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segunda-feira, 24 de março de 2025

Bereshit Bara - o eterno amor criador de Deus

Por Jânsen Leiros Jr. 

Bereshit bara Elohim

  • Hebraico: בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים
  • Grego (Septuaginta): ν ρχ ποίησεν Θες
  • Inglês: In the beginning, God created
  • Português (versão RA): No princípio, criou Deus 

Na teologia cristã, a primeira palavra do Gênesis, Bereshit (בְָרֶאִשִׁיתְ), carrega um significado profundo e essencial para a compreensão da criação. Traduzida geralmente como "No princípio", Bereshit não marca um ponto temporal específico, mas, em vez disso, indica uma intencionalidade divina: um desejo que brota do amor pleno de Deus em Sua eternidade, onde não há noção de tempo, mas um querer divino. Deus, sendo eterno, não é limitado pelo tempo. Assim, o que se revela aqui não é apenas um "início", mas uma vontade divina que se cumpre imediatamente — não por mágica ou sem processos, mas porque nada pode impedir o querer de Deus de se realizar. "Querendo Eu, quem impedirá?" (Isaías 43:13). Não há distância entre o querer e a realização, mas isso não significa ausência de tempo ou processo; ao contrário, Deus age no tempo e em conformidade com ele, mas Sua vontade transcende o tempo, porque Ele é Senhor do tempo.

Santo Tomás de Aquino define Deus como ipsum esse subsistens (o próprio Ser subsistente), enfatizando que Ele é a fonte última e razão de toda existência. A doutrina da creatio ex nihilo (criação a partir do nada) ensina que Deus não utilizou uma matéria pré-existente, mas trouxe a realidade à existência pelo poder de Sua Palavra: "Bereshit bara Elohim..." ("No princípio criou Deus...") — Gênesis 1:1.

No entanto, a questão que se coloca é: se Deus criou todas as coisas do nada, como se dá essa criação? E mais importante, qual a motivação divina para tal ato? A teologia cristã propõe que a criação é, antes de tudo, um ato de amor. Deus, sendo amor em Sua essência (1 João 4:8), cria não por necessidade, mas por um transbordamento de Sua plenitude. Nesse contexto, Bereshit não marca apenas um "início", mas revela um movimento de doação. Deus, que nada precisa, escolhe criar para compartilhar com a criatura o Seu amor.

Ao deslocarmos a compreensão para o "querer" de Deus, entendemos que a criação não está subordinada a um processo temporal ou a uma causalidade física, mas sim a uma vontade divina plena. Em Deus, não há intervalo entre o querer e sua concretização, porque Ele não está limitado pela cronologia. No entanto, isso não significa uma criação instantânea sem processos ou sem o prazer de Deus na construção do momento certo. Deus se alegra nos processos que Ele mesmo institui, respeitando as condições adequadas e o instante plenamente oportuno para Sua ação. A criação, portanto, é um ato de liberdade plena, mas também uma ação ordenada, que respeita as condições estabelecidas por Deus, sem que isso implique em limitações para Ele. A criação não é fruto do acaso, nem de uma sequência de causas físicas ou químicas. O que importa não é o "como" ou o "quando" da criação, mas o "querer" divino, que se realiza sempre no momento ideal, segundo o Seu plano perfeito.

Essa compreensão amplia a visão teológica do relato de Gênesis. O texto mosaico não tem a preocupação de descrever o mecanismo da criação, mas sim sua motivação. A criação não é apenas um evento cósmico; é um ato de amor, um gesto de doação plena do Criador. Deus não apenas chama a existência, mas chama para a comunhão. Seu amor transborda na criação como um convite para a criatura participar de Sua plenitude. Esse padrão de doação se repete ao longo da revelação bíblica: Deus se entrega na criação, na aliança com Seu povo e, finalmente, na encarnação de Cristo, que é a suprema expressão do amor divino. "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito..." (João 3:16). A criação, portanto, não é um fim em si mesma, mas o início de uma história de amor, que culmina na redenção e na comunhão eterna entre Criador e criatura.

Bara: A Criação como Ato de Doação Divina

Se Bereshit nos introduz ao princípio absoluto, Bara nos revela a essência do ato criador de Deus. Diferente do verbo hebraico que poderia ser traduzido como "fazer" ou "moldar", Bara é usado exclusivamente para Deus e significa "trazer à existência" algo que antes não existia. Isso nos leva a uma questão fundamental: de onde vem tudo o que existe?

A resposta, dentro da compreensão do amor divino, está na própria essência de Deus. Ele não apenas decide criar; Ele se doa para que a criação exista. Isso significa que não há uma matéria preexistente fora de Deus da qual o universo pudesse ser formado. O "nada" absoluto, como imaginamos, não poderia coexistir com Deus, pois Ele é o próprio ser absoluto, e nada poderia existir além d'Ele antes do ato criador. Assim, quando Deus cria, Ele não usa algo externo a Ele; Ele concede ser àquilo que antes não existia, e o faz como um ato de amor.

Essa compreensão nos afasta do panteísmo, que dilui Deus na criação, e nos aproxima de uma visão panenteísta ajustada: tudo vem de Deus, mas Deus não é tudo. A criação é uma extensão do Seu amor, não uma redução de Sua essência. Ele não se esgota ao criar; ao contrário, Ele manifesta sua plenitude ao doar-se.

Esse princípio se torna ainda mais claro quando olhamos para a progressão da criação. Deus não apenas cria seres inanimados, mas também doa autonomia às suas criaturas: "árvores com frutos, e dentro dos frutos suas sementes" (Gn 1:11), um ciclo perpétuo de vida que não prescinde da fonte, mas também não é um prolongamento absoluto dela. O mesmo ocorre com o ser humano, dotado da capacidade de gerar vida, não como um criador absoluto, mas como um participante desse amor criador.

O ato criador de Deus, então, não é um mero gesto de poder, mas um autoesvaziamento amoroso. Se a criação já carrega em si um vislumbre desse amor doador, a encarnação de Cristo será a expressão máxima desse princípio. Aquele que "trouxe à existência" o universo através de Bara também se "esvazia" para restaurá-lo (Fp 2:7).

Assim, a criação e a redenção se tornam um único ato de amor: Deus que doa ser às criaturas para que elas existam, e Deus que se doa a Si mesmo para que elas voltem a Ele. O amor não poderia ser um mandamento imposto; ele é uma resposta natural ao amor que primeiro nos criou.

Dessa forma, Bara não é apenas um verbo da criação; é a expressão da própria natureza de Deus: Aquele que, por amor, doa-se para que tudo o mais exista.

A Criação Consumada no Amor: O Propósito Final de Deus

Portante, se em Bereshit compreendemos a intencionalidade divina e em Bara entendemos a criação como um ato de doação total de Deus, então a plenitude dessa obra encontra sua expressão final na cruz, no momento em que Cristo declara: "Está consumado" (João 19:30).

Não se trata de dizer que a criação se encerrou ali no sentido cronológico, mas sim que ali se revelou sua finalidade: o amor doador de Deus encontrou sua realização suprema na entrega de Cristo. O mesmo Deus que trouxe todas as coisas à existência por um ato de amor, agora se doa plenamente para redimir sua criação, restaurando nela a relação perdida pelo pecado.

Ao longo da história bíblica, vemos um movimento progressivo no qual Deus não apenas cria, mas se envolve, sustenta e direciona sua criação para um ponto de culminância. Em Cristo, Deus não apenas "fala" com sua criação, mas entra nela, assumindo sua própria substância para resgatar aqueles que formou. Esse movimento não contradiz Bara, mas o exalta: a criação começa no amor doador de Deus e se consuma quando esse amor atinge sua expressão máxima na redenção.

A ascensão de Cristo e a descida do Espírito Santo completam esse ciclo, pois, assim como Deus deu autonomia à criação no princípio, agora Ele concede à humanidade a possibilidade de corresponder livremente ao Seu amor. O Espírito não apenas confirma a obra de Cristo, mas também faz dela uma realidade interior na vida dos que creem, conduzindo a criação não apenas ao seu começo, mas ao seu propósito final.

Dessa forma, a frase "Está consumado" ressoa em harmonia com "No princípio criou Deus". O ato de criação e o ato de redenção não são distintos em essência, mas sim manifestações do mesmo amor eterno que é a própria essência de Deus. Tudo foi criado para que o amor divino se derramasse, e tudo se consumou para que esse amor fosse plenamente recebido.

Assim, ao refletirmos sobre a criação, vemos o amor como a força motriz e fundamental que sustenta tudo. E é justamente esse amor, ao longo da história, que nos convida a uma resposta contínua, até o momento em que toda a criação se unirá novamente ao Criador.

Criação e Doação: Deus como Fonte e Matéria da Existência

O conceito de criação remete a reflexões filosóficas antigas, como o Apeiron de Anaximandro, que representa um princípio ilimitado e primordial. No entanto, ao contrário da filosofia grega, a visão bíblica revela um Criador pessoal, cuja ação é intencional e amorosa.
Atos 17:28 declara: "Porque nele vivemos, nos movemos e existimos". Isso implica que Deus não é apenas a origem de tudo, mas também Aquele que continuamente sustenta todas as coisas. Contudo, a tradição cristã rejeita o panteísmo (a ideia de que tudo é Deus). A criação é distinta do Criador, embora dependa d'Ele para continuar existindo.
Orígenes e Gregório de Nissa propuseram que a criação é uma manifestação dos atributos divinos, sem que Deus perca Sua transcendência. O Logos (João 1:1) é a ponte entre Deus e o mundo criado, a expressão divina que permite a existência e a redenção. Nesse sentido, Bereshit não indica apenas um começo temporal, mas um princípio sustentador e permanente, um ato contínuo de amor e doação.

Deus se Doando na Criação: Um Amor Kenótico

Se a criação é um ato de amor, então Deus, ao criar, está se doando. Esse princípio se encontra na base do conceito de kenosis (autoesvaziamento), que atinge seu clímax na Encarnação de Cristo (Filipenses 2:7). Deus, que nada necessita, escolhe dar-Se ao mundo, sustentá-lo e, mais tarde, entrar nele na pessoa de Jesus Cristo.
Esse amor desapegado também encontra um paralelo no conceito judeu do Tzimtzum, da tradição cabalística: Deus, para criar, "contrai" Sua presença infinita, permitindo que algo além d'Ele venha à existência. Embora essa não seja uma doutrina cristã, ela oferece um paralelo interessante para entender a kenosis divina: um Deus que, por amor, "abre espaço" para que outros seres possam existir e escolher livremente amá-Lo.

O Amor que Sustenta e Convida

Deus não apenas cria e abandona a criação; Ele a sustenta continuamente (Colossenses 1:16-17). Esse sustento não é um mero mecanismo impessoal, mas um ato de relação e compromisso. O amor divino não é coercitivo, mas convidativo. Deus doa a existência, a liberdade e a graça, chamando o ser humano a corresponder a esse amor.
A parábola do filho pródigo (Lucas 15:11-32) ilustra essa relação. O pai concede ao filho sua parte da herança, permitindo-lhe sair e experimentar as consequências de suas escolhas. No entanto, quando o filho retorna, o pai o recebe com amor incondicional. Assim é Deus: um Criador que dá a existência, respeita a liberdade de Suas criaturas, mas permanece pronto a acolhê-las de volta em comunhão.

Conclusão: O Amor como Princípio e Fim

A criação é a primeira grande expressão do amor de Deus. Bereshit revela um princípio não apenas de tempo, mas de intencionalidade amorosa. Deus não apenas criou, mas sustenta, guia e chama Sua criação ao retorno para Si.
Se a criação nasce do amor e é sustentada pelo amor, então o destino final também é o amor: a plena comunhão com Deus. Como afirma Agostinho: "Nos criaste para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti" (Confissões, I,1). Se fomos criados por amor e para o amor, só nele encontraremos nossa plenitude. Bereshit não é apenas um princípio, mas um convite eterno ao relacionamento com o Criador.

Com isso, encerramos esta primeira parte sobre a criação. Agora, podemos avançar para a compreensão dos dias da criação dentro desta mesma linha de raciocínio, aprofundando como cada momento do gênese reflete esse movimento doador e redentor de Deus.

 

 

 

 

 


sexta-feira, 8 de maio de 2020

Cristão. Modo de existir


Por Jânsen Leiros Jr.


"11 Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós.12 Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós. Os discípulos, o sal da terra.13 Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. 14 Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte;15 nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa.16 Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.
Mateus 5:11-16 - ARA


"23 senão que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que me esperam cadeias e tribulações.24 Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus.
Atos 20:23-24 - ARA

O mundo sempre se apresentou desafiador e extremamente hostil ao cristão. Isso é até muito comum e não tem qualquer novidade nisso. Mas a pós-modernidade vem se demonstrando ainda mais desafiadora, à medida que as sutilezas de suas investidas e as camuflagens de suas armadilhas, se tornam muito parecidas com promoções piedosas de espiritualidade e fé. E em tempos de mundo líquido[1], certezas insofismáveis se diluíram em oportunas relatividades, que colocam em xeque a solidez de nossas convicções.

Acrescenta-se a isso, que com o avanço tecnológico e a acessibilidade oferecida pela internet, temos à disposição um vasto cardápio de alimentos para a alma. Sem muito esforço, podemos ler quase tudo sobre qualquer coisa que se apresente como espiritual. Podemos ouvir diversos pregadores de variadas linhas teológicas, e até mesmo os que não têm linha alguma. É possível ainda, mesmo quando não buscamos absolutamente nada, sermos alcançados por múltiplas possibilidades de conteúdo gospel, que lutam por nosso interesse e adesão.

Ora, em um mundo de ofertas e oportunidades, vence a concorrência por nossa atenção, as promessas de vida de abundâncias, de prosperidade financeira, de alegria perene, de mimos de Deus, e de bençãos sem medida. Tudo adornado com uma aparente piedade, que tenta camuflar a centralidade humana aplicada, que nenhuma outra coisa busca, senão a satisfação dos próprios interesses, das conveniências mais prementes, e até de desejos mais inconfessáveis. Sim, porque afinal, Deus nos honra.

Mas pensem. Quem, faminto, não estenderá a mão ao primeiro pedaço de pão que se lhe oferece? Ou mesmo quem, com fome, diante de um banquete apetitoso, não irá tratar de se saciar, sem nem mesmo perguntar sobre o preparo da comida? Acontece que, ao nos refestelarmos com os alimentos fermentados oferecidos por lobos, acabamos por rejeitar a refeição servida pelo Cordeiro. Afinal, estamos satisfeitos e talvez até de barriga cheia.

Sim. Porque se vivemos em um mundo caótico, onde a dor e a angústia invariavelmente nos assola, como não nos sentirmos muito mais atraídos por aqueles que dizem pare de sofrer, em vez de seguirmos quem nos diz que a nós nos esperam cadeias e tribulações? É certo que escolhemos a vida apelativamente mais feliz, e optamos por dias menos sofridos.

Acontece que esse não é o caminho oferecido por Jesus. Nunca foi! Esse não é o modo de existir dos cristãos. Ao contrário de uma vida de mimos, barganhas e recompensas materiais, a mensagem para nós sempre foi bem outra: No mundo tereis aflições[2], e bem-aventurados sois quando vos perseguirem. A recomendação é que escolhamos a porta estreita e o caminho apertado[3], e ainda que peguemos cada qual a sua cruz[4] e o sigamos... para a morte.

No sermão da montanha, não é sem razão que a declaração de que devemos ser sal e luz está na sequência das perseguições e das injúrias. Não podemos fugir do que somos, para escaparmos das consequências. Não podemos perder nossas características que nos distinguem, ou mesmo nos escondermos para evitar sermos vistos. É nosso dever salgar e iluminar, conservar e apontar o caminho. Denunciar e anunciar - papel primordial de profetas. Somos chamados a testemunhar, ainda que por tal testemunho nos seja dificultada a vida, como foi a muitos no passado e ainda o é, a cristãos espalhados pela África, Oriente Médio e Ásia, sem contar as perseguições nossa de cada dia.

Qual é o sentido de nossa existência como Igreja? E qual o propósito da nossa comissão, se não testemunhar com confiança, ousadia e coragem? Do contrário, poderia tudo ficar como estava antes da cruz. O mundo longe de Deus, e todos nós ocupados com nossas vidas fugazes, atrelados a instituições religiosas, e entregues à satisfação de nossas consciências e à vaidade humana.

Se como afirmou o apóstolo João, Deus é amor[5], tal amor se traduziu em entrega doadora e incondicional. Logo concluímos que Deus é doador, e importa que seus adoradores o adorem em espírito de doação. Assim, minha existência não pode ter outro sentido, senão o da plena e desmedida doação, de entrega efetiva, e de empenho na tarefa de ser sal e luz. Custe o que custar. Aliás, como diria Davi, não ofereçamos a Deus aquilo que não nos custe[6], ainda que nos custe a vida.

Se esperamos em Deus apenas para essa vida, nos diria o apóstolo Paulo, somos os mais miseráveis dos homens[7]. Mas para além disso ele mesmo também diria que em nada devemos ter a vida por preciosa, porque, na verdade, o viver é Cristo e morrer é lucro[8].

               Portanto, não podemos ser ociosos no trabalho do Reino. O sentido de existir do cristão é trabalhar em testemunho. É denunciar o pecado de se dar as costas a Deus, e anunciar o seu perdão em Cristo. Enquanto é dia. A noite vem, quando ninguém poderá trabalhar[9]. Enquanto há em nós fôlego de vida e disposição para o serviço. Pois logo a noite de nossas existências chegará, e nada mais haverá para fazer. E o que duramente acumulamos em nossos celeiros, para o quê servirá?


[1] Expressão cunhada pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que tratava das diluições das sólidas e comunitárias visões de mundo, em favor de um pensamento individual e conveniente desse mesmo mundo.
[2]  João 16:33
[3]  Mateus 7:14
[4]  Lucas 9:23-24
[5]  1 João 4:8
[6]  2 Samuel 24:24
[7]  1 Coríntios 15:19
[8]  Filipenses 1:21
[9]  João 9:4

domingo, 25 de setembro de 2016

Doação, sentido da vida



"16 Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e nós devemos dar a vida pelos irmãos. 17 Quem, pois, tiver bens do mundo, e, vendo o seu irmão necessitando, lhe fechar o seu coração, como permanece nele o amor de Deus? 18 Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obras e em verdade.
1 João 3:16-18


Por Jânsen Leiros Jr.

Não há como negar. Volta e meia ao longo de nossa vida, por diversos motivos, somos levados a fazer-nos uma íntima e inquietante pergunta: pra quê tudo isso? Seja diante de dificuldades nos relacionamentos, seja diante das perdas materiais ou afetivas, ou ainda por conta de insucessos profissionais ou financeiros, a busca por um sentido que seja transcendente a todas as oscilações circunstanciais da vida, segue como a meta mais legítima e ao mesmo tempo mais desafiadora para a alma humana.

Nesse encapelado mar de ideias, impulsos e reações, um propósito para a vida funciona como uma âncora que pode firmar-nos em conceitos e princípios inegociáveis, que nos impeçam de vagar à deriva, jogados por tempestades de emoções imprevisíveis. Um sentido para a vida define a rota, permitindo que saibamos o caminho, não obstante qualquer desventura.

Quando falamos de sentido para a vida, não falamos de objetivos, alvos ou metas. Essas coisas, obviamente importantes, não são o sentido da vida. Todos queremos ser felizes. Todos queremos vivenciar relacionamentos afetivos bem-sucedidos, ou ainda ter uma vida tranquila. Esses alvos ou objetivos, como queiram chamar, são obviamente importantes e louváveis, mas não são o propósito.

Analisando tais metas de vida, quem pode dizer que estejam errados? Certamente qualquer um apreciará quem elencar esses alvos como objetivos de vida, e como sendo o lugar onde pretende chegar em sua caminhada. E isso é extremamente bem-vindo. Aliás, o fato de possuirmos em quase a totalidade na humanidade os mesmos objetivos de vida, por si só já os legitima como aceitáveis, probos e preferíveis.

Acontece que ter alvos definidos diante dos olhos, não garante ao arqueiro que os irá atingir. É preciso ter um sentido, um propósito. É preciso definir a estratégia, o modo de ir até o seu destino. Ao arqueiro será necessário definir a trajetória da flecha, assim como ao navegante ajustar a rota até o ponto de chegada. O sentido da vida é o que determina como eu vou até onde eu quero chegar.


" 12 tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; 13 até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo; 14 para que não mais sejamos meninos, inconstantes, levados ao redor por todo vento de doutrina, pela fraudulência dos homens, pela astúcia tendente à maquinação do erro; 15 antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo,
Efésios 4:12-15


Como cristãos que somos, nossa meta primordial na vida é nos tornarmos iguais a Cristo; nosso alvo por excelência. Mas é preciso ressaltar que para atingirmos esse objetivo, precisaremos de propósitos firmes e transformações convincentes, que se farão o caminho que nos levará ao destino tão pretendido; a imagem de Cristo em nós.

Ora, se Deus é amor, logo o amor é sua forma de existir. Amar é a vida de Deus. E se a doação é a forma invariável como realiza seu amor para com a humanidade[1], a doação é a maneira com que a essência amorosa de Deus melhor se revela para nós. Deus é um doador por excelência e a doação é o seu amor em ação. Deus doa desde o princípio. Dando de si criou os céus, a terra e tudo o que neles há. Doando de si mesmo formou tudo o que trouxe à existência.

Ao doar-nos tudo e tantas coisas, o próprio Deus nos doou o próprio sentido da vida, elaborando um propósito que se sustenta sobre tudo o que Ele mesmo nos deu. Foi assim que ganhamos vida plena e vida em abundância[2]. A vida plena é aquela capaz de desenvolver todas as suas possibilidades em todos as abrangências em que tal vida atua. A vida plena é uma vida que se realiza. E essa realização é tanta, que sobeja, sobra, transborda. É uma vida abundante porque não se cabe. E por não se caber se doa. Por isso doamos vida. Porque a temos além do que podemos viver.

O Deus doador doou-nos também o seu Espírito, e isso é extremamente revelador de sua vontade, e esta em relação a um propósito de vida. Sim, porque Aquele que vivia nos céus e visitava a humanidade conforme relatos do Antigo Testamento, e que durante o ministério de Jesus esteve habitando entre nós, segundo os evangelhos, por seu Espírito fez de nós sua morada, vivendo em nós. Ora, isso não pode significar outra coisa senão que Deus vive através de nós. Não dissemos nós que ser pai é ter o coração batendo fora do corpo, em outros corpos, nos corpos de nossos filhos? A exemplo de Deus, doar de nós mesmos ao próximo é viver nele nossa vida transbordante.

Entre outras tantas coisas doadas por Deus à humanidade, está a sua Palavra, escrita e encarnada, ensinando e instruindo, admoestando e provocando cada indivíduo a uma vida de santidade e devoção por gratidão; Ele nos amou primeiro[3]. E por isso deu-nos sua Palavra encarnada, resgatadora e salvadora de todo aquele que nela crê[4]. Não a compramos. Não demos nada em troca. Foi-nos tudo doado por amor; vida, Palavra, salvação. Não vem de vós, diz o texto de Efésios, é dom de Deus. Não vem dos homens para que ninguém se glorie[5].

Em Deus podemos viver vida santa e reta, em total dedicação ao seu reino e devoção à sua glória. Nesse propósito de vida encontramos satisfação e contentamento, pois n’Ele podemos todas as coisas, inclusive passarmos pelas piores condições de existência[6]. Quando o sentido da vida descansa em tudo aquilo que Deus doou, vivemos contentes porque não olhamos circunstâncias nem situações fugazes. Mesmo que vantajosas; não me guio por vista dizia a canção. Grato a Deus pelas promessas que nos orientam a uma relação íntima com Ele, sabemos que podemos dar sem medo; seu cuidado nos sustenta e seu amor não falha. Fiel é Deus, em quem não há sombra de variação[7]. Nosso trabalho não é vão no Senhor[8].

Portanto, a doação é a forma mais contundente e inegável de nos assemelharmos a Deus. Ao doarmos replicamos a atitude divina de constante doação em amor. E se o propósito da vida é chegar à sua imagem e semelhança, a doação é o grande sentido de nossas vidas. Deus é doador, e importa que os verdadeiros adoradores vivam em espírito de doação.


Veja também o artigo A vida pode ter sentido; 



[1] Salmos 86:15 e 5
[2] João 10:10
[3] 1 João 4:19
[4] João 3:16
[5] Efésios 2:8-9
[6] Filipenses 4:12-13
[7] Tiago 1:16-17
[8] 1 Coríntios 15:58

sábado, 10 de setembro de 2016

Eu, Tio Patinhas e o dízimo


Por Jânsen Leiros Jr.


"8 Pode um ser humano roubar algo de Deus? No entanto estais me roubando! E ainda ousam questionar: ‘Como é que te roubamos?’ Ora, nos dízimos e nas ofertas! 9 Estais debaixo de grande maldição, porquanto me roubais; a nação toda está me roubando. 10 Trazei, portanto, todos os dízimos ao depósito do Templo, a fim de haja alimento em minha Casa, e provai-me nisto”, assegura o SENHOR dos Exércitos, “e comprovai com vossos próprios olhos se não abrirei as comportas do céu, e se não derramarei sobre vós tantas bênçãos, que nem conseguireis guardá-las todas. 11 Também impedirei que pragas devorem as vossas colheitas, e as videiras nos campos não perderão o seu fruto!”, promete Yahweh dos Exércitos. 12 “E todas as nações vos chamarão ‘âshar, bem-aventurados; porque a vossa terra será maravilhosa!”, promete o SENHOR dos Exércitos.
Malaquias 3:8-12 - KJA

Se tem um assunto polêmico e extremamente controverso em nosso meio, é o que trata de dinheiro. Toda vez que lideranças tocam no assunto, ou toda vez que pastores conclamam suas assistências a entregarem seus dízimos e suas ofertas, há em grande parte da plateia, ou mesmo entre os que assistem aos cultos pela TV ou pela internet, um enorme e incômodo desconforto.

Essa polêmica varia em grau conforme o perfil e origem da plateia, mas sempre é polêmica. Há muitos que encobrem suas posições contrárias, e outros que, por medo da avaliação de terceiros, agem conforme a maioria e seguem o fluxo da manada que vai para lá e para cá, muitas vezes sem qualquer sintoma genuíno de aceitação. Já que é para fazer, façamos.

Talvez, por essa razão, me chovam perguntas sobre dízimo e sua pertinência, sobre ofertas e sua necessidade no mundo pós Novo Testamento. Sempre me deparo com gente querendo legitimar sua vontade de reter consigo, o que se vê obrigado a dar. E por isso tentam encontrar, desesperadamente, alguém que lhes indique um caminho para a negação. Porém, mais do que um presumido contexto neotestamentário, o que mais provoca a inquietação com esse assunto está muito mais afeto à ligação que cada indivíduo desenvolve com o dinheiro em seu íntimo.

Num mundo em que tudo é relativo, obrigações e costumes seguem se alternando como legítimos e improcedente, atuais ou caducos, gerando sempre questionamentos sobre aplicabilidades e usos. E com o assunto dinheiro na igreja não poderia ser diferente. Afinal de contas, perguntou um leitor essa semana: o dízimo é ou não uma obrigação?

Por um momento, e para evitar o embate desde o primeiro parágrafo da resposta, vamos deixar temporariamente a palavra obrigação de lado e vamos tecer comentários sobre uma ótica alternativa; porém, bastante interessante, acredito. Sim, porque se tem uma coisa que no reino de Deus parece ter caído em desuso é a obrigação como ato aparente de cumprimento a um rito; esse povo honra-me com seus lábios, mas seu coração está longe de mim. No reino de Deus há um abandono ao que é aparente, e uma extrema valorização do que é essencial. O conhecido Sermão da Montanha traduz isso maravilhosamente bem.

Sendo assim, prefiro encarar o dízimo como um ato de adoração e desafio de fé, como desafiado foi o povo de Israel na passagem de Malaquias acima. Dízimo é adoração porque é desprendimento. Sou eu dizendo para mim mesmo que posso entregar o que recebi, porque por ação e cuidado de Deus haverá sustento, ainda que a princípio tal parcela pudesse fazer falta em meu orçamento doméstico. E o tamanho dessa entrega varia conforme o orçamento, porque muito ou pouco, a décima parte de alguma coisa será sempre a décima parte dessa mesma coisa. Assim, aquele que é fiel no que é pouco também o será no que for muito. Quando dizimista, ninguém o é mais ou menos do que ninguém. Deus não faz acepção de pessoas. Todo dizimista é igual.

A literatura infanto-juvenil nos empresta um personagem ideal para o debate sobre dinheiro: Tio Patinhas. Amante do dinheiro, ele é a imagem do avarento que só acredita no poder do dinheiro para a movimentação e validação de tudo na vida. E por pensar assim, ele se torna um acumulador contumaz, crendo que quanto mais dinheiro retiver, maiores serão suas chances e possibilidades de ter o que pretende. Dar ou doar, são palavras abomináveis para qualquer avarento acumulador.

Quando entregamos o dízimo, não cumprimos uma obrigação tão somente. Damos um passo de fé, crendo que nosso sustento e a nossa vida cotidiana não dependem da décima parte do que ganho, porque quem me supre a vida pode muito mais do que essa décima parte. Está aí implícito um belo e delicioso exercício de fé. Ora, se acreditamos em milagres e curas, se cremos em salvação pela graça, onde eu nada faço por merecê-la, como não creio que Deus me sustentará ainda que com dez por cento menos na minha renda? Será que por ser o bolso a parte mais sensível do corpo humano é que pensamos assim?

Dízimo, assim, é adoração. É honra a Deus em exercício de fé. É a superação íntima de se crer no que se tem, para crer em quem nos tem. Dízimo é entrega e rendição. Porque tudo com o que mais nos importa na vida, quase sempre está ligado àquilo com o que mais gastamos tempo e dinheiro. Por isso dízimo precisa ser prazer e alegria. Aliás, Deus ama o que dá com alegria. Deus ama um coração doador.

Quando colocamos o dízimo como obrigação, colocamos nele um peso de culpa e medo. E o medo não é perfeito em amor. Dízimo é privilégio de quem devolve a Deus por exercício de gratidão, parte de tudo aquilo que Deus já nos deu. Dízimo, portanto, não é barganha. Eu não dou para poder receber. Eu apenas devolvo por fé parte daquilo que já recebi. Dízimo é testemunho de bênção. Se Deus é doador, importa que seus adoradores o adorem doando e doando-se.
                     
Existe sim um mistério nesse processo de doação, de entrega, e de obediência em fé. Quanto mais me entrego e me doo, mais recebo para mais doar e me entregar. É como um canal de fluxo de enchente e vazante, que se alternam ao sabor da vontade daquele que é o dono de todas as coisas. Quanto mais doamos mais parecidos com Deus ficamos, porque Ele é o doador por excelência. Fez isso com a vida, repetiu doando-se na salvação, e seguirá doando vida na ressurreição e pela eternidade afora. Ele dá sem nada pedir em troca. Há, sim, quem não queira receber. Mas ninguém precisa fazer nada para receber o que já está dado. Com Deus não há barganha. Ele não vende nem troca; dá!

O dízimo é um prazer.


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