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domingo, 2 de outubro de 2016

=> Deus não desiste de você. Será?



"Não precisamos ir longe na análise da Bíblia para entendermos que a ideia de que Deus não pode desistir de nós é uma verdadeira falácia. Facilmente podemos entender que o Senhor pode, sim, abandonar quem lhe despreza.
Quando passamos a acreditar que Deus não desiste de nós, nossa consciência pode, paulatinamente, ser induzida a acreditar que não corremos o risco de perder a salvação.
Sendo assim, abre-se, diante de nós, um leque abrangente de possibilidades de transgressão dos mandamentos divinos. "


Por Jânsen Leiros Jr.

Me perdoem decepcionar vocês, amigos, mas esse texto é uma tremenda demonstração de legalismo, e de um conveniente pensamento pragmático, muito pouco reflexivo, e de uma assustadora miopia quanto ao amor de Deus e sua contextualização bíblica. Ele se utiliza de um texto ambientado na dispensação da lei, e supõe que a punição à rejeição a Deus, limita o seu amor, ou impõe finitude à sua misericórdia. Além disso, tenta introduzir legalismo em ambiente de graça citando um texto em 1 Coríntios[1]. Legalistas adoram uma lei e um rigor a que eles mesmos não dão conta de seguir; judaizantes. Estou farto de gente se prestando ao papel de guardião da verdade, como se a conhecesse incondicionalmente e a detivesse.
                       
O Novo Testamento está repleto de demonstrações de que Deus não desiste de ninguém. E é claro que Ele teria liberdade soberana para isso, mas não o faz. As parábolas da dracma perdida, da ovelha perdida e do filho pródigo, encerram plena e perfeitamente esse traço do amor infinito e incansável de Deus; amor que não se impõe, mas está sempre de braços abertos a receber todo e qualquer arrependido, seja lá o momento em que tal arrependimento acontecer, ou depois de quantos arrependimentos ocorrer. Até setenta vezes sete, lembram-se? Não há limites para o amor, perdão e reconciliação.

Aqui alguém poderá me interpelar, sacando como pretenso argumento incontestável, o fato de que muita gente se diz arrependido, mas que tal arrependimento nem é genuíno, e assim vivem se "arrependendo" da boca para fora, achando que podem brincar com Deus. É claro que isso acontece aos milhões. Mas tal atitude humana não invalida a imutabilidade do amor de Deus. Se alguém pensa enganar Deus com atuações teatrais, sinto muito, Ele não se relaciona com personagens. Mas por outro lado, tal comportamento humano não provocará a finitude do amor de Deus, e muito menos provocar o seu cansaço em esperar por quem quer que seja. E é claro que, se mesmo esse contumaz mentiroso, encenador de arrependimento arrepender-se genuinamente, Deus que sonda os corações e enxerga até onde não podemos enxergar, poderá e irá perdoá-lo. Seu amor não tem fim; não pode negar-se a si mesmo. Deus é amor.
                       
Na contramão do que o autor tenta passar como verdade insofismável, de que se Deus não desistisse de nós, abriria brecha para uma vida de pecado contumaz, Paulo, em sua carta aos Romanos, afirma que uma vez livres do pecado, fomos feitos servos da justiça. Servos aqui não é escravo no sentido de subjugado, mas de serviçal, no sentido de quem vive a serviço da justiça de Deus. Ora, em sua primeira carta, o chamado apóstolo do amor, João, afirma que os filhos de Deus não vivem pecando. E a razão disso é simples; não temos prazer nisso, porque pelo poder do Espirito Santo que habita em nós, passamos a viver realizando, preferível e prazerosamente a vontade de Deus, perseguindo a santidade, e buscando sempre agradar o coração de Deus. E mais; nós temos a mente de Cristo.
                        
Há, na verdade, um perigoso hábito legalista diluído nessas afirmações; a de que precisamos criar certos terrorismos em nossa pregação, de modo a provocar a sensação de que não se pode brincar com Deus. É claro que não se brinca com Deus. E não só isso, mas tenho a certeza de que Ele conhece tais brincalhões. Mas isso não nos habilita a distorcer os atributos de seu amor, em favor de um discurso que tenta dar uma mãozinha a Deus, em sua presumida tarefa de admoestar as pessoas quanto aos rigores de sua lei, ou "limites" de sua paciência. Alguém considera imperfeito ou mesmo insuficiente o trabalho realizado pelo Espírito de Deus no convencimento do pecado, da justiça e do juízo? Ou não dizia Paulo que nem por força e nem por violência, mas pelo Espírito de Deus. Convencimento algum será maior ou mais genuíno, se dermos, por nossa conta, uma pitada de medo e terror.
              
O amor de Deus não desiste de ninguém. "Aquele que vem a mim, de maneira nenhuma o lançarei fora". Novamente é preciso lembrar que Deus sonda os corações. Ele conhece a sinceridade de todos os nossos atos; não se deixaria enganar por quem quer que fosse.
    
- Ah! Mas e se alguém se utilizar do infinito amor de Deus, e achar então que pode pecar à vontade, que depois é só se arrepender que estará tudo certo, perguntaria alguém. Ora, se alguém acha que pode fazer isso, primeiro, nunca conheceu Deus, seu amor ou mesmo a sua graça. Pois quem, sinceramente constrangido pelo amor de Deus e salvo por sua graça, pensaria aproveitar-se da graça para sua própria recreação? Outra vez, os filhos de Deus não vivem pecando. Não têm prazer no pecado. E segundo, ainda que alguém se pretenda a isso, ainda assim o amor de Deus não se tornaria finito, apenas para impedir que seja usurpado por algum espertalhão. Nesse caso ele não terá perdão, não porque o amor de Deus tem limite, mas porque não se arrependeu genuinamente; mas a Deus pertence sondar e julgar tal coração, e então conceder ou não seu perdão.

O que mais me assusta nisso tudo, é a imaginação de que os imutáveis atributos de Deus podem ser manipulados em suas essências, amplitudes ou aplicações, conforme suposta necessidade de tornar mais contundente a pregação do evangelho, ou mais firme e segura a realidade de que sem fé é impossível agradar a Deus. Ora, ao fazermos isso não estamos alterando o conteúdo bíblico? Não estamos distorcendo a Palavra para atender nossas conveniências, por mais probas e bem-intencionadas pudessem parecer? Deus não muda o que é, para atender nossa necessidade de fazê-lo parecer com nossos impulsos humanos, ou para adequar-se a nossos pressupostos rigores muito mais adequados e firmes; há quem pense que Deus, na graça, ficou bonzinho demais com o pecador. - Ah! Se eu fosse Deus. Ou ainda. - Ah! Se Deus fosse como eu. A pregação do medo não opera o poder de Deus.

Por último, ainda se poderia perguntar: Mas não pode alguém achar que, já que temos a graça, podemos errar? Ora, para pensar isso é preciso achar que a graça compactua com o pecado. Pior. Quem assim entende, imagina que a lei é mais eficaz para colocar a humanidade na linha. E se alguém então pensa assim, faz-se igual aos judaizantes tão combatidos pelo apóstolo Paulo, e não entendeu até hoje o evangelho. Porque "ouviste o que foi dito... Eu porém vos digo". No conhecido Sermão da Montanha, Jesus desconstruiu a ideia da lei formal, que tinha ênfase na aparência, e implantou a ideia de que o essencial era muito mais importante, sendo tão mais condenador do que o aparente; a incompreensão de Nietzsche.

Portanto, mesmo que a graça seja ainda mais profunda e reveladora do coração humano, ela é a expressão do amor ilimitado de Deus, que acolherá e perdoará todo aquele que genuinamente se arrepender. E se alguém não se arrepender legitimamente, desse amor e dessa graça não se tornará participante. Simples assim. Aliás, simples como tudo no reino de Deus. Mas nós estamos sempre achando que podemos dar um toque pessoal e melhorar o que Deus já fez. Aliás, querer ser igual a Deus em possibilidades e julgamentos, sempre nos colocou em graves apuros.




[1] 1 Coríntios 10:12

domingo, 13 de dezembro de 2015

Convite que não cessa, mas caduca



Por Jânsen Leiros Jr.


"15 Ao ouvir isso um dos que estavam com ele à mesa, disse-lhe: Bem-aventurado aquele que comer pão no reino de Deus. 16 Jesus, porém, lhe disse: Certo homem dava uma grande ceia, e convidou a muitos. 17 E à hora da ceia mandou o seu servo dizer aos convidados: vinde, porque tudo já está preparado. 18 Mas todos à uma começaram a escusar-se. Disse-lhe o primeiro: Comprei um campo, e preciso ir vê-lo; rogo-te que me dês por escusado. 19 Outro disse: Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-los; rogo-te que me dês por escusado. 20 Ainda outro disse: Casei-me e portanto não posso ir. 21 Voltou o servo e contou tudo isto a seu senhor: Então o dono da casa, indignado, disse a seu servo: Sai depressa para as ruas e becos da cidade e traze aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. 22 Depois disse o servo: Senhor, feito está como o ordenaste, e ainda há lugar. 23 Respondeu o senhor ao servo: Sai pelos caminhos e valados, e obriga-os a entrar, para que a minha casa se encha. 24 Pois eu vos digo que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia."
Lucas 14:15-24 - JFA

Festa com comida e bebida, fartura e alegria, simbolizavam comumente o reino de Deus[1]. Estar nesse banquete, comer pão no reino, significava ter sido ressuscitado no dia do Senhor, o que fazia de qualquer indivíduo um bem-aventurado. E esse homem que declara tal bem-aventurança, exalta tal condição, mas a situa num tempo futuro, à parte da vida cotidiana que se desenrola num mundo real; na ressurreição dos justos (v.14).

Então terá muita sorte quem for convidado para o banquete do reino, poderíamos parafrasear a fala do convidado. E sua alusão poderia parecer óbvia no sentido de que qualquer um adoraria ser encontrado em tal condição; sentado à mesa do Senhor. Mas para Jesus isso não é tão claro. Muito pelo contrário. Para ele, muitos há que perderão esse momento por escolha própria. Muitos há que trocarão tal benção por um prato de lentilhas[2]. E é isso que a parábola a seguir irá demonstrar.

Vinde, porque tudo está preparado, avisa o anfitrião (v.17). Temos aqui um costume social judaico. Esse chamado ou aviso era o segundo convite que se seguia a um primeiro. Esse primeiro convite avisava os convidados sobre quando e onde se daria tal evento. Quando desse primeiro convite, tais convidados podiam naturalmente declinar ao chamado, pois diante de um possível conflito de compromissos, podiam desculpar-se quanto a impossibilidade de comparecerem. Assim eles não seriam contados entre os convidados, e por ocasião do segundo convite, já para entrarem para o banquete, eles nem mesmo seriam avisados. Um protocolo bastante razoável.

A parábola começa com o segundo convite, que já não se destina mais a ser ou não aceito, mas apenas a dizer aos convidados que já haviam aceitado ao chamado, entrem, tudo está pronto[3]. A esse segundo convite se segue o momento de grande tensão da parábola, pois os convidados que haviam dito que participariam do banquete, ocupam-se em dar desculpas para não irem à festa, desconsiderando o cuidado e o preparo realizado pelo anfitrião, e descumprindo o compromisso assumido anteriormente.

As desculpas dadas pelos convidados são vazias e sem qualquer adequação. Pois quem compraria um terreno sem antes tê-lo visto? Ou mesmo quem teria comprado juntas de bois, sem antes as ter experimentado? Também não havia qualquer impedimento ao que se declarou recém casado, que o impedisse de participar do banquete. São desculpas impróprias, como impróprias e vazias são as desculpas que muitos em nossos dias dão, diante do convite de Deus[4], e de sua mão estendida à humanidade[5].

É interessante notar que o anfitrião, diante do relato da negação ao seu chamado, não diz ao seu servo que retorne e os obrigue a entrar. O protocolo quebrado lhe permitiria inquirir e exigir retratação por parte dos que fizeram pouco caso de seu chamado. Porém ele não o faz, assim como Deus não obriga quem quer que seja a aceitar seu convite ao reino. Deus não se impõe ao homem, embora faça tudo que pode para convencê-lo do pecado, da justiça e do juízo[6], chamando-o ao arrependimento. Mas ele não obriga nada a ninguém; quem quer que seja.

Impróprias ou não, vazias ou não, tais recusas ao chamado do anfitrião, demonstram o quão inconveniente eles consideraram o momento do convite à entrada. Obviamente nenhum deles estavam sem fazer nada, ou desocupados de seus próprios interesses e prioridades. Mas fica claro que, diante da fragilidade de seus motivos reais, eles tentam reivindicar o direito da recusa, motivando tais recusas em circunstancias e condições que consideraram mais adequadas ou inquestionáveis. Talvez até louváveis e compreensíveis.

Notem que as desculpas declaradas querem na verdade dizer mas que hora infeliz para me chamar! Porque não negam participar do banquete, mas apenas querem evidenciar que o convite veio na hora errada, quando coisas mais importantes e inadiáveis estão ocupando a prioridade de suas vidas. É como se de maneira velada, mandassem ao anfitrião um recado. O convite é excelente, mas veio em péssima hora. Talvez em outro momento, quem sabe?!...

Diante da recusa dos convidados, talvez outro anfitrião qualquer remarcasse o banquete para um momento mais adequado e conveniente a todos. Porém o Senhor do banquete da parábola, não só mantém o banquete, como manda ao seu servo que busque aqueles que antes eram os naturalmente excluídos do banquete. Aqueles cujas condições sociais naturalmente excluía do convívio de todos. Aqueles com quem os antigos convidados jamais gostariam de dividir qualquer espaço, muito menos comerem e celebrarem juntos. E havendo ainda muitos lugares, ele ordena que outros tantos de fora, dos caminhos, não só excluídos mas abandonados, fossem também trazidos à festa; para que a minha casa se encha (v.23).

Obriga-os a entrar[7], orienta o anfitrião ao seu servo. Não há aqui qualquer alusão a qualquer espécie de uso da força, para obrigar quem quer que seja a aceitar o convite de Deus para o banquete em seu reino. Por outro lado, fica claro que o contexto indica uma atitude de uso extremo de argumentação e persuasão, para que minha casa se encha. Ao mandar buscar os de ainda mais longe, pessoas ainda mais improváveis de serem achadas em um banquete dessa espécie, o anfitrião aponta para o uso extremo da graça e do compadecimento por aqueles que estão pelos caminhos e valados (v.23); uma escória social e uns farrapos de autoestima e de amor próprio. Foram chamados aqueles que jamais se sentiriam dignos de participar de uma festa no reino de Deus.

É importantíssimo reforçar, também, que não está implícita no texto, qualquer fundamentação de uma opção pelos pobres realizada por Deus, o anfitrião desse banquete. O que ocorreu foi o sumo respeito pela rejeição dos convidados. Fora o anfitrião o rejeitado, não os convidados originais. Eles declinaram do que lhes seriam natural participarem, pois a tais foram apresentados os convites ao banquete. Eles escolheram não comer pão no reino dos céus.

Por fim, o anfitrião se demonstra inflexível em sua determinação. Nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia (v.24). Seria essa uma flagrante prova da falta de misericórdia de Deus? Ou seria uma evidência contundente de seu máximo respeito por nossas decisões, pela liberdade que temos de negar estar com ele? Pois ele poderia ter dito ao seu servo obriga-os a entrar. Mas conhecendo que o motivo de suas desculpas e recusas foi a inquebrantável intenção de não trocarem suas prioridades por um banquete que lhes pareceu menos atraente, ele foi atrás de quem valorizaria tal banquete, e que se fartaria na festa oferecida por ele. Deus não se impõe a ninguém[8].

Ora, quantas pessoas rejeitam o convite permanente de Deus? Quantos trocam a benção da salvação por um mísero e fugaz prazer de um prato qualquer de lentilhas? Você tem dado desculpas diante desse convite? Tem buscado desculpas vazias e inconsistentes para negar àquilo que há tempos fala ao seu coração? O tempo é hoje e a oportunidade é agora. Não deixe passar o convite que não cessa, mas que um dia caducará.



[1]  Lucas 13:29; Isaías 25:6; Mateus 8:11; 25:1-10; 26:29; Apocalipse 19:9
[2]  Gênesis 25:29-34
[3]  Ester 5:8; 6:14
[4]  Isaias 53:1; 65:2; Lucas 13:34
[6]  João 16:5-15
[7]  A história retrata o uso indevido e abusivo desse texto. O COMPELLE INTRARE usado pela igreja quando da morte de tantos que não aceitavam suas imposições.
[8]  Apocalipse 3:20

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Misericórdia quero. Mas quantos mais querem?


Por Jânsen Leiros Jr.


“Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia."
Mateus 5:7 - JFA

Seguindo nosso passeio pelo Sermão do Monte, chegamos à quinta bem-aventurança. E como passamos um tempo longo desde o último texto, penso ser importante recuperar alguns princípios que entendemos determinantes, na compreensão do que podemos considerar uma introdução ao discurso desse sermão.

Podemos começar relembrando que as bem-aventuranças formam um conjunto harmônico, que apresenta características correlatas da personalidade transformada, de todo aquele que sinceramente se devota a Deus. Não se trata de um faça isso logo aquilo, tão presente na literatura positivista dos mecanismos de auto-ajuda, mas sim de uma apresentação abrangente do caráter daquele que está em marcha para o Reino do Céus. É, na prática, a tradução desse caráter em atitudes relativas a si mesmo, dirigidas em benefício de terceiros, e por fim, que dizem respeito a seu posicionamento social diante daquilo que crê.

Se lembrarmos bem, ou se alguém preferir recorrer aos textos anteriores, as primeiras quatro bem-aventuranças diziam respeito àquilo que o sincero e devotado discípulo pensa e faz, de si e consigo mesmo. Ou seja, nas primeiras quatro bem-aventuranças o cristão é tanto o agente, quanto o beneficiado de seu entendimento e conseqüentes atitudes. Mas nessa e nas duas próximas beatitudes, haverá um benefício estendido a terceiros. Uma atitude cujo o bem se amplia no foco do que é correto e probo realizar, deixando assim a mensagem de que tudo o que melhora em cada um de nós individualmente, precisa refletir e se traduzir em bem aos outros também.

Tais características introdutórias, portanto, são reveladoras à medida que coloca a relação do homem consigo mesmo, com os outros, e com Deus, na base de todo o ensinamento que se desenvolverá em seguida, definindo-as como a expressão prática da vida cotidiana de uma pessoa piedosa.

Mas por que razão os misericordiosos seriam bem-aventurados? Que vantagens a misericórdia poderá trazer ao misericordioso. A misericórdia seria uma moeda de troca? E que valor teria? De que adianta ao ser humano agir com misericórdia, se o mundo real pertence aos implacáveis? Vamos pensar juntos sobre tudo isso.

Podemos começar tentando entender misericórdia, como palavra sempre presente no contexto religioso daqueles dias. Ou seja, a palavra utilizada por Jesus estava tão inserida no contexto social judaico, que nenhuma dúvida causou aos discípulos que o ouviam naquele instante. E como não é nosso objetivo aqui nos aprofundarmos muito nos significados possíveis da palavra na tradição e na literatura judaica, ficaremos com o sentido mais geral e mais amplamente utilizado; o de benevolência da parte ofendida, à parte que descumpriu um pacto ou uma aliança. Uma graça. Portanto, no sentido prático, misericórdia é um sentimento de bondade, que se deve traduzir em atitude bondosa. Mais tarde Paulo relacionará a bondade como fruto do Espírito[1].

É importante ressaltar, que Jesus não está estabelecendo uma condição; quem agir com misericórdia receberá misericórdia. Se assim fosse, a misericórdia de Deus para conosco dependeria de nossa atitude, e assim neutralizaria a graça, pois a alcançaríamos por nossos próprios esforços. Mas antes, a exemplo das características anteriormente relacionadas, é próprio do cristão piedoso agir com misericórdia, por está em marcha com aqueles que receberão misericórdia. Ou seja, o cristão deve exercer misericórdia por gratidão livre e espontânea[2], dada a sua consciência da misericórdia de Deus que o alcançou.

Entre outros tantos exemplos de bondade em exercício na narrativa bíblica, há dois pelos quais tenho particular encanto; o bom samaritano[3] e a mulher adúltera[4]. Entendo que esses dois acontecimentos exemplificam profundamente o significado desse sentimento, esclarecendo respectivamente, a misericórdia como  ato de bondade, e a misericórdia como ato de perdão. No primeiro, o samaritano se compadece do estado em que se encontra aquele homem à margem da estrada. Sem cuidado e abandonado ali, ele certamente iria morrer. e não obstante a todos os seus importantes afazeres, decide priorizar o cuidado pleno daquele homem, sem medir custos. Um ato efetivo de compaixão e bondade. No segundo, há um contraponto particularmente especial; não seria ilegal apedrejar aquela adúltera. A lei mosaica lhes autorizava a tanto. Havia ali um delito cujo castigo era o apedrejamento até a morte. Jesus então apresenta-lhes a misericórdia como a alternativa benevolente, de quem abandona o direito, em benefício do pecador. Um ato de compaixão e misericórdia.

Além desses dois exemplos, a Epístola aos Hebreus apresenta Jesus como o sumo sacerdote misericordioso[5]. E tal misericórdia ganha consistência, na medida em que Jesus, a exemplo de nós seres humanos, passou por tudo o que passamos, sabendo na carne, as dificuldades e carências que sofremos em nossa vida real e cotidiana. Ele se compadece de nós, embora o pecado nos faça merecedores do castigo de morte. Onde o pecado abundou, superabundou a graça[6].

A bíblia nos ensina que o amor cobre uma multidão de pecados. Isso nos reporta a uma situação confrontante com a realidade que vivemos em nossos dias. Vivemos tempos difíceis, em que somos tocados por um ímpeto de vingança pessoal e social. Talvez motivado por corações endurecidos, talvez pela falta de ação do Estado, ou as duas coisas somadas, diariamente flagramos casos em que a vingança, travestida de justiça pelas próprias mãos, tem feito vítimas nas mais diversas camadas e grupos sociais. E o que se instaura, na ausência da bondade, da misericórdia e da compaixão, é a maldade, a indiferença e a intolerância. Afinal, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará[7].

Misericórdia quero e não sacrifício[8]. Os fariseus se escandalizavam porque Jesus vivia rodeado por pessoas que os fariseus consideravam impuras, e portanto contamináveis. Manter-se "puro" segundo a tradição judaica, requeria restringir determinados contatos e convívios, principalmente com aqueles que estavam à margem daquela sociedade. Acontece que a falta de um sentimento de misericórdia, na essência da relação com Deus, torna nula toda a ritualidade religiosa. E isso incomodava profundamente o próprio Deus, como relatado no Antigo Testamento[9]. Um cristão sem um coração misericordioso, é um cristão vazio do sentimento mais básico em um coração transformado; o amor[10].

A verdade é que um coração misericordioso é uma referência da bondade e do amor de Deus no mundo. E nós, cristãos, não podemos deixar de ter essa marca. Numa realidade mundial onde o ódio, a indiferença e a intolerância dominam as atitudes e reações mais instintivas, a bondade e a misericórdia de Deus precisa estar traduzida em nossas relações, no compadecimento com todos, acolhendo e cuidando daqueles a quem o Senhor nos envia.




[1]  Gálatas 5:22
[2]  Mateus 18:23-35
[3]  Lucas 10
[4]  João 8:1-11
[5]  Hebreus 2:14-18
[6]  Romanos 5:20-21
[7]  Mateus 24:12
[8]  Mateus 9:13
[9]  Oséias 6:6; Amós 5:21-23; Miquéias 6:6-8; Mateus 23:23-26
[10]  I João 2:9-11; 3:14-15; 4:19-20

segunda-feira, 28 de julho de 2014

=> Reconciliação, um caminho para a Paz



“Só o fato de existirem questões entre vocês já mostra que vocês estão falhando completamente. Não seria melhor agüentar a injustiça? Não seria melhor ficar com o prejuízo?”                                                                1 Coríntios 6:7


“O primeiro em pedir desculpas é o mais valente. O primeiro em perdoar é o mais forte. O primeiro em esquecer é o mais feliz.”
Papa Francisco
Estamos atravessando dias difíceis de grande perplexidade. O conflito em Gaza entre palestinos e israelenses, e o conflito separatista na Ucrânia, têm produzido horror e comoção em todo o mundo civilizado. Atônitos, acompanhamos com muita apreensão os ataques de ambas as partes, imaginando as possíveis conseqüências de um eventual agravamento desses conflitos.
É claro que em ambos os lados de uma guerra há quem defenda as próprias razões, culpando compulsoriamente o lado adversário pelo estopim do conflito. Defendem convictamente suas lógicas, e acreditam ou se forçam a acreditar que o direito ou a verdade que os motivaram ao confronto, os garantirá vitória exemplar e definitiva, que virá como a demonstração cabal de que estavam certos... Sempre estivemos certos.
É bem verdade que conflitos armados como esses, são a manifestação extrema de interesses que se antagonizaram em algum momento. São também a conseqüência desastrosa do fracasso de toda e qualquer tentativa diplomática em evitar a guerra. Atitudes conciliatórias e apoio a acordos de paz não faltaram. Assistimos a diversas declarações de chefes de estados de diversas nações influentes, na tentativa de fazerem recuar em suas iminentes rotas de colisão. Infelizmente nada conseguiu evitar que vidas estejam sendo ceifadas por tiros, bombas e mísseis.
Para piorar a barbárie, civis vêem sendo os principais atingidos direta ou indiretamente nesses conflitos. Mais de mil e duzentos mortos em Gaza somando-se as baixas de ambos os lados. Um avião transportando cientistas foi abatido, quando sobrevoava a zona de guerra entre o exército ucraniano e os rebeldes separatistas. Mais de 200 pessoas estavam naquela aeronave. E os danos á humanidade certamente não pararão por aí.
Ora, guardadas as devidas proporções, não é isso mesmo que vivenciamos em nosso dia-a-dia, em cenários reduzidos e com atores muito mais próximos de nós? A intolerância vem provocando constantes impasses e inevitáveis conflitos, em relações as mais variadas. Seja entre casais, vizinhos, familiares, torcedores... A imposição vem se tornando demonstração aceitável de superioridade, nos mais diversos segmentos e níveis da sociedade. Ninguém quer ceder. Ninguém aceita parecer mais fraco por reconhecer seus erros ou por aquiescer com a falha alheia.
Se você pede desculpas é um fraco. Se você perdoa, é um bobão... Um banana! Caso se atreva a esquecer uma afronta qualquer, um prejuízo causado por terceiros, você é apontado na rua como um otário. O enfrentamento é a atitude enaltecida e esperada pela maioria. A afronta a reação legítima. O acerto de contas é o caminho para se sentir com a alma lavada. Não vemos isso todos os dias? Não reagimos nós mesmos assim, consciente ou instintivamente? Nada mais animal e equivocadamente aceito do que o revide. Ser inflexível não tem sido entendido como firmeza de caráter, personalidade forte ou ainda determinação? Nada mais valorizado nas grandes corporações, do que a competitividade e o espírito combativo.
Essa disputa diuturna promove rixas, intrigas, mentiras, traições, ofensas... Agredidos e agressores se enfrentam e se opõem com a dureza de quem não se permite recuar um só centímetro de suas posições. Fazem acaloradas defesas de suas pretensas razões, e não se oferecem, nem que por hipótese, o benefício da dúvida, quanto a legitimidade de suas motivações. Ninguém quer ceder.
Por intolerância, imposições mútuas e mágoas, torcedores se agridem na entrada dos estádios, cônjuges se matam e famílias inteiras se dissolvem por não conseguirem superar feridas que teimam em não cicatrizar. Ninguém quer dar um passo atrás. Não há quem cruze esse rio de traumas ou pule o muro do orgulho ferido. Há até quem se explique: Eu até perdôo, mas esquecer não esqueço não... É "ruin" hein!
É verdade. É ruim. Muito ruim mesmo. Porque a reconciliação é o caminho mais direto e talvez o único para a paz. Negligenciá-la é se lançar numa aventura que ninguém pode prever o final. Por outro lado, conciliar interesses, condescender com a fraqueza alheia, e sublimar a vingança, pode produzir maravilhosos sentimentos de completude e realização. Desculpas podem desviar a ira do ofendido. O perdão libertará o coração indulgente. E apagar voluntariamente da memória a ofensa sofrida, renovará o espírito e recuperará a alegria de viver.
Vivemos dizendo que o mundo precisa de paz. Mas antes, para isso, precisamos promover a paz no cantinho onde vivemos. Em casa, na vizinhança, na empresa em que trabalhamos. Na rua, no trânsito... Quem sabe se somados, pequenos e legítimos ambientes de paz, nos levem à tão sonhada paz mundial. Vamos tentar?
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