created
  • Português (versão RA): No princípio, criou Deus 

Na teologia cristã, a primeira palavra do Gênesis, Bereshit (בְָרֶאִשִׁיתְ), carrega um significado profundo e essencial para a compreensão da criação. Traduzida geralmente como "No princípio", Bereshit não marca um ponto temporal específico, mas, em vez disso, indica uma intencionalidade divina: um desejo que brota do amor pleno de Deus em Sua eternidade, onde não há noção de tempo, mas um querer divino. Deus, sendo eterno, não é limitado pelo tempo. Assim, o que se revela aqui não é apenas um "início", mas uma vontade divina que se cumpre imediatamente — não por mágica ou sem processos, mas porque nada pode impedir o querer de Deus de se realizar. "Querendo Eu, quem impedirá?" (Isaías 43:13). Não há distância entre o querer e a realização, mas isso não significa ausência de tempo ou processo; ao contrário, Deus age no tempo e em conformidade com ele, mas Sua vontade transcende o tempo, porque Ele é Senhor do tempo.

Santo Tomás de Aquino define Deus como ipsum esse subsistens (o próprio Ser subsistente), enfatizando que Ele é a fonte última e razão de toda existência. A doutrina da creatio ex nihilo (criação a partir do nada) ensina que Deus não utilizou uma matéria pré-existente, mas trouxe a realidade à existência pelo poder de Sua Palavra: "Bereshit bara Elohim..." ("No princípio criou Deus...") — Gênesis 1:1.

No entanto, a questão que se coloca é: se Deus criou todas as coisas do nada, como se dá essa criação? E mais importante, qual a motivação divina para tal ato? A teologia cristã propõe que a criação é, antes de tudo, um ato de amor. Deus, sendo amor em Sua essência (1 João 4:8), cria não por necessidade, mas por um transbordamento de Sua plenitude. Nesse contexto, Bereshit não marca apenas um "início", mas revela um movimento de doação. Deus, que nada precisa, escolhe criar para compartilhar com a criatura o Seu amor.

Ao deslocarmos a compreensão para o "querer" de Deus, entendemos que a criação não está subordinada a um processo temporal ou a uma causalidade física, mas sim a uma vontade divina plena. Em Deus, não há intervalo entre o querer e sua concretização, porque Ele não está limitado pela cronologia. No entanto, isso não significa uma criação instantânea sem processos ou sem o prazer de Deus na construção do momento certo. Deus se alegra nos processos que Ele mesmo institui, respeitando as condições adequadas e o instante plenamente oportuno para Sua ação. A criação, portanto, é um ato de liberdade plena, mas também uma ação ordenada, que respeita as condições estabelecidas por Deus, sem que isso implique em limitações para Ele. A criação não é fruto do acaso, nem de uma sequência de causas físicas ou químicas. O que importa não é o "como" ou o "quando" da criação, mas o "querer" divino, que se realiza sempre no momento ideal, segundo o Seu plano perfeito.

Essa compreensão amplia a visão teológica do relato de Gênesis. O texto mosaico não tem a preocupação de descrever o mecanismo da criação, mas sim sua motivação. A criação não é apenas um evento cósmico; é um ato de amor, um gesto de doação plena do Criador. Deus não apenas chama a existência, mas chama para a comunhão. Seu amor transborda na criação como um convite para a criatura participar de Sua plenitude. Esse padrão de doação se repete ao longo da revelação bíblica: Deus se entrega na criação, na aliança com Seu povo e, finalmente, na encarnação de Cristo, que é a suprema expressão do amor divino. "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito..." (João 3:16). A criação, portanto, não é um fim em si mesma, mas o início de uma história de amor, que culmina na redenção e na comunhão eterna entre Criador e criatura.

Bara: A Criação como Ato de Doação Divina

Se Bereshit nos introduz ao princípio absoluto, Bara nos revela a essência do ato criador de Deus. Diferente do verbo hebraico que poderia ser traduzido como "fazer" ou "moldar", Bara é usado exclusivamente para Deus e significa "trazer à existência" algo que antes não existia. Isso nos leva a uma questão fundamental: de onde vem tudo o que existe?

A resposta, dentro da compreensão do amor divino, está na própria essência de Deus. Ele não apenas decide criar; Ele se doa para que a criação exista. Isso significa que não há uma matéria preexistente fora de Deus da qual o universo pudesse ser formado. O "nada" absoluto, como imaginamos, não poderia coexistir com Deus, pois Ele é o próprio ser absoluto, e nada poderia existir além d'Ele antes do ato criador. Assim, quando Deus cria, Ele não usa algo externo a Ele; Ele concede ser àquilo que antes não existia, e o faz como um ato de amor.

Essa compreensão nos afasta do panteísmo, que dilui Deus na criação, e nos aproxima de uma visão panenteísta ajustada: tudo vem de Deus, mas Deus não é tudo. A criação é uma extensão do Seu amor, não uma redução de Sua essência. Ele não se esgota ao criar; ao contrário, Ele manifesta sua plenitude ao doar-se.

Esse princípio se torna ainda mais claro quando olhamos para a progressão da criação. Deus não apenas cria seres inanimados, mas também doa autonomia às suas criaturas: "árvores com frutos, e dentro dos frutos suas sementes" (Gn 1:11), um ciclo perpétuo de vida que não prescinde da fonte, mas também não é um prolongamento absoluto dela. O mesmo ocorre com o ser humano, dotado da capacidade de gerar vida, não como um criador absoluto, mas como um participante desse amor criador.

O ato criador de Deus, então, não é um mero gesto de poder, mas um autoesvaziamento amoroso. Se a criação já carrega em si um vislumbre desse amor doador, a encarnação de Cristo será a expressão máxima desse princípio. Aquele que "trouxe à existência" o universo através de Bara também se "esvazia" para restaurá-lo (Fp 2:7).

Assim, a criação e a redenção se tornam um único ato de amor: Deus que doa ser às criaturas para que elas existam, e Deus que se doa a Si mesmo para que elas voltem a Ele. O amor não poderia ser um mandamento imposto; ele é uma resposta natural ao amor que primeiro nos criou.

Dessa forma, Bara não é apenas um verbo da criação; é a expressão da própria natureza de Deus: Aquele que, por amor, doa-se para que tudo o mais exista.

A Criação Consumada no Amor: O Propósito Final de Deus

Portante, se em Bereshit compreendemos a intencionalidade divina e em Bara entendemos a criação como um ato de doação total de Deus, então a plenitude dessa obra encontra sua expressão final na cruz, no momento em que Cristo declara: "Está consumado" (João 19:30).

Não se trata de dizer que a criação se encerrou ali no sentido cronológico, mas sim que ali se revelou sua finalidade: o amor doador de Deus encontrou sua realização suprema na entrega de Cristo. O mesmo Deus que trouxe todas as coisas à existência por um ato de amor, agora se doa plenamente para redimir sua criação, restaurando nela a relação perdida pelo pecado.

Ao longo da história bíblica, vemos um movimento progressivo no qual Deus não apenas cria, mas se envolve, sustenta e direciona sua criação para um ponto de culminância. Em Cristo, Deus não apenas "fala" com sua criação, mas entra nela, assumindo sua própria substância para resgatar aqueles que formou. Esse movimento não contradiz Bara, mas o exalta: a criação começa no amor doador de Deus e se consuma quando esse amor atinge sua expressão máxima na redenção.

A ascensão de Cristo e a descida do Espírito Santo completam esse ciclo, pois, assim como Deus deu autonomia à criação no princípio, agora Ele concede à humanidade a possibilidade de corresponder livremente ao Seu amor. O Espírito não apenas confirma a obra de Cristo, mas também faz dela uma realidade interior na vida dos que creem, conduzindo a criação não apenas ao seu começo, mas ao seu propósito final.

Dessa forma, a frase "Está consumado" ressoa em harmonia com "No princípio criou Deus". O ato de criação e o ato de redenção não são distintos em essência, mas sim manifestações do mesmo amor eterno que é a própria essência de Deus. Tudo foi criado para que o amor divino se derramasse, e tudo se consumou para que esse amor fosse plenamente recebido.

Assim, ao refletirmos sobre a criação, vemos o amor como a força motriz e fundamental que sustenta tudo. E é justamente esse amor, ao longo da história, que nos convida a uma resposta contínua, até o momento em que toda a criação se unirá novamente ao Criador.

Criação e Doação: Deus como Fonte e Matéria da Existência

O conceito de criação remete a reflexões filosóficas antigas, como o Apeiron de Anaximandro, que representa um princípio ilimitado e primordial. No entanto, ao contrário da filosofia grega, a visão bíblica revela um Criador pessoal, cuja ação é intencional e amorosa.
Atos 17:28 declara: "Porque nele vivemos, nos movemos e existimos". Isso implica que Deus não é apenas a origem de tudo, mas também Aquele que continuamente sustenta todas as coisas. Contudo, a tradição cristã rejeita o panteísmo (a ideia de que tudo é Deus). A criação é distinta do Criador, embora dependa d'Ele para continuar existindo.
Orígenes e Gregório de Nissa propuseram que a criação é uma manifestação dos atributos divinos, sem que Deus perca Sua transcendência. O Logos (João 1:1) é a ponte entre Deus e o mundo criado, a expressão divina que permite a existência e a redenção. Nesse sentido, Bereshit não indica apenas um começo temporal, mas um princípio sustentador e permanente, um ato contínuo de amor e doação.

Deus se Doando na Criação: Um Amor Kenótico

Se a criação é um ato de amor, então Deus, ao criar, está se doando. Esse princípio se encontra na base do conceito de kenosis (autoesvaziamento), que atinge seu clímax na Encarnação de Cristo (Filipenses 2:7). Deus, que nada necessita, escolhe dar-Se ao mundo, sustentá-lo e, mais tarde, entrar nele na pessoa de Jesus Cristo.
Esse amor desapegado também encontra um paralelo no conceito judeu do Tzimtzum, da tradição cabalística: Deus, para criar, "contrai" Sua presença infinita, permitindo que algo além d'Ele venha à existência. Embora essa não seja uma doutrina cristã, ela oferece um paralelo interessante para entender a kenosis divina: um Deus que, por amor, "abre espaço" para que outros seres possam existir e escolher livremente amá-Lo.

O Amor que Sustenta e Convida

Deus não apenas cria e abandona a criação; Ele a sustenta continuamente (Colossenses 1:16-17). Esse sustento não é um mero mecanismo impessoal, mas um ato de relação e compromisso. O amor divino não é coercitivo, mas convidativo. Deus doa a existência, a liberdade e a graça, chamando o ser humano a corresponder a esse amor.
A parábola do filho pródigo (Lucas 15:11-32) ilustra essa relação. O pai concede ao filho sua parte da herança, permitindo-lhe sair e experimentar as consequências de suas escolhas. No entanto, quando o filho retorna, o pai o recebe com amor incondicional. Assim é Deus: um Criador que dá a existência, respeita a liberdade de Suas criaturas, mas permanece pronto a acolhê-las de volta em comunhão.

Conclusão: O Amor como Princípio e Fim

A criação é a primeira grande expressão do amor de Deus. Bereshit revela um princípio não apenas de tempo, mas de intencionalidade amorosa. Deus não apenas criou, mas sustenta, guia e chama Sua criação ao retorno para Si.
Se a criação nasce do amor e é sustentada pelo amor, então o destino final também é o amor: a plena comunhão com Deus. Como afirma Agostinho: "Nos criaste para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti" (Confissões, I,1). Se fomos criados por amor e para o amor, só nele encontraremos nossa plenitude. Bereshit não é apenas um princípio, mas um convite eterno ao relacionamento com o Criador.

Com isso, encerramos esta primeira parte sobre a criação. Agora, podemos avançar para a compreensão dos dias da criação dentro desta mesma linha de raciocínio, aprofundando como cada momento do gênese reflete esse movimento doador e redentor de Deus.

 

 

 

 

 


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Humanidade, propósito de Deus

   

Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.”
Gênesis 1:26-28

Eis o ponto alto da narrativa da criação do universo... A criação do homem. A seqüência dos dias parece e efetivamente converge para esse momento. Até então o cenário vinha sendo preparado e Deus via que “era bom”, ou mais apropriadamente viu Deus que estava adequado para seu intento. Após criar a humanidade, porém, Deus diz que “era muito bom”, como se numa tradução mais livre dissesse “agora sim... está perfeito!” Perfeito?

Sim, perfeito. E não apenas porque estava adequado ao propósito, mas também porque correspondeu perfeitamente ao planejado. E isso precisa ser devidamente destacado: Planejado. E esse planejamento implícito na narrativa, convida o leitor a um olhar diferente para a criação; planejamento pressupõe objetivo, finalidade... Planejamento pressupõe propósito.

Enquanto todas as demais cosmogonias contemporâneas (mitos sobre a criação do mundo) lidavam com o surgimento do planeta como um acaso, uma conseqüência a partir de lutas e guerras entre deuses, onde os elementos nada mais eram do que derivações existenciais dos derrotados, Gênesis trata o planeta como criação planejada e propositada de Deus. E mais, o Homem deixa a condição de apenas mais um espécime animal, evoluída ou derivada de uma matéria primordial, para se tornar “imagem e semelhança de Deus”, conceito completamente novo e estranho até mesmo entre os israelitas saídos do Egito.

“Dominai sobre...”, mais que o estabelecimento de uma atribuição da humanidade, define o Homem como subordinador e não como subordinado a qualquer espécie animal, fosse ela do mar, dos céus ou da terra. Isso contrariava também os cultos aos deuses pagãos, normalmente assemelhados a animais domésticos ou selvagens, que habitavam comumente as regiões de adensamento populacional da época. A criação da humanidade narrada em Gênesis, portanto, inaugura uma visão totalmente nova do ser humano e suas possibilidades sobre a terra.

Portanto, o planeta a partir daqui deixa de ser o foco de Gênesis. No processo de concentração do geral para o particular, a narrativa dá seu primeiro salto. Esse Homem será o objeto das manifestações divinas. Deus movimentará o universo em favor desse Homem. Buscará sua proximidade, sua compreensão e seu amor, sem jamais impor a esse mesmo Homem essa condição. Ele será livre até para negá-lo, mas seu Criador jamais deixará de chamar por ele.

A redenção do ser humano é, portanto, um objetivo traçado e trabalhado por Deus desde sempre. A proclamação do seu amor realizador que busca trazer o Homem do caos à ordem, é uma tarefa nossa, que já vivemos tão grande salvação. Pois o amor de Deus nos constrange.

Que o Deus criador dos céus e da terra, inspire-nos desejo ardente e constante de anunciar a salvação que há em Cristo Jesus, apontando esse Homem como objeto de tão grande amor.

Bom treino!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

=> A Relevância de um Deus Criador

Por Jânsen Leiros Jr. 

Que importância pode haver em se saber se foi mesmo Deus que criou o universo, ou se esse mesmo universo não passa de obra do acaso, de uma geração espontânea de matéria, ou de processo evolutivo autônomo? Talvez para o pragmatismo do mundo moderno, saber “o que”, “quando”, “como”, “quem” e “por que” o universo surgiu, não tenha mesmo a menor relevância, uma vez que se trata de um assunto que na concepção científica, pode ter ocorrido há milhões ou até mesmo bilhões de anos. Um acontecimento tão cronologicamente remoto não pode, numa primeira análise, ter importância alguma para os dias de hoje.

A sociedade moderna anda em busca do novo, do surpreendente, ou do que é ousado. E a menos que o assunto criação venha ao noticiário temperado com revelações surpreendentes, não haverá por ele qualquer interesse. E o que há de novo, diferente ou ousado na clássica discussão sobre a criação do universo? Mesmo nós cristãos, quando falamos da criação, somos infantis, tratando o tema como verdade absoluta e inquestionável (quase intocável), simplesmente porque está na Bíblia, sem qualquer outra forma de argumentação ou crença sustentável. Não que o fato de estar na Bíblia não seja relevante. Muito pelo contrário. Mas creio que a narrativa bíblica da criação seja ainda mais rica do que normalmente utilizamos na defesa de nossa crença. É como se alguém fosse ao teatro e após ter lido a sinopse, se retirasse sem ver a peça, sem ver o que havia por detrás das cortinas.

Mas se por um lado a sociedade moderna passa de largo pela questão da criação, de outro, perguntas como “quem somos”, “de onde viemos”, e “para onde vamos”, continuam a freqüentar a mente humana, incomodando-a, e a deixando continuamente instável, pois se é verdade que não se deve viver o presente lamentando a culpa pelo passado, ou ansiando pelo futuro, também é verdade que a vida no presente perde a referência, se eu desconheço o meu passado, ou sofro a insegurança de desconhecer meu futuro.

O que acontece na verdade, é que a sociedade moderna vive uma grave crise de convicção. Por seu caráter dinâmico, instável e evolutivo, quase que diariamente, pressupostos científicos considerados inquestionáveis são derrubados por novos pressupostos, baseados em novas descobertas promovidas pelo avanço tecnológico. Métodos produtivos e comerciais consagrados tornam-se obsoletos numa velocidade tão grande, que muitas das vezes nem mesmo chegam a ser compreendidos em todas as suas possibilidades, e já são postos de lado pela geração seguinte de profissionais. O prazo de validade dos conceitos e ideologias está tão curto, que muitas das vezes não conseguem sequer chegar às prateleiras, para consumo daqueles que anseiam por acreditar em alguma coisa que lhes faça algum sentido. Na sociedade moderna, aquilo que é verdade hoje, pode amanhecer amanhã como uma desprezível visão míope daqueles que a defendiam.

Nessa realidade conjuntural, ninguém quer se comprometer com idéia alguma, ou defender conceito algum que possa lhe caracterizar como alguém ultrapassado. E o que pode ser mais ultrapassado na sociedade moderna do que a fé num Deus Criador? Não que a crença na existência de Deus ou numa força superior seja considerada antiquada. Não. Na verdade, está cada vez mais em moda especular sobre Deus, confessar-se uma pessoa de fé, declarar-se interessado nas questões espirituais, metafísicas ou extra-sensoriais. Nunca a mídia abriu tanto espaço para a religiosidade. Em nenhum outro momento da sociedade moderna se falou tanto em sobrenatural como agora. Religiões orientais avançam poderosamente, conquistando devotos das mais variadas posições sociais e condições econômicas. O cristianismo reascendeu com o movimento carismático e a popularidade do neo-pentecostalismo. Além disso, os espiritualistas se propagam rapidamente entre os tendenciosamente gnósticos. Isso sem falarmos dos chamados esotéricos de última hora, que na falta de compromisso com uma só filosofia, crêem em quase tudo ao mesmo tempo, misturando doutrinas e superstições.

Ora, se o “sagrado”, o “espiritual” e o “metafísico” estão na moda, por que um Deus Criador é uma idéia considerada antiquada? Simplesmente porque a criação Divina foi, ao longo do tempo, banalizada pelo uso de interpretações que, em vez de tentar levar às pessoas a compreensão do “porque” e do “para quê” o universo foi criado, tentavam explicar aquilo para o qual a própria Bíblia não se apresenta como fonte: o “quando” e o “como” se deu a criação. Diante de uma postulação muitas das vezes impúbere e desprezível à luz da sociedade moderna, a humanidade correu para tentar explicar o universo através daquilo que pudesse parecer mais aceitável. Nessa busca pelo racionalmente provável e crível, descartou-se por completo a idéia de que Deus criou o universo, e se avançou a favor das teorias evolucionistas, e filosofias cosmosóficas, onde até se pode admitir a existência de Deus, mas não sua participação direta na criação. A partir daí, passamos a conhecer algumas teorias absurdamente contraditórias. Ainda que o método científico prime por postular sobre aquilo que possa ser comprovado, trabalham com hipóteses tão remotas e conjecturas tão criativas, que às vezes é preciso mais fé para crer naquilo que defendem, do que na Criação Divina.

Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo.
Colossenses 2:8; RA


Diga a essa gente que deixe de lado as lendas e as longas listas de nomes de antepassados, pois essas coisas só produzem discussões. Elas não têm nada a ver com o plano de Deus, que é conhecido somente por meio da fé. Essa ordem está sendo dada a fim de que amemos uns aos outros com um amor que vem de um coração puro, de uma consciência limpa e de uma fé verdadeira. Alguns abandonaram essas coisas e se perderam em discussões inúteis. Eles querem ser mestres da Lei de Deus, mas não entendem nem o que eles mesmos dizem, nem aquilo que falam com tanta certeza.
1 Timóteo 1:4-7; NTLH


Fiel é esta palavra, e quero que, no tocante a estas coisas, faças afirmação, confiadamente, para que os que têm crido em Deus sejam solícitos na prática de boas obras. Estas coisas são excelentes e proveitosas aos homens. Evita discussões insensatas, genealogias, contendas e debates sobre a lei; porque não têm utilidade e são fúteis.
Tito 3:8-9; RA

Há que se destacar ainda, que a teologia praticada com displicência também tem sua parcela de culpa, contribuindo, ainda que indiretamente, no afastamento do Homem da noção do Deus Criador. Não por defender o princípio incondicional de que Deus criou o universo, o que continuam defendendo heroicamente, mas pela aventura a que alguns teólogos se lançaram, ao debaterem nuances secundárias, que desviam o pensamento piedoso daquilo que na verdade importa na questão da origem do universo e da vida no planeta. Ora, que importância teológica há, em se saber se o período da criação corresponde a uma semana do nosso calendário, ou se o autor de Gênesis está fazendo alusão a um período de centenas, milhares ou milhões de anos? Que diferença faz crer na Teoria do Intervalo, ou acreditar que a criação foi um ato progressivo e cronológico? É sobre temas como esses que Paulo fala nos textos acima. Para ele, questões como estas são vãs e sem proveito para o espírito do homem. Não me surpreende, portanto, que a sociedade atual tenha se distanciado do Deus Criador. Fracassamos em apresentá-Lo ao homem moderno, quando não destacamos aquilo que realmente pode lhe servir de conforto, na sua busca frenética pela verdade que o liberte de seus questionamentos e dúvidas inconfessáveis.

Há um fator muito importante que nos deve orientar na apresentação do Deus Criador. Não é o pretenso conhecimento da verdade dos fatos que nos aproxima d’Ele, mas sim, o que Ele nos revela de seu Ser na narrativa da criação. Isso sim pode influenciar diretamente o relacionamento da criatura com seu Criador. Não é o saber teológico ou uma presunçosa erudição que opera o fortalecimento espiritual, mas o que o próprio Deus revela de Si mesmo através das Escrituras, e da interação que cada indivíduo estabelece com Ele. Assim, reconhecer que no princípio criou Deus os céus e a terra, é mais do que tomar conhecimento da autoria de uma obra. Através dela e de tudo que a envolveu e a circunstanciou, podemos conhecer a Pessoa que a realizou. Isso mesmo; a Pessoa do Criador é o objetivo final da narrativa da criação.

Aí está a grande diferença entre o movimento espiritualizante presente na sociedade, e a narrativa sempre atual da Criação. No primeiro, temos a crença num deus energia, cósmico, abstrato, ou ainda em um deus observador, distante e ausente, características concluídas do conjunto das idéias defendidas por esses modernos religiosos. Em contrapartida, nos sugere a narrativa bíblica, crer num Deus Criador é crer num Deus que pretendeu, planejou e quis criar o universo. Quis trazer você, eu, nossas famílias, todos e todas as coisas à existência por amor. Ele se importou comigo mesmo antes de eu existir. Nem você, nem eu, nem ninguém é obra do acaso. Deus se envolveu na criação, cuidou de tudo nos mínimos detalhes, realizou toda a obra de forma participativa e soberana, estabelecendo formas, métodos, princípios... Tudo o que fosse necessário para que ao final pudesse dizer: “... muito bom!”.

Tu és digno, Senhor e Deus nosso, receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas.
Apocalipse 4:11; RA

Somos o que somos e estamos onde estamos, pela vontade realizadora de Deus. Ele, muito embora pleno e tendo em si mesmo a satisfação de tudo o que envolve sua existência eterna, quis criar a humanidade para, com ela, dividir a glória de existir, de ter vida. E para isso não mediu esforços. Nem mesmo a falta de matéria para criar o universo o impediu de realizar sua vontade de trazer à existência aquilo que concebeu. Deus cria do nada aquilo que antes não existia. Não por pura exibição de poder, mas por sua determinação última em criar um ser à Sua imagem e semelhança, a quem viria dar o domínio de tudo o que criasse. O amor de Deus expresso em sua soberana vontade criadora, não conheceu barreiras que o pudesse deter. Não é de se estranhar que este mesmo Deus se concentre em buscar o homem, em resgatá-lo. Trazê-lo para perto, e estabelecer com ele intenso e sincero relacionamento, comunhão estreita, Criador e criatura, Deus e Homem... Pai e filho.

Acreditar em Deus como criador do universo é mais que um conceito teológico. É perceber que Ele se revela na criação. Não é em vão que o apóstolo Paulo afirma que “... o que se pode conhecer a respeito de Deus está bem claro para elas (pessoas que dizem não crer em Deus), pois foi o próprio Deus que lhes mostrou isso. Desde que Deus criou o mundo, as suas qualidades invisíveis, isto é, o seu poder eterno e a sua natureza divina, têm sido vistas claramente. Os seres humanos podem ver tudo isso nas coisas que Deus tem feito e, portanto, eles não têm desculpa nenhuma. Eles sabem quem Deus é...” (Romanos 1:19-21; BLH).

Podemos concluir, então, que há grande relevância em se crer que Deus é o Criador do universo. Essa crença determina a visão como cidadão do cosmos, amplia a compreensão da vida em todos os seus aspectos, e influência o grau de relacionamento com Ele. Pois quando não acreditamos no Criador, O limitamos em sua capacidade realizadora e anulamos em essência seus atributos. Fazemo-lo espectador da história, mero observador da vida, que se desenrola alheio a sua vontade e controle.

Não crer num Deus Criador, é destroná-lo, fazê-lo impotente. Um fantoche, produto do imaginário coletivo, resultado da fragilidade humana. Porque se Deus não criou o universo e tudo o que nele há a quem é que adoramos? Em quem é que cremos? Porque se Ele não criou, também não se envolveu. E se não se envolveu também não se interessou e nem se interessa pela humanidade, ou apenas o faz naquilo que O convém. Logo, nos entrega à própria sorte. Ora, um Deus assim não ama. E sem amor, como poderia se esvaziar de si mesmo para encarnar e salvar o mundo? Se Deus não é Criador, então o cristianismo é uma grande fraude, e somos todos infelizes, loucos e alienados. Se Deus não é Criador, em que se sustenta a nossa fé?

De certa forma, a Criação está para o Antigo Testamento no que se refere à sustentação do poder realizador de Deus em benefício do seu povo, como a Encarnação está para o Novo Testamento, no que diz respeito ao poder redentor de Deus e sua vontade de salvar a humanidade. Paralelamente, tanto a criação quanto a encarnação revelam um Deus pessoal, cheio de amor, agindo incondicionalmente e acima de toda e qualquer dificuldade. Primeiro para criar um ser com quem dividisse a glória de sua existência, e com Ele se relacionasse, e segundo para resgatar esse Homem e novamente restabelecer relacionamento com Ele. Ambos os fatos, cada um em seu contexto histórico, são os detentores fatuais da demonstração maior do interesse de Deus pela humanidade, do seu desejo último de ter esse Homem por perto em íntima comunhão e estreita interação.

Levantai ao alto os olhos e vede. Quem criou estas coisas? Aquele que faz sair o seu exército de estrelas, todas bem contadas, as quais ele chama pelo nome; por ser ele grande em força e forte em poder, nem uma só vem a faltar.
Isaías 40:26;RA

Assim diz Deus, o Senhor, que criou os céus e os estendeu, formou a terra e a tudo quanto produz; que dá fôlego de vida ao povo que nela está e o espírito aos que andam nela.
Isaías 42:5; RA

Assim diz o Senhor, que te redime, o mesmo que te formou desde o ventre materno: Eu sou o Senhor, que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus e sozinho espraiei a terra;
Isaías 44:24; RA

Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?
Romanos 8:31-35; RA

Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.
Filipenses 2:5-8; RA

Por esta razão, em alguns textos do Antigo Testamento, principalmente nos capítulos 40 a 57 de Isaías, a criação é citada antes da predição do que Deus pretende fazer a favor do seu povo. Da mesma forma os escritores do Novo Testamento sempre sustentaram suas afirmações sobre a misericórdia e o amor de Deus, no fato de ter Ele enviado seu filho em favor de nós. O que na verdade os autores pretendiam, era conclamar seus ouvintes e leitores a crerem que, o que virá adiante, é obra do Deus que criou e do Deus que encarnou. Estão, na verdade, chamando-os à fé. Numa palavra, à luz do que diz o autor em Hebreus 11:3, tanto crer num Deus Criador, quanto crer num Deus Redentor é uma atitude de . E , é por si só, uma atitude definitivamente relevante.


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