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sábado, 23 de maio de 2015

A vida que nasce da fome e sede




“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos."
                      Mateus 5:6 - TB

Seguindo nosso passeio pelas pedras e relevos do Sermão do Monte, nos deparamos com a quarta bem-aventurança. Fome e sede parecem apontar a uma questão meramente social para alguns, confirmando o caráter anterior atribuído a pobres, presente na primeira bem-aventurança do discurso. E esse texto, ao longo de anos, de forma recorrente é utilizado como sustentação ideológica para diversos movimentos sociais mundo afora.

Não que ele não possa mesmo inspirar tais ações. Não que seja menos nobre utilizá-lo como instrumento de conscientização da necessidade de se realizar urgente justiça social em diversos países por todo o mundo, mesmo em países tidos como desenvolvidos ou países de primeiro mundo. Nada contra. Mas não podemos parar por aí, pois a mensagem do texto é ainda mais profunda e enriquecedora, podendo sim promover uma verdadeira justiça social, ampliando as possibilidades, através de pessoas profundamente motivadas pela ação da justiça de Deus em suas vidas.

Mas por que o texto não se refere à justiça social, à mitigação da fome e da sede dessa gente que necessita tão direta e urgentemente da ação do estado, e da solidariedade de quem não passou ou não passa por qualquer privação de necessidades tão vitais? Simplesmente porque esse não era o contexto e a circunstância em que o discurso do sermão foi proclamado. Não que a fome e a sede dessa gente não fosse uma preocupação de Jesus. Era, é, e sempre será. Mas naquele momento, ao proferir aquele sermão, quem tem a fome e a sede de justiça, seguiu o contexto do que se reconhece pobre de espírito, acompanhou o ritmo do que chora seu pranto, e caminhou junto ao manso que opta por confiar no cuidado de Deus. Quem tem fome e sede de justiça é um bem-aventurado.

Então essa fome e essa sede não podem se referir a um estado de carência de comida ou de bebida. Ou alguém se oferece a explicar qual seria a vantagem, ainda que futura, de se passar fome e sede? Sim, porque para quem sente fome e sede só há um bem a perseguir, um só objetivo; mitigar a fome e a sede o mais rapidamente possível. De modo que não há qualquer recompensa futura, que possa minimizar essa falta tão absoluta e urgente. Além disso, caso Jesus estivesse se referindo às necessidades de alimentação e hidratação, a frase teria sido: Bem-Aventurados os que passam fome e sede, porque serão saciados. Ora, quem tem fome e sede precisa de pão e água, não de justiça, pois não a poderia comer, e nem sequer beber.

É claro, não sou cego às vicissitudes da vida. A falta de justiça social pode, e na prática provoca mesmo, carências de diversas e importantes necessidades primárias ao indivíduo alijado de seus direitos mais básicos. Mas se tais necessidades existem e não são atendidas, onde estaria o consolo? Em que circunstância se basearia a bem-aventurança proclamada por Jesus? Numa saciedade futura onde não existirá isso que sofro no presente? Estaria Jesus dizendo: Passe aí um pouquinho de fome e sede pela injustiça do mundo, que logo você morre de inanição, e no paraíso você, ou não precisará de comida e bebida, ou lá haverá mesa farta e bebida à vontade. Penso que isso seria cruel e cínico, pra falar apenas o que me vem à cabeça de pronto.

Assim não nos sobram muitas alternativas. A fome e a sede a que se refere a quarta bem-aventurança, não é uma carência física, mas uma carência da alma. E não é apenas uma carência provisória e pontual. Trata-se de um desejo permanente pela justiça de Deus. Sim, justiça de Deus. Porque se serão fartos no porvir; se tal saciedade só se dará no futuro, assim como dos pobres será o reino dos céus, e assim como os mansos que herdarão a terra, se é nesse reino de Deus que ocorrerá a fartura da justiça pela qual tem fome e sede, essa justiça só pode ser a justiça de Deus. Mas por que um desejo permanente? Por que tal carência se perpetuará até a morte?

O contexto de todo o sermão de Jesus, aponta para um aprofundamento da conduta espiritual. Comparativamente, Jesus irá sempre confrontar a superficialidade religiosa e exibicionista dos fariseus, com a legítima contrição daquele que se reconhece pobre de espírito e carente de Deus, e por isso pranteiam a fragilidade de suas almas. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos Céus.[1]

Ora, então o que é a justiça de Deus pela qual devemos ser famintos e sedentos. E que justiça é essa nossa, que excedendo à dos escribas e fariseus, me fará entrar no Reino dos Céus? Precisaremos dar uma olhadinha nisso primeiro, antes de prosseguirmos, pois esse conceito é muitíssimo importante para nossa reflexão.

Antes de mais nada é necessário desconstruir alguns conceitos atribuídos à justiça em nosso senso comum. O que entendemos como justiça está intimamente ligado ao conceito forense, em que fazer justiça é retribuir um ato ilegal e por isso injusto, com aplicação de uma punição estabelecida na lei, de modo que o infrator "pague" pelo seu ato de injustiça. Portanto, justiça em nosso contexto cotidiano mais simples, remete à punição de culpados, ou reequilíbrio de "desigualdades"; dois pra lá, dois pra cá. Porém não é esse o sentido bíblico de justiça. Nela, os termos tsedãqâ no Antigo Testamento, ou dikaiosyné no Novo Testamento, estão muito mais ligados ao conceito de recuperação de uma condição, ou um resgate. Como uma redenção do condenado ainda no corredor da morte do tribunal celestial.

Como pode um homem ser justo para com Deus?[2] - pergunta Jó, acusado de ter cometido alguma injustiça diante de Deus, que explicasse sua desventura. Mas não somos todos injustos? - seria uma continuação possível de sua argumentação. Sim, eu diria a Jó, certamente somos todos injustos perante Deus. Como está escrito: Não há justo, nem sequer um.[3] Então a punição é justa e adequada. E não há quem possa dela escapar. Pelo menos não com subterfúgios, barganhas, ou mesmo sacrifícios de adulação. Pois todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como o vento, nos arrebatam.[4] Fizeste-me compreender que nem oferendas e sacrifícios desejaste; não requereste de mim holocaustos para remir meus pecados.[5] De modo que não só somos todos injustos, como também não há nada que possamos fazer por nós mesmos para nos resgatar da punição iminente.


“E creu Abrão no Senhor, e o Senhor imputou-lhe isto como justiça."
                      Gênesis 15:6  - JFA

É muito importante notar o que revela esse pequeno versículo, que mais tarde será citado no livro de Hebreus, já no Novo Testamento. Ele diz que a justiça não é realizada por Abraão, mas sim imputada a ele, atribuída, por um princípio de natureza e não de origem. Ele passa a estar justo (natureza), mas não foi ele que realizou tal justiça (origem). A quem pois então pertence a justiça? Pertence a Deus. E que justiça é essa? Essa justiça é o resgate do homem de sua condição de injusto, e que por injusto passível da punição.

Ora, quem é que depende da justiça de Deus? Todos. Mas a quem é que Deus a atribui? A quem crê. A quem reconhece que depende de Deus e sabe de sua pobreza espiritual. A quem pranteia essa condição de pobreza e chora. A quem aguarda o favorecimento imerecido de Deus, e não tenta agir por conta própria, se fazendo justo pelas próprias mãos. Por fim, a quem se encontra faminto e sedento por ela. Portanto a justiça de Deus é o resgate de quem crê. É o resgate do faminto e do sedento, fazendo dele um bem-aventurado.


1Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, 2 por quem obtivemos também nosso acesso pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e gloriemo-nos na esperança da glória de Deus."
                      Romanos 5:1 e 2 - JFA

Eis, portanto, a finalidade última da justificação; o resgate da relação entre Criador e criatura. A restauração de uma relação genuína, renovada e legítima. Profunda e muito mais abençoadora. Insaciável e capaz de fazer dessa fome e dessa sede, uma motivação decisiva na direção de uma conduta justa, que exceda à falsidade e à fantasia pseudo-devotada dos escribas e fariseus. Bem-Aventurado os famintos e sedentos dessa justiça; desse resgate. Bem-Aventurado os que se alimentam da vontade de Deus, e saciam suas sedes em poços abertos pela providência e pelo amor de Deus. Porque aquele que beber da água que eu (Jesus) lhe der nunca terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que jorre para a vida eterna.[6] Bem-Aventurado é aquele cuja iniqüidade é perdoada, cujo pecado é coberto.[7]

É portanto dessa relação que temos fome e sede. É desse convívio íntimo que dependemos por predileção. Bem-Aventurado somos por marcharmos nesse ciclo virtuoso, em que a carência jamais se esgota, ainda que a fartura jamais se acabe.



[1]  Mateus 5:20
[2] Jó 9:2
[3] Romanos 3:10
[4] Isaías 64:6
[5] Salmos 40:6
[6] João 4:14
[7] Salmos 32:1

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Rendição e obediência; inflexões de um discípulo





1 E aconteceu que, num determinado dia, Jesus estava próximo ao lago de Genesaré, e uma multidão o espremia de todos os lados para ouvir a Palavra de Deus. 2 Ele observou junto à beira do lago dois barcos, deixados ali pelos pescadores, que havendo desembarcado, cuidavam de lavar suas redes. 3 Então, entrou num dos barcos, o que pertencia a Simão, e lhe solicitou que o afastasse um pouco da praia. E, assentando-se, do barco ensinava o povo. 4 Assim que acabou de ministrar, dirigiu-se a Simão e aos demais, e lhes pediu: “Ide para onde as águas são mais profundas e lançai as vossas redes para a pesca!” 5 Ao que lhe replicou Simão: “Mestre, tendo trabalhado durante a noite toda, não pegamos nada. Todavia, confiando em tua Palavra, lançarei as redes. 6 Assim procederam e pegaram enorme quantidade de peixes, tanto que as redes começaram a se romper. 7 Por esse motivo acenaram aos seus amigos no outro barco, para que viessem ajudá-los. Eles chegaram e lotaram ambos os barcos, a ponto de começarem a afundar. 8 Diante de tamanho evento, Simão se prostrou aos pés de Jesus e declarou: “Afasta-te de mim, Senhor, pois sou homem pecador!” 9 Porquanto, ele e seus companheiros estavam maravilhados com a pesca que haviam realizado, 10 assim como de Tiago e João, os filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão. Todavia, Jesus revela a Simão: “Não tenhas medo; a partir deste momento tu serás um pescador de vidas humanas”. 11 Então, eles arrastaram seus barcos para a praia, renunciaram a todas as coisas e seguiram a Jesus."
Lucas 5:1-11 - JFA
        
Ainda falando sobre discípulos, discipulados e discipuladores, há duas atitudes ou posturas que considero extremamente necessárias e indissociáveis do comportamento do discípulo; rendição e obediência. E que palavras podem soar mais impopulares, do que rendição e obediência? Se você torceu o nariz, ou se ajeitou em seu lugar ao ler as duas palavras, não se sinta mal. Não foi diferente comigo enquanto preparava esse texto.

Tendo atravessado a infância, adolescência e boa parte da juventude em meio a ditadura militar instaurada no país em 1964, obediência e rendição me remetem a tempos difíceis, de liberdade tolhida, de gente "falando de lado e olhando pro chão", como diria Chico Buarque em Apesar de Você. Rendição e obediência conectam em meu pensamento ambiente de opressão e injustiças, onde as próprias vontades e preferências jamais podem ser consideradas ou admitidas, sequer para deliberações ou argumentações. Rendição e obediência, num primeiro momento, me fazem sentir o incômodo da perda dos direitos mais básicos e essenciais da existência humana; ir, vir, pensar, falar, ter vontade própria... 

Pode ser que os mais novos não me entendam muito bem, mas não tenho dúvida alguma de que aqueles que hoje têm 40 anos ou mais, sabem exatamente do que estou falando. E não falo apenas daqueles que, engajados, lutaram por liberdade, quer na política, quer em movimentos que requeriam uma mínima liberdade de expressão, fosse na literatura, na música ou nas artes em geral. Mesmo o mais pacato e desinformado cidadão, minimamente, sabia que determinadas coisas não se dizia e nem se fazia em público. Havia assuntos proibidos até em confessionários e travesseiros. O medo era uma sensação presente e comum a todos.

Ora, com esse contexto histórico como pano de fundo, como não se incomodar ao ler ou ouvir rendição e obediência? Não foi por liberdade que ansiamos todos por tanto tempo? Não foi pelo direito de agirmos da maneira que quiséssemos e bem entendêssemos que sonhamos noites intermináveis? Como agora, eu mesmo, viveria sob obediência e rendição incondicional, quando minhas pretensões sempre me forjaram a uma desobediência instintiva, e a uma resistência até à morte? Como é duro escrever; obediência e rendição.

Lidando com sensações tão interligadas a estímulos e reações tão íntimas, seria totalmente inócuo cair na tentação de buscar definições formais para ambas as palavras, porque seus respectivos significados e sinônimos de muito pouco valeriam no desenvolvimento da suas possibilidades, na vida de um discípulo de Jesus. Aliás, pelo que experimentei na vida até aqui, formalidades e definições lógicas, pouca ou nenhuma influência exercem na verdade das condutas humanas. Servem apenas e exclusivamente, para que modelos sejam hipocritamente sugeridos e imitados, porém jamais eficazmente vividos por seus defensores. Deus não se relaciona com personagens. Ou vivemos o que somos, ou não exercemos relação alguma com Deus.

No acontecimento narrado acima, Pedro e os demais pescadores voltavam de um trabalho frustrado. Uma noite inteira de labuta e nada. Experientes que eram em seus ofícios, podemos imaginar a inquietação de seus corações pela desventura do resultado negativo daquela noite. Não bastasse isso, ao retornarem de suas tarefas, encontram uma multidão de gente se acotovelando para ouvir um profeta de quem provavelmente já haviam ouvido, mas sequer escutado a voz.

Jesus então interrompe Pedro que lavava suas redes e o pede para afastar-se da margem, para que pudesse continuar a falar àquelas pessoas. E tendo atendido à solicitação de Jesus, Pedro, então chamado Simão, não tinha outra opção senão escutar o que aquele homem falava à multidão. A admiração de Simão não foi pequena. O que e como Jesus falava, de alguma maneira mexeu com o pescador rude e de temperamento forte, a ponto de deixá-lo completamente sem ação, ou melhor, reação, diante daquele mestre. Jesus conquistara sua confiança.

Foi tanto assim, que ele não contra-argumentou a ordem de Jesus. Despedida a multidão, ele instrui  Simão e os demais a que navegassem até às águas mais profundas, e outra vez lançassem suas redes. Naquele momento, o pescador experiente, vivido no ofício da pesca tempo o bastante para entender que naquela noite não seria possível apanhar peixe algum, não se interpôs. Ao contrário, ele obedeceu à ordem, como quem não tinha outra opção. Como quem estava diante de alguém a quem não poderia resistir.

Alguns poderiam aqui argumentar que Pedro não tinha o que perder. Ao contrário, ele viu naquilo uma oportunidade. - Vai que dá certo, poderia ser o pensamento íntimo de Simão e os demais pescadores. Porém, algumas questões contam a favor da obediência, como o fato de já terem lavado as redes. O trabalho havia se encerrado. Eles deviam ainda sentir o desconforto do insucesso. Além disso, certamente Jesus não inspirara neles qualquer conhecimento sobre o assunto, pois devia ser flagrante em seu corpo, que ele não poderia ser pescador ou possuir qualquer habilidade naquele ofício.

Mas há um fator inquestionável no texto que favorece o entendimento de que alguma coisa os levou a simplesmente obedecer; Jesus não sugere, mas ordena. Ide ou vão, não sugere outra forma, senão a imperativa. Ele deu uma ordem a homens que acabara de conhecer. E por alguma razão, esses experientes pescadores o obedeceram.

O fim da narrativa é conhecida. A pesca foi tão espetacularmente produtiva, que as redes se romperam e outro barco foi chamado para dividir o peso do produto daquela segunda pescaria. Daquela pescaria, ordenada e obedecida.

O assombro de Pedro foi tamanho, que diante daquele inesperado e impressionante resultado, certo de que Jesus não era um homem qualquer, acreditando mesmo que aquilo só poderia ser proveniente de algum poder superior e distante dele, Pedro pediu a Jesus que se afastasse, pois ele, Simão, não era digno de que Jesus chegasse perto dele. Pedro então tem a segunda atitude de submissão; reconhece a flagrante distância entre ele e aquele homem a quem havia obedecido.

Viemos até aqui nessa narrativa, portanto, para perguntar: O que teria levado aquele pescador a obedecer a ordem de Jesus? Que sensação o envolveu, a ponto de não reagir negativamente a uma ordem dada por um homem que, podia suspeitar, jamais utilizara uma rede de pesca? Por que ele obedece, não obstante a todos os indícios contrários à possibilidade de pescarem alguma coisa naquela noite? No meu entendimento, ele rendeu-se a Jesus, enquanto ouvia o que ele falava à multidão na praia.

Rendição e obediência. Lembram do que falamos no início do texto? O mal estar que as palavras rendição e obediência naturalmente causavam? E por que então no texto acima, não há qualquer desconforto daqueles que obedeceram, uma vez que a rebeldia à obediência ou rendição impostas por uma tirania qualquer, também era pano de fundo para aqueles judeus, oprimidos e subjugados pelo império romano? Creio que o motivador esteja exatamente na legitimidade demonstrada pelo ordenador. De alguma forma, Jesus passou a Pedro e a João e Tiago, seus sócios, a legitimidade de quem tem autoridade para ordenar o que ordenara. - Esse homem não pode estar querendo nos prejudicar nem brincar conosco, talvez tenha pensado Pedro. A autoridade demonstrada não combinaria com qualquer outra possibilidade. Tanto que Pedro responde à ordem "confiando em tua palavra". O que houve ali então, senão uma rendição por confiança, e uma obediência por fé?

Ora, então não estamos falando de uma rendição resignada de quem se vê impotente diante de um transgressor. Não estamos falando de uma obediência cega, que obedece pelo simples ato de seguir uma ordem de quem oferece um risco à contra-posição. Em vez disso, estamos diante de uma rendição originada na confiança. - Meu coração está me dizendo para lançar mais uma vez as redes. Não posso negar que fiquei inclinado a isso. Devem ter pensado aqueles pescadores. - Eu confio que deva lançá-las. Então a confiança levou-os à rendição, e a rendição à obediência. Sensação e atitude.

O mais impressionante da narrativa do texto acima, porém, vem no final. Não tema, diz Jesus a Pedro por conta de seu pedido de que ele se afastasse. Tu serás um pescador de vidas humanas. E diz o texto que eles concluíram aquele trabalho, renunciaram a todas as coisas, e seguirão Jesus. Ora, que Jesus, apesar de não ser pescador de ofício sabia pescar estava mais do que provado. Que ele também sabia fisgar gente também havia fortes suspeitas. Afinal, eles mesmos se sentiam completamente fisgados e irrevogavelmente presos a ele. Onde está, então, o impressionante?

Eles largaram tudo, renunciaram tudo para seguirem Jesus. Aquele pescador de homens os encantou de tal maneira, que nada mais na vida parecia fazer sentido, senão estar junto a ele, aprender dele, ser ensinado por ele... Ser igual a ele. Eles renunciam a tudo e o seguem. Se rendem e obedecem. Na confiança de que tudo o que ele ordenar, será bom, proveitoso e significativo.


Portanto o discípulo precisa confiar em seu mestre. O mestre precisa inspirar confiança em seu discípulo. Sem rendição e obediência não há discipulado. Nos rendemos e obedecemos Jesus por confiança e fé. E sem fé, é impossível agradar a Deus.
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