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segunda-feira, 24 de março de 2025

Bereshit Bara - o eterno amor criador de Deus

Por Jânsen Leiros Jr. 

Bereshit bara Elohim

  • Hebraico: בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים
  • Grego (Septuaginta): ν ρχ ποίησεν Θες
  • Inglês: In the beginning, God created
  • Português (versão RA): No princípio, criou Deus 

Na teologia cristã, a primeira palavra do Gênesis, Bereshit (בְָרֶאִשִׁיתְ), carrega um significado profundo e essencial para a compreensão da criação. Traduzida geralmente como "No princípio", Bereshit não marca um ponto temporal específico, mas, em vez disso, indica uma intencionalidade divina: um desejo que brota do amor pleno de Deus em Sua eternidade, onde não há noção de tempo, mas um querer divino. Deus, sendo eterno, não é limitado pelo tempo. Assim, o que se revela aqui não é apenas um "início", mas uma vontade divina que se cumpre imediatamente — não por mágica ou sem processos, mas porque nada pode impedir o querer de Deus de se realizar. "Querendo Eu, quem impedirá?" (Isaías 43:13). Não há distância entre o querer e a realização, mas isso não significa ausência de tempo ou processo; ao contrário, Deus age no tempo e em conformidade com ele, mas Sua vontade transcende o tempo, porque Ele é Senhor do tempo.

Santo Tomás de Aquino define Deus como ipsum esse subsistens (o próprio Ser subsistente), enfatizando que Ele é a fonte última e razão de toda existência. A doutrina da creatio ex nihilo (criação a partir do nada) ensina que Deus não utilizou uma matéria pré-existente, mas trouxe a realidade à existência pelo poder de Sua Palavra: "Bereshit bara Elohim..." ("No princípio criou Deus...") — Gênesis 1:1.

No entanto, a questão que se coloca é: se Deus criou todas as coisas do nada, como se dá essa criação? E mais importante, qual a motivação divina para tal ato? A teologia cristã propõe que a criação é, antes de tudo, um ato de amor. Deus, sendo amor em Sua essência (1 João 4:8), cria não por necessidade, mas por um transbordamento de Sua plenitude. Nesse contexto, Bereshit não marca apenas um "início", mas revela um movimento de doação. Deus, que nada precisa, escolhe criar para compartilhar com a criatura o Seu amor.

Ao deslocarmos a compreensão para o "querer" de Deus, entendemos que a criação não está subordinada a um processo temporal ou a uma causalidade física, mas sim a uma vontade divina plena. Em Deus, não há intervalo entre o querer e sua concretização, porque Ele não está limitado pela cronologia. No entanto, isso não significa uma criação instantânea sem processos ou sem o prazer de Deus na construção do momento certo. Deus se alegra nos processos que Ele mesmo institui, respeitando as condições adequadas e o instante plenamente oportuno para Sua ação. A criação, portanto, é um ato de liberdade plena, mas também uma ação ordenada, que respeita as condições estabelecidas por Deus, sem que isso implique em limitações para Ele. A criação não é fruto do acaso, nem de uma sequência de causas físicas ou químicas. O que importa não é o "como" ou o "quando" da criação, mas o "querer" divino, que se realiza sempre no momento ideal, segundo o Seu plano perfeito.

Essa compreensão amplia a visão teológica do relato de Gênesis. O texto mosaico não tem a preocupação de descrever o mecanismo da criação, mas sim sua motivação. A criação não é apenas um evento cósmico; é um ato de amor, um gesto de doação plena do Criador. Deus não apenas chama a existência, mas chama para a comunhão. Seu amor transborda na criação como um convite para a criatura participar de Sua plenitude. Esse padrão de doação se repete ao longo da revelação bíblica: Deus se entrega na criação, na aliança com Seu povo e, finalmente, na encarnação de Cristo, que é a suprema expressão do amor divino. "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito..." (João 3:16). A criação, portanto, não é um fim em si mesma, mas o início de uma história de amor, que culmina na redenção e na comunhão eterna entre Criador e criatura.

Bara: A Criação como Ato de Doação Divina

Se Bereshit nos introduz ao princípio absoluto, Bara nos revela a essência do ato criador de Deus. Diferente do verbo hebraico que poderia ser traduzido como "fazer" ou "moldar", Bara é usado exclusivamente para Deus e significa "trazer à existência" algo que antes não existia. Isso nos leva a uma questão fundamental: de onde vem tudo o que existe?

A resposta, dentro da compreensão do amor divino, está na própria essência de Deus. Ele não apenas decide criar; Ele se doa para que a criação exista. Isso significa que não há uma matéria preexistente fora de Deus da qual o universo pudesse ser formado. O "nada" absoluto, como imaginamos, não poderia coexistir com Deus, pois Ele é o próprio ser absoluto, e nada poderia existir além d'Ele antes do ato criador. Assim, quando Deus cria, Ele não usa algo externo a Ele; Ele concede ser àquilo que antes não existia, e o faz como um ato de amor.

Essa compreensão nos afasta do panteísmo, que dilui Deus na criação, e nos aproxima de uma visão panenteísta ajustada: tudo vem de Deus, mas Deus não é tudo. A criação é uma extensão do Seu amor, não uma redução de Sua essência. Ele não se esgota ao criar; ao contrário, Ele manifesta sua plenitude ao doar-se.

Esse princípio se torna ainda mais claro quando olhamos para a progressão da criação. Deus não apenas cria seres inanimados, mas também doa autonomia às suas criaturas: "árvores com frutos, e dentro dos frutos suas sementes" (Gn 1:11), um ciclo perpétuo de vida que não prescinde da fonte, mas também não é um prolongamento absoluto dela. O mesmo ocorre com o ser humano, dotado da capacidade de gerar vida, não como um criador absoluto, mas como um participante desse amor criador.

O ato criador de Deus, então, não é um mero gesto de poder, mas um autoesvaziamento amoroso. Se a criação já carrega em si um vislumbre desse amor doador, a encarnação de Cristo será a expressão máxima desse princípio. Aquele que "trouxe à existência" o universo através de Bara também se "esvazia" para restaurá-lo (Fp 2:7).

Assim, a criação e a redenção se tornam um único ato de amor: Deus que doa ser às criaturas para que elas existam, e Deus que se doa a Si mesmo para que elas voltem a Ele. O amor não poderia ser um mandamento imposto; ele é uma resposta natural ao amor que primeiro nos criou.

Dessa forma, Bara não é apenas um verbo da criação; é a expressão da própria natureza de Deus: Aquele que, por amor, doa-se para que tudo o mais exista.

A Criação Consumada no Amor: O Propósito Final de Deus

Portante, se em Bereshit compreendemos a intencionalidade divina e em Bara entendemos a criação como um ato de doação total de Deus, então a plenitude dessa obra encontra sua expressão final na cruz, no momento em que Cristo declara: "Está consumado" (João 19:30).

Não se trata de dizer que a criação se encerrou ali no sentido cronológico, mas sim que ali se revelou sua finalidade: o amor doador de Deus encontrou sua realização suprema na entrega de Cristo. O mesmo Deus que trouxe todas as coisas à existência por um ato de amor, agora se doa plenamente para redimir sua criação, restaurando nela a relação perdida pelo pecado.

Ao longo da história bíblica, vemos um movimento progressivo no qual Deus não apenas cria, mas se envolve, sustenta e direciona sua criação para um ponto de culminância. Em Cristo, Deus não apenas "fala" com sua criação, mas entra nela, assumindo sua própria substância para resgatar aqueles que formou. Esse movimento não contradiz Bara, mas o exalta: a criação começa no amor doador de Deus e se consuma quando esse amor atinge sua expressão máxima na redenção.

A ascensão de Cristo e a descida do Espírito Santo completam esse ciclo, pois, assim como Deus deu autonomia à criação no princípio, agora Ele concede à humanidade a possibilidade de corresponder livremente ao Seu amor. O Espírito não apenas confirma a obra de Cristo, mas também faz dela uma realidade interior na vida dos que creem, conduzindo a criação não apenas ao seu começo, mas ao seu propósito final.

Dessa forma, a frase "Está consumado" ressoa em harmonia com "No princípio criou Deus". O ato de criação e o ato de redenção não são distintos em essência, mas sim manifestações do mesmo amor eterno que é a própria essência de Deus. Tudo foi criado para que o amor divino se derramasse, e tudo se consumou para que esse amor fosse plenamente recebido.

Assim, ao refletirmos sobre a criação, vemos o amor como a força motriz e fundamental que sustenta tudo. E é justamente esse amor, ao longo da história, que nos convida a uma resposta contínua, até o momento em que toda a criação se unirá novamente ao Criador.

Criação e Doação: Deus como Fonte e Matéria da Existência

O conceito de criação remete a reflexões filosóficas antigas, como o Apeiron de Anaximandro, que representa um princípio ilimitado e primordial. No entanto, ao contrário da filosofia grega, a visão bíblica revela um Criador pessoal, cuja ação é intencional e amorosa.
Atos 17:28 declara: "Porque nele vivemos, nos movemos e existimos". Isso implica que Deus não é apenas a origem de tudo, mas também Aquele que continuamente sustenta todas as coisas. Contudo, a tradição cristã rejeita o panteísmo (a ideia de que tudo é Deus). A criação é distinta do Criador, embora dependa d'Ele para continuar existindo.
Orígenes e Gregório de Nissa propuseram que a criação é uma manifestação dos atributos divinos, sem que Deus perca Sua transcendência. O Logos (João 1:1) é a ponte entre Deus e o mundo criado, a expressão divina que permite a existência e a redenção. Nesse sentido, Bereshit não indica apenas um começo temporal, mas um princípio sustentador e permanente, um ato contínuo de amor e doação.

Deus se Doando na Criação: Um Amor Kenótico

Se a criação é um ato de amor, então Deus, ao criar, está se doando. Esse princípio se encontra na base do conceito de kenosis (autoesvaziamento), que atinge seu clímax na Encarnação de Cristo (Filipenses 2:7). Deus, que nada necessita, escolhe dar-Se ao mundo, sustentá-lo e, mais tarde, entrar nele na pessoa de Jesus Cristo.
Esse amor desapegado também encontra um paralelo no conceito judeu do Tzimtzum, da tradição cabalística: Deus, para criar, "contrai" Sua presença infinita, permitindo que algo além d'Ele venha à existência. Embora essa não seja uma doutrina cristã, ela oferece um paralelo interessante para entender a kenosis divina: um Deus que, por amor, "abre espaço" para que outros seres possam existir e escolher livremente amá-Lo.

O Amor que Sustenta e Convida

Deus não apenas cria e abandona a criação; Ele a sustenta continuamente (Colossenses 1:16-17). Esse sustento não é um mero mecanismo impessoal, mas um ato de relação e compromisso. O amor divino não é coercitivo, mas convidativo. Deus doa a existência, a liberdade e a graça, chamando o ser humano a corresponder a esse amor.
A parábola do filho pródigo (Lucas 15:11-32) ilustra essa relação. O pai concede ao filho sua parte da herança, permitindo-lhe sair e experimentar as consequências de suas escolhas. No entanto, quando o filho retorna, o pai o recebe com amor incondicional. Assim é Deus: um Criador que dá a existência, respeita a liberdade de Suas criaturas, mas permanece pronto a acolhê-las de volta em comunhão.

Conclusão: O Amor como Princípio e Fim

A criação é a primeira grande expressão do amor de Deus. Bereshit revela um princípio não apenas de tempo, mas de intencionalidade amorosa. Deus não apenas criou, mas sustenta, guia e chama Sua criação ao retorno para Si.
Se a criação nasce do amor e é sustentada pelo amor, então o destino final também é o amor: a plena comunhão com Deus. Como afirma Agostinho: "Nos criaste para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti" (Confissões, I,1). Se fomos criados por amor e para o amor, só nele encontraremos nossa plenitude. Bereshit não é apenas um princípio, mas um convite eterno ao relacionamento com o Criador.

Com isso, encerramos esta primeira parte sobre a criação. Agora, podemos avançar para a compreensão dos dias da criação dentro desta mesma linha de raciocínio, aprofundando como cada momento do gênese reflete esse movimento doador e redentor de Deus.

 

 

 

 

 


sábado, 27 de dezembro de 2014

=> O rico trabalho que empobrece




“Também descobri por que as pessoas se esforçam tanto para ter sucesso no seu trabalho: é porque elas querem ser mais do que os outros. Mas tudo é ilusão. É tudo como correr atrás do vento.”

                      Provérbios 14:23 - RA

Há muita confusão nessa retórica de trabalho e trabalhador. E se já falamos aqui sobre preguiça e diligência, podemos nos concentrar hoje em quem vive para o trabalho, gastando nele as melhores horas, dos melhores dias, da mais produtiva fase da vida. Pois se é verdade que “o trabalho dignifica o homem”, também é verdade que viver em função dele pode dar muito, mas muito trabalho mesmo.

Obviamente não estamos falando do trabalho em si, nem estamos apresentando uma bela desculpa para quem adora encostar-se num barranco. Antes o foco aponta para a motivação de tanto trabalho, e suas conseqüências na vida pessoal de quem troca a vida em família e as outras relações sociais, por horas intermináveis de pretensa dedicação laboral.

Dizemos “pretensa”, porque obviamente o trabalho como cumprimento diligente e responsável de tarefas, não leva ninguém ao ostracismo nem ao afastamento daqueles para quem sua presença é importante. Na verdade, o excesso de trabalho, a troca da vida por horas intermináveis de ocupação, antes de ser causa, na maioria das vezes é sintoma de desequilíbrios outros, nos mais variados segmentos da vida humana, indo desde a necessidade de ocupar-se para fugir de pendências que podem consumir a mente, até a simples falta de vontade de voltar para casa, passando pela necessidade desenfreada de ter sempre mais do que já se tem, e chegar até mais longe do que já se chegou. E é nesse aspecto que iremos nos ater. Na ganância e seus muitos disfarces.

O rei Salomão teve seguramente uma das maiores riquezas da história universal. Sábio e intelectual amealhou ao longo de sua vida uma riqueza tão grande, que por toda Terra era comentada sua riqueza. Reis e rainhas de outras nações atravessavam distâncias enormes apenas para ouvirem sua sabedoria, e com isso lhe presenteavam com grande parte de seus próprios tesouros. Além das alianças e casamentos que lhe fizeram ainda mais rico. Ainda assim, e a despeito de tão grande riqueza, e provavelmente após todo o empenho em entesourar-se, Salomão descreve grande pesar pela dedicação excessiva a essa tarefa.

Claro que quem vive tal desequilíbrio não se posiciona tão francamente nem para si mesmo. A armadilha que leva a essa conduta é sutil. Por isso chamamos de disfarces, porque na verdade criamos uma capa de sobriedade e responsabilidade difícil de ser contra-argumentada, que encobre a verdadeira face da ganância que habita no íntimo. Queremos sempre mais e muito mais... E por quê?

Segundo o próprio Salomão, porque queremos ser mais que os outros. Mas ainda poderíamos acrescentar que também vai aí uma pontinha de necessidade de segurança. Sim, aquela segurança que o poder de compra, que a capacidade de pagamento concede a todos que a têm. Aquela falsa segurança que o dinheiro compra, a qual Jesus chamou de loucura.


15 Então, lhes recomendou: Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui. 16 E lhes proferiu ainda uma parábola, dizendo: O campo de um homem rico produziu com abundância. 17 E arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei, pois não tenho onde recolher os meus frutos? 18 E disse: Farei isto: destruirei os meus celeiros, reconstruí-los-ei maiores e aí recolherei todo o meu produto e todos os meus bens. 19 Então, direi à minha alma: tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te. 20 Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? 21 Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus.”

                      Lucas 12:15-21 - RA

A verdade é que, seja pela vontade de ser mais que os outros, seja pela falsa sensação de segurança que o dinheiro e os bens podem nos dar, o trabalho em excesso empobrece as relações pessoais, à medida que seqüestra-nos do convívio das pessoas a quem queremos bem, que nos demandam tempo, e o mais irônico, exatamente daquelas por quem, em tese, tanto nos esforçamos. Olha aí mais uma armadilha e sutileza da ganância.

É nesse cenário de presumível dedicação e sucesso na vida, que fracassam as relações amorosas, crianças são criadas sem limites, adolescentes se afastam de seus pais, jovens vivem inseguranças inconfessáveis e idosos são abandonados, se não em asilos, em lares onde suas presenças e necessidades são mais um estorvo, do que a feliz companhia de quem pode transmitir muito mais sabedoria que informação. Estamos sempre tão ocupados e preocupados, que não enxergamos quem desfila diante de nossos olhos, pedindo e esperando por atenção. Lutamos para enriquecermos os bolsos e as contas bancárias, mas empobrecemos as relações pessoais e a alma.

Não devemos jamais agir com displicência em nosso trabalho. Muito pelo contrário. Sejamos sempre diligentes e dedicados em tudo que fazemos ou a que nos propusermos realizar. Mas é necessário sabedoria para dosar a mão, para que aquilo que em tese buscamos para sustentar-nos a felicidade e dias mais felizes, não se transforme em correr atrás do vento. Afinal, como bem nos alerta a sabedoria popular, a sutil diferença entre remédio e veneno é a dose.

Que Deus nos faça sábios sempre, para utilizarmos com cada tesouro a medida certa.







sábado, 12 de julho de 2014

A vida pode ter sentido - Parte 1

Por Jânsen Leiros Jr
Revisado e ampliado em 26/04/2024

“O que ou quem me traz à existência e logo nela me impede de continuar?

Minha origem é incerta, como é incerto o meu futuro.

O que está por trás desse ciclo? Quem o planeja?

Por que se vive tão pouco, e qual o sentido de tão efêmera existência?

Bem não aprendo a viver, e já a morte me leva.

Será que nasci apenas para viver.

E se vivo, o faço apenas para um dia morrer?

Será a vida uma passagem e a morte um ingresso?

Ou será que com a vida se compra a passagem para a vida que a morte traz?

Nascimento, vida e morte; em linha a nossa sorte?

Ruim talvez nascer morto.

Pior talvez morrer vivo.

Pior ainda viver morto.

Melhor de tudo?

Nascer de novo renovando a vida.

Não morrer jamais”

                 Não morrer jamais –Jânsen Leiros Jr

Blog Sensações & Poesias


Quem jamais se fez essas perguntas? Quem nunca se surpreendeu, tentando encontrar algum sentido para a própria existência? Cedo ou tarde, por um motivo ou outro, penso que todo ser humano se põe a questionar: o que é que estou fazendo aqui? E ainda: qual o sentido da vida? Mesmo sendo uma questão legítima, essa inquietação impulsiona o ser humano em uma viagem que pode variar entre o monótono e o surpreendente, entre o sintético e o analítico, entre o crescimento e a estagnação, e entre a euforia e a depressão.

A legitimidade do questionamento pelo sentido da vida tem origem na observação tácita de que ela não pode resumir-se em uma sucessão de dias, gastos na busca de satisfação das necessidades básicas, quer físicas quer sociais. Uma rotina patética de luta atroz pela sobrevivência. Ora, se eu não existisse, não teria qualquer necessidade. Se as tenho, é só porque existo. Então minha existência não pode se resumir em atender às demandas que tenho, apenas pelo próprio fato de existir; existir para manter-se existindo. Assim, causa e efeito seriam viciosamente uma mesma coisa. A vida teria sua funcionalidade aprisionada em um ciclo necessidade-satisfação. Um propósito monótono, apático e impotente para construir perspectivas atraentes a uma humanidade sedenta de objetivos existenciais. Um propósito adequado na vida pode deslocar o pulso existencial do dever, para o pulso essencial do prazer.

Muitas e variadas linhas de pensamento buscam encontrar esse adequado sentido para a vida. Os mais pragmáticos sintetizam o viver ao tempo entre o nascer e o morrer. Nesse intervalo, o ser humano sobrevive e da melhor maneira possível. No contexto de manter-se vivo, vale tudo para que essa sobrevivência tenha algum prazer, ainda que para essa linha de raciocínio, por definição, a sensação de prazer e saciedade seja transitória e temporal.

Eu tenho muita dificuldade em reduzir a vida a um ciclo de nascimento e morte no tempo. Não estou me referindo à vida após a morte. Não é o caso aqui. Estou falando de vida transcendente, ainda que presa ao ciclo de começo-meio-fim; falo do que Jesus chamou de "vida em abundância". Vida com sentido, vida com propósito.

Aqui e agora, a vida, por ser vida, não pode ser estática. Precisa estar em movimento. Ser dinâmica e contagiante. Influenciadora e envolvente. Expansível de dentro para fora, e inspiradora de fora para dentro porque agradecida. Em toda e qualquer direção, precisa interagir com o cenário em que se insere. A vida precisa ter significado enquanto existente.

A melhor e mais apropriada comunicação que conheço dessa vida em movimento é a que o texto bíblico faz utilizando a figura do peregrino em terra estranha.

 “Todos esses morreram cheios de fé. Não receberam as coisas que Deus tinha prometido, mas as viram de longe e ficaram contentes por causa delas. E declararam que eram estrangeiros e refugiados, de passagem por este mundo.”

                       Hebreus 11:13 - NTLH

 

 “Queridos amigos, lembrem que vocês são estrangeiros de passagem por este mundo.”

                       1 Pedro 2:11 - NTLH

Um peregrino está sempre em movimento, sempre a caminho, em marcha para algum lugar. E sendo um forasteiro, não pode se permitir descansos mais demorados ou tornar-se cativo de qualquer outra demanda que não a sua ali e além. Um peregrino, ainda que cansado pelo esforço na caminhada, não pode entregar-se à auto piedade ou à acomodação. Precisa viver sua peregrinação. Nada nessa terra em que atravessa é suficientemente seu para que o detenha em sua jornada, e lhe desvie do objetivo; ameaçadoras distrações.

Mas ainda que o peregrino esteja sempre caminhando, sempre em marcha para algum lugar, o sentido de sua vida não é o ponto de chegada, mas sua própria jornada. No caminho está o seu prazer. Por essa razão, a quantidade de tempo vivido é menos importante do que o como essa vida é vivida no tempo. O sentido da vida se expressa em quão oportuna ela é, e não em quanto tempo ela está.

Portanto, viver é mais do que meramente existir. É ir além da satisfação das necessidades diárias. A vida pode ter um sentido e este não está em qualquer lugar onde eu queira ou possa chegar. Em vez disso, está no caminho que experimento e trilho até lá.

Viver é inserir-se no tempo presente, modificando-o oportunamente. Assim, cada instante vivido se reveste de significância, e cada ato, por mais simples e espontâneo, por mais complexo ou sacrificante, será sim, pertinente e adequado, dando sabor, seja doce ou amargo, à realidade de minha existência. Porque o prazer de viver está em ser o que se é na sua potencialidade plena, ainda que seja difícil e dolorido. Porque se o viver é Cristo e o morrer é lucro[1], não há qualquer prejuízo em vivermos frutificando ao próximo. Porque esse, afinal, era o viver de Jesus.



[1] Filipenses 1:21

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