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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Em marcha, alegres e perseguidos


Por Jânsen Leiros Jr.


10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.  

11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguiram e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa. 12 Alegrai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram aos profetas que foram antes de vós."
                      Mateus 5:9-12 - JFA

Chegamos ao final do que lá atrás chamamos de introdução ao Sermão do Monte; as Bem-Aventuranças. Acredito que até aqui conseguimos ser entendidos naquilo que pautou nosso desenvolvimento, tanto em relação ao conteúdo quanto em relação ao propósito; a apresentação de uma lógica diferente na abordagem desse tão famoso discurso de Jesus, começando por mudar o ponto de observação do que deve ser feito, para o que é feito por natureza transformada. Um princípio da ótica do evangelho, onde o que somos não o somos porque nós mesmos construímos, mas porque foi, pelo Espírito de Deus, construído em nós.

Tal inversão, já na partida, altera o conceito de que seremos bem-aventurados, para já somos bem-aventurados, deixando para o futuro apenas as inevitáveis e gratuitas recompensas a cada bem-aventurança relacionada. O que, na prática, nada mais são do que mera pluralidade expositiva, de uma mesma e única realidade à frente; o reino de Deus. Nesse aspecto a tradução de André Chouraqui substituindo bem-aventurados por em marcha, apresenta melhor a questão de um caminho onde já nos encontramos, porque nele fomos colocados, e que nos levará inevitavelmente a um destino certo e previamente revelado.

Mas por que isso? Se as bem-aventuranças não são a relação de atitudes a perseguir, mas as já potencialmente existentes nos redimidos e justificados, que sentido teria serem colocadas no início de um discurso como o Sermão do Monte? Sim, porque em tal sermão parecem desfilar inúmeros comportamentos requeridos aos santos, com vistas a, uma vez seguidos e cumpridos, conduzirem o indivíduo ao reino de Deus. Ou seja, dão a entender que, vividos em suas conformações justificarão seu agente, outorgando-lhe a entrada no reino de Deus. Ora, exatamente por contradição a esse entendimento equivocado. A ética do Sermão do Monte é uma espécie de vida a ser vivida, não uma relação de conduta a ser provada.

A autojustificação é a máxima em quase a totalidade das religiões espalhadas pelo mundo. Um conjunto de regras, uma sequência de ritos, variações de princípios filosóficos que permeiam publicações que sustentam uma ideia central, capaz de reunir pessoas ao redor de um mesmo fim; uma recompensa, seja ela qual for. Uma recompensa pela qual se faça jus, a partir do cumprimento de tudo aquilo que se estabelece como norma de conduta. Ou seja, todos compram, de um modo ou de outro, a sua própria recompensa, ou se preferirem, justificam sua própria herança.

As bem-aventuranças, contudo e portanto, como revelação das características dos redimidos pela justiça de Deus, explicitam de forma contundente que, iniciada a marcha, aquelas serão sempre as características de quem foi feito livre do pecado, mas servo da justiça[1].

Nossa reflexão de hoje, porém, se concentra na perseguição e isso obviamente causa um certo desconforto e um questionamento inevitável. Seria a perseguição uma característica do cristão? Como conciliar bem-aventurança com perseguição? Como juntar uma coisa positiva e uma negativa? Como pode ser bom, passar por uma coisa ruim? Seria isso um contracenso, uma impossibilidade ou um masoquismo? Nem uma coisa, nem outra. Na verdade, a perseguição não passa de um inevitável conflito entre dois sistemas de valores irreconciliáveis.

Na prática, todas as bem-aventuranças são impopulares. Ser pobre, pranteador, manso, ter fome e sede, ser misericordioso, transparente, pacificador e perseguido, em nada se parece com o perfil vanglorioso que as religiões costumam oferecer aos seus adeptos, como conduta e modelo de vida. Tanto quanto o evangelho de autoajuda, que vem crescendo assustadoramente em nossos dias, onde tudo de bom sempre acontece ao crente feliz e sempre vitorioso em seus projetos, sonhos, vontades e batalhas.

Há uma oposição natural ao princípio das bem-aventuranças, a medida que elas representam fraqueza humana e fragilidade diante da crueldade do mundo real. Todos querem ser ricos e não pobres, serem felizes e jamais chorosos. É normal elogiarem o valente e não o manso, bem como se admira a fartura ao contrário da fome e da sede. Não são comuns filmes em que o mocinho injustiçado se vinga de seus algozes? Como então aceitar de bom grado a misericórdia? Num mundo em que negociações são travadas na obscuridade das intenções sempre camufladas, sinceridade e transparência são fragilidades competitivas inaceitáveis. O mundo premia o forte e o guerreiro; aos pacificadores, a derrota! Morte e perseguição, aos que se opõem à necessária e conveniente ordem mundial.

Mas notem, não é sem motivo que o pacificador precede o perseguido. Isso é tanto necessário quanto pertinente, pois somente o pacificador é capaz de sofrer a perseguição e não revidá-la, uma vez que, seguro, confia plenamente em Deus a quem se entrega. Os mansos naturalmente não impõem medo, parecendo presas fáceis a seus eventuais perseguidores. As características essenciais de um cristão expressas nas bem-aventuranças, chocam e criam repulsa no homem natural, provocando-lhe a necessidade e o interesse urgente de anular e até mesmo aniquilar as perigosas ideologias de fragilidade humana, diante de sua constante luta por força e poder.

A perseguição é, portanto, uma chancela da vida cristã. Um sinal de que andamos no caminho certo, de que estamos em marcha. Não necessariamente porque incomodamos inconvenientemente, mas porque confrontamos, sem nem mesmo falarmos, a realidade pecaminosa do comportamento humano, que se rebela contra Deus, e dele se afasta deliberadamente. E não devemos nos vingar de tais perseguições, mas antes alegrai-vos e exultai. A perseguição assim motivada, foi igualmente sofrida pelos profetas bem como por Jesus, de quem somos discípulos. E que maior honra a um discípulo, do que o tornar-se igual a seu mestre?

O Sermão do Monte é assim a desconstrução de uma vida aprendida em um lodo religioso que premiava o aparente e não o real, bem como o superficial e não o profundo. Ele confronta uma religiosidade morta e ineficaz, a uma vida nova e transbordante, porém invertida em seus valores, alternativa em sua essência, e digna de ser apreciada por corações em marcha, mas ao mesmo tempo perseguida pela maldade do presente século. Afinal, o mundo jaz no maligno[2].




[1]  Romanos 6:17-19
[2]  1 João 5:19

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Nosso amor resume todo o Amor


Por Jânsen Leiros Jr.

28 Aproximou-se dele um dos escribas que os ouvira discutir e, percebendo que lhes havia respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos? 29 Respondeu Jesus: O primeiro é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. 30 Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças. 31 E o segundo é este: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que esses. 32 Ao que lhe disse o escriba: Muito bem, Mestre; com verdade disseste que ele é um, e fora dele não há outro; 33 e que amá-lo de todo o coração, de todo o entendimento e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios. 34 E Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-lhe: Não estás longe do reino de Deus. E ninguém ousava mais interrogá-lo.   "
Marcos 12:28-34 - JFA
Ver também  Mt. 22:34-40

No contexto desse capítulo, Jesus responde a diversas perguntas capciosas que os fariseus e escribas lhe fazem, com o intuito de lhe provocar, pretendendo que caísse em alguma contradição com a lei mosaica, ou mesmo à lei de César, imperador romano e dominador de toda aquela região em que se desenvolve todo o seu ministério.

Ao longo dos quatro evangelhos podemos flagrar as tentativas sempre sorrateiras, de induzir Jesus a um erro qualquer, que lhes justificasse sua prisão ou morte. Jesus vinha chamando a atenção de muitos de seus líderes e também vinha arrastando uma multidão de seguidores. Isso se tornava cada vez mais perigoso aos interesses pessoais ou mesmo coletivos daqueles que se locupletavam da conduta piedosa e devotada do povo judeu. Aproveitadores, que acumulavam grande riquezas manipulando a fé e as carências espirituais daquela gente.

Sem se abalar Jesus se posicionou em todas as questões, sem jamais se acovardar. Além disso, respondeu com equilíbrio e com uma precisão que impressionou até mesmo os seus inquiridores. Ele respondeu a questões de tributo, a questões religiosas e começou o capítulo revelando-lhes a dureza do coração; a rejeição a quem é a pedra de sustentação do edifício de Deus

Após entrarem em conselho para definirem suas estratégias, conforme narra Mateus, os fariseus passaram a responsabilidade de tentar confundir Jesus, àquele que entendiam ser o mais preparado para o "pegar" em alguma afirmação blasfema ou contraditória à lei. A astúcia era, desde sempre, colocar o Mestre em uma "sinuca" de difícil solução.

Antes da tentativa narrada no texto acima, tentam apanhá-lo em desobediência civil, na questões dos tributos. A lei imposta pelo imperador e dominador César exigia o pagamento de impostos. Mas os judeus liderados por seus religiosos proeminentes, discordavam disso, considerando que não haveria de existir qualquer obrigação com o governo de Roma. Então Jesus dá a famosa resposta, em que alguém terá sempre direito àquilo que lhe pertence; a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

Ainda antes, no caso da hipotética história de casamentos seguidos em que a mulher era tomada pelo irmão do morto, seu marido anterior, de quem ela seria mulher? Pretendiam com isso gerar uma celeuma interminável e sem solução. Jesus responde com o impensável para eles; uma descontinuidade da vida como a conhecemos, em seus usos e costumes temporais. Havia ainda implícita nessa questão, a disputa com aqueles que não acreditavam na ressurreição, pois saduceus e fariseus discordavam nesses ponto doutrinário.

Vem então a pergunta sobre qual dos mandamentos seria o mais importante. Imediatamente pensamos que o escriba falava dos Dez Mandamentos, que é a nossa idéia de mandamento. Porém os judeus haviam desdobrados os mandamentos em mais de 600 outros mandamentos variados, chegando a por menores tão ínfimos, que chegavam a "legislar" sobre o dízimo da hortelã[1]. Era portanto natural até, que uma pergunta como essa fosse aceitável em um contexto de extremo preciosismo, ainda que o próprio Jesus considerasse tal extremo cuidado e precisão, como uma incoerência entre o formal e o essencial[2]. Coam o mosquito mas engolem o mosquito.

Jesus então resume todos esses mandamentos em dois. O primeiro diz ser o amor a Deus a principal razão existencial do ser humano, citando a versão desse mandamento do Antigo Testamento[3]. Ele fala de um amor tão pleno e tão profundo, que sua totalidade é requerida; não pode haver qualquer proporção excluída. Todo o coração, toda tua alma, todo o teu entendimento e todas as tuas forças, não aceita parte, qualquer que seja ela. Isso significa que o amor a Deus requer dedicação total dos sentimentos, dos pensamentos, e da vontade, manifestados em uma alma plenamente dedicada e disponível.


O segundo mandamento, que Jesus diz ser tão importante quanto o primeiro, diz respeito ao amor que devemos ter pelo nosso próximo. Mas há uma importante mudança de paradigma aqui. Se antes a totalidade era o critério para amar a Deus, o amor ao próximo deve usar como modelo e inspiração, o amor que temos por nós mesmos. Ou seja, o que desejamos para nós, e a maneira como cuidamos de nós mesmos, deve ser o parâmetro de nosso empenho no cuidado e satisfação do nosso próximo. E isso estabelece um princípio novo, pois em vez de se utilizar da célebre frase não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você, ele diz cuide e satisfaça o próximo como se estivesse fazendo isso a você mesmo. Esse mandamento revela o amor como uma atitude realizadora da bondade, um sentimento que se expressa por ações em favor de, e não apenas com palavras inertes.

Na narrativa de Mateus, Jesus diz que desses dois mandamentos, depende toda a Lei e os Profetas[4], numa clara menção ao que hoje chamamos de Antigo Testamento. Isso porque o amor é a máxima tradução de tudo o que se registrou na Bíblia. Deus é amor, e por esse amor realizou, realiza e realizará tudo o mais. Por amor Jesus se entregou por nós, ocupando o lugar que seria nosso. Pelo Amor que em nós produz o amor, vivemos em comunhão cuidando uns dos outros, em compaixão e graça, levando as cargas uns dos outros[5].

O escriba inquiridor de Jesus se demonstrou impressionado com a resposta dada pelo Mestre. Tanto que ele mesmo a completa fazendo menção a outro texto em Oséias[6]. Mais ainda. Ele pareceu balançado por Jesus. O seu coração percebeu algo diferente. E isso ficou tão claro, tão notório, que o próprio Jesus diz perceber que ele não estava longe do Reino de Deus.

Portanto, Sempre que passamos a chamar atenção por nosso testemunho, "armadilhas" nos serão colocadas à frente, no intuito de nos provocar e nos induzir ao erro. Perguntas capciosas, propostas indecentes, ocasiões suspeitas. É com equilíbrio e retidão, e um bom conhecimento da Palavra, que poderemos dar as respostas eloqüentes aos nossos inquiridores, dando ainda mais excelente testemunho da salvação e da graça de Deus.

O amor será sempre a via de conduta perfeita para tudo e em todas as circunstâncias da vida. Porque o amor é a essência de tudo em Deus, porque Deus é amor[7]. Aquele que está verdadeiramente em Deus, está profundamente mergulhado em amor. E quem ama age sempre em busca daquilo que agrade o amado. Quem ama cuida de agradar aquele a quem ama. Quem ama a Deus, busca a santidade e aborrece o pecado. Como diz João, quem ama a Deus não vive pecando[8].

Amar ao próximo como a si mesmo, é um paradigma perfeito. Porque ninguém maltrata a si mesmo; antes cuida de si com atenção e interesse, em todos os seguimentos e possibilidades da vida. Por nos amarmos a nós mesmos, sempre buscamos o melhor para nós, procurando satisfazer nossas necessidade e desejos. Amar o próximo como a nós mesmos, fará com que tudo o que buscamos para nós, e todo o cuidado que temos com nossas próprias vidas, sejam estendidos ao nosso próximo[9]. Aquele que ama a Deus, ame também a seu irmão.

Ao responder o escriba, Jesus o fez não só com segurança e autoridade de quem sabia o que respondia, mas teve sobretudo a legitimidade que nasce da coerência de quem fala aquilo que vive. Suas respostas eram insofismáveis, inquestionáveis, porque se provavam eficazes, a começar por ele mesmo, pois as tornava possíveis já que ele mesmo as cumpria em sua vida. E o amor de Jesus legitimou sua resposta ao escriba, calando seu inquiridor, de tal modo que ele mesmo se sentiu atraído pela mensagem do Reino de Deus.

Quanta gente vive testando Jesus? Quanta gente vive às margens do Reino, olhando por sua porta e por suas janelas, curioso, mas sem coragem de entrar. Quanta gente percebe que dentro desse Reino há tudo aquilo que sempre sonhou para sua vida, mas teme dar um passo para dentro de suas portas. Teme compromissos, teme mudanças, embora esteja cansado de tudo aquilo que vem vivendo. O escriba do texto que lemos, pretendia apanhar Jesus em uma "pegadinha", mas foi ele quem acabou tendo o coração fisgado pelo amor de Jesus. Amor presente em sua resposta, e flagrado em sua vida.

Se você entende que não estás longe do Reino de Deus. Se você está ouvindo isso, não fique parado na porta. Entre. Deus o receberá por seu amor e graça. Esteja como estiver, seja quem for. Uma coisa é certa: Ninguém lhe empurrará para dentro. Esse passo de fé precisa ser seu. Legitima e exclusivamente seu. Tão somente seu. Porque quem faz por obrigação, não é perfeito em amor.


Por Jânsen Leiros Jr


[1]  Mateus 23: 23
[2]  Mateus 23:24
[3]  Deuteronômio 6:4-5
[4]  Mateus 22:40
[5]  Gálatas 6:2
[6]  Oséias 6:6
[7]  1 João 4:7-8
[8]  1 João 3:6; 5:2
[9]  1 João 4:20-21

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Je prie pour le Brasil


1 Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, 2 em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito. 3 Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador, 4 o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.”
                      1 Timóteo 2:1-4 – RA


1 Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. 2 De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. 3 Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, 4 visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. 5 É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. 6 Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. 7 Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra.”
                      Romanos 13:1-7 – RA (ver também Jeremias 29:7)

É flagrante e crescente a onda de pessimismo que vem acometendo os diversos seguimentos da sociedade brasileira, quanto ao futuro próximo de nosso país. O noticiário vem acumulando fatos que têm estarrecido a população mais atenta aos rumos da nação. Mudanças de regras, inversões de prioridades, corrupção e instabilidade política, apontam para dias difíceis e conjunturas nada favoráveis a um transcurso tranqüilo e próspero da vida de nossa gente.

É claro que em circunstâncias como essas, os menos favorecidos, os pobres e os dependentes de amparo do Estado são sempre os mais prejudicados, ainda que pela falta de informação ou mesmo de formação, não sejam capazes de perceber o caminho nada promissor que a conjuntura sócio-econômica vem trilhando. Iludidos por paliativos que lhe mitigam as necessidades mais imediatas, são incapazes de enxergar que o futuro e o horizonte pode lhes estar sendo negados, à medida que as vigas para um amanhã consistente, oscilam afundadas em um lamaçal de negociatas de uma gestão confusa e de eficácia duvidosa.

Na outra ponta dessa corda, estão os presumidamente esclarecidos, que imaginam perceber as “ciladas” e “artimanhas” da atual administração pública, rebelando-se e multiplicando-se em críticas e acusações que oscilam entre infundadas e totalmente aceitáveis, demonstrando uma indignação latente e pulsante, mas que em contrapartida, admitem que o remédio, agora, terá mesmo que ser amargo, dada a extensão dos danos que a gestão doente sofreu. De prático, sobram críticas e dedos em riste, faltam idéias e soluções plausíveis, menos dolorosas para a maioria dos brasileiros. Falo maioria, porque obviamente há aquela parcela bem minoritária da sociedade, para quem as condições que o país atravessa, parece pouco incomodar ou mesmo em nada atingir suas vidas supostamente seguras e inatingíveis por questões menores e sem importância.

E nós cristãos, o que pensamos disso tudo? O que esperamos? Em quem acreditamos? Para qual lado torcemos ou tendemos? Somamos com os que acreditam que tudo o que tem aparecido na mídia é uma conspiração política para aplicar um golpe no governo legitimamente constituído, ou nos juntamos aos que apontam o dedo acusando a gestão pública de incompetência e corrupção, culpando-os exclusivamente pelas circunstâncias em que se encontra o país? De ambos os lados há razões e sobram argumentos, e qualquer discussão a respeito não parece melhorar em nada a realidade premente e preocupante.

Alheio a conflitos, mas atento à conjuntura e às circunstâncias sociais em que estavam inseridos os cristãos do primeiro século, Paulo exorta Timóteo a orar pelos reis e autoridades. Quer queiramos, quer não, vivemos em uma sociedade civil. Um país onde as decisões e os rumos definidos por seus governantes têm impactos diretos e indiretos em nossa vida cotidiana. O apóstolo sabia disso e entendia que a tranqüilidade e a facilidade para continuar pregando o evangelho atendendo à vontade de Deus de que todos sejam salvos, dependia de uma condução ordenada e calma por parte das lideranças políticas daquela região.

Ao dizer para orar por todos os homens, Paulo pretende que Timóteo não se furte de orar por um ou outro determinado governante, seja ele quem for, pense ele o que pensar, seja ele pagão ou não. Paulo amplia assim a percepção de Timóteo de que a pluralidade da condição humana não pode estreitar-nos em uma visão elitista e exclusivista. O importante era pedir a Deus que lhes garantisse uma condição social mansa e tranqüila, para que pudessem viver piedosamente, adorando e servindo de testemunhas de Deus sempre que oportuno.

Em Romanos, Paulo adverte quanto à importância do respeito e à submissão aos governantes, por Deus investidos de autoridade. Desse modo ele ressalta que Deus se mantém no controle da história, e seja lá de que modo tal autoridade tenha sido estabelecida, se por Deus não lhe fosse dado tal poder, ela não seria autoridade. Como já havia sido dito anteriormente por Jesus a Pilatos:


10 Então, Pilatos o advertiu: Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade para te soltar e autoridade para te crucificar? 11 Respondeu Jesus: Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fosse dada; por isso, quem me entregou a ti maior pecado tem.”
                      João 19:10-11 - RA

Portanto submissão às autoridades e súplicas a Deus por elas, é agradável ao Senhor. É a busca por dias menos difíceis para o conjunto da nação. A briga política não é nossa vocação direta, mas sim as intercessões, súplicas e ações de graças.

Ora, até quando assistiremos ao noticiário da TV, apenas emitindo indignadas considerações, sem levantar um clamor sincero e responsável a Deus em favor de nosso país? Se o mundo jaz no maligno, o Brasil não está diferente. É nossa responsabilidade suplicar a Deus por nossa nação. Ainda que sejamos peregrinos em terra estranha, como vivia Israel no exílio em Babilônia.


4 Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel, a todos os exilados que eu deportei de Jerusalém para a Babilônia: 5 Edificai casas e habitai nelas; plantai pomares e comei o seu fruto. 6 Tomai esposas e gerai filhos e filhas, tomai esposas para vossos filhos e dai vossas filhas a maridos, para que tenham filhos e filhas; multiplicai-vos aí e não vos diminuais. 7 Procurai a paz da cidade para onde vos desterrei e orai por ela ao Senhor; porque na sua paz vós tereis paz.
                      Jeremias 29:4-7 – RA

Que Deus nos inspire contínuo sentimento de intercessão por nosso povo e por nossa nação, para dias de paz e mansidão nos sejam concedidos. Para que o evangelho de Jesus possa ser pregado com singeleza de coração, em meio à tolerância e boa vontade.

Um forte abraço...
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