Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 22 de abril de 2025

O Cordeiro no Trono - A Surpreendente Vitória do Amor


Por Jânsen Leiros Jr.

 

A ressurreição é mais do que uma demonstração mágica de poder. É a manifestação da vitória da vida sobre a morte — o caminho trilhado pelo Cordeiro rumo ao trono.

Karl Barth

"A majestade de Deus se revela na humilhação de Jesus Cristo; seu trono não está acima do sofrimento humano, mas bem no centro dele."

Jürgen Moltmann

"A ressurreição de Cristo é a resposta de Deus à crucificação; o trono do Cordeiro é o lugar onde a esperança ressurge do coração da dor."

Tomás de Aquino

"O Cristo que reina é o mesmo que se entregou; não há glória sem a cruz, pois nela se manifesta o amor que salva."

Dietrich Bonhoeffer

"A ressurreição de Cristo não é o cancelamento da cruz, mas sua confirmação. O Crucificado é o Ressurreto, e é assim que Ele reina — não escapando da dor, mas triunfando através dela."

N. T. Wright

"A ressurreição é o momento em que a nova criação irrompe dentro da velha; é o trono erguido no coração da tragédia, onde o Cordeiro reina não apesar da morte, mas por ter passado por ela."

Karl Barth

"A ressurreição não é a glorificação de um herói caído, mas a proclamação de que o Cordeiro morto está vivo — e, exatamente por isso, é digno de abrir o livro e governar o mundo."

No calendário cristão, o Domingo da Ressurreição é o clímax da esperança. Após a dor da cruz e o silêncio do sepulcro, o anúncio da vida rompe o véu da desesperança e inaugura uma nova realidade. No entanto, o que poucos percebem é que a ressurreição não é apenas o ponto final de um drama — é o ponto de partida de uma entronização. O túmulo vazio não é só sinal de milagre; é selo de autoridade.

Ao ressuscitar, Jesus não apenas vence a morte — Ele inaugura um novo tipo de reinado. Não é entronizado com pompas humanas, mas como o Cordeiro, ferido e vitorioso. No centro da revelação apocalíptica, João nos conduz além do jardim vazio e da pedra removida. Ele nos transporta ao trono de Deus, onde a verdadeira cena pascal se desenrola com toda sua beleza paradoxal.

A TEOLOGIA DO CORDEIRO: FORÇA NA FRAGILIDADE

Entre os ecos celestes e os mistérios que envolvem o trono eterno, há uma cena que desafia toda lógica humana: um Cordeiro. Mas não qualquer cordeiro — um Cordeiro que parecia ter sido morto. Não um leão rugindo em glória, não um rei revestido de guerra, mas um Cordeiro — frágil na aparência, mas absoluto em autoridade.

Apocalipse 5:6 descreve: “E olhei, e eis que estava no meio do trono... um Cordeiro como havendo sido morto.” O contraste é proposital. João ouve a proclamação do Leão de Judá, mas quando olha, vê um Cordeiro. Essa inversão revela o coração da teologia cristã: a verdadeira realeza de Cristo não está em sua força militar, mas em sua entrega sacrificial. O poder que conquista não é o da espada, mas o da cruz. A autoridade que prevalece não é a que domina, mas a que se entrega.

UM REINADO QUE DESAFIA O ESPÍRITO DO MUNDO

Essa cena confronta diretamente o espírito triunfalista que permeia muitos púlpitos modernos, nos quais Cristo é apresentado quase como um coach espiritual, um general bélico ou um empresário celestial pronto a empoderar seus seguidores para o sucesso terreno. Mas o trono que João vê não é ocupado por um conquistador ufanista — é ocupado por um Cordeiro imolado.

A lógica do Reino de Deus subverte a lógica do mundo. Em vez de glória visível, há feridas visíveis. Em vez de louros terrenos, há marcas de cravos. Jesus não é coroado apesar da cruz, mas por causa dela. Filipenses 2:8–9 expressa isso com clareza: “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso Deus também o exaltou soberanamente...”

A vitória da ressurreição, portanto, não é uma negação do sofrimento, mas sua redenção. E isso é escandaloso para uma fé que insiste em suprimir o sofrimento em nome de uma espiritualidade triunfante.

A ADORAÇÃO CÓSMICA AO CORDEIRO

A resposta do céu a essa entronização é a adoração. Toda a criação — anjos, anciãos, seres viventes e vozes incontáveis — se prostram diante do Cordeiro. Apocalipse 5:12 registra: “Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor.” A centralidade de Cristo é absoluta. Não há outro digno. Nem sistema religioso, nem profeta, nem nação, nem ideologia. O trono pertence ao Cordeiro, e só a Ele.

É importante destacar: Cristo não reina apesar de ter sido morto — Ele reina como aquele que foi morto. A sua morte é o ato fundador do seu Reino. A cruz não foi um contratempo no plano — foi o plano.

A ESPIRITUALIDADE DA ENTREGA: UM CHAMADO AO SEGUIDOR

Esse retrato do Cristo glorificado deve ser um espelho para os discípulos. A igreja é chamada a seguir o Cordeiro por onde quer que vá (Ap 14:4), o que significa viver segundo a mesma lógica da entrega, da humildade, do serviço e da confiança na justiça de Deus — ainda que essa justiça demore a se revelar plenamente.

Isso desafia a teologia de vitrine, que vende “milagres” como se fossem produtos e a fé como moeda de troca. O Cristo do Apocalipse não se parece com esses ídolos. Ele reina não para nos mimar, mas para nos formar. Não para nos dar o mundo, mas para nos ensinar a carregar a cruz até a glória.

CONCLUSÃO: UM REINO DE ESPERANÇA CONTRA TODA ESPERANÇA

O Cordeiro no trono é o anúncio de que a última palavra não pertence ao império, ao pecado ou à morte. Ela pertence àquele que venceu, não por esmagar, mas por se deixar moer (Isaías 53:5–7).

A ressurreição é o selo dessa vitória silenciosa, escandalosa, divina. Em um tempo de adorações distraídas, fé superficial e espiritualidade de palco, o chamado é para nos rendermos novamente — ou talvez pela primeira vez — ao Cordeiro.

Porque Ele vive, o trono está ocupado. E porque o trono está ocupado, há esperança.

 

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Vai faltar bandeira



Por Jânsen Leiros Jr.


5 Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo, 6 não servindo somente à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus, 7 servindo de boa vontade como ao Senhor, e não como aos homens. 8 Sabendo que cada um, seja escravo, seja livre, receberá do Senhor todo bem que fizer.
Efésios 6:5-8 - JFA


22 Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo somente à vista como para agradar aos homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor. 23 E tudo quanto fizerdes, fazei-o de coração, como ao Senhor, e não aos homens, 24 sabendo que do Senhor recebereis como recompensa a herança; servi a Cristo, o Senhor. 25 Pois quem faz injustiça receberá a paga da injustiça que fez; e não há acepção de pessoas.
Colossenses 3:22-25 - JFA


9 Mas evita questões tolas, genealogias, contendas e debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs. 10 Ao homem faccioso, depois da primeira e segunda admoestação, evita-o, 11 sabendo que esse tal está pervertido, e vive pecando, e já por si mesmo está condenado.
Tito 3:9-11 - JFA


13 Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom procedimento as suas obras em mansidão de sabedoria. 14 Mas, se tendes amargo ciúme e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. 15 Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica. 16 Porque onde há ciúme e sentimento faccioso, aí há confusão e toda obra má. 17 Mas a sabedoria que vem do alto é, primeiramente, pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia. 18 Ora, o fruto da justiça semeia-se em paz para aqueles que promovem a paz..
Tiago 3:13-18 - JFA

As redes sociais continuam cumprindo um papel importantíssimo na sociedade, principalmente o de lançar na nossa cara a realidade de que continuamos lutando pelo que menos importa, fazendo de coisas menores e sem importância, bandeiras que hasteamos em nome de predileções pessoais, como se estivessem eivadas do que é certo, em contraste de bandeiras outras, defendidas por outros, que reputamos arrogantemente como erradas, ou na melhor das hipóteses impróprias. Um comportamento faccioso de origem; um outro lado de uma mesma moeda.

Falo da disputa insana e descabida de qual dos fatos deve obter maior consternação e solidariedade na mídia; o desastre de Mariana-MG, ou os atentados terroristas de Paris. Em uma corrida frenética e desmedida, diversas pessoas através de suas páginas nas redes sociais, disputaram a preferência de seus amigos e seguidores, crendo que a tragédia que defendiam, merecia chocar mais, condoer mais, trazer maior e mais amargo sofrimento que o outro, desfilando um corolário de motivos relacionados às pressas, mas sustentados em pura opção pessoal e simpatia.

Sim, por simpatia reafirmo. Porque qualquer pessoa minimamente isenta, percebe que tanto um fato quanto o outro, merece toda a atenção, preocupação, e reflexão de nossa parte. Por circunstâncias e razões diferentes, é verdade, mas impulsionadas por um mesmo motor; a temerária intervenção humana na causa, na execução e no desfecho de ambos.

Se por um lado o descaso, a falha de monitoramento ou de operação, provocou o desastre em Mariana-MG, por outro a intolerância religiosa de extremistas radicais, provocou uma das mais sanguinárias matanças urbanas dos últimos anos. Ora, tanto um fato quanto o outro originou-se da atitude humana, um pelo espírito sabotador, e o outro pelo espírito faccioso. Nos aprofundaremos nesses dois aspectos nas reflexões seguintes.

Temos diante de nós dois grandes dramas, cujas causas precisam ser efetivamente combatidas, e suas consequências dirimidas para o bem do futuro do planeta e das futuras gerações. Sim, porque do contrário, viveremos sobressaltados e inseguros, com medo das circunstâncias mais simples, e de momentos o mais improváveis para uma terrível e amarga experiência de risco de morte. Ou quem poderia imaginar que um rio de lama invadiria casas, ruas e cidades inteiras, matando pessoas, fauna e boa parte da flora das regiões por onde passou? E quem poderia imaginar que a consagrada noite parisiense, pudesse reservar momentos de pânico, terror e morte? Sempre nos chocamos diante do improvável, e nos indignamos perante o inaceitável. Ainda bem que é assim.

Ora, se toda vez que um drama se abater sobre uma região, cidade ou país, disputarmos qual delas necessita de maior visibilidade, solidariedade e consternação, estaremos nos concentrando no que menos importa; qual deles tem maior importância? Desse jeito faltará espaço para tantas bandeiras nas fotos de perfil. É preciso dar atenção ao socorro, à reconstrução da normalidade, e principalmente ao que possa impedir, em futuro próximo, que fatos como esses voltem a se repetir.


Mariana ou Paris, tanto faz. Nem uma nem outra, ou na verdade as duas. Tanto uma tragédia quanto a outra precisa receber de nós toda a atenção, empenho e solidariedade. As soluções variam, os planejadores divergem, mas em comum precisa existir a verdadeira e permanente vontade de ajudar além do que é possível, contribuindo no espaço de mundo à volta de cada um de nós, com atitudes que inspirem mudança de comportamento, tanto do sabotador, quanto do faccioso. Para que nem o descaso e nem o radicalismo sigam história a fora, fazendo vítimas e causando tristeza sobre tristeza, naqueles que com tantas dificuldades tentam encaminhar suas vidas cotidianas; as pessoas comuns.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Um choro além das lágrimas





“Bem-Aventurados os que choram, porque eles serão consolados."
     Mateus 5:4 - KJA


“Bem-Aventurados os lamuriantes, porque eles serão consolados."
     Mateus 5:4 - NT Inerlinear

Há uma relevante ligação entre a primeira e a segunda bem-aventurança, revelando uma decorrência da segunda em virtude da primeira. Ou seja, os que choram, choram porque se reconhecem pobres. Por não terem espíritos altivos, são sensíveis ao convencimento do Espírito Santo. Ao reconhecerem suas condições de carência diante de Deus, suas fragilidades e inevitável perenidade, lamentam e pranteiam suas realidades, produzindo um choro que vai além de suas próprias lágrimas.
                                                                                                 
No texto de Mateus, aparece a palavra penteō, que significa pranto, lamento ou tristeza. Sentimentos que estremecem a alma, nos abatendo e perturbando a auto-confiança. O choro, o derramar de lágrimas apenas, em si mesmo nada é. Somos capazes de chorar de tanto rir, por uma alegria imprevista, ou até mesmo por uma cena romântica. Portanto, ao dizer que os que lamentam ou pranteiam serão consolados, Jesus está se referindo àqueles cujo derramar de lágrimas vem das profundezas de almas lamuriantes, sinceramente tristes e emocionalmente abaladas.

Ora, qualquer ser humano pode passar por uma tristeza muito forte, e ficar por conta disso profundamente abalado. Se alguém ainda não passou, passará com certeza. Seja por um amor não correspondido, pela reprovação em um concurso, ou mesmo pela perda de um ente querido, todos um dia sentimos uma dor mais aguda, uma dor mais doida, que atravessa o peito, sangrando o coração com lágrimas sentidas. Sofremos perdas; e por elas almas sofridas se doem e choram.


35 Jesus chorou. 36 Disseram então os judeus: Vede como o amava."
     João 11:35-36 - JFA

Mas não obstante a legitimidade dessas lágrimas, por mais que elas surjam de corações doidos e sinceros, seria por motivações como essas que Jesus diz serem bem-aventurados os que choram? Seriam essas lágrimas, um sinal de que haverá consolo no Reino dos céus. Tais lamentos são capazes de transformar as pessoas, salvando-as de si mesmas? Sim, porque por mais doidas que sejam suas motivações, nenhuma delas podem produzir reconhecimento da pobreza espiritual; se muito, a constatação de nossa pequenez e finitude diante de Deus e de sua bondade.

Creio que Jesus está falando de um lamento que receberá consolo definitivo apenas no porvir. De um conforto que se concretizará, não no aqui e agora, mas no ali e além de nossas vidas no Reino dos céus. Um consolo eterno para toda e qualquer lágrima doída de tristeza, lamento e pranto, causados pela pobreza espiritual e pelo estado de afastamento de Deus, do qual toda a humanidade padece. Portanto, nosso choro não se extingue nessa vida. É ele um lamento que perdurará latente, enquanto o coração dos que estão em marcha pulsarem no peito experimentado em dores. É um pranto que mesmo sem lágrimas, ecoará dentro da alma piedosa e contrita diante de Deus, enquanto caminharmos como peregrinos em terra estranha.


“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não o quiseste!"
     Mateus 23:37 - JFA

Um paralelo com o choro dos que sofrem por suas condições sócio-econômicas é inevitável, uma vez que os pobres são, em sua esmagadora maioria, as principais vítimas diretas ou indiretas de toda maldade e vilania humana. O contraste em Lucas com os "que agora riem", aponta para o fato de que, se há os que lamentam, há os que se alegram em meio às mesmas condições, não obstante dividirem o mesmo cenário mundial de horrores e devastação moral. O desejo de falar sobre isso é inevitável. Mas resistindo a tal impulso, preferirei fugir desse contexto, ainda que ele não me seja menos tocante. Pelo menos por agora.

Relativamente ao discurso do Sermão do Monte, gosto de pensar que os que não lamentam, os que não sofrem e portanto não choram, não o fazem pura e exclusivamente porque, para eles, pouco importa tanto o estado de falência da humanidade afastada de Deus, quanto suas próprias condições espirituais, que segundo seus próprios juízos e racionalizações, encontram-se extremamente adequadas e convenientes a interesses oportunos. A auto-confiança que produz a falsa sensação de segurança, permeia a altivez dos que agora riem ou não pranteiam, produzindo em si mesmos, a recompensa de suas soberbas. Loucos! Hoje lhes pedirão as almas. E tudo sobre o que repousam suas seguranças, para quem será?


9 Agora folgo, não porque fostes contristados, mas porque o fostes para o arrependimento; pois segundo Deus fostes contristados, para que por nós não sofrêsseis dano em coisa alguma.10 Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, o qual não traz pesar; mas a tristeza do mundo opera a morte."
     2 Coríntios 7:9-10 - JFA

É por isso que me assustam os defensores do evangelho da auto-ajuda, das palavras de ordem, dos gritos de guerra e das declarações de afirmação de prosperidade e de alegrias blindadas. O cristão, ainda que feliz por sua esperança e confiança de sua salvação, tem muito o que lamentar e prantear, não chorando um choro apenas teatral, e por isso incapaz de lhe arrancar de sua inércia. É preciso vertemos lágrimas que nos impulsionem a testemunhar e a pregar o evangelho da cruz, do arrependimento, e da conversão a Deus a ao seu Cristo.

O cristão precisa manter-se livre das amarras de uma vida sedutora, e da idéia de que o pretenso bem estar sócio-econômico de sua vida, testemunhará a favor do poder do evangelho. Vidas transformadas são o maior e melhor testemunho que podemos oferecer ao mundo. Devemos nos tornar pessoas que, cheias do amor de Deus, pranteiam com aqueles que choram suas angústias e desesperanças, em meio a um mundo que insiste em nos oprimir e a nos presentear com constantes e variados momentos de tristeza, nos confrontando com a realidade lamentável de que o mundo jaz no maligno.


Quanto mais pretendemos ter, esperando que essas coisas nos consolem, mais presos ficaremos a um estado de coisas que nos deveriam ser motivo de pranto e dor. Vejo que na verdade os desejamos profunda e visceralmente. Será que na verdade, o que queremos mesmo é sermos aqueles que agora riem?

terça-feira, 31 de março de 2015

=> O Leão, o Cordeiro e Eu





“No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo."
     João 1:29 - RA


“Expurgai o fermento velho, para que sejais massa nova, assim como sois sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, já foi sacrificado."
     1 Coríntios 5:7 - RA


“E disse-me um dentre os anciãos: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, venceu para abrir o livro e romper os sete selos."
     Apocalipse 5:5 - RA

Mesmo o mais desavisado e incauto observador da história, sabe que poderosos impérios se seguiram na história da humanidade. Na escola estudamos com mais freqüência e detalhes os impérios egípcio, babilônico, persa, grego e o romano. Pelo menos na minha escola foi assim. Mas também não importa, pois não falaremos em nenhum deles agora, senão para alusão de seus poderes e domínios.

Qualquer que fosse sua origem, todos os grandes impérios tinham por característica a imposição pela força. E pelo medo a que eram submetidos, os dominados sempre se curvaram com uma subserviência conveniente, estratégica e sobrevivente. Mas em nada submissa. E aqui vale a licença poética para diferençar subserviência de submissão. Mas falaremos disso mais à frente.

Obrigados a submeterem-se ao poder de seus dominadores, diversos povos subjugados alimentavam sonho de liberdade e expulsão do dominador de suas terras, e de suas vidas cotidianas. Ora, se tais dominadores se impuseram pela força, nada mais óbvio que se imaginasse a liberdade como resultado de aplicação de força ainda maior, mais poderosa, temida sobre todas as demais.

Entre os povos dominados por esses poderosos impérios, esteve com certo destaque o povo de Israel. Ainda que a Bíblia narre com clareza a ação divina corrigindo seu povo por meio da dominação por povos chamados pagãos, jamais tal domínio foi visto com bons olhos, ou mesmo arrefeceu em seus contemporâneos, o sonho de liberdade e por que não dizer também, vingança, pela opressão e domínio.

Nesse cenário, a identificação do sonho de liberdade com a figura do leão, poderoso e feroz foi mais do que natural. Outros povos ao longo da história reeditaram tal identidade, mas em particular, o povo judeu viveu a esperança no Leão da tribo de Judá, por cujo simples rugido tremiam os inimigos e a uma batiam em retirada. O poder e a força representada pela figura do leão, era tudo o que lhes convinha utilizar, na esperança de liberdade e redenção nacional através da força. Uma força necessariamente superior e mais poderosa que a de seus dominadores.

Ainda que até agora tenhamos falado de nações e povos dominados, em populações inteiras sofrendo a opressão inimiga, elas bem que personificam em boa medida nossos comportamentos individuais e até certo ponto naturais, diante das circunstâncias e desafios que a vida nos impõe no cotidiano de nossos dias. Sim, porque os povos dominadores de ontem, são substituídos em nossa realidade particular e cotidiana, pelos patrões e chefes no trabalho, por colegas que por ganância ou inveja almejam nossas posições, ou por qualquer outra pessoa que se encaixe nessa condição de opressor, e que se torna objeto de nosso mais profundo sentimento de liberdade e por que não dizer, eliminação.

Legítimo ou não, volta e meia nos flagramos sonhando com a liberdade. Volta e meia sonhamos e planejamos ser livres. E se o domínio percebido é forte e opressor, tão mais forte e intenso é o sentimento de que a revolta é o caminho para essa liberdade. Preciso ser mais forte que o dominador. Preciso de força e poder. Preciso feri-lo e matá-lo. Obviamente falo do que passa pela cabeça. Na prática remoemos apenas, e vivemos essa guerra hipotética diariamente. Mas também é verdade que o dia da revolta às vezes chega para alguns.

Falando do que nos é pessoal, fica mais fácil entender porque os judeus esperavam tanto por um Messias poderoso, um Messias arrasador. Um Ungido forte como um leão, capaz de ferir o inimigo com o olhar e colocá-los para correr apenas com seu rugido feroz. Sonhamos dar esse rugido contra nossos opressores diários. Bradamos imaginariamente no cafezinho da esquina, na sala de aula, na sala do chefe, no trânsito, em casa. Bradamos um rugido silencioso que ecoa internamente, revelando-nos o quanto gostaríamos de ser viris e poderosos como um leão.

Enquanto o povo judeu aguardava um Messias poderoso, surge um carpinteiro, eloqüente sim, mas completamente avesso às armas e resistente a força física. Em vez de revidar ao romano violento ele incita a oferecer a outra face. Em vez de lutar pela capa arrancada à força, ele manda entregar também a túnica. Quando oprimido a carregar a carga do romano por uma milha, ele diz para caminhar com esse mesmo opressor duas milhas. Para quem aguardava um leão, é bem natural que não haja nada além de decepção.

Na verdade, o que buscamos em nossa vida, é a confiança de que sempre poderemos andar seguros. E nada melhor para nos dar segurança, do que a sensação de que os outros nos enxergam poderosos e capazes de reagir com força superior à investida, qualquer que seja sua natureza e intenção. E assim, mesmo que nossa realidade individual seja bem diferente, nos vestimos de leão, andamos como leão, olhamos como leão. Tentamos nos impor como leão.

Nada disso, nos diz Jesus no sermão do monte. Em vez de altivos, pobres de espírito. Em vez de risonhos, chorosos. Em vez de viris, mansos. Mansos? Mas leão não é manso! Leão é feroz. Pois então, em vez de querer ser um leão, que tal experimentar ser cordeiro? Porque a falsa sensação de poder que o leão pode trazer, não é mais poderosa do que a força e a liberdade que a submissão a Deus é capaz de proporcionar. Submissão não é subserviência. Esta não passa de servidão bajuladora que se pretende a oportuna barganha. Submissão é a sujeição livre, obediente e humilde, de quem é acolhido e não dominado.

Ser cordeiro não é sinônimo de fraqueza. Enquanto o leão é a imagem da força e do poder, o cordeiro é a imagem da submissão e do sacrifício voluntário. A mansidão é antes de uma resignação, uma opção pela paz. Não por falta de força ou poder, mas por amor. Jesus poderia sem sombra de dúvida ter sido um leão, como ainda o veremos ser como narra o Apocalipse. Mas naqueles dias, optou por ser um cordeiro. O nosso Cordeiro Pascal, que a exemplo do cordeiro que livrou da morte os primogênitos judeus e libertou o povo do cativeiro no Egito, também nos livra do domínio da morte. Não por força, mas por mansidão e sacrifício próprio. Dando-se à morte por optar pela vida de muitos.

E nós? E eu? O que quero ser? Um leão bramindo e assustando, por também assustado, tentando manter longe os inimigos e opressores? Ou um cordeiro, manso e seguro, garantido de que a vida é cuidada pelo pastor de nossas almas? A quem submissos, por amor, nos sujeitamos a uma vida que aguarda o seu Reino. O Reino de um leão, conquistado por um cordeiro.

Que nessa páscoa, nem ovos, nem coelhos ou mesmo chocolate, nos sejam mais simbólicos do amor de Deus, do que o seu Cordeiro, que esvaziou-se do Leão, para calado dar-se em sacrifício pela humanidade, por mim, e por você.

terça-feira, 3 de março de 2015

Quando o sal não salga e a luz não brilha...




13 Vocês são o sal para a humanidade; mas, se o sal perde o gosto, deixa de ser sal e não serve para mais nada. É jogado fora e pisado pelas pessoas que passam.14 Vocês são a luz para o mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. 15 Ninguém acende uma lamparina para colocá-la debaixo de um cesto. Pelo contrário, ela é colocada no lugar próprio para que ilumine todos os que estão na casa.16 Assim também a luz de vocês deve brilhar para que os outros vejam as coisas boas que vocês fazem e louvem o Pai de vocês, que está no céu.”
                      Mateus 5:13-16 - NTLH

Essa semana fomos surpreendidos com mais um lamentável episódio de morte entre jovens, agora por ingestão abusiva de bebida alcoólica. Creio que, como eu, pais pelo mundo afora fiquem perplexos e preocupados, ao saberem de casos como esses,  principalmente em se tratando de uma festa onde, em princípio, deveriam estar felizes e celebrando a vida. E é inevitável que diante de tais ocorrências, uma cascata de dúvidas se abata sobre todos nós, responsáveis que somos e nos sentimos pela formação de nossos filhos.

Afinal, o que leva jovens a perderem o bom senso, ultrapassarem limites óbvios e perigosos, a desafiarem circunstâncias temerárias e avançarem por uma estrada de abusos e destemidas ousadias, quase sempre com graves conseqüências e seqüelas para suas vidas, quando não sem volta e sem vida? O que lhes atrai? O que e como são seduzidos a impulsos impensados? Por que se lançam imprudentes no desconhecido mundo dos imponderáveis?

Longe de pretender esgotar aqui um assunto tão vasto, mas não querendo calar diante de tamanha perplexidade, entendo que de certa forma contribuímos todos para que casos assim se repitam e se agravem em nossos dias. Falo como sociedade, e não falo só da brasileira, ainda que de certa forma me preocupa demasiadamente a flagrante e crescente falta de princípios na formação de nossas últimas gerações, acrescida de uma aviltante inversão consentida de valores morais, éticos e filosóficos.

Digo consentida, porque não percebo qualquer movimento em contrário. E falo isso com enorme tristeza e certo sentimento de culpa. Se não por replicar o modelo, minimamente por calar e assistir impassível o avanço caudaloso desse rio de mazelas e de empobrecimento do caráter ético da sociedade.

Vivemos tempos em que tudo que é fugaz se sobrepõe ao duradouro. O que é instantâneo, ao que é crescente. O que é intenso ao que é consistente, e o que parece ser ao que realmente é. Nesses tempos, ter é muito mais importante do que ser. Agir é preferível a refletir, e afirmar é mais desejável que ponderar. Vivemos aos trancos e jogando tudo e todos pelos barrancos. Nada pode nos deter. Precisamos chegar na frente, sentar primeiro, comer tudo e não nos arrependermos jamais. Vivemos um mundo louco onde somos, cada qual para si mesmo, tudo que importa na vida. Existimos única e exclusivamente para nos satisfazermos a nós mesmos, custe o que custar.

E em tempos de sociedade dominada pela mídia e sua influência direta ou indireta, o que todos querem é ser evidência. Ser o centro das atenções. No início desse modelo de se fazer celebridade e busca pela fama, buscava-se motivos pretensamente nobres que serviam de álibi perfeito para atitudes que pretendiam apenas chamar a atenção de todos para si. Hoje, no entanto, qualquer motivação que possibilite algum destaque, serve ao desejo incontido de chamar atenção dos demais, ganhando fama seja lá pelo que for.

Se antes se procurava ser o melhor aluno da classe, o melhor cantor das rádios, o maior goleador ou o corredor mais rápido, hoje serve ser o maior pegador da balada, ser a mina que mais beija, o carinha que mais bebe, o político que mais rouba, o bandido que mais mata... Toda evidência serve para se fazer maioral e com isso ter fama, seja no mundo, seja no sub-mundo. A competitividade atingiu extremos nas duas pontas. Serve o doping para obter vantagem, serve a burla ao regulamento para beneficiar a equipe. Serve a culpa, serve a vergonha, serve o dolo.

Eu sou o cara. É o que todo mundo sonha em dizer de si mesmo. Todos querem ser o cara. O tal, como se dizia na minha juventude. E é no ambiente dessa corrida idiota e despropositada, que eventos que deveriam se prestar à diversão, atraem participantes anunciando competições de bebedeiras, e mais sutilmente estimulam e promovem orgias e virações de todo o tipo, embalados por sexo sem compromisso, drogas de qualquer origem e algum rock in roll. Até porque a música é apenas pretexto para quebrar o silêncio e ambientar a farra desmedida. Só um barulho que impeça a reflexão espontânea de alguma mente ainda não entorpecida.

Não estou aqui defendendo retorno a qualquer época ou defendendo bons costumes. Isso é bobagem. O mundo avança. O avanço tecnológico e a conquista do conhecimento em diversos seguimentos nos empurra adiante, a um mundo de novas possibilidades. Mas estou sim defendendo bons princípios. Motivações legitimas e capazes de nos conduzir à pretensão sermos melhores e não os melhores. Que as razões que nos movam apontem para uma sociedade que utilize e se utilize do enorme progresso consignado no último século, com sabedoria e sobriedade, e não como uma criança que não sabendo como brincar com uma bola de gude achada por acaso, coloca na boca ou no nariz.

Eis uma ótima oportunidade para pensarmos, como cristãos, no tipo de evangelho e ética cristã que estamos oferecendo ao mundo. Temos sido exemplo de alternativa de vida por refletirmos Jesus em nossas vidas, ou não temos passado de um ajuntamento de pessoas que, sem consistência e coerência, apregoam o que não vivem e sequer sabem porque é que existem? Se somos o sal, deveríamos estar conservando a vida em sociedade, impedindo com isso que apodrecesse. Se somos luz, deveríamos estar orientando o caminho e oferecendo clareza de opções a essa vida sem propósito que a sociedade vem experimentando. E no que temos conservado? E que caminho temos iluminado?

Que nós, cristãos, sejamos o sal da terra para conservá-la, e a luz do mundo para servir de orientação, como requerido e esperado por Jesus. Para que um modelo de vida outro e novo seja vivenciado com significado e pertinência, e não vivamos oferecendo apenas o outro lado de uma mesma moeda.

Um forte abraço.
Powered By Blogger