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quarta-feira, 13 de março de 2024

O Livro de Jó - O Problema do Sofrimento - Parte 1

 Por Jânsen Leiros Jr.


 

 

“... sofrimento é um estado de aflição severa, associado a acontecimentos que ameaçam a integridade (manter-se intacto) de uma pessoa. Sofrimento exige consciência de si, envolve as emoções, tem efeitos nas relações pessoais da pessoa, e tem um impacto no corpo.16

 

The nature of suffering and the goals of medicine; Oxford University Press; 2004

https://www.scielo.br/j/bioet/a/mhFhLXsrNGTgMKKyCLfGjsM/

Cassell EJ

Iniciando nosso mergulho pelas diversas compreensões sobre quais temas versa efetivamente o Livro de Jó, começaremos pelo que é mais comumente admitido; o sofrimento humano. E claro, não seria prudente realizar qualquer tarefa nesse sentido, sem antes definirmos mais adequadamente o que convencionaremos chamar de sofrimento. Isso nos ajudará em não perder tempo com aquilo que não é sofrimento, confusão muito comum, principalmente em nossos dias, quando melindres exacerbados ou relevâncias impertinentes, dominam as pautas de discussões acadêmicas e populares diariamente.

 Sofrimento – o que, o que não é, e o que pode acabar sendo

 Na definição do médico e biocientista dr. Eric J. Cassel, cujo resumo acima tomamos emprestado, sofrimento é um estado de aflição severa. Vamos guardar esse trecho como um extrato concentrado, que de certa forma encerra em si, a explicação do que define bem especificamente o sofrimento; uma aflição severa.

 Esta definição preliminar é necessária, repito, para que não confundamos pequenos infortúnios ou condições existenciais desfavoráveis, com aquilo que é efetivamente um sofrimento. Não são poucas as vezes que escutamos pessoas dizerem estou sofrendo muito, fazendo menção a reveses comuns à vida humana. Desemprego, endividamento, fim de um relacionamento ou traições, são exemplos de reveses da vida, que nos causam sim, tristeza, melancolia, angústia ou indignação, reações pra lá de legítimas diante de tais realidades. Ainda assim, porém, não são um estado de aflição severa, e assim definidos como sofrimento propriamente dito. O estágio de transitoriedade razoavelmente curto de tais circunstâncias, somado à possibilidade latente de reversão da condição experimentada, reduzem a severidade da aflição, assim desqualificando-as como sofrimento.

 De qualquer forma, e para que nossos argumentos mais adiante não se tornem pobres e tendenciosos, e carentes de sustentação, vejamos resumidamente o que outras correntes, além da biociência, costumam definir como sofrimento, admitindo-se, inclusive, que mesmo aquilo que em princípio não pode ser aferido como sofrimento no rigor da análise, não está livre de tornar-se sofrimento, dependendo de contextos, variações circunstanciais ou prolongado estágio de permanência.

Compreensões filosóficas do sofrimento

Segundo a Filosofia, o sofrimento humano é um tema bastante complexo, analisado e abordado por diferentes correntes de pensamento ao longo da história. Existem, tanto na literatura filosófica, quanto em sua tradicional forma de problematizar uma questão, diversas interpretações sobre o que constitui o sofrimento, assim como aquilo que não é considerado como tal. Os mais comuns, são:

Perspectiva Existencialista

De acordo com os filósofos como Jean-Paul Sartre[1] e Søren Kierkegaard[2], o sofrimento humano surge da angústia existencial causada pela consciência da própria finitude, liberdade e responsabilidade, questões que lançam o ser humano em um debate interno interminável e questionador sobre si mesmo, suas possibilidades, feitos e continuidade. Para ambos, o sofrimento está enraizado na condição fundamental da existência humana, que busca por sentido em um universo aparentemente sem significado intrínseco; as clássicas perguntas: Por quê existimos? De onde viemos? Para onde vamos?

Visão Budista

Já na filosofia budista[3], o sofrimento é condição central para a compreensão da existência humana. O conceito de "dukkha" refere-se ao sofrimento causado pela insatisfação, pelo apego e pela impermanência das coisas. Para os budistas, a superação do sofrimento envolve a compreensão da natureza transitória e ilusória da realidade e a prática do desapego e da compaixão. Ou seja, à medida que nos aliviamos do peso da importância que damos a coisas e condições totalmente temporais, e portanto efêmeras, o sofrimento reduz. É o estado permanente de resignação e desprendimento a tudo que nos cerca, que pode diminuir o sofrimento, pois que, anulado pela compreensão, o poder de afetação que pessoas, coisas e fatos têm sobre nossas vidas, se anula por completo.

Perspectiva Ética

Alguns filósofos abordam o sofrimento humano do ponto de vista ético, considerando-o como resultado de injustiças, desigualdades e violações dos direitos humanos[4]. Nessa visão, o sofrimento é frequentemente visto como algo a ser combatido e mitigado por meio da justiça social, da solidariedade e da ação política. De certa forma, tal abordagem entende a ética aplicada como uma espécie de tábua de salvação, para a redução do sofrimento em nossa sociedade. Uma vez éticos em todas as interações da vida, a falta de conflitos pela manutenção dos direitos, regras e deveres, aliviariam a humanidade do sofrimento que lhe aflige.

Filosofia da Dor

                  Há também correntes de pensamento que se dedicam especificamente ao estudo da dor física e emocional, entendendo que uma pode naturalmente implicar na outra, sendo ao mesmo tempo, causa e efeito entre si. Filósofos como Elaine Scarry[5] exploram a natureza da dor e sua relação com a linguagem, o corpo e a experiência subjetiva. Esse conceito tem relação com a questão do luto e suas consequências perceptíveis na vida do enlutado. A dor da perda, incompreendida ou inaceitável, provoca sofrimento permanente, capaz de alterar o estado de existência e até mesmo a vontade de seguir vivendo. Nesta abordagem, inclusive, podemos incluir ainda a questão das falas agressivas, cujo conteúdo hostil e contundente podem trazer marcas e traumas, muitas vezes difíceis de serem superados.


Já quanto ao que não se deve considerar efetivo sofrimento, mas cujas fronteiras são sutis e sensíveis a variações intrínsecas, há relevantes pensamentos que dependem exclusivamente da perspectiva filosófica adotada, diante das circunstâncias. Alguns exemplos:

Desafios e Adversidades

Algumas visões filosóficas consideram que enfrentar desafios e adversidades pode ser uma oportunidade de crescimento e autotransformação, em vez de apenas causar algum sofrimento, ou mesmo significar sofrimento em si mesmos. Nesse sentido, o sofrimento pode ser percebido como parcela inevitável, mas não necessariamente negativa, da condição humana, tornando-se nada mais que um catalisador que impulsiona o desenvolvimento pessoal. Seria uma espécie de sofrimento instrumental, em que sua existência realiza de forma intrinsecamente planejada, na busca da melhoria da pessoa afligida. O que, em certa medida, em nada reduz a legitimidade do sofrimento e seu aspecto de aflição severa, se assim se constituir, no caso.

Experiências Próprias da Vida

Algumas formas de experiência, como alegria, prazer e contentamento, são vistas por muitos como opostas ao sofrimento. Há filósofos, no entanto, que argumentam que até mesmo essas experiências, aparentemente positivas, podem conter elementos de sofrimento, quer seja pela sua transitoriedade, quer seja por sua natureza efêmera, porque causariam aflição pela impossibilidade da continuidade do estágio de alegria. Uma espécie de sofrimento causado por um fim de festa ou pelo sorvete que cai. Isso é um pensamento contido no mito da Ferida de Fisher King[6], por exemplo, e que reforça o conceito de Spinoza[7], que entendia a alegria como verdadeira mola propulsora para o potente estado de realização humana. A perda do estado permanente de contentamento, no entanto, não deve mesmo ser considerado necessariamente como um sofrimento ou aflição severa.

Indiferença ou Apatia

                Em certos contextos filosóficos, a falta de sensibilidade ou preocupação com a própria condição desfavorável, ou mesmo pelo sofrimento alheio, pode ser vista como ausência de empatia e compaixão, que podem provocar, em estágios prolongados, sofrimento em si. Ainda que não se traduzam como aflição severa em um primeiro momento, a ausência de indignação, reação ou vontade de transformação de um determinado e incômodo status quo, pode gerar nostalgia, melancolia, e ainda desesperança, gerando sim, no tempo, permanente aflição.

Baseado no que vimos até agora, fica claro que os diferentes pontos de vista sobre o que é sofrimento ou não, são incapazes de qualificar ou desqualificar, de forma categórica, o que é ou não um estado de aflição severa, ou sofrimento. Assim, em vez de buscarmos entender de qual sofrimento trata o argumento teológico que entende o Livro de Jó como um tratado sobre o sofrimento humano, talvez seja muito mais interessante avaliarmos se, independente do grau ou natureza da aflição severa apresentada na narrativa, o sofrimento é mesmo o mote e tema central do autor do livro. Isso implicará em uma abordagem mais holística e contextualizada da obra, em que juntos buscaremos compreender os temas e mensagens que o autor pretendeu transmitir, em vez de nos concentrar exclusivamente nos aspectos intrínsecos ao sofrimento.

O próximo capítulo, portanto, provocará uma infinidade de confrontações com paradigmas e ideias pré-concebidas, sedimentadas em nós por análises diversas realizadas sobre o Livro de Jó ao longo de nossas vidas. E como eu sei? Porque passei pelas mesmas angustias construindo o conteúdo que você acessará agora. Mas não se preocupe. A qualquer momento você poderá apertar o botão e chamar a tripulação[8]. Iremos socorrer você.



[1] Jean-Paul Sartre foi um filósofo, escritor, dramaturgo e crítico francês, nascido em 21 de junho de 1905 e falecido em 15 de abril de 1980. Ele é uma figura proeminente na história do existencialismo e uma das figuras mais influentes da filosofia do século XX. Sartre é conhecido por sua obra filosófica, literária e política, incluindo textos como "O Ser e o Nada", onde desenvolve sua filosofia existencialista, e sua peça teatral "Entre Quatro Paredes". Sartre também foi um ativista político engajado, especialmente ligado ao marxismo e ao socialismo, e teve uma influência significativa na cultura francesa e global.

[2] Søren Kierkegaard foi um filósofo, teólogo e escritor dinamarquês do século XIX, nascido em 5 de maio de 1813 e falecido em 11 de novembro de 1855. Ele é amplamente considerado o pai do existencialismo, uma corrente filosófica que enfatiza a existência individual, a liberdade e a responsabilidade pessoal.

Kierkegaard produziu uma obra vasta e influente, explorando temas como a angústia, a fé, a liberdade, o desespero e a responsabilidade ética. Entre suas obras mais importantes estão "O Conceito de Angústia", "Ou-Ou: Um Fragmento de Vida", "Temor e Tremor", "O Desespero Humano" e "A Doença Mortal".

[3] A filosofia budista é uma tradição de pensamento que se originou a partir dos ensinamentos de Siddhartha Gautama, conhecido como Buda, na Índia, por volta do século VI a.C. Ela busca compreender a natureza da existência humana, o sofrimento e o caminho para a libertação do sofrimento.

Uma de suas principais bases filosóficas é o conceito de Quatro Nobres Verdades, que formam o cerne dos ensinamentos de Buda. Essas verdades afirmam que a vida é permeada pelo sofrimento (dukkha), que o sofrimento tem uma causa (tanha, ou desejo), que existe um fim para o sofrimento (nirvana) e que há um caminho para alcançar o fim do sofrimento, conhecido como o Nobre Caminho Óctuplo.

Além disso, a filosofia budista enfatiza a impermanência (anicca) de todas as coisas, a ausência de um eu permanente ou alma (anatta), e a interdependência de todos os fenômenos (pratitya-samutpada). Esses conceitos são fundamentais para a compreensão da existência humana e são explorados em profundidade nas várias escolas e tradições do budismo.

[4] Alguns filósofos que contribuíram significativamente para a compreensão do sofrimento humano no contexto das injustiças sociais, desigualdades e violações dos direitos humanos, oferecendo insights éticos e políticos sobre como lidar com essas questões.

1.       Karl Marx: Ele discutiu o sofrimento humano em termos de desigualdades econômicas e sociais, argumentando que o sistema capitalista cria injustiças que causam sofrimento aos trabalhadores.

2.       Friedrich Engels: Junto com Marx, Engels também analisou o sofrimento humano dentro do contexto das desigualdades sociais e econômicas, especialmente no que diz respeito à exploração da classe trabalhadora.

3.       John Stuart Mill: Mill abordou o sofrimento humano em seu utilitarismo, argumentando que a busca pelo maior bem-estar para o maior número de pessoas é fundamental para reduzir o sofrimento causado por injustiças sociais e políticas.

4.       John Rawls: Rawls discutiu o sofrimento humano em termos de justiça distributiva, defendendo princípios que buscam reduzir as desigualdades e promover o bem-estar de todos os membros da sociedade.

5.       Amartya Sen: Sen explorou o sofrimento humano em relação à privação de liberdades básicas e oportunidades, destacando a importância de abordar as causas estruturais das desigualdades para reduzir o sofrimento humano.

[5] Elaine Scarry é uma renomada filósofa, escritora e professora universitária norte-americana, nascida em 30 de junho de 1946. Ela é conhecida por seu trabalho interdisciplinar que abrange campos como filosofia política, teoria literária, estudos de gênero e direitos humanos.

Scarry é professora de Estudos e de Literatura Inglesa na Universidade de Harvard, onde leciona desde 1999. Antes disso, lecionou na Universidade de Chicago e na Universidade da Pensilvânia. Seus interesses de pesquisa incluem questões de dor, violência, beleza, linguagem e justiça.

Entre suas obras mais conhecidas está "The Body in Pain: The Making and Unmaking of the World" (1985), onde ela examina o conceito de dor física e suas implicações sociais, políticas e éticas. Scarry também escreveu sobre outros temas, como direitos humanos, guerra, tortura e literatura. Sua abordagem analítica e sua capacidade de conectar ideias filosóficas complexas com questões práticas da vida cotidiana lhe renderam reconhecimento internacional.

[6] A Ferida de Fisher King é um conceito que tem suas raízes na mitologia celta e foi popularizado na obra "O Herói de Mil Faces", de Joseph Campbell, e também na análise de mitos realizada por Carl Jung. O termo "Fisher King" vem da lenda do Rei Pescador, que é associada ao ciclo arturiano e ao Santo Graal.

Segundo a lenda, o Rei Pescador, que também é conhecido como Rei Ferido ou Rei Aleijado, é o guardião do Santo Graal, o cálice sagrado. Ele está ferido ou doente de alguma forma, e essa ferida está relacionada à terra, à fertilidade e ao bem-estar de seu reino. A incapacidade do Rei Pescador de curar sua própria ferida reflete-se na terra ao seu redor, que se torna árida e estéril.

A busca pelo Santo Graal muitas vezes envolve a busca por uma cura para a ferida do Rei Pescador. O herói que consegue encontrar e devolver o Graal ao Rei Pescador é capaz de curar sua ferida e restaurar a fertilidade e a prosperidade ao reino.

A Ferida de Fisher King é um símbolo poderoso que representa a conexão entre o bem-estar individual e o bem-estar do mundo ao nosso redor. Ela também é vista como uma metáfora para a jornada espiritual do herói em busca de cura, redenção e renovação.

[7] Baruch Spinoza, de ascendência judaica, foi um filósofo holandês, do século XVII, considerado um dos grandes racionalistas da filosofia ocidental. Ele é conhecido principalmente por sua obra "Ética", na qual desenvolve uma filosofia que combina elementos de panteísmo, determinismo e racionalismo. Spinoza argumentava que Deus e a natureza são uma mesma realidade substancial e que tudo o que acontece no universo é determinado por leis naturais. Ele defendia uma ética baseada na razão, no autoconhecimento e na liberdade interior, buscando a felicidade através do conhecimento e da compreensão da ordem natural das coisas. Suas ideias influenciaram significativamente o pensamento moderno nas áreas da filosofia, teologia, política e ética.

[8] Como os textos aqui do blog são sequenciados e pertencentes a uma obra aberta, em caso de dúvida e querendo esclarecer qualquer coisa, entre em contato com o os administradores do blog. Basta colocar suas considerações, perguntas ou críticas, nos comentários de cada texto. Teremos enorme prazer em responder a todos.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

O Livro de Jó - Construindo as bases

Por Jânsen Leiros Jr.


“Onde estou? O que significa dizer: o mundo? Qual é o sentido dessa palavra? Quem me colocou nesta fria e agora me deixou aqui feito bobo? Quem sou eu? Como eu vim parar neste tal de mundo? Por que eu não fui indagado a respeito disto? Por que eu não fui informado dos regulamentos e normas gerais de funcionamento, mas antes fui simplesmente lançado nas fileiras desta turba, como se tivesse sido comprado de um mercador de escravos? Como eu fui envolvido nesta grande aventura chamada de realidade? E por que deveria eu estar envolvido? Não seria isto uma questão de escolha? E uma vez que me sinto compelido a envolver-me, onde está o gerente? A quem devo apresentar minhas reclamações? E já que a vida é um debate, posso eu pedir que minhas observações sejam levadas em consideração? Se temos que aceitar a vida assim como é, não seria adequado descobrirmos como as coisas funcionam?”.

 O anônimo jovem apaixonado ao dirige-se, perplexo, a Constantin Constantius

Obra A Repetição

Søren Kierkegaard

 Seguindo nosso passeio pelo Livro de Jó, e já tendo na memória um resumo bem condensado de seu conteúdo, precisamos abrir espaços para reflexões que nos permitirão olhares mais profundos e um pouco fora do lugar comum, no que se refere a análises mais corriqueiras desse livro e de seus propósitos. Não que o lugar comum não tenha seu espaço garantido e sua importância firmada em boa tradição. Longe disso. Mas entendemos que ângulos mais oblíquos de nossas percepções, podem nos conceder maior amplitude e identificação de questões mais profundas, tratadas com excelência no texto, e que são tão pertinentes em nossos tempos, quanto efetivamente o foram no tempo em que o Livro de Jó foi incorporado à tradição judaica e posicionado em seu cânon. Como obra atemporal, o Livro de Jó tem um significado teológico tão desafiador, e uma narrativa tão rica e intensa, que nos permitirá ultrapassar limites de tempo e de circunstâncias culturais, aplicando sua revelação com total adequação aos dias atuais. Talvez daí se entenda a popularidade tão impressionante desse livro.

Como afirmamos anteriormente, muitos e competentes estudiosos se debruçaram sobre o Livro de Jó, empreendendo profundas e responsáveis abordagens sobre seu conteúdo. E ainda que haja mais convergências nestes estudos do que divergências, algumas e singulares observações precisam ser pontuadas preliminarmente neste nosso trabalho, para que o exercício a que nos dedicaremos não sofra de insuficiência comparativa ou rigidez de pensamento, diante do que mais à frente apresentaremos como pontos particulares de inflexão.

Entre os especialistas que ao longo de nossas páginas citaremos, estão aqueles cujos pensamentos e afirmações nos parece, independente de concordarmos ou não, melhor estruturam suas convicções. Um deles é Gustavo Gutiérrez, teólogo, que abordou a narrativa do Livro de Jó como uma reflexão profunda sobre a natureza do sofrimento humano, destacando o papel da fé diante das adversidades que a vida nos impõe. Outro, em contraste a isso, é o filósofo Søren Kierkegaard que interpretou o livro como um desafio à fé cega, sugerindo que a história de Jó é uma espécie de inspiração divina para que o comportamento religioso ultrapasse suas próprias convenções. Já na esfera da teologia judaica, o Livro de Jó é frequentemente analisado à luz da justiça divina. O Rabino Harold Kushner, autor de "Quando Coisas Ruins Acontecem a Pessoas Boas", explora a ideia de um Deus que não é responsável pelo sofrimento humano, mas sim um consolador diante das tribulações.

            De um jeito ou de outro, nas três abordagens que vimos acima, a análise parte do que acontece ao Jó, e não do que lhe sobrevém pelo que ele é, vive, age ou mesmo pelo que demonstra crer como modelo de existência e relacionamento com Deus. Talvez isso se dê porque sua ilibada e inatacável conduta e reputação o coloque, na maioria das análises, como uma vítima perplexa das circunstâncias, ou no mínimo um inocente envolvido na rixa entre Deus e Satanás, narrada nos primeiros capítulos do livro. Coitado do Jó, tinha nada com isso... estava quieto no seu canto, e vejam onde foi parar...

Não estou, com isso, afirmando ou atribuindo a Jó qualquer culpa, dolo ou responsabilidade direta ou indireta pelo que lhe acontece na história. De modo algum. Pelo menos, não ainda. Entendo, porém, que isola-lo da tensão que a narrativa traz, dando a entender que se trata de alguém apenas envolvido na trama, ou caído de paraquedas, é minimizar ou mesmo desprezar uma oportunidade importante de se entender, com melhores possibilidades, o propósito primordial de sua história, e por que razões sua narrativa encontrou lugar de destaque para inspiração de povos antigos, com força para atravessar séculos e séculos de história. Interessou-se por isso? Eu também. Mas nisso nos aprofundaremos mais adiante, ao comentarmos alguns textos específicos da narrativa de Jó.

Por agora nos concentraremos em enunciar os diferentes temas que costumam ser listados como principais assuntos abordados no livro, e que fundamentam a atenção dispensada a ele mundo afora, com um pequeno resumo sobre o que cada um desenvolve baseado no texto do livro.

O Problema do Sofrimento

Jó enfrenta um intenso sofrimento físico, emocional e financeiro, que o leva a questionar diversos princípios que até então determinavam seu modo de viver. Isso levanta questões sobre a natureza do sofrimento humano, bem como sua origem e seu propósito. Por que pessoas boas sofrem?

A Fé em Meio à Adversidade

A história de Jó questiona a natureza e firmeza da fé em momentos de provação extrema, explorando como a devoção pode persistir apesar de circunstâncias calamitosas e desfavoráveis.

A Justiça Divina e seu Sistema Retributivo

A narrativa do livro, segundo alguns, aborda a questão da aplicação da justiça divina como um processo legal de retribuição do bem e do mal. Para estes, o livro desafia noções tradicionais de recompensa e castigo em relação às atitudes humanas; cada um de nós recebe apenas o que merece?

A Relação Pessoal com Deus

O Livro de Jó aponta para a importância de uma relação pessoal consciente com Deus, optativa e voluntária, indo muito além de rituais formais ou formatos de repetição. Ele destaca ainda a necessária e indispensável autenticidade de uma devoção genuína e legitima por parte de seus adoradores.

O Papel do Apoiador e Conselheiro

Os diálogos entre Jó e seus amigos que o buscavam consolar, provocam profundas reflexões sobre como oferecer o conforto e o conselho, e como devem ser aplicados em momentos de sofrimento e dor inconsoláveis.

A Natureza Insondável de Deus

A narrativa ressalta a impossibilidade de se compreender os meios e propósitos de Deus em sua totalidade, destacando a limitação humana em avaliar as motivações de sua providência e as razões de suas escolhas no tempo. O finito querendo entender o infinito.

A Paciência de Jó e sua Resiliência

Jó é frequente e popularmente citado como um exemplo de paciência e resiliência diante das adversidades cotidianas da vida. Suas atitudes ao longo da história do livro, nos inspira a reflexões sobre a virtude convicta e persistente em meio às tribulações. 

O Valor da Sabedoria

Por isso posicionado entre os livros poéticos e sapienciais no Antigo Testamento, boa parte do Livro de Jó é composta por discursos poéticos e filosóficos, que ensejam inevitável reflexão no leitor, evidenciando o valor da sabedoria na compreensão da vida e da fé.

A Dimensão Ética da Fé

Uma das mais abandonadas questões nas comunidades cristãs na atualidade, a narrativa do livro aborda questões éticas relacionadas à fidelidade a Deus, à integridade moral e à responsabilidade particular diante do sofrimento alheio, quer individual ou coletivo.

A Restauração e Renovação da Vida

O final do livro que narra a restauração de Jó, tanto de sua saúde física, quanto de suas condições financeiras e emocionais, sugere uma mensagem de esperança, apontando para uma consequente renovação da vida após períodos de tribulação, para aqueles que persistem e resistem juntos a Deus, em meio e apesar do caos.

            Em nossos estudos aqui, nos aprofundaremos em cada um desses temas, buscando olhar de forma responsável para cada um deles, sem necessariamente entender que se excluem entre si como temas abordados. Não obstante, tentaremos aprofundar nossos olhares sobre eles, de modo a encontrar suas aplicações mais diretas e transformadoras, para a vida e para as circunstâncias em que nos inserimos hoje. Mantendo o viés poético e teológico que o texto traz, tentaremos compreender a atualidade do livro, à luz do sentido original aplicado ao seu tempo.

Assim, beba um copo d’água e respire fundo. Os próximos mergulhos serão mais longos e demorados. Vamos precisar de fôlego e vontade, tempo e disposição, para seguir nessa aventura empolgante, de explorar tudo aquilo que pode revelar o Livro de Jó.

domingo, 21 de janeiro de 2024

O Livro de Jó - Desafios Preliminares I

Por Jânsen Leiros Jr.

 


 
"Baseado neste enredo simples, um escritor desconhecido de gênio superlativo erigiu uma obra monumental. As perguntas mais persistentes acerca do relacionamento entre os homens e Deus receberam tratamento teológico poderoso em poesia cuja majestade e emoção não são superadas em qualquer literatura, antiga ou moderna. 

JÓ - Introdução e Comentário

De Francis I. Andersen

Pág. 14; Introdução – A história de Jó

 Uma das tarefas mais preliminares e ajuizadas a que um estudioso deve se lançar ao empreender um comentário, qualquer que seja o livro que pretende comentar, é identificar e qualificar seu autor, e conhecer quando, como e porque tal livro foi escrito. Só depois, então, de satisfeito com os dados colhidos e organizados sobre estas questões, poderá iniciar, com alguma segurança, um comentário responsável.  Ato contínuo, o estudo e a compreensão do texto do livro, será minimamente orientado pelas informações acumulados nesta fase. Assim rezam as boas práticas. O livro de Jó, porém, sofre do que costumo chamar impertinência normativa.

Escrito, por alguém que não se sabe quem, em um lugar que não se sabe onde, e por uma razão que não se sabe ao certo porque, o livro de Jó é um case de insucessos especulativos dos mais diversos e renomados estudiosos bíblicos e teólogos mundo afora, que se lançaram na elucubração metodológica de pontuar assertivamente, cada um dos fatores preliminares de qualquer estudo: quem, quando, onde e por que.

As especulações sobre o livro de Jó se iniciam mesmo antes das pesquisas preliminares, quando o próprio personagem central da história, tem sua existência questionada pelo próprio processo crítico-literário de seu conteúdo. Apresentado como uma dramatização bem organizada e com discursos bem estruturados, coerentes e lógicos, a narrativa apresenta uma complexidade muito bem elaborada, difícil de encontrar paralelismo na realidade cotidiana da vida humana, onde o improviso das falas, argumentos e contra-argumentos, não permitiriam um encadeamento tão perfeito de ideais e conceitos a se defender por seus oradores.

             Por estas questões, o estudo do livro de Jó, entendo, começa bem parecido com a história de seu próprio personagem; mesmo buscando fazer o que é certo se vê, por sua nova realidade, mergulhado em incertezas profundas, que o obriga a desconstruir muitas de suas percepções anteriores, para reiniciar um melhor entendimento e conhecimento de Deus; legitimado, transformado e renovado. Nossas convicções, creio, passarão pelo mesmo e estreito caminho.

Assim, para facilitar-nos a compreensão e nos provocarmos às mais corajosas induções e deduções ao longo do estudo, iremos ordenadamente cumprir o passo a passo do manual do bom comentário, indo desde um resumo necessário do conteúdo do livro, até a avaliação da integridade de seu texto, passando pela discussão de sua autoria, onde e quando foi escrito, e por que participa do compêndio bíblico, sendo assim aceito como Palavra de Deus.


              I.        A história do Livro de Jó

A história de livro de Jó muito provavelmente figura entre as histórias bíblicas mais conhecidas em todo o mundo. Usada até mesmo como ditado popular, a história de Jó não possui questões teológicas intrincadas, conceitos filosóficos complexos, ou mesmo apelos éticos de difícil elaboração. Muito pelo contrário, sua história é simples, sua comunicação direta, e seu recado pra lá de evidente. Por que, então, e apesar de toda a simplicidade, esse livro traz tantas inquietações e provoca tanta curiosidade nos mais diversos grupos religiosos com acesso à sua história?

Uma resposta possível, talvez, sejam os temas que o livro abordará, mesmo sem que possamos ter a certeza de que tal tenha sido a pretensão original de seu autor. Assuntos como o mal, o sofrimento, a justiça e a soberania de Deus, ocuparão páginas e páginas, visitando os discursos feitos por Jó, seus amigos, e por fim pelo próprio Deus, numa sequência de tirar o fôlego, quase não deixando espaço para o leitor descansar. 

Começando por uma rápida qualificação do personagem principal, o autor logo corta para uma conversa de bastidor entre Deus e Satanás, que servirá de estopim para todos os infortúnios que advirão sobre Jó e sua família. Numa sequência que lembra o início do filme Desventuras em Série, tudo de ruim acontecerá para Jó, que ao final dos trágicos acontecimentos preliminares, vai dizer: louvado seja Deus. 

Não bastasse a tragédia que se abate sobre sua vida, a esposa do nosso personagem, assistindo seu sofrimento e perplexa diante de sua aceitação dos fatos, propõe, com uma das mais controversas falas bíblicas na atualidade: amaldiçoe a Deus e morra. Por que? Ela teria razão no que está dizendo? Estaria consciente do devaneio de sua fala? Jó entende que não. Mas seus amigos entendem que sim. Ou que ao menos toda aquela coleção de infortúnios só pode querer dizer uma coisa: Jó teria aprontado alguma coisa muito feia. Inominável. Um segredo que o consumia, posto que, guardado, lhe vinha provocar desonra pública e muitas chagas. A demonstração inquestionável da reprovação de Deus. Uma punição direta e dolorida. Ele precisaria então confessar seu pecado para que tudo viesse a ser restaurado em sua vida. E enquanto isso, seus amigos estariam ali para lhe consolar e amparar. Seria mesmo só essa a intenção daqueles homens?

Jó resiste bravamente. Incitado continuamente a confessar o que não fizera, seu discurso se volta para aquele que entende estar agindo com injustiça para com ele; Deus. Que diante das argumentações e defesa que Jó faz de si mesmo, não se ocupa em responder tais argumentos. Em vez disso, revela ao próprio Jó a grandeza e magnitude de seus propósitos desde a concepção do universo, até o momento presente daquela conversa, afirmando-se eterno, onisciente e soberano. É verdade, o texto não registra. Mas minha impressão é a de que Jó empalidece, posto que seus argumentos cessam.

Transformado em todo seu entendimento e conhecimento de Deus, Jó demonstra novo olhar sobre a própria existência, e tem, por Deus, restaurada toda a sua vida, em condições superlativas àquelas que tinha anteriormente. E tudo acaba bem. 

Ora, não parece tudo simples e fácil como história? Penso que sim. Bem simples. E fiz questão de escrever toda esta sequência de memória, sem sequer recorrer a esboços ou resumos acadêmicos sobre o Livro de Jó, tamanha a simplicidade de sua história narrada. Fácil de memorizar. 

                Acontece que esta banda é na verdade uma orquestra. Tudo isso que, como melodia fácil de ser lembrada se reconhece de longe quando executada, de perto se revela uma das mais extraordinárias composições do universo, repleta de compassos, fusas e semifusas, fermatas e acordes dissonantes, tocados por diferentes e inesperados instrumentos, que harmoniosamente produzem uma das mais belas obras primas da literatura bíblica, e por que não dizer, universal?

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