domingo, 27 de dezembro de 2015
Acúmulos e simpatias; garantias?
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
=> Seguros porque confiantes. Ainda que neste mundo!
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Certezas e seguranças - A fé criada em gaiolas
Por Jânsen Leiros Jr.
Revisado e ampliado em 15/04/2024
“Somos assim. Sonhamos o voo, mas
tememos as alturas. Para voar é preciso amar o vazio. Porque o voo só acontece
se houver o vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Os
homens querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. Por isso
trocam o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.
Os homens preferem as gaiolas ao
voo. São eles mesmos que constroem as gaiolas onde passarão as suas vidas”
Rubem
Alves em Religião
e Repressão
Até hoje, em todos os grupos sociais que frequentei, não encontrei ninguém que dissesse preferir prisão à liberdade. Ser livre é preferência universal. É verdade. A liberdade, que já foi cantada em verso, prosa e samba enredo, sempre esteve entre os mais pretendidos e legítimos anseios do ser humano. Já foi musa de guerras, e também por ela legiões intermináveis de pessoas já se sacrificaram. A liberdade é um desejo natural de todo o indivíduo.
Há, porém, armadilhas que volta e meia armamos contra nós mesmos. Elas nos prendem em gaiolas construídas com as sutilezas do conforto, num ambiente de certezas e seguranças que acreditamos ter alcançado, a bem de nossa interminável busca por liberdade. Então o que era para ser um grito de liberdade, tornou-se o arfar por um cantinho seguro no fundo da gaiola. A incoerência é mesmo um traço latente em toda a humanidade. Ora, se o que cremos é o que vemos, como esperaremos?
Essas certezas e seguranças se manifestam no conjunto de verdades em que passamos a acreditar como absolutas e inegociáveis, sem que aceitemos qualquer possibilidade de argumentação em contrário. São molduras que enquadram nossos pensamentos, e que não nos permitem, sair de seus limites de forma alguma, sob pena de cometermos sacrilégios intelectuais, desvios filosóficos ou pecados mortais. É por isso que pensadores e filósofos, durante tanto tempo, foram demonizados pelo senso comum em igrejas e grupos religiosos os mais variados, dado o perigo que representavam. Afinal, pensar fora das gaiolas incentivaria seus pássaros a voarem ou ansiarem por liberdade.
Fazendo e pensando o que tradicionalmente fizeram e pensaram nossos antecessores, os riscos são sempre menores e os desconfortos são também reduzidos. Construímos com zelo e cuidado a rotina de nossas almas, com o sossego de nossas mediocridades previsíveis e seguras. Preferimos as gaiolas aos voos. E não falo hipoteticamente. Esbarro com isso todos os dias em todos os grupos, quer sejam religiosos, políticos, econômicos e sociais. Sim, todos caminham suas trilhas marcadas pelos viajantes da frente. Qualquer caminho pensado, e falo pensado e não tomado, é combatido, morto e enterrado ainda no nascedouro. Não foi mesmo sem motivos a guerra pela reforma.
Ora, segurança e certeza não rimam com fé, nem tampouco a expressam. Mas sim esperança e convicção. Todos os exemplos bíblicos de fé, apresentam indivíduos que saíram de suas confortáveis condições existenciais. De suas rotinas seguras e de suas certezas convenientemente arraigadas. Abriram mão de suas garantias. Todos se lançaram no vazio das incertezas, tendo apenas a convicção e a esperança de que as gaiolas não eram e nem poderiam ser seus destinos últimos. A única segurança e garantia que possuíam, era a esperança de crer contra a esperança. Lançavam-se ao improvável, tendo como garantia a fidelidade daquele que os impulsionava e que criam conduzi-los.
Antes que alguém me acuse de dizer que ter fé é uma crença vazia, explico. Ao dizer "vazio", expresso aquilo que não é visível, aquilo que não detenho, que não é tangível. O vazio do voo se sente e se percebe. Os olhos não comprovam mas o corpo que nele se lança o reconhece e sabe que está ali. A convicção o faz alçar o voo. Aliás, voo só pode ser feito no vazio. Não há como voar através de espaços ocupados por qualquer coisa que possa ser vista ou tocada. A fé não pode ser um espaço ocupado por qualquer coisa que, em lugar de esperança, antes nos seja uma garantia. Mas alguém ainda argumentaria; mas o Espírito não é o penhor, não é a garantia de nossa esperança. Certamente, mas alguém vê o Espírito? Ele então é o nosso vazio em que nada vemos, mas em quem somos plenos de convicção.
A vida cristã não pode ser um emaranhado de certezas e de seguranças concebidas para nos criarem uma sensação de confortável letargia. Estamos o tempo todo sendo sacudidos para fora dessas gaiolas. Enxotados. Para aprendermos a viver no vazio da fé, que se fundamenta inegociável e incondicionalmente, apenas e tão somente, naquilo que eu não vejo, mas que convictamente espero. E como espero!
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
É o Cofre mais que o Tesouro?
Por Jânsen Leiros Jr.
Revisado
e ampliado em 27/05/2024
"Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração."
Mateus 6:19-21
Um
dos registros mais edificantes do ministério de Jesus é o conhecido Sermão da Montanha[1].
Entre outros aspectos, esse sermão resume a proposta de uma vida totalmente
outra que Jesus apresentou aos seus discípulos e a todos que o ouviam. Muitas
vezes contrapondo costumes sociais e religiosos até então aceitos, ele propõem
uma atitude radicalmente contrária, mudando o foco do pensamento. Do eu para o nós, do meu para o nosso, e do singular para o plural.
É
nesse contexto de inversão da lógica da atitude humana, que Jesus propõe a
substituição do lugar onde se guardar
o “tesouro” que acumulamos por toda a via. Portanto a atenção aqui não é o que eu guardo, mas sim onde eu guardo. A atenção está não no
tesouro, mas no cofre, ainda que o
local onde depositar o tesouro vá, inevitavelmente, influenciar na pertinência
do que será relevante entesourar.
Tesouro,
qualquer que seja o contexto, é tudo o que eu acumulo. E entesourar sempre foi
um costume muito comum na sociedade hebraica. Acostumados desde sempre a
bruscas variações das condições de sobrevivência em suas terras, o povo hebreu
desenvolveu o costume de guardar uma boa parte de tudo o que produzia ou tinha
acesso, para eventuais períodos de escassez[2].
E era comum que utilizasse menos do que o necessário para viver, para que
entesourasse uma parte cada vez maior. A prática prudente e previdente, no
entanto, por vezes era substituída por uma inquietação exacerbada, que promovia
a usura e a ganância. E nesse contexto de deturpação da gestão responsável dos
recursos, a preocupação voltava-se para o bem-estar pessoal ou no máximo de seus
familiares diretos e próximos. Na sofreguidão de garantir um futuro próspero e
seguro a qualquer custo, era comum encontrar quem agisse com mesquinhes e
avareza[3].
Mas é claro, tais distorções ocorrem em qualquer sociedade ou em qualquer grupo
étnico, não sendo um comportamento exclusivo ou definidor de caráter dos
hebreus.
O
cofre, portanto, longe de ser um
objeto ou um local, é antes uma atitude. E não estamos falando aqui de ganância,
avareza ou mesquinhes tão somente. Isso seria óbvio demais, e plenamente
rejeitável pela sociedade daquela época. Jesus não condenava aqui a vontade de ter mais, mas sim a inquietação por garantir ter quando necessário ou sempre desejado. Condenava
a atitude ensimesmada de tentar ansiosamente se garantir pelas próprias mãos. Esse cofre na terra é frágil. Sujeito a roubo, à deterioração e à
desvalorização. Pior! Louco, esta noite
te pedirão a tua alma, e o que tens preparado (entesourado em teus
celeiros, em teus cofres na terra) para
quem será?[4]
O cofre na terra será sempre inseguro e incerto. E o tesouro que ali estiver será fruto da inversão de prioridade sobre
o que realmente importa, e da falta de confiança em Deus; não andei ansiosos por coisa alguma[5].
O
tesouro guardado no céu, por sua vez, não pode ser roubado e nem sofrerá
qualquer dano. Note, contudo, que não há qualquer mudança no tesouro. Não há
juízo de valor sobre o que efetivamente se acumula. Apenas o local onde o
tesouro é guardado se altera. Ora, se o tesouro guardado no céu está em um
cofre totalmente outro que o da terra, o que eu acumulo no céu, seja lá o que
eu esteja entesourando, será guardado com confiança e generosidade, com
descanso e boa vontade, e plenamente disponível para uso no Reino, para alimento
e cuidado com o próximo. O tesouro no céu não
me pertence. E não é resultado de minha ansiedade e inquietação pela vida.
É, na verdade, fruto de minha confiança na providência, cuidado e amor de Deus
para com todos. Inclusive comigo mesmo.
Por
isso a afirmação final de Jesus onde está
o teu tesouro, aí estará também o teu coração. A vida pulsa conforme as
emoções e não ao sabor da razão. As atitudes do coração precisam e devem
acumular tesouro no cofre do céu. O descanso no cuidado de Deus que promove
generosidade e desprendimento, é o desejado refrigério da alma e o conforto
apaziguador do coração.
[1] Evangelho
de Mateus capítulos 5 a 7; Lucas 6:20-49
[2] A
combinação de fatores geográficos, históricos, sociais e religiosos moldou a
prática hebraica de armazenar recursos. Essa prudência e previdência eram
essenciais para a sobrevivência em um ambiente frequentemente inconstante e
hostil. Além disso, essas práticas foram integradas na tradição e nos
ensinamentos religiosos, reforçando a importância de uma gestão sábia dos
recursos enquanto se confia na provisão divina.
Condições Geográficas e Climáticas
1.
Clima e Agricultura: A região da
Palestina, onde o povo hebreu vivia, tem um clima mediterrâneo com verões
quentes e secos e invernos suaves e chuvosos. A agricultura dependia fortemente
das chuvas sazonais, e qualquer variação climática poderia causar escassez de
alimentos.
2.
Secas e Fomes: A história bíblica
registra várias ocasiões de seca e fome que afetaram a sobrevivência do povo
(Gênesis 41:54-57; Rute 1:1). Esses eventos ensinaram os hebreus a serem
previdentes e a armazenarem recursos durante períodos de abundância.
Contexto Histórico e Social
3.
Invasões e Conflitos: O território hebreu
era frequentemente invadido por nações vizinhas, resultando em destruição de
colheitas e recursos. Os hebreus aprenderam a armazenar alimentos e outros bens
para sobreviverem durante e após esses conflitos (Juízes 6:3-4).
4.
Peregrinações e Deslocamentos: Durante a
história bíblica, os hebreus experimentaram períodos de nomadismo e
peregrinação, como a jornada pelo deserto após o êxodo do Egito (Êxodo 16). A
necessidade de carregar e armazenar provisões durante essas jornadas reforçou o
hábito de guardar recursos.
Práticas Religiosas e Culturais
5.
Legislação Mosaica: As leis de Moisés
incluíam instruções sobre a sabática e o ano de jubileu, onde a terra deveria
descansar e as dívidas serem perdoadas (Levítico 25). Isso incentivava uma
gestão prudente dos recursos para garantir a sobrevivência durante esses
períodos.
6.
Coleta e Armazenamento de Maná: No
deserto, Deus forneceu maná diariamente e instruiu os hebreus a coletarem
apenas o necessário para cada dia, exceto na véspera do sábado, quando deveriam
armazenar para dois dias (Êxodo 16:4-5, 22-26). Essa prática ensinou a
importância de confiar na provisão divina enquanto ainda mantinham a
responsabilidade de gerenciar recursos adequadamente.
Influência na Mentalidade Coletiva
7.
Parábolas e Ensinos: Os ensinos de Jesus
frequentemente utilizavam metáforas agrícolas e econômicas que ressoavam com a
prática de guardar e gerenciar recursos. A parábola dos talentos (Mateus
25:14-30) e a advertência contra a avareza (Lucas 12:16-21) refletem essa
mentalidade.
[3] A
percepção do povo judeu como avarento e mesquinho é um estereótipo prejudicial
que resulta de uma longa história de preconceito, exclusão social, crises
econômicas e propaganda antissemítica. É crucial reconhecer que esses
estereótipos não refletem a realidade e que os judeus, como qualquer outro
grupo, são diversos e complexos. Combater esses preconceitos exige educação,
diálogo intercultural e um compromisso com a justiça e a igualdade.
[4]
Lucas 12:20
[5] Filipenses
4:6












