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domingo, 13 de dezembro de 2015

Convite que não cessa, mas caduca



Por Jânsen Leiros Jr.


"15 Ao ouvir isso um dos que estavam com ele à mesa, disse-lhe: Bem-aventurado aquele que comer pão no reino de Deus. 16 Jesus, porém, lhe disse: Certo homem dava uma grande ceia, e convidou a muitos. 17 E à hora da ceia mandou o seu servo dizer aos convidados: vinde, porque tudo já está preparado. 18 Mas todos à uma começaram a escusar-se. Disse-lhe o primeiro: Comprei um campo, e preciso ir vê-lo; rogo-te que me dês por escusado. 19 Outro disse: Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-los; rogo-te que me dês por escusado. 20 Ainda outro disse: Casei-me e portanto não posso ir. 21 Voltou o servo e contou tudo isto a seu senhor: Então o dono da casa, indignado, disse a seu servo: Sai depressa para as ruas e becos da cidade e traze aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. 22 Depois disse o servo: Senhor, feito está como o ordenaste, e ainda há lugar. 23 Respondeu o senhor ao servo: Sai pelos caminhos e valados, e obriga-os a entrar, para que a minha casa se encha. 24 Pois eu vos digo que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia."
Lucas 14:15-24 - JFA

Festa com comida e bebida, fartura e alegria, simbolizavam comumente o reino de Deus[1]. Estar nesse banquete, comer pão no reino, significava ter sido ressuscitado no dia do Senhor, o que fazia de qualquer indivíduo um bem-aventurado. E esse homem que declara tal bem-aventurança, exalta tal condição, mas a situa num tempo futuro, à parte da vida cotidiana que se desenrola num mundo real; na ressurreição dos justos (v.14).

Então terá muita sorte quem for convidado para o banquete do reino, poderíamos parafrasear a fala do convidado. E sua alusão poderia parecer óbvia no sentido de que qualquer um adoraria ser encontrado em tal condição; sentado à mesa do Senhor. Mas para Jesus isso não é tão claro. Muito pelo contrário. Para ele, muitos há que perderão esse momento por escolha própria. Muitos há que trocarão tal benção por um prato de lentilhas[2]. E é isso que a parábola a seguir irá demonstrar.

Vinde, porque tudo está preparado, avisa o anfitrião (v.17). Temos aqui um costume social judaico. Esse chamado ou aviso era o segundo convite que se seguia a um primeiro. Esse primeiro convite avisava os convidados sobre quando e onde se daria tal evento. Quando desse primeiro convite, tais convidados podiam naturalmente declinar ao chamado, pois diante de um possível conflito de compromissos, podiam desculpar-se quanto a impossibilidade de comparecerem. Assim eles não seriam contados entre os convidados, e por ocasião do segundo convite, já para entrarem para o banquete, eles nem mesmo seriam avisados. Um protocolo bastante razoável.

A parábola começa com o segundo convite, que já não se destina mais a ser ou não aceito, mas apenas a dizer aos convidados que já haviam aceitado ao chamado, entrem, tudo está pronto[3]. A esse segundo convite se segue o momento de grande tensão da parábola, pois os convidados que haviam dito que participariam do banquete, ocupam-se em dar desculpas para não irem à festa, desconsiderando o cuidado e o preparo realizado pelo anfitrião, e descumprindo o compromisso assumido anteriormente.

As desculpas dadas pelos convidados são vazias e sem qualquer adequação. Pois quem compraria um terreno sem antes tê-lo visto? Ou mesmo quem teria comprado juntas de bois, sem antes as ter experimentado? Também não havia qualquer impedimento ao que se declarou recém casado, que o impedisse de participar do banquete. São desculpas impróprias, como impróprias e vazias são as desculpas que muitos em nossos dias dão, diante do convite de Deus[4], e de sua mão estendida à humanidade[5].

É interessante notar que o anfitrião, diante do relato da negação ao seu chamado, não diz ao seu servo que retorne e os obrigue a entrar. O protocolo quebrado lhe permitiria inquirir e exigir retratação por parte dos que fizeram pouco caso de seu chamado. Porém ele não o faz, assim como Deus não obriga quem quer que seja a aceitar seu convite ao reino. Deus não se impõe ao homem, embora faça tudo que pode para convencê-lo do pecado, da justiça e do juízo[6], chamando-o ao arrependimento. Mas ele não obriga nada a ninguém; quem quer que seja.

Impróprias ou não, vazias ou não, tais recusas ao chamado do anfitrião, demonstram o quão inconveniente eles consideraram o momento do convite à entrada. Obviamente nenhum deles estavam sem fazer nada, ou desocupados de seus próprios interesses e prioridades. Mas fica claro que, diante da fragilidade de seus motivos reais, eles tentam reivindicar o direito da recusa, motivando tais recusas em circunstancias e condições que consideraram mais adequadas ou inquestionáveis. Talvez até louváveis e compreensíveis.

Notem que as desculpas declaradas querem na verdade dizer mas que hora infeliz para me chamar! Porque não negam participar do banquete, mas apenas querem evidenciar que o convite veio na hora errada, quando coisas mais importantes e inadiáveis estão ocupando a prioridade de suas vidas. É como se de maneira velada, mandassem ao anfitrião um recado. O convite é excelente, mas veio em péssima hora. Talvez em outro momento, quem sabe?!...

Diante da recusa dos convidados, talvez outro anfitrião qualquer remarcasse o banquete para um momento mais adequado e conveniente a todos. Porém o Senhor do banquete da parábola, não só mantém o banquete, como manda ao seu servo que busque aqueles que antes eram os naturalmente excluídos do banquete. Aqueles cujas condições sociais naturalmente excluía do convívio de todos. Aqueles com quem os antigos convidados jamais gostariam de dividir qualquer espaço, muito menos comerem e celebrarem juntos. E havendo ainda muitos lugares, ele ordena que outros tantos de fora, dos caminhos, não só excluídos mas abandonados, fossem também trazidos à festa; para que a minha casa se encha (v.23).

Obriga-os a entrar[7], orienta o anfitrião ao seu servo. Não há aqui qualquer alusão a qualquer espécie de uso da força, para obrigar quem quer que seja a aceitar o convite de Deus para o banquete em seu reino. Por outro lado, fica claro que o contexto indica uma atitude de uso extremo de argumentação e persuasão, para que minha casa se encha. Ao mandar buscar os de ainda mais longe, pessoas ainda mais improváveis de serem achadas em um banquete dessa espécie, o anfitrião aponta para o uso extremo da graça e do compadecimento por aqueles que estão pelos caminhos e valados (v.23); uma escória social e uns farrapos de autoestima e de amor próprio. Foram chamados aqueles que jamais se sentiriam dignos de participar de uma festa no reino de Deus.

É importantíssimo reforçar, também, que não está implícita no texto, qualquer fundamentação de uma opção pelos pobres realizada por Deus, o anfitrião desse banquete. O que ocorreu foi o sumo respeito pela rejeição dos convidados. Fora o anfitrião o rejeitado, não os convidados originais. Eles declinaram do que lhes seriam natural participarem, pois a tais foram apresentados os convites ao banquete. Eles escolheram não comer pão no reino dos céus.

Por fim, o anfitrião se demonstra inflexível em sua determinação. Nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia (v.24). Seria essa uma flagrante prova da falta de misericórdia de Deus? Ou seria uma evidência contundente de seu máximo respeito por nossas decisões, pela liberdade que temos de negar estar com ele? Pois ele poderia ter dito ao seu servo obriga-os a entrar. Mas conhecendo que o motivo de suas desculpas e recusas foi a inquebrantável intenção de não trocarem suas prioridades por um banquete que lhes pareceu menos atraente, ele foi atrás de quem valorizaria tal banquete, e que se fartaria na festa oferecida por ele. Deus não se impõe a ninguém[8].

Ora, quantas pessoas rejeitam o convite permanente de Deus? Quantos trocam a benção da salvação por um mísero e fugaz prazer de um prato qualquer de lentilhas? Você tem dado desculpas diante desse convite? Tem buscado desculpas vazias e inconsistentes para negar àquilo que há tempos fala ao seu coração? O tempo é hoje e a oportunidade é agora. Não deixe passar o convite que não cessa, mas que um dia caducará.



[1]  Lucas 13:29; Isaías 25:6; Mateus 8:11; 25:1-10; 26:29; Apocalipse 19:9
[2]  Gênesis 25:29-34
[3]  Ester 5:8; 6:14
[4]  Isaias 53:1; 65:2; Lucas 13:34
[6]  João 16:5-15
[7]  A história retrata o uso indevido e abusivo desse texto. O COMPELLE INTRARE usado pela igreja quando da morte de tantos que não aceitavam suas imposições.
[8]  Apocalipse 3:20

terça-feira, 3 de março de 2015

Quando o sal não salga e a luz não brilha...




13 Vocês são o sal para a humanidade; mas, se o sal perde o gosto, deixa de ser sal e não serve para mais nada. É jogado fora e pisado pelas pessoas que passam.14 Vocês são a luz para o mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. 15 Ninguém acende uma lamparina para colocá-la debaixo de um cesto. Pelo contrário, ela é colocada no lugar próprio para que ilumine todos os que estão na casa.16 Assim também a luz de vocês deve brilhar para que os outros vejam as coisas boas que vocês fazem e louvem o Pai de vocês, que está no céu.”
                      Mateus 5:13-16 - NTLH

Essa semana fomos surpreendidos com mais um lamentável episódio de morte entre jovens, agora por ingestão abusiva de bebida alcoólica. Creio que, como eu, pais pelo mundo afora fiquem perplexos e preocupados, ao saberem de casos como esses,  principalmente em se tratando de uma festa onde, em princípio, deveriam estar felizes e celebrando a vida. E é inevitável que diante de tais ocorrências, uma cascata de dúvidas se abata sobre todos nós, responsáveis que somos e nos sentimos pela formação de nossos filhos.

Afinal, o que leva jovens a perderem o bom senso, ultrapassarem limites óbvios e perigosos, a desafiarem circunstâncias temerárias e avançarem por uma estrada de abusos e destemidas ousadias, quase sempre com graves conseqüências e seqüelas para suas vidas, quando não sem volta e sem vida? O que lhes atrai? O que e como são seduzidos a impulsos impensados? Por que se lançam imprudentes no desconhecido mundo dos imponderáveis?

Longe de pretender esgotar aqui um assunto tão vasto, mas não querendo calar diante de tamanha perplexidade, entendo que de certa forma contribuímos todos para que casos assim se repitam e se agravem em nossos dias. Falo como sociedade, e não falo só da brasileira, ainda que de certa forma me preocupa demasiadamente a flagrante e crescente falta de princípios na formação de nossas últimas gerações, acrescida de uma aviltante inversão consentida de valores morais, éticos e filosóficos.

Digo consentida, porque não percebo qualquer movimento em contrário. E falo isso com enorme tristeza e certo sentimento de culpa. Se não por replicar o modelo, minimamente por calar e assistir impassível o avanço caudaloso desse rio de mazelas e de empobrecimento do caráter ético da sociedade.

Vivemos tempos em que tudo que é fugaz se sobrepõe ao duradouro. O que é instantâneo, ao que é crescente. O que é intenso ao que é consistente, e o que parece ser ao que realmente é. Nesses tempos, ter é muito mais importante do que ser. Agir é preferível a refletir, e afirmar é mais desejável que ponderar. Vivemos aos trancos e jogando tudo e todos pelos barrancos. Nada pode nos deter. Precisamos chegar na frente, sentar primeiro, comer tudo e não nos arrependermos jamais. Vivemos um mundo louco onde somos, cada qual para si mesmo, tudo que importa na vida. Existimos única e exclusivamente para nos satisfazermos a nós mesmos, custe o que custar.

E em tempos de sociedade dominada pela mídia e sua influência direta ou indireta, o que todos querem é ser evidência. Ser o centro das atenções. No início desse modelo de se fazer celebridade e busca pela fama, buscava-se motivos pretensamente nobres que serviam de álibi perfeito para atitudes que pretendiam apenas chamar a atenção de todos para si. Hoje, no entanto, qualquer motivação que possibilite algum destaque, serve ao desejo incontido de chamar atenção dos demais, ganhando fama seja lá pelo que for.

Se antes se procurava ser o melhor aluno da classe, o melhor cantor das rádios, o maior goleador ou o corredor mais rápido, hoje serve ser o maior pegador da balada, ser a mina que mais beija, o carinha que mais bebe, o político que mais rouba, o bandido que mais mata... Toda evidência serve para se fazer maioral e com isso ter fama, seja no mundo, seja no sub-mundo. A competitividade atingiu extremos nas duas pontas. Serve o doping para obter vantagem, serve a burla ao regulamento para beneficiar a equipe. Serve a culpa, serve a vergonha, serve o dolo.

Eu sou o cara. É o que todo mundo sonha em dizer de si mesmo. Todos querem ser o cara. O tal, como se dizia na minha juventude. E é no ambiente dessa corrida idiota e despropositada, que eventos que deveriam se prestar à diversão, atraem participantes anunciando competições de bebedeiras, e mais sutilmente estimulam e promovem orgias e virações de todo o tipo, embalados por sexo sem compromisso, drogas de qualquer origem e algum rock in roll. Até porque a música é apenas pretexto para quebrar o silêncio e ambientar a farra desmedida. Só um barulho que impeça a reflexão espontânea de alguma mente ainda não entorpecida.

Não estou aqui defendendo retorno a qualquer época ou defendendo bons costumes. Isso é bobagem. O mundo avança. O avanço tecnológico e a conquista do conhecimento em diversos seguimentos nos empurra adiante, a um mundo de novas possibilidades. Mas estou sim defendendo bons princípios. Motivações legitimas e capazes de nos conduzir à pretensão sermos melhores e não os melhores. Que as razões que nos movam apontem para uma sociedade que utilize e se utilize do enorme progresso consignado no último século, com sabedoria e sobriedade, e não como uma criança que não sabendo como brincar com uma bola de gude achada por acaso, coloca na boca ou no nariz.

Eis uma ótima oportunidade para pensarmos, como cristãos, no tipo de evangelho e ética cristã que estamos oferecendo ao mundo. Temos sido exemplo de alternativa de vida por refletirmos Jesus em nossas vidas, ou não temos passado de um ajuntamento de pessoas que, sem consistência e coerência, apregoam o que não vivem e sequer sabem porque é que existem? Se somos o sal, deveríamos estar conservando a vida em sociedade, impedindo com isso que apodrecesse. Se somos luz, deveríamos estar orientando o caminho e oferecendo clareza de opções a essa vida sem propósito que a sociedade vem experimentando. E no que temos conservado? E que caminho temos iluminado?

Que nós, cristãos, sejamos o sal da terra para conservá-la, e a luz do mundo para servir de orientação, como requerido e esperado por Jesus. Para que um modelo de vida outro e novo seja vivenciado com significado e pertinência, e não vivamos oferecendo apenas o outro lado de uma mesma moeda.

Um forte abraço.
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