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domingo, 27 de dezembro de 2015

Acúmulos e simpatias; garantias?


Por Jânsen Leiros Jr.


"13 Disse-lhe alguém dentre a multidão: Mestre, dize a meu irmão que reparte comigo a herança. 14 Mas ele lhe respondeu: Homem, quem me constituiu a mim juiz ou repartidor entre vós? 15 E disse ao povo: Acautelai-vos e guardai-vos de toda espécie de cobiça; porque a vida do homem não consiste na abundância das coisas que possui. 16 Propôs-lhes então uma parábola, dizendo: O campo de um homem rico produzira com abundância; 17 e ele arrazoava consigo, dizendo: Que farei? Pois não tenho onde recolher os meus frutos. 18 Disse então: Farei isto: derribarei os meus celeiros e edificarei outros maiores, e ali recolherei todos os meus cereais e os meus bens; 19 e direi à minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te. 20 Mas Deus lhe disse: Insensato, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? 21 Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus."
Lucas 12:13-21 - JFA

Final do ano chegando! E como de costume nos deparamos com pessoas que se ocupam em planejar seus ritos de virada de ano, imaginando atrair coisas boas e positivas para suas vidas e para a vida de seus familiares. São pequenos gestos e manias, a princípio inofensivos, que na verdade traduzem nossa constante inclinação por garantias. Usar roupas de uma ou outra cor, mergulhar no mar, comer determinadas comidas, fazer gestos ou falar umas e outras palavras... Tudo com o tempero das simpatias de fim de ano.Um jogo de lógica retributiva, onde a força a que ou a quem se pretende agradar, recompensará com algo bom e relevante. Eu faço isso, logo garanto aquilo. "Não custa nada tentar. Vai que dá certo!" Ou, "pelo menos eu fiz a minha parte".

Nos versículos seis e sete desse mesmo capítulo, Jesus falou de não temermos circunstância desfavorável, porque Deus, que cuida de passarinhos tão baratos, muito mais cuidará de nós. Porém a soberba humana natural é buscar segurança no ter e no fazer. Ter recursos materiais e com eles a sensação de controle, ou fazer alguma coisa por si mesmo, que garanta ou se pretenda a garantir que o que se quer será. São nossas tão sonhadas garantias, que se sustentam prioritariamente naquilo que é tangível, naquilo que é palpável. Esperar importa em incerteza e isso é sinal de fraqueza. Afinal, quem sabe faz a hora não espera acontecer.

Foi requerendo esse tipo de garantia, que o filho desfavorecido de uma determinada partilha, pediu a interveniência de Jesus. O texto não registra as razões que o levaram a ter sido injustiçado, ou ter a sensação de não haver sido favorecido justamente na partilha. Mas de qualquer forma, ao sentir-se prejudicado, ele pediu que Jesus interviesse, trazendo para aquela circunstância, a justiça a que entendia ter direito. Jesus porém não só se eximiu de tal responsabilidade, como reforçou por parábola, a ideia de que recursos materiais em nada podem garantir a justiça, ou o cuidado de Deus. Ninguém pode produzir a própria justiça.

Na parábola, o homem rico e avarento, diante da prosperidade de seus campo, a despeito de já ter produzido o bastante para seu sustento e para o bom lucro de seu empreendimento, não pensou em estender ajuda a quem quer que fosse. Antes ele pensou apenas em si mesmo e na garantia de seu próprio futuro; na segurança dos dias vindouros. Ele decidiu ampliar sua capacidade de armazenamento, para que tais recursos lhe permitissem descansar de suas preocupações com o amanhã.

Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te. Essa é toda a insensatez das garantias materiais e da segurança que advêm dos recursos estocados; nada pode garantir a vida, ou a possibilidade de aproveitar o que se acumulou. Insensato, esta noite te pedirão a tua alma. Em outra tradução diz Louco!... Ora, se o acumulo de bens e a segurança nas riquezas é vã mesmo para quem a tem de verdade, quanto mais fugaz é a sensação de se garantir em pequenas posses ou simpatias, para aqueles que pouco ou nada têm. Mas são muitos os que, mesmo vivendo remediadamente, acreditam que suas seguranças e garantias, podem estar condicionadas ao que lhes seja palpavelmente conquistado, ou presumivelmente encaminhado.

E o que tens preparado, para quem será? A avareza e a ansiedade de acumular o bastante para um futuro que não pode ser garantido pela posse de qualquer riqueza, fez com que aquele homem não se permitisse ser generoso, e ajudasse alguém com o que lhe sobejava. Sua insensatez culminou na distribuição, não só do que lhe sobraria, mas de tudo o que já havia guardado. Toda sua riqueza se perdeu, quando perdeu a própria vida.

Quando no deserto, o povo de Israel, liberto da escravidão do Egito, precisou aprender a depender do sustento de Deus dia a dia, alimentando-se do maná que descia do céu toda manhã. E não podia nem mesmo guarda-lo de um dia para o outro pois estragava. Era preciso confiar que no dia seguinte, nova porção do cuidado de Deus se encarregaria de suas necessidades. A única garantia que tinham, era o cuidado, a providência e a fidelidade de Deus.

Garantias materiais não combinam com fé. Ser generoso é abençoar o próximo com a prosperidade do que Deus nos concede. Quão melhor é dizer comam, bebam, aproveitem... comigo, tudo isso que Deus me proporcionou. Não são as cores certas, nem as palavras exatas, e muito menos a quantidade de mergulhos que moverão a mão de Deus. Mas sim o seu amor e o seu cuidado, no que devemos confiar e descansar.

Vivemos buscando recompensas e prosperidade que garantam nossa segurança e confiança no futuro, quando na verdade esse futuro precisa, por fé, ser garantido e sustentado por Deus. Que nossa fé se exercite na dependência de Deus, e que a eventual prosperidade ou a falta dela não nos torne insensatos e loucos, buscando em mandingas ou posses, as garantias de que haverão de nos dar aquilo que pedimos ou pensamos.
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