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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

O Livro de Jó - Construindo as bases

Por Jânsen Leiros Jr.


“Onde estou? O que significa dizer: o mundo? Qual é o sentido dessa palavra? Quem me colocou nesta fria e agora me deixou aqui feito bobo? Quem sou eu? Como eu vim parar neste tal de mundo? Por que eu não fui indagado a respeito disto? Por que eu não fui informado dos regulamentos e normas gerais de funcionamento, mas antes fui simplesmente lançado nas fileiras desta turba, como se tivesse sido comprado de um mercador de escravos? Como eu fui envolvido nesta grande aventura chamada de realidade? E por que deveria eu estar envolvido? Não seria isto uma questão de escolha? E uma vez que me sinto compelido a envolver-me, onde está o gerente? A quem devo apresentar minhas reclamações? E já que a vida é um debate, posso eu pedir que minhas observações sejam levadas em consideração? Se temos que aceitar a vida assim como é, não seria adequado descobrirmos como as coisas funcionam?”.

 O anônimo jovem apaixonado ao dirige-se, perplexo, a Constantin Constantius

Obra A Repetição

Søren Kierkegaard

 Seguindo nosso passeio pelo Livro de Jó, e já tendo na memória um resumo bem condensado de seu conteúdo, precisamos abrir espaços para reflexões que nos permitirão olhares mais profundos e um pouco fora do lugar comum, no que se refere a análises mais corriqueiras desse livro e de seus propósitos. Não que o lugar comum não tenha seu espaço garantido e sua importância firmada em boa tradição. Longe disso. Mas entendemos que ângulos mais oblíquos de nossas percepções, podem nos conceder maior amplitude e identificação de questões mais profundas, tratadas com excelência no texto, e que são tão pertinentes em nossos tempos, quanto efetivamente o foram no tempo em que o Livro de Jó foi incorporado à tradição judaica e posicionado em seu cânon. Como obra atemporal, o Livro de Jó tem um significado teológico tão desafiador, e uma narrativa tão rica e intensa, que nos permitirá ultrapassar limites de tempo e de circunstâncias culturais, aplicando sua revelação com total adequação aos dias atuais. Talvez daí se entenda a popularidade tão impressionante desse livro.

Como afirmamos anteriormente, muitos e competentes estudiosos se debruçaram sobre o Livro de Jó, empreendendo profundas e responsáveis abordagens sobre seu conteúdo. E ainda que haja mais convergências nestes estudos do que divergências, algumas e singulares observações precisam ser pontuadas preliminarmente neste nosso trabalho, para que o exercício a que nos dedicaremos não sofra de insuficiência comparativa ou rigidez de pensamento, diante do que mais à frente apresentaremos como pontos particulares de inflexão.

Entre os especialistas que ao longo de nossas páginas citaremos, estão aqueles cujos pensamentos e afirmações nos parece, independente de concordarmos ou não, melhor estruturam suas convicções. Um deles é Gustavo Gutiérrez, teólogo, que abordou a narrativa do Livro de Jó como uma reflexão profunda sobre a natureza do sofrimento humano, destacando o papel da fé diante das adversidades que a vida nos impõe. Outro, em contraste a isso, é o filósofo Søren Kierkegaard que interpretou o livro como um desafio à fé cega, sugerindo que a história de Jó é uma espécie de inspiração divina para que o comportamento religioso ultrapasse suas próprias convenções. Já na esfera da teologia judaica, o Livro de Jó é frequentemente analisado à luz da justiça divina. O Rabino Harold Kushner, autor de "Quando Coisas Ruins Acontecem a Pessoas Boas", explora a ideia de um Deus que não é responsável pelo sofrimento humano, mas sim um consolador diante das tribulações.

            De um jeito ou de outro, nas três abordagens que vimos acima, a análise parte do que acontece ao Jó, e não do que lhe sobrevém pelo que ele é, vive, age ou mesmo pelo que demonstra crer como modelo de existência e relacionamento com Deus. Talvez isso se dê porque sua ilibada e inatacável conduta e reputação o coloque, na maioria das análises, como uma vítima perplexa das circunstâncias, ou no mínimo um inocente envolvido na rixa entre Deus e Satanás, narrada nos primeiros capítulos do livro. Coitado do Jó, tinha nada com isso... estava quieto no seu canto, e vejam onde foi parar...

Não estou, com isso, afirmando ou atribuindo a Jó qualquer culpa, dolo ou responsabilidade direta ou indireta pelo que lhe acontece na história. De modo algum. Pelo menos, não ainda. Entendo, porém, que isola-lo da tensão que a narrativa traz, dando a entender que se trata de alguém apenas envolvido na trama, ou caído de paraquedas, é minimizar ou mesmo desprezar uma oportunidade importante de se entender, com melhores possibilidades, o propósito primordial de sua história, e por que razões sua narrativa encontrou lugar de destaque para inspiração de povos antigos, com força para atravessar séculos e séculos de história. Interessou-se por isso? Eu também. Mas nisso nos aprofundaremos mais adiante, ao comentarmos alguns textos específicos da narrativa de Jó.

Por agora nos concentraremos em enunciar os diferentes temas que costumam ser listados como principais assuntos abordados no livro, e que fundamentam a atenção dispensada a ele mundo afora, com um pequeno resumo sobre o que cada um desenvolve baseado no texto do livro.

O Problema do Sofrimento

Jó enfrenta um intenso sofrimento físico, emocional e financeiro, que o leva a questionar diversos princípios que até então determinavam seu modo de viver. Isso levanta questões sobre a natureza do sofrimento humano, bem como sua origem e seu propósito. Por que pessoas boas sofrem?

A Fé em Meio à Adversidade

A história de Jó questiona a natureza e firmeza da fé em momentos de provação extrema, explorando como a devoção pode persistir apesar de circunstâncias calamitosas e desfavoráveis.

A Justiça Divina e seu Sistema Retributivo

A narrativa do livro, segundo alguns, aborda a questão da aplicação da justiça divina como um processo legal de retribuição do bem e do mal. Para estes, o livro desafia noções tradicionais de recompensa e castigo em relação às atitudes humanas; cada um de nós recebe apenas o que merece?

A Relação Pessoal com Deus

O Livro de Jó aponta para a importância de uma relação pessoal consciente com Deus, optativa e voluntária, indo muito além de rituais formais ou formatos de repetição. Ele destaca ainda a necessária e indispensável autenticidade de uma devoção genuína e legitima por parte de seus adoradores.

O Papel do Apoiador e Conselheiro

Os diálogos entre Jó e seus amigos que o buscavam consolar, provocam profundas reflexões sobre como oferecer o conforto e o conselho, e como devem ser aplicados em momentos de sofrimento e dor inconsoláveis.

A Natureza Insondável de Deus

A narrativa ressalta a impossibilidade de se compreender os meios e propósitos de Deus em sua totalidade, destacando a limitação humana em avaliar as motivações de sua providência e as razões de suas escolhas no tempo. O finito querendo entender o infinito.

A Paciência de Jó e sua Resiliência

Jó é frequente e popularmente citado como um exemplo de paciência e resiliência diante das adversidades cotidianas da vida. Suas atitudes ao longo da história do livro, nos inspira a reflexões sobre a virtude convicta e persistente em meio às tribulações. 

O Valor da Sabedoria

Por isso posicionado entre os livros poéticos e sapienciais no Antigo Testamento, boa parte do Livro de Jó é composta por discursos poéticos e filosóficos, que ensejam inevitável reflexão no leitor, evidenciando o valor da sabedoria na compreensão da vida e da fé.

A Dimensão Ética da Fé

Uma das mais abandonadas questões nas comunidades cristãs na atualidade, a narrativa do livro aborda questões éticas relacionadas à fidelidade a Deus, à integridade moral e à responsabilidade particular diante do sofrimento alheio, quer individual ou coletivo.

A Restauração e Renovação da Vida

O final do livro que narra a restauração de Jó, tanto de sua saúde física, quanto de suas condições financeiras e emocionais, sugere uma mensagem de esperança, apontando para uma consequente renovação da vida após períodos de tribulação, para aqueles que persistem e resistem juntos a Deus, em meio e apesar do caos.

            Em nossos estudos aqui, nos aprofundaremos em cada um desses temas, buscando olhar de forma responsável para cada um deles, sem necessariamente entender que se excluem entre si como temas abordados. Não obstante, tentaremos aprofundar nossos olhares sobre eles, de modo a encontrar suas aplicações mais diretas e transformadoras, para a vida e para as circunstâncias em que nos inserimos hoje. Mantendo o viés poético e teológico que o texto traz, tentaremos compreender a atualidade do livro, à luz do sentido original aplicado ao seu tempo.

Assim, beba um copo d’água e respire fundo. Os próximos mergulhos serão mais longos e demorados. Vamos precisar de fôlego e vontade, tempo e disposição, para seguir nessa aventura empolgante, de explorar tudo aquilo que pode revelar o Livro de Jó.

domingo, 21 de janeiro de 2024

O Livro de Jó - Desafios Preliminares I

Por Jânsen Leiros Jr.

 


 
"Baseado neste enredo simples, um escritor desconhecido de gênio superlativo erigiu uma obra monumental. As perguntas mais persistentes acerca do relacionamento entre os homens e Deus receberam tratamento teológico poderoso em poesia cuja majestade e emoção não são superadas em qualquer literatura, antiga ou moderna. 

JÓ - Introdução e Comentário

De Francis I. Andersen

Pág. 14; Introdução – A história de Jó

 Uma das tarefas mais preliminares e ajuizadas a que um estudioso deve se lançar ao empreender um comentário, qualquer que seja o livro que pretende comentar, é identificar e qualificar seu autor, e conhecer quando, como e porque tal livro foi escrito. Só depois, então, de satisfeito com os dados colhidos e organizados sobre estas questões, poderá iniciar, com alguma segurança, um comentário responsável.  Ato contínuo, o estudo e a compreensão do texto do livro, será minimamente orientado pelas informações acumulados nesta fase. Assim rezam as boas práticas. O livro de Jó, porém, sofre do que costumo chamar impertinência normativa.

Escrito, por alguém que não se sabe quem, em um lugar que não se sabe onde, e por uma razão que não se sabe ao certo porque, o livro de Jó é um case de insucessos especulativos dos mais diversos e renomados estudiosos bíblicos e teólogos mundo afora, que se lançaram na elucubração metodológica de pontuar assertivamente, cada um dos fatores preliminares de qualquer estudo: quem, quando, onde e por que.

As especulações sobre o livro de Jó se iniciam mesmo antes das pesquisas preliminares, quando o próprio personagem central da história, tem sua existência questionada pelo próprio processo crítico-literário de seu conteúdo. Apresentado como uma dramatização bem organizada e com discursos bem estruturados, coerentes e lógicos, a narrativa apresenta uma complexidade muito bem elaborada, difícil de encontrar paralelismo na realidade cotidiana da vida humana, onde o improviso das falas, argumentos e contra-argumentos, não permitiriam um encadeamento tão perfeito de ideais e conceitos a se defender por seus oradores.

             Por estas questões, o estudo do livro de Jó, entendo, começa bem parecido com a história de seu próprio personagem; mesmo buscando fazer o que é certo se vê, por sua nova realidade, mergulhado em incertezas profundas, que o obriga a desconstruir muitas de suas percepções anteriores, para reiniciar um melhor entendimento e conhecimento de Deus; legitimado, transformado e renovado. Nossas convicções, creio, passarão pelo mesmo e estreito caminho.

Assim, para facilitar-nos a compreensão e nos provocarmos às mais corajosas induções e deduções ao longo do estudo, iremos ordenadamente cumprir o passo a passo do manual do bom comentário, indo desde um resumo necessário do conteúdo do livro, até a avaliação da integridade de seu texto, passando pela discussão de sua autoria, onde e quando foi escrito, e por que participa do compêndio bíblico, sendo assim aceito como Palavra de Deus.


              I.        A história do Livro de Jó

A história de livro de Jó muito provavelmente figura entre as histórias bíblicas mais conhecidas em todo o mundo. Usada até mesmo como ditado popular, a história de Jó não possui questões teológicas intrincadas, conceitos filosóficos complexos, ou mesmo apelos éticos de difícil elaboração. Muito pelo contrário, sua história é simples, sua comunicação direta, e seu recado pra lá de evidente. Por que, então, e apesar de toda a simplicidade, esse livro traz tantas inquietações e provoca tanta curiosidade nos mais diversos grupos religiosos com acesso à sua história?

Uma resposta possível, talvez, sejam os temas que o livro abordará, mesmo sem que possamos ter a certeza de que tal tenha sido a pretensão original de seu autor. Assuntos como o mal, o sofrimento, a justiça e a soberania de Deus, ocuparão páginas e páginas, visitando os discursos feitos por Jó, seus amigos, e por fim pelo próprio Deus, numa sequência de tirar o fôlego, quase não deixando espaço para o leitor descansar. 

Começando por uma rápida qualificação do personagem principal, o autor logo corta para uma conversa de bastidor entre Deus e Satanás, que servirá de estopim para todos os infortúnios que advirão sobre Jó e sua família. Numa sequência que lembra o início do filme Desventuras em Série, tudo de ruim acontecerá para Jó, que ao final dos trágicos acontecimentos preliminares, vai dizer: louvado seja Deus. 

Não bastasse a tragédia que se abate sobre sua vida, a esposa do nosso personagem, assistindo seu sofrimento e perplexa diante de sua aceitação dos fatos, propõe, com uma das mais controversas falas bíblicas na atualidade: amaldiçoe a Deus e morra. Por que? Ela teria razão no que está dizendo? Estaria consciente do devaneio de sua fala? Jó entende que não. Mas seus amigos entendem que sim. Ou que ao menos toda aquela coleção de infortúnios só pode querer dizer uma coisa: Jó teria aprontado alguma coisa muito feia. Inominável. Um segredo que o consumia, posto que, guardado, lhe vinha provocar desonra pública e muitas chagas. A demonstração inquestionável da reprovação de Deus. Uma punição direta e dolorida. Ele precisaria então confessar seu pecado para que tudo viesse a ser restaurado em sua vida. E enquanto isso, seus amigos estariam ali para lhe consolar e amparar. Seria mesmo só essa a intenção daqueles homens?

Jó resiste bravamente. Incitado continuamente a confessar o que não fizera, seu discurso se volta para aquele que entende estar agindo com injustiça para com ele; Deus. Que diante das argumentações e defesa que Jó faz de si mesmo, não se ocupa em responder tais argumentos. Em vez disso, revela ao próprio Jó a grandeza e magnitude de seus propósitos desde a concepção do universo, até o momento presente daquela conversa, afirmando-se eterno, onisciente e soberano. É verdade, o texto não registra. Mas minha impressão é a de que Jó empalidece, posto que seus argumentos cessam.

Transformado em todo seu entendimento e conhecimento de Deus, Jó demonstra novo olhar sobre a própria existência, e tem, por Deus, restaurada toda a sua vida, em condições superlativas àquelas que tinha anteriormente. E tudo acaba bem. 

Ora, não parece tudo simples e fácil como história? Penso que sim. Bem simples. E fiz questão de escrever toda esta sequência de memória, sem sequer recorrer a esboços ou resumos acadêmicos sobre o Livro de Jó, tamanha a simplicidade de sua história narrada. Fácil de memorizar. 

                Acontece que esta banda é na verdade uma orquestra. Tudo isso que, como melodia fácil de ser lembrada se reconhece de longe quando executada, de perto se revela uma das mais extraordinárias composições do universo, repleta de compassos, fusas e semifusas, fermatas e acordes dissonantes, tocados por diferentes e inesperados instrumentos, que harmoniosamente produzem uma das mais belas obras primas da literatura bíblica, e por que não dizer, universal?

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