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quarta-feira, 4 de junho de 2025

Profetismo: A voz que borbulha do eterno no tempo presente

 

Por Jânsen Leiros Jr.

 

A urgência da palavra profética como expressão inadiável da vontade de Deus na história. 

 Abraham Heschel

“O profeta é um homem que sente ferozmente. Deus arrancou-lhe o coração e nele pôs o Seu próprio. Suas palavras queimam porque nascem da dor divina.” - A Teologia dos Profetas; Heschel destaca o sofrimento visceral do profeta como alguém tomado pela paixão divina — eco direto da imagem do “borbulhar”, da urgência que arde nos ossos e exige voz.

Walter Brueggemann

“A função central do profeta é imaginar alternativas ao mundo como ele é. É dar voz ao lamento reprimido e à esperança silenciada.” - A Imaginação Profética; Brueggemann reforça o papel do profeta como aquele que rompe com o discurso dominante e propõe uma nova realidade — um paralelo direto ao trecho do seu texto sobre a profecia como denúncia e proposta.

Karl Barth

“O profeta fala com autoridade, não porque é eloquente, mas porque foi interrompido por Deus.” - Dogmática Eclesiástica; Barth toca o cerne da vocação profética: não é uma escolha pessoal, mas uma interrupção divina, uma convocação que rasga o curso natural da existência — exatamente como você expressa na conclusão do texto.

No coração da história da revelação, o profeta não é meramente um anunciador de eventos futuros, mas é, sobretudo, um ser tomado por um fogo incontrolável que o impele a falar. É como uma panela posta ao fogo divino, cuja água borbulha inevitavelmente. A imagem não é apenas estética ou poética — ela expressa a tensão espiritual interna do profeta, a insuportável contenção da verdade revelada. O termo hebraico nabi (נָבִיא), muitas vezes traduzido como "profeta", sugere aquele que é chamado, sim, mas também aquele que é impelido por algo maior que si mesmo — um movimento do Espírito de Deus que não pode ser contido.

Essa compreensão não é isolada. Jeremias exprime isso com crueza: “Há em meu coração um fogo ardente, encerrado nos meus ossos; estou cansado de contê-lo, e não posso” (Jr 20.9). A palavra profética não é opcional. É uma força divina que exige liberação. O profeta não quer falar, mas precisa. Não deseja se expor, mas é compelido. Sua boca não é dele — é da revelação que arde e borbulha como lava sob a crosta da realidade.

A teologia só ganha sentido quando compreendida dentro da história. Deus não se revela em abstrações estéticas, mas nos acontecimentos, nas rupturas e nos processos. O profeta é testemunha dessa revelação. Ele não é um pensador especulativo, mas um canal involuntário da vontade de Deus, um embaixador de urgência, alguém que fala em meio a estruturas quebradas e instituições corrompidas.

Moisés e João Batista ilustram isso de maneira singular. Moisés, como o grande mediador da aliança, não prevê o futuro: ele conduz o presente, moldado pela voz divina que rompe o silêncio do deserto e das escravidões históricas. João Batista é o profeta da hora final, do "agora", que clama com voz que rasga o ermo: “Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus” (Mt 3.2). Sua voz não era decorativa, era disruptiva. João não apontava para si, mas para aquele que viria, cujas palavras arderiam como fogo e separariam o trigo da palha (Mt 3.12).

A imagem do profeta como aquele que “borbulha” é poderosa — e merece atenção especial. Quando a água ferve, há uma fonte de calor constante, uma energia que se acumula até romper a quietude da superfície. Assim é o profeta. Deus aquece-lhe o espírito com a chama da verdade, e a pressão interna cresce até que a fala se torne inevitável. Borbulhar é mais que uma imagem: é uma forma de existência profética. Significa viver sob tensão, com o Espírito Santo como calor constante e a palavra de Deus como líquido em ebulição.

Karl Barth diria que a revelação é uma ação de Deus no tempo presente, e o profeta é o canal dessa irrupção. Walter Brueggemann vê no profeta aquele que denuncia o presente e anuncia uma alternativa moldada pelo coração de Deus. Ele não se acomoda à ordem dominante, nem negocia sua mensagem com as conveniências políticas ou religiosas. Ele borbulha — e a verdade explode, mesmo que doa.

O profeta é um desconforto encarnado. Ele perturba o rei, desmascara os sacerdotes, enfrenta o povo. Sua missão não é agradar, mas alertar. Sua tarefa é ser impopular em nome da verdade. Ele não apenas fala — ele sofre a mensagem. Carrega em seu corpo as marcas da palavra. É queimado por dentro até que as palavras escapem como vapor divino em ebulição.

A mensagem profética é para o "hoje". Ela exige arrependimento imediato, como nos dias de Jonas em Nínive, quando a cidade inteira se dobrou ao clamor da verdade. Ela denuncia a hipocrisia religiosa (Is 1.11-17), a injustiça social (Mq 6.8) e a corrupção das lideranças (Ez 34). Mas também aponta a esperança que nasce mesmo nas ruínas: “E acontecerá, depois, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne…” (Jl 2.28).

O profetismo não é apenas denúncia — é proposta. Não é só confronto — é visão. A verdadeira profecia é um ato de responsabilidade. Dietrich Bonhoeffer entendia o profetismo como resistência à maldade real do mundo, e Jürgen Moltmann via nele a esperança ativa, que transforma a história porque crê no futuro de Deus. O profeta denuncia a injustiça, mas também oferece uma alternativa carregada de justiça, misericórdia e fidelidade (Os 6.6).

Hoje, o profeta é aquele que levanta a voz contra a desumanização, a banalização da fé, a idolatria do poder, o silêncio cúmplice das instituições eclesiásticas. Ele é aquele que vê além da propaganda e ouve o gemido dos que não têm voz. Borbulhar é também se indignar. É recusar a anestesia espiritual. É ter os ossos inflamados pela urgência do Reino.

A missão profética é uma urgência que não se cala. Como disse o apóstolo Paulo: “Ai de mim, se não pregar o evangelho” (1Co 9.16). Não se trata de escolha, mas de imposição do Alto. Não é um projeto pessoal, mas um mandato divino que arde sem consumir, como a sarça diante de Moisés.

O profeta é aquele em quem a Palavra arde. Que borbulha. Que geme. Que denuncia. Que consola. Que não pode se calar. Sua presença é incômoda, sua fala é como martelo que despedaça a rocha (Jr 23.29). Ele não cabe nos púlpitos domesticados, nem nas liturgias ajustadas ao gosto dos poderosos. Ele está na beira do deserto, na beira do abismo, na encruzilhada das decisões.

E talvez seja isso que o mundo mais precise hoje: menos opinadores e mais borbulhantes. Homens e mulheres cuja alma ferve com a verdade de Deus. Corações inflamados que não fazem da profecia um ofício, mas um testemunho ardente. Que sejam vasos em ebulição, onde a água viva da Palavra insiste em romper, porque não há como conter o que Deus está prestes a dizer. 

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O Filho revela o Pai. E nós, o que revelamos?


Por Jânsen Leiros Jr.


17 Voltaram depois os setenta com alegria, dizendo: Senhor, em teu nome, até os demônios se nos submetem. 18 Respondeu-lhes ele: Eu via Satanás, como raio, cair do céu. 19 Eis que vos dei autoridade para pisar serpentes e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo; e nada vos fará dano algum. 20 Contudo, não vos alegreis porque se vos submetem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus. 

21 Naquela mesma hora exultou Jesus no Espírito Santo, e disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos; sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. 22 Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 

23 E voltando-se para os discípulos, disse-lhes em particular: Bem-aventurados os olhos que vêem o que vós vedes. 24 Pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que ouvis, e não o ouviram."
Lucas 10:17-24 - JFA

Não há registro do tempo gasto pelos discípulos nessa missão. O que se pode perceber, contudo, é que houve grande sucesso, pois Jesus comenta sobre as reações enfurecidas de Satanás. Essa passagem é controversa em sua explicitação, mas de certa forma também não teria relevância teológica por definição, se não apenas considerando sua contextualização; de que a missão dos discípulos abalou as hostes do mal.

E por mais enfurecido que ele, Satanás, possa ficar, completa Jesus, nenhum dano lhes poderá causar, pois ele, Jesus, nos deu autoridade para pisarmos serpentes e escorpiões; figuras do mal e de suas representações. Sobre todo o poder do inimigo, de modo que nenhuma retaliação precisará jamais ser temida, quando de nossas investidas a pregar o evangelho do Reino.

Isso é mais do que alentador. É desafiante e revelador, pois muitos há que pensam que ao realizarem a vontade de Deus, sofrerão retaliação do mal, e temem fazer o que lhes está proposto por vocação e chamado. Não estamos falando obviamente de agirmos desafiadoramente, pois não temos espírito de contenda[1], mas em realizando a vontade do Senhor no anúncio e pregação do evangelho da salvação, não temos que temer a quem quer que seja; muito menos investidas do mal.

Notem que não estamos ainda dizendo que nos tornamos inatingíveis ou super-homens. De jeito algum, mas precisamos nos imbuir da confiança de que fazendo a vontade do nosso Senhor e Deus, nada nos acontecerá que Ele mesmo não queira. Ou não cremos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus?[2] Até porque seremos bem-aventurados se, a exemplo de nosso Senhor, formos perseguidos, e se por amor ao seu nome formos mal tratados e caluniados[3]. Em tudo e por tudo daremos graça[4].

Jesus, porém, faz uma importante advertência. Tal autoridade sobre o mal não quer dizer grande coisa. Não é o mais importante. Na verdade não é nada comparado à salvação de nossas almas, cuja garantia é o nome escrito nos céus. Essa autoridade sobre o mal não é um fim em si mesma. Antes ela é apenas um instrumento no avanço do reino de Deus. Aliás, Jesus por vezes coloca tais manifestações em segundo plano, evidenciando contudo o resgate da vida daquele em quem o milagre se deu. A salvação é maior que o milagre. A salvação é o objetivo final; a redenção. A autoridade sobre o mal e o milagre, apenas um meio.

Nos versículos 21 e 22 Jesus então exalta Deus pela inversão do entendimento da essência do seu reino de Deus, entendida e vivenciada pelos pequeninos, desprezados, e sem importância, em detrimento dos doutores e entendidos da lei, mergulhados em religiosidade vil e em nada piedosa. É a sabedoria de Deus se fazendo loucura para o mundo. Além disso, tendo eles, os doutores da lei e seus próximos, rejeitado Jesus como o Filho de Deus, rejeitaram na verdade a Deus, pois somente o Filho revela o Pai[5].

Essa foi a grande loucura à qual jamais se permitiram aquiescer os doutores da lei. Deus escolheu as coisas simples do mundo. Enquanto se esperava o nascimento do Rei Messias através da família real palaciana, ele nasceu de um ramo simples, em uma manjedoura, sendo reconhecido como rei e redentor por religiosos de outros povos,[6] e saudado por pastores[7]. O verdadeiro Messias revelou o Deus invisível a homens igualmente simples, em sua maioria pescadores, a quem o anúncio da salvação foi confiada para a glória de Deus Pai. Uma sabedoria controversa, jamais entendida ou crida por homens loucos, sufocados pela opulência de seus conhecimentos ineficazes à alma.

Quantos homens de Deus, profetas e reis, viveram na esperança de verem a salvação do nossos Deus, e não lhes foi possível, diz Jesus no verso 24. Os discípulos estavam tendo esse grande privilégio, bem como nós o temos nos dias de hoje, que cremos por fé, dom de Deus, pela qual sequer podemos nos gloriar[8]. Vivenciamos a história completa. Somos personagens dela, viventes em um reino divinal estabelecido em nossos corações[9]. Por que temer o mal, se vivemos em nós, pelo Espírito do Senhor, todo o bem?

A autoridade nos foi dada sobre todas as coisas, a exemplo do domínio dado a Adão quando da criação[10]. Não há nada o que temer, por mais assustadora que seja a circunstância, ou mais feroz e implacável que pareça o oponente. Quem apresentamos ao mundo, nós que vivemos o privilégio da graça?

Ainda há quem se pilhe de desculpas para não testemunhar a salvação de Deus; seja por medo, seja por timidez. Jesus, o Filho, revelou Deus, o Pai. E nós, a quem temos revelado? Ser discípulo e testemunha, é revelar o caráter de Cristo em nós. Para que assim como ele revelou a seu Pai, nós revelemos em nós, o salvador de nossas almas. Que o Espírito de Deus nos capacite com confiança e ousadia, para que nossas vidas reflitam a graça que nos alcançou, e possamos experimentar dia a dia, a revelação em nós, do Filho de Deus.



[1]  Romanos 13:13; Filipenses 2:3
[2]  Romanos 8:28
[3]  Mateus 5: 11-12
[4]  Efésios 5:20
[5]  Hebreus 1:1-3
[6]  Mateus 2:1-12
[7]  Lucas 2:15-20
[8]  Efésios 2:8-9
[9]  Lucas 2:25-32
[10]  Gênesis 1:27-28
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