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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

De quem mais se confia mais se espera


Por Jânsen Leiros Jr.


"35 Estejam cingidos os vossos lombos e acesas as vossas candeias; 36 e sede semelhantes a homens que esperam o seu senhor, quando houver de voltar das bodas, para que, quando vier e bater, logo possam abrir-lhe. 37 Bem-aventurados aqueles servos, aos quais o senhor, quando vier, achar vigiando! Em verdade vos digo que se cingirá, e os fará reclinar-se à mesa e, chegando-se, os servirá. 38 Quer venha na segunda vigília, quer na terceira, bem-aventurados serão eles, se assim os achar.  

39 Sabei, porém, isto: se o dono da casa soubesse a que hora havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a sua casa. 40 Estai vós também apercebidos; porque, numa hora em que não penseis, virá o Filho do homem.  

41 Então Pedro perguntou: Senhor, dizes essa parábola a nós, ou também a todos? 42 Respondeu o Senhor: Qual é, pois, o mordomo fiel e prudente, que o Senhor porá sobre os seus servos, para lhes dar a tempo a ração? 43 Bem-aventurado aquele servo a quem o seu senhor, quando vier, achar fazendo assim. 44 Em verdade vos digo que o porá sobre todos os seus bens. 45 Mas, se aquele servo disser em teu coração: O meu senhor tarda em vir; e começar a espancar os criados e as criadas, e a comer, a beber e a embriagar-se, 46 virá o senhor desse servo num dia em que não o espera, e numa hora de que não sabe, e cortá-lo-á pelo meio, e lhe dará a sua parte com os infiéis. 47 O servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoites; 48 mas o que não a soube, e fez coisas que mereciam castigo, com poucos açoites será castigado. Daquele a quem muito é dado, muito se lhe requererá; e a quem muito é confiado, mais ainda se lhe pedirá."
Lucas 12:35-48 - JFA

"O Rei está voltando, o Rei está voltando. A trombeta está soando; o meu nome a chamar!... Aleluias Ele vem me buscar!". Essa é parte da letra de um dos hinos mais cantados nos cultos cristãos, nas mais diversas e variadas denominações em todo o Brasil, na década de 70 e 80. Naquela época, lembro-me bem, a agenda de proclamação da igreja tinha como máxima a volta iminente de Jesus. Maranata! Ora vem Senhor Jesus!

Nessa época, o texto acima e seus paralelos tanto em Mateus quanto em Marcos eram lidos muitas vezes, e sustentavam pregações que proclamavam, desde os púlpitos até praças e cultos nos lares, a volta iminente de Jesus. Jesus está voltando, Gritávamos aos quatro cantos. Vivíamos ainda os últimos ares da chamada Guerra Fria, e a possibilidade de uma guerra nuclear que acabasse com o planeta, dava o pano de fundo dessa pregação.

Com o fim da Cortina de Ferro, esse discurso foi considerado, na prática, impopular e pouco convidativo. Beirava ao desagradável, entenderam, pois vivíamos tempos de reconstrução e recuperação de diversas economias internas. E assim, quase que no mesmo tempo, perceberam que o discurso insuflado da teologia da prosperidade se fazia mais atraente, e conseguia arrebatar uma multidão infinitamente maior de fiéis ou interessados, às suas igrejas e ajuntamentos.

Hoje vemos muito pouco dessa mensagem nas literaturas ou agendas de púlpito. Jesus agora está ocupado em atender à multidão de pedidos que lhe devem chegar em profusão, interessados quase sempre em bem estar e satisfação pessoal, ou realização de sonhos e conveniências individuais. O Rei até pode voltar, mas primeiro Ele tem muita coisa que fazer para me agradar. Lógico que essa frase jamais é proferida por alguém; mas ela determina a atitude de um sem número de pessoas espalhadas por todo o mundo evangélico.

A verdade é que a lógica se inverteu, e em vez de sermos servos vigilantes, ávidos e aptos ao serviço do reino de Deus, colocamos Jesus a nosso serviço, providenciando tudo o que queremos e pretendemos ter. Aquele a quem deveríamos servir, foi colocado por nosso hedonismo desenfreado e já não tão camuflado, como nosso fiel e sobrenatural serviçal.

Bem-aventurados aqueles servos, aos quais o senhor, quando vier, achar vigiando! Vigiar é estar acordado, de prontidão para servir ao senhor que chegará a qualquer momento. É manter-se em serviço de prontidão, preparado e preparando-se para servir ainda mais, pois tudo e todos nos são confiados. Não podemos dormir o sono de quem se perde em sonhos e devaneios de uma vida fugaz e sem propósito. O sentido da vida não está em nos realizarmos, mas em realizarmos a vontade de nosso Pai celestial. Ou não somos peregrinos em terra estranha?

Daquele a quem muito é dado, muito se lhe requererá; e a quem muito é confiado, mais ainda se lhe pedirá. A pregação do evangelho nos foi confiada. A vontade de Deus de que sejamos suas testemunhas da graça e da salvação em Cristo, desde sempre nos é conhecida. Por isso a responsabilidade desse serviço nos foi requerida. Estamos vigiando prontos para o serviço, ou nos gastamos diariamente naquilo que  não pode servir a Deus?


Vivemos mergulhados numa preocupação medíocre com a própria vida. Pedimos bênçãos o tempo todo, mas pouco nos disponibilizamos a ser benção na vida de alguém. Vivemos evangelhos de resultados, onde a "fé" e a "dedicação" se medem por conquistas materiais. Eis que cedo venho. Quem tiver ouvidos para ver que fale.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Distrações 2 - Bagagens desnecessárias



1 Vocês foram ressuscitados com Cristo. Portanto, ponham o seu interesse nas coisas que são do céu, onde Cristo está sentado ao lado direito de Deus. 2 Pensem nas coisas lá do alto e não nas que são aqui da terra. 3 Porque vocês já morreram, e a vida de vocês está escondida com Cristo, que está unido com Deus. 4 Cristo é a verdadeira vida de vocês, e, quando ele aparecer, vocês aparecerão com ele e tomarão parte na sua glória.”
                      Colossenses 3:1-4 – NTLH


1 Assim nós temos essa grande multidão de testemunhas ao nosso redor. Portanto, deixemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que se agarra firmemente em nós e continuemos a correr, sem desanimar, a corrida marcada para nós. 2 Conservemos os nossos olhos fixos em Jesus, pois é por meio dele que a nossa fé começa, e é ele quem a aperfeiçoa. Ele não deixou que a cruz fizesse com que ele desistisse. Pelo contrário, por causa da alegria que lhe foi prometida, ele não se importou com a humilhação de morrer na cruz e agora está sentado do lado direito do trono de Deus.
3 Pensem no sofrimento dele e como suportou com paciência o ódio dos pecadores. Assim, vocês, não desanimem, nem desistam.”
                      Hebreus 12:1-3 - NTLH

Notem que as passagens acima são as mesmas que utilizamos no texto anterior, pois como havíamos dito, falaríamos em seqüência sobre as distrações que nos sabotam o caminho do crescimento espiritual.

Precisamos tocar num delicado mas imperioso assunto; o que utilizamos como conceito de vida. Na primeira parte falamos sobre o pecado e seus ataques muito mais intensos na atualidade, pela oferta que os meios de comunicação e a tecnologia trazem para o nosso cotidiano. Nessa segunda parte, porém, falaremos sobre a satisfação dos próprios interesses e dos sonhos de realização pessoal, nos moldes da visão humana disseminada na sociedade como objetivo primordial da existência, e prova de sucesso na vida.

Vocês foram ressuscitados com Cristo. Ora, Paulo não está escrevendo para ninguém que esteja ao lado de Deus ou que já tenha ressuscitado fisicamente. Ele está falando a Timóteo que lidera a igreja em Éfeso, formada por pessoas vivas e inseridas no cotidiano da existência humana.

Mas por que ele dá como ocorrido um fato que está na relação dos eventos aguardados por todos nós que cremos, para o Dia do Senhor, dia da sua volta? Simples. Não há aqui qualquer conflito, senão o uso semântico do estado de vida daqueles que já passaram pela morte. Ou seja, se morremos para o mundo e suas paixões, mas continuamos a respirar e a andar nesse mesmo mundo, somos como que mortos, porém vivos. Mortos mas ressuscitados. Mortos para o mundo, mas ressuscitados para Cristo e estando com Cristo.

O que o apóstolo parece querer evidenciar, é que houve uma morte. E no contexto de nossos dias, uma morte para a vida que se levava anterior à conversão, onde o mundo e suas demandas determinavam seus pensamentos, definiam suas atitudes e orientavam sonhos e projetos. A vida orbitava em torno daquilo que a sociedade entende como modelo e fim existencial; ter sucesso, dinheiro e felicidade. A realização pessoal como objetivo primordial da vida de cada individuo. Uma bagagem desnecessária, na viagem que temos que realizar até nossa terra prometida.

É preciso quebrar esse vínculo, fugir desse modelo, ampliar nossa visão de pertinência e de sentido da vida. Pensem nas coisas lá do alto. Nas coisas que serão eternas, e que podem desde já, nos encher de vida e vida em abundância, diferentes da ambição cotidiana que nos arrebata a um estado de tensão e busca incessante por aquilo que não edifica.

É claro que ao abandonarmos esse modelo, a invertermos essa lógica existencial, seremos apontados, criticados, discriminados em meio a uma sociedade que considera louco todo aquele que não adere, ou nem mesmo se deixa seduzir por sua complexa e fugaz definição de valores, onde ter determina o que se é, e o que se é não tem qualquer valor, se o ter não lhe acompanhar como confirmação da aprovação às escolhas e aos procedimentos assumidos na vida.

Paulo afirma que a manutenção do mesmo modelo de vida “nos atrapalha”. Em algumas traduções lemos “nos embaraçam” ou “nos prendem”. Isso deixa claro que tais propósitos na vida, amarram nossas pernas, nos perturbam as passadas no caminho do crescimento espiritual. Impedem que os verdadeiros alvos de nossa vida sejam atingidos, e que nos fortaleçamos para vivermos a carreira que nos está proposta.


5 Portanto, matem os desejos deste mundo que agem em vocês, isto é, a imoralidade sexual, a indecência, as paixões más, os maus desejos e a cobiça, porque a cobiça é um tipo de idolatria. 6 Pois é por causa dessas coisas que o castigo de Deus cairá sobre os que não lhe obedecem. 7 Antigamente a vida de vocês era dominada por esses desejos, e vocês viviam de acordo com eles.
8 Mas agora livrem-se de tudo isto: da raiva, da paixão e dos sentimentos de ódio. E que não saia da boca de vocês nenhum insulto e nenhuma conversa indecente. 9 Não mintam uns para os outros, pois vocês já deixaram de lado a natureza velha com os seus costumes 10 e se vestiram com uma nova natureza. Essa natureza é a nova pessoa que Deus, o seu criador, está sempre renovando para que ela se torne parecida com ele, a fim de fazer com que vocês o conheçam completamente.”
                      Colossenses 3:5-10 – NTLH

Não há como livrar-se de tudo isso, tendo ainda como meta de vida a satisfação pessoal; a conquista dos próprios interesses. Para que fossemos salvos, Jesus esvaziou-se de si mesmo, não tendo por usurpação o ser igual a Deus. Nem mesmo aquilo que lhe era próprio e por direito, o impediu em seu propósito de salvar a humanidade. Como então viveremos ainda nos mesmos moldes seculares de vida, crendo que conseguiremos cumprir assim a vontade de Deus? Para crescer é preciso desprendimento. Não é só andar em um caminho novo, mas andar em novidade de vida.

Que saibamos nos livrar das pesadas bagagens do velho homem, e que a vida cotidiana não nos seja embaraço para fazermos a vontade de Deus a caminho da glória.


Um forte abraço.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Ano novo vida bem mais. Quer dizer...


         

“O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol.”
                      Eclesiaste 1:9 - RA

Mais um ano chega ao fim, e com ele a rotineira onda de reflexão coletiva, onde balanços pessoais são proclamados, novos propósitos são definidos, e esperança de melhores oportunidades e condições são mutuamente desejadas. Uns por retribuição, mas outros com sinceros desejos e boa vontade.

É natural e não há nada de errado com isso. A vida é um suceder de ciclos, e desejar que um novo ciclo possa trazer melhores notícias e renovadas alegrias, é um reverdejar de esperanças que faz muito bem ao senso comum e à vida em sociedade. Em termos práticos, porém, nada há de novo debaixo do sol.

A verdade é que um ano novo surge a cada doze meses, como cada novo mês surge a cada trinta dias, e um novo dia a cada amanhecer. Portanto novas oportunidades nos são apresentadas dia-a-dia, no cotidiano de nossas vidas e lutas diárias, constantemente. Mas o que esperamos, no fundo, é que por alguma circunstância mágica, novas condições se alinhem ou realinhem para nos oferecer uma vida melhor, como se a simples mudança de ciclo nos presenteasse com mais prósperas possibilidades.

O que ninguém gosta muito de ler e ouvir, o que obviamente é muitíssimo impopular, é que nossa virada de vida não depende de circunstâncias, mas de atitudes e decisões, para as quais não precisamos necessariamente aguardar o último dia de dezembro para tomá-las. Cada instante vivido é um ciclo a ser virado e cada momento de reflexão, uma oportunidade de renovação de possibilidades e decisões. Um mundo novo pode surgir a cada piscar de olhos. Dependerá sempre do que fazemos com cada oportunidade.

Diferentes e muitos setores da vida são influenciados por nossas decisões. Mas quero me deter naquilo que permeia tudo e toda nossa existência; nossa compreensão de Deus e nossa relação com Ele.

Nada seria mais impopular do que falar de Deus num cenário social como o nosso, onde a simples menção desse vocábulo tende a soar constrangedor, tanto para quem ouve, quanto para quem fala. Ao primeiro porque achará sempre inapropriado e incômodo o tema, e para o segundo porque sofrerá inevitável discriminação velada e cruel. Tudo porque atravessamos um período de ateísmo disfarçado e camuflado de esoterismo e misticismo, onde na prática Deus não passa de uma energia cósmica conveniente, que aplaca a culpa e nos insere numa passiva existência religiosa, incapaz de nos provocar qualquer reflexão mais contundente, ou de exigir um posicionamento comprometedor e contundente.

Por mais que se relute, porém, somos todos diariamente provocados por Deus a uma decisão, por mais sutil que ela possa ser, ou mais despercebida que ela possa se dar. A cada instante em que Sua existência e nossa existência se esbarram pelas esquinas de nossa caminhada, escolhemos ficar com Ele ou lhe darmos as costas. Isso acontece com uma freqüência tão absurdamente grande, que Paulo cita em sua segunda carta aos coríntios; “eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação”. É a vida o instante aceitável. São nossos dias o tempo oportuno.

Assim, se alguém deseja renovadas oportunidades, novas possibilidades e outras condições, deve começar por fazer-se novo e renovado, mudando a própria mente, e renovando as próprias emoções, vivendo uma relação nova e reconciliada com o Senhor de todas as coisas. Não para que assim tenha uma vida melhor, com novas condições e possibilidades, como numa barganha oportunista. Mas para que viva melhor, incondicionalmente, com a confiança e a esperança que produz a paz e o descanso em Deus.


1 Portanto, meus irmãos, por causa da grande misericórdia divina, peço que vocês se ofereçam completamente a Deus como um sacrifício vivo, dedicado ao seu serviço e agradável a ele. Esta é a verdadeira adoração que vocês devem oferecer a Deus. 2 Não vivam como vivem as pessoas deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma completa mudança da mente de vocês. Assim vocês conhecerão a vontade de Deus, isto é, aquilo que é bom, perfeito e agradável a ele.”
                      Romanos 12:1-2 – NTLH

Que nos novos dias pelos quais avançam a vida e os nossos devaneios, Deus nos inspire a uma vida de comunhão real, plena e revigorante ao seu lado.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

=> O preguiçoso, o diligente e La Fontaine



6 Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, considera os seus caminhos e sê sábio. 7 Não tendo ela chefe, nem oficial, nem comandante, 8 no estio, prepara o seu pão, na sega, ajunta o seu mantimento. 9 Ó preguiçoso, até quando ficarás deitado? Quando te levantarás do teu sono? 10 Um pouco para dormir, um pouco para tosquenejar, um pouco para encruzar os braços em repouso, 11 assim sobrevirá a tua pobreza como um ladrão, e a tua necessidade, como um homem armado.”
                   Provérbios 6:6-11 - RA


“Em todo trabalho há proveito; meras palavras, porém, levam à penúria”
                  Provérbios 14:23 - RA

Atribuída a Esopo e recontada por Jean de La Fontaine, a fábula A Formiga e A Cigarra esteve presente na infância da maioria de nós, e creio que na minha geração não houve quem não a tivesse conhecido. Contando a desventura da cigarra que por preguiça preferia cantar, enquanto a determinada formiga ajuntava mantimentos para o inverno, por décadas fomos ensinados que quem muito trabalha sempre tem de onde tirar seu sustento.

Já nos tempos modernos e no contexto de corrupção que vivemos em nosso país, o que se desenvolveu nas últimas décadas no imaginário coletivo, foi a idéia de que quem trabalha não tem tempo para ganhar dinheiro, fazendo alusão às oportunidades e idéias (ou paradas) que surgem apenas durante ou em meio a um ambiente de ócio e diversão. Quem trabalha está concentrado em realizar suas tarefas e quase sempre trabalhando para terceiros. É preciso tempo para pensar em como se dar bem. Pois afinal trocamos o sustento e a prosperidade, pelo consumo e propriedade, na escala imaginária que define o conceito sucesso.

Assim a formiga se tornou uma verdadeira operária de visão curta, sem ambição na vida, sem interesse de crescer profissionalmente. Alguém que se ocupa única e exclusivamente com o cotidiano, sem visão lúdica da vida. Uma pessoa totalmente pragmática, incapaz de ser uma visionária, pois no labor extenuante se consomem seus dias.

Já a cigarra tem competências implícitas em seu comportamento. Voltada às artes deve ser sensível, capaz de interpretar comportamentos e atitudes. Deve ser estrategista, pois com olhar mais ampliado, não se ocupa no que é imediato, mas pensa mais longe. Segura, canta com a tranqüilidade de quem se garante e que domina a arte de solucionar problemas quando colocada sobre pressão. E como tem cigarras sendo escolhidas em processos seletivos e ocupando funções em diversas empresas pelo mundo, e em especial no Brasil.

O que muito se confunde, porém, é que trabalho não é apenas o que realizamos durante um período de expediente. Trabalho é o que fazemos quando aplicamos diligentemente nossas competências quando somos demandados, seja para o aqui e agora, seja para o ali e além. Agir diligentemente é aplicarmos empenho e concentração na realização de uma tarefa, atendendo à demanda com integridade e cuidado, para que o melhor resultado seja alcançado e uma necessidade seja satisfeita.

O preguiçoso procrastina. Adia sempre e se desculpa na falsa idéia de que planeja melhor antes de agir. Adia e se ocupa vagamente de tarefas outras que não são prioridades ou não lhe requerem qualquer esforço maior ou verdadeiro, embora faça desse feito, a razão de sua vida, pelo menos até que o impulso de realizar a tarefa primordial passe. A cigarra devaneia sempre.

E é se achando espertas e sagazes, que as cigarras que vivem nos diversos departamentos e empresas pelo país, passam seus dias de improdutividade efetiva. Perguntadas sempre têm prontas uma lista de muitas coisas feitas e a fazer. Mas na verdade, empurram um dia sobre o outro, pilhando-se de pendências e adiamentos sem fim. As cigarras sempre se poupam para uma tarefa que jamais realizam.

Enquanto isso as formigas continuam agindo e realizando. Não param. Sempre ocupadas, são chamadas rotuladas de pessoas de difícil relacionamento, não se dão aos chopps com os colegas. Indisponíveis para qualquer outra coisa que não a realização de suas funções; anti-sociais essas formigas.

É claro que Salomão quando escreve em Provérbios e em Eclesiastes, não tem como pano de fundo a realidade nas empresas de hoje. Ele fala de sua observação da sociedade em que quase todos trabalham num regime de subsistência, plantando e colhendo, cuidando e criando para o sustento seu e de suas numerosas famílias. Nesse contexto, os preguiçosos não tinham muito onde se esconder. Sua inatividade levava a imediata penúria e pobreza, pois nada teria para alimentar a si próprio e aos seus. As estações marcavam o tempo de semear, de arar a terra, de ceifar a colheita. As condições climáticas definiam a qualidade do pasto e obrigavam o manejo das criações para essa ou para aquela região, em busca de um alimento que mantivesse os rebanhos ávidos a fornecerem suas iguarias satisfatoriamente. Tudo isso exigia não só trabalho, mas empenho, acuidade... Diligência!

Digno é o trabalhador do seu salário (1 Timóteo 5:18). A remuneração pelo trabalho que se realiza conforme contrato entre empregado e empregador, é a recompensa que aquele recebe por atender ao que é solicitado por esse. Mas há trabalhador que receberá maior recompensa por sua diligência, esmero e produtividade. Porque a dedicação e o empenho sempre serão recompensados. Seja de que forma for, seja quando for, por quem quer que seja.

Obviamente não estamos falando aqui do trabalhador que cumpre sua jornada como quem caminha para a guilhotina. Imaginem a formiga passando e vendo a cigarra cantarolando feliz e dizendo para si mesma: - Assim é fácil, só cantando, aí sem fazer nada e eu aqui dando o maior duro, suando a camisa do patrão... Já imaginou?! Que formiga rancorosa, chata, irritante e implicante! O trabalhador diligente realiza com prazer suas funções e se realiza nisso. Tem prazer numa tarefa completada e se enche de satisfação ao encerrar mais um dia de trabalho. A formiga resmungona, não passa de uma cigarra covarde, que não teve coragem de trocar as ferramentas pela viola. Foi vencida pela imposição da vida, mas odeia o que faz. Também não faltam cigarras disfarçadas de formigas nas empresas. Não é sem motivo que Paulo adverte:


“Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens, cientes de que recebereis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo; pois aquele que faz injustiça receberá em troco a injustiça feita; e nisto não há acepção de pessoas.”
                  Colossenses 3:23-25 - RA

O trabalhador diligente, portanto, trabalha com alegria e dedicação, e ainda que não seja reconhecido por seus patrões, tem sua recompensa dada por Deus, que é quem pode conceder as riquezas mais adequadas, conforme a necessidade daquele que se dedica, por sua bondade e graça.

Assim, o preguiçoso não terá do que se gabar. A cigarra não terá o que cantar. Quando pensar em se desculpar, dizendo de que adianta trabalhar porque ninguém dá valor, perceberá que o reconhecimento que se busca nem sempre é o que se vê. Mas sua preguiça e devaneio invariavelmente o levarão a penúria. E o seu desleixo e descaso, jamais o sustentarão minimamente.

Que Deus nos abençoe para servir a quem quer que seja com dedicação e diligência.



sábado, 8 de novembro de 2014

ENEM aí pra ninguém...





“Sempre ouvi dizer que o sucesso está nos detalhes. Se isso é verdade, grande parte do insucesso das políticas públicas está exatamente na distância entre o que se planeja e o que é efetivamente realizado. Ora por falta de vontade e efetividade, ora pelo não engajamento ideológico da equipe que deveria realizar o planejado. O problema às vezes é de essência e de gente”
                      JLjr

Eu me lembro bem, não faz muito tempo, durante a campanha eleitoral para a presidência da república, o Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM, foi amplamente utilizado como exemplo de gestão e de política publica para a Educação. Um grande feito desse ministério e do governo do PT. Um sucesso que particularmente questiono, não tanto por sua pertinência, mas pelos detalhes logísticos que, desconsiderados, podem interferir para sempre na vida de tantos jovens que sonham com o ingresso em uma faculdade.

Podemos começar com a espetacular definição dos locais de prova. Um processo que, se tem alguma lógica, não atende ao mínimo de coerência na distribuição dos candidatos pelas unidades. Um maciço e desnecessário cruzamento de bairros ainda que próximos, mas que na prática se torna intransponível, dado o trânsito extra de um dia de prova. Na região de Jacarepaguá, aqui no Rio de Janeiro, candidatos residentes na Taquara, Tanque e Curicica, lotados em unidades da Freguesia e vice-versa. Resultado; só na sala em que prestei exame mais da metade não apareceu. Minha filha relatou mesma proporção onde ela fez sua prova. Ah! Sim. Eu fiz o ENEM, então estou falando como quem participou do processo.

Me pareceu que por principio os candidatos foram distribuídos segundo a letra inicial de seus nomes, dentro de uma determinada região geográfica. Um critério que pode até funcionar em cidades pequenas ou em lugares onde o trânsito local não ofereça um engarrafamento tão absurdo num sábado de prova nacional. Numa grande cidade como o Rio, o critério mais simples seria o do CEP do candidato relacionado ao CEP da unidade mais próxima. Assim evitaríamos deslocamentos significativos, como o que realizamos ano passado, quando morando em Colégio, minha filha foi lotada em uma unidade no Engenho Novo, mais de quinze quilômetros de distância, que foram percorridos em duas horas de carro, sempre buscando caminhos alternativos, tamanho o nó no trânsito daquele dia. Imaginei que a experiência do ano passado tivesse servido às autoridades e responsáveis, para que tal circunstância não se repetisse. Doce ilusão.

Depois voltarei na questão logística. Porque uma outra e importante preocupação foi a relação “quantidade de questões x tempo de prova” Tenho a impressão que o iluminado que calculou isso jamais realizou uma prova, ou se o fez, sempre teve o gabarito no colo. Questões longas que requeriam excessivo cuidado na leitura, tanto do enunciado quanto das alternativas, jamais poderiam atender ao coeficiente de três minutos por questão, sem contar que uma grande quantidade das noventa questões demandava cálculo. Tanto é verdade, que na prova da UERJ o quoeficiente é de quatro minutos por questão. Presenciei muitos candidatos apressando suas marcações ou fazendo as últimas quinze questões de qualquer forma, para não correrem o risco de não completarem a prova.

Voltando, alguém aí falou em trânsito? Durante a semana, quem trafega por qualquer região no Rio de Janeiro, e sei que também em outras cidades como São Paulo, esbarra até sem querer num contingente imensurável de agentes de trânsito. São tantos, que lotariam facilmente um Maracanã em dia de decisão. Mas hoje, um dia de evento nacional, quando que uma quantidade enorme de candidatos se desloca pela cidade, não havia qualquer agente da CET-Rio nas ruas auxiliando o escoamento do trânsito. Resultado? Nó na Taquara, nó no Pechincha e na Freguesia, para ficarmos nos bairros em que fui testemunha ocular do fato.

Alguém poderia argumentar que não são problemas assim tão graves e que não dizem respeito diretamente ao ENEM. Concordo e descordo. Porque se é verdade que o exame propriamente dito não deixou de ter sua aplicação realizada, por outro lado a falta de cuidado com pequenos detalhes que acarretam grandes transtornos, demonstra ausência de planejamento e de coordenação do aplicador nacional do exame com as autoridades locais, para garantir que a totalidade dos candidatos inscritos consiga ter o acesso necessário às suas unidades de prova.

Pra piorar a sensação de quem foi impedido de prestar o exame por circunstâncias que estiveram além de suas possibilidades e previsibilidades, a Jornal Nacional em sua edição de hoje, ressalta apenas que alguns “atrasados perdem a prova por se atrasarem”, deixando de prestar um importante serviço, que seria a cobrança desses cuidados por parte dos organizadores. Um desserviço a que já vimos nos acostumando ultimamente.

Por fim, amanhã teremos mais. Domingo sem tanto carro na rua e bem menos candidatos acorrendo aos locais de prova. O ENEM será um sucesso! E com a contabilização do total de inscritos, não dos que conseguiram realizá-lo.
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