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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

De todos os milagres, o maior



Por Jânsen Leiros Jr.


8 Disse-lhe Felipe: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta. 9 Respondeu-lhe Jesus: Há tanto tempo que estou convosco, e ainda não me conheces, Felipe? Quem me viu a mim, viu o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? 10 Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, é quem faz as suas obras. 11 Crede-me que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim; crede ao menos por causa das mesmas obras. 12 Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que crê em mim, esse também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas; porque eu vou para o Pai; 13 e tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. 14 Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu a farei.
João 14:8-14 - JFA

Sempre que eu lia esse texto de João, em que o próprio Jesus nos disse que realizaríamos as mesmas obras que ele realizava, eu me questionava quanto ao que isso significaria na prática, já que na maioria das vezes flanamos sobre o texto sem nele nos determos, senão na primeira parte apenas. E como se não bastasse dizer que faríamos as mesmas obras, ele acrescentou que as faríamos maiores do que aquelas, porque eu vou para o Pai. Mas que obras seriam essas?

Tais questionamentos são invariavelmente ignorados, ainda que legítimos, pela agenda pragmática de um evangelho de resultados. Com uma comunicação empobrecida e rasa, sustentada em frases de efeito e palavras de ordem, a dinâmica da maioria dos que deveriam nutrir o povo com alimento sólido, se ocupa em entreter suas audiências com mágicas, piruetas e palhaçadas, num picadeiro dantesco de um espetáculo que não pode parar.

Para uma relevante parcela dos evangélicos, as obras de Jesus ficam restritas aos milagres que operou, sem qualquer menção ao que se pretenderam todos eles. E não são poucos os líderes que convenientemente ajustam suas pautas de púlpito, para atenderem a um crescente hedonismo frívolo disfarçado de piedade, que infantiliza as multidões e perpetua um sequioso comportamento egoísta dá, dá[1].

Ora, comprometidos que se fazem com a manutenção da histeria coletiva que promovem entre seus seguidores, gastam-se na produção de espetáculos de fé e milagres, para uma multidão que acostumou-se a ser entretida convenientemente com mágicas e encantamentos. Afinal, dizem a si mesmos, nossos milagres seriam mesmo maiores do que os de Jesus, e ainda que Deus é o mesmo ontem, hoje e eternamente, buscando sustentar no texto bíblico, sem qualquer temor ou tremor, a manipulação que fazem das gentes que os acompanham ao abismo[2].

Pode ser que a essa altura já se pense que não passo de mais um cético insensível, que não acredita em milagres nem no poder de Deus, ou que acredita que os milagres ficaram no passado da história da igreja, em histórias míticas contadas exclusivamente para despertar a fé nas populações daquela época. Mas o que posso afirmar com todas as forças de minhas entranhas, é que sou experimentado em dores e muitos milagres, que o Senhor realizou conforme seu propósito diante de meus olhos e dos olhos de muitos irmãos, e que mantém realizando, sustentando a tudo por seu poder inabalável.

Acontece que entender as obras que tenho realizado apenas como os milagres, é restringir as obras apenas a um único e menor pedaço de toda obra realizada. É como ver apenas a ponta de um iceberg. Na verdade, os milagres operados por Jesus que a tantos beneficiava diretamente com curas e até ressurreição dos mortos, além da restituição imediata da saúde e do bem estar, ou ainda da própria vida, sobretudo resgatava o indivíduo de sua condição marginal, reintroduzindo-o e reconduzindo-o à sociedade que o marginalizou devido o mal que lhe acometeu. O milagre tinha, portanto, uma finalidade redentora.

Há algumas semanas estive em uma obra beneficente, que trata da reabilitação de crianças com deficiência, a partir de terapias com uso de cavalos; a equinoterapia. Ali, quase duzentas crianças são tratadas e cuidadas também com outras terapias complementares, além do cuidado que se tem com seus pais e responsáveis. Num ambiente de carinho e atenção, de expressa compaixão e dedicação, surgem significativos avanços no tratamento daquelas crianças que, sem aquele projeto, estariam mantidas reféns de suas limitações, dependendo do despreparo de seus próximos, e do descaso da sociedade que os mantém à margem.

Observando ali aquelas crianças com variados graus de necessidades especiais, por um instante pensei comigo mesmo: Tivéssemos fé do tamanho de um grão de mostarda, oraríamos por essas crianças e elas todas ficariam curadas de uma só vez; faríamos milagres... E então fui interrompido por uma voz interior, inquestionavelmente audível em tom desafiador, que me interpelou: E não é tudo isso aqui um milagre? E me coloquei a meditar naquela advertência.

Tudo considerado, não tive dúvidas de que estava diante de um impressionante milagre produzido pelo amor. Crianças carentes sendo cuidadas com extremo carinho por profissionais que se devotam além de suas remunerações. Tempo de vida doado por outros que sequer recebem pelo que fazem. Dinheiro sendo empregado sem qualquer expectativa de retorno, por pura abnegação e generosidade. Não é esse um milagre ainda maior, sendo que extrapola o poder indiscutível de Deus, e conta com o amor nos corações daqueles que se empenham em cuidar do próximo, espontaneamente? Não tenho medo algum de afirmar que sim.

Ora, ali não só crianças são tratadas em suas deficiências. Há famílias sendo recuperadas, pais sendo encorajados em suas responsabilidades, vidas sendo resgatadas em suas autoestimas, fugindo da marginalidade social iminente e inevitável, dada a crueldade com que a sociedade se coloca diante do carente, do necessitado, e do deficiente. Não era esse mesmo o papel final dos milagres operados por Jesus; resgate e restauração?

É claro, pode alguém ainda argumentar que tal não se trata de milagre, mas apenas de um louvável cumprimento de uma ordenança bíblica; amai-vos uns aos outros[3]. Acontece que o amor é o motor do milagre, sendo este uma das expressões daquele. Todo milagre nasce do amor, ao mesmo tempo que o exercício do amor é por si só um contundente e inequívoco milagre, pois toda vez que agimos por amor e compaixão, rompemos os grilhões do egoísmo e da indiferença. Quem ama ressurge da morte do isolamento, fatídico fim de quem vive exclusivamente para si mesmo e para seus próprios interesses.

... porque eu vou para o Pai. Essa foi a senha. Eu não estarei mais aqui. Motivados por ele em amor, podemos agir na recuperação de multidões de filhas de Jairo[4], de milhões de cegos Bartimeu[5], de coxos e leprosos mundo a fora. Pelo amor, podemos levar à ressurreição milhões ou bilhões de almas que, mortas, caminham para um inferno distantes de Deus.

Podemos mesmo realizar obras ainda maiores que as de Jesus, porque pelo milagre da salvação, e inspirados pelo seu Espírito em amor, somos capazes de multiplicar o cuidado de Deus no mundo, comunicando à humanidade sua redenção; dando-lhes nós mesmos o que comer.

Que o Espírito de Deus nos abra os olhos para esses milagres, fazendo-nos persegui-los todos os dias.



[1]  Provérbios 30:14-16
[2]  Mateus 15:14; Lucas 6:39
[3]  Romanos 12:10; 1 Pedro 1:22
[4]  Marcos 5: 22-43
[5]  Marcos 10:46-52

quinta-feira, 12 de março de 2015

Divididos como homens e agindo como crianças





1 Irmãos, não vos pude falar como a pessoas espirituais, mas como a pessoas carnais, como a crianças em Cristo. 2 O que vos dei para beber foi leite e não alimento sólido, pois não podíeis recebê-lo, nem ainda agora podeis, 3 porque ainda sois carnais. Visto que campeia entre vós todo tipo de inveja e discórdias, por acaso não estais sendo carnais, vivendo de acordo com os padrões exclusivamente mundanos? 4 Pois, quando alguém alega: “Eu sou de Paulo”, e outro “Eu sou de Apolo”, não estais agindo absolutamente segundo os padrões dos homens?
5 Quem é, portanto, Apolo? E quem é Paulo? Servos por intermédio dos quais viestes a crer, e isto conforme o ministério que o Senhor concedeu a cada um. 6 Eu plantei; Apolo regou; mas foi Deus quem deu o crescimento. 7 De forma que nem o que planta nem o que rega são de alguma importância, mas unicamente Deus, que realiza o crescimento. 8 O que planta e o que rega ministram de acordo com um propósito, e cada um será premiado segundo o seu próprio trabalho. 9 Porquanto nós somos colaboradores de Deus; vós sois a lavoura de Deus e edifício de Deus.
10 Segundo a graça de Deus que me foi outorgada, eu, como prudente construtor, lancei o alicerce e outro está edificando sobre ele. Entretanto, reflita bem cada um como constrói. 11 Porque ninguém pode colocar outro fundamento além do que está posto, o qual é Jesus Cristo! 12 Se alguma pessoa edifica sobre esse alicerce utilizando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, 13 sua obra será manifesta, porquanto o Dia a trará à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a qualidade da obra de cada um. 14 Se a obra que alguém construiu permanecer, este receberá sua recompensa. 15 Se a obra de alguém se queimar, este sofrerá prejuízo; ainda assim, será salvo como alguém que escapa por entre as chamas do fogo.
16 Não sabeis que sois santuário de Deus e que o seu Espírito habita em vós? 17 Se alguma pessoa destruir o santuário de Deus, este o destruirá; pois o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado."
                      1 Coríntios 3:1-16

Facções, tribos, grupos, turma... séquitos. A humanidade sempre conviveu com separações entre iguais. Pessoas que, espontaneamente e por variados motivos, se aproximam, se irmanam e se distinguem umas das outras, por afinidade de realidade, por semelhança de idéias e valores, ou ainda predileções outras menos identificáveis, mas não menos reais e efetivas em seu poder segregador.

Sim, segregador. Porque no que junta uns, separa os demais, escolhendo entre tantos, aqueles que apresentam os mesmos interesses e predileções, preferindo-se entre si e afastando-se dos outros. A união de uns, significa o isolamento de tantos outros, já que a quantidade dos que se unem em torno de qualquer coisa ou idéia, é sempre menor do que a quantidade daqueles que não penetram o grupo, qualquer que seja a diferença que os separa, seja tal diferença relativa a conteúdo ou forma. Nosso impulso separatista é intrínseco, não apenas por atitudes inclusivas, mas também e até, por comportamentos auto-excludentes; - isso não me representa! Pra usar um termo da moda.

Quando Paulo escreveu aos coríntios, lamentou muito não poder aprofundar seu ensino, considerando que ainda lidava com a infantilidade flagrante entre os cristãos daquela região. Havia um arraigado sentimento faccioso, uma divisão que ameaçava a unidade na fé, e por conseguinte a perenidade da igreja naquele lugar. Ora, se ainda se prendiam a rudimentos tão humanos, tão carnais, como reagiriam quando fossem atacados pelos judaizantes que vinham atrás de Paulo, tentando e até conseguindo persuadir algumas igrejas a guardarem mandamentos de homens?

A preocupação de Paulo está impregnada de seu conceito mais abrangente, de que tudo e qualquer coisa além da cruz de Cristo é por si só uma distração no caminho de salvação, e por assim dizer, uma preocupação secundária e desnecessária para a consolidação e amadurecimento da fé.

A disputa de quem era de Apolo e quem era de Paulo não passava de uma birra infantil e uma criancice. Era uma demonstração de que o apóstolo lidava com carnais, ainda inclinados a questões humanas e ultrapassadas. Quer dizer, deveriam estar ultrapassadas, caso já estivessem em um grau de amadurecimento espiritual mais avançado. Não eram, portantos, crentes espirituais. Não estava, no entanto, como insistem alguns, referindo-se a pecado ou a conversão. Isso não estava em discussão no texto.

Não importa, na carreira cristã, por quem viemos a conhecer a Cristo ou por quem somos alimentados. Isso não nos faz mais ou menos crentes, pois é Deus quem dá o crescimento. Isso é excepcional, pois retira de qualquer líder a legitimidade em se envaidecer por qualquer crescimento espiritual apresentado por seus liderados, bem como individualiza a cada cristão, a responsabilidade de dar-se ao crescimento e a dedicar-se a ele. Reflita bem cada um como constrói.

É importante ressaltar o que o apóstolo diz relativamente ao fundamento sobre o qual se edifica o edifício espiritual em que nos tornamos cada um. Sendo o alicerce um só, ninguém deve desprezar o edifício alheio por conta do material nele utilizado, seja nobre ou não. Sua robustez e consistência serão provadas, sem que contudo haja condenação àqueles cujo edifício não suportar o fogo. O fundamento da salvação é um só, e não depende de quem quer ou de quem corre, mas de ter usado Deus de grande misericórdia para conosco, por Jesus, autor e consumador de nossa fé.

Ora, comparar linhas e conceitos teológicos, pertinências e aplicações, regras, formas, métodos e doutrinas, nada têm de proveitoso para a edificação de nossa casa espiritual. Não passam de vaidades humanas, filigranas, ineficazes no fortalecimento e amadurecimento da fé, servindo apenas para dividir e desagregar-nos. Se é que fundamentados todos na graça de Deus.

Por fim, se somos templos do Espírito Santo, tanto sou templo, quanto templo é o meu irmão, que como eu crê em Jesus como seu salvador. Não tenho que lutar contra ele, nem preciso vencê-lo em discussão ou disputa alguma, por mais revestida que esteja de boas intenções. Não precisamos estar em lados opostos, muito menos nos enfrentarmos com acusações e medidas em réguas criadas pela vaidade humana; nossas carnalidades.

Que o Senhor nos inspire à unidade, independente de qualquer outro principio, entendendo que somos individualmente responsáveis por nosso crescimento, empenhando-nos com sinceridade e inteireza de coração, no firme propósito de conhecer a Deus e fazer sua vontade. Tendo para com todos grande tolerância e espírito de acolhimento. Como aprendeu Pedro num susto, não devemos considerar impuro aquilo que Deus purificou.

Terno e forte abraço...
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