Por Jânsen Leiros Jr.
"13 Disse-lhe alguém dentre
a multidão: Mestre, dize a meu irmão que reparte comigo a herança. 14 Mas ele lhe respondeu:
Homem, quem me constituiu a mim juiz ou repartidor entre vós? 15 E disse ao povo:
Acautelai-vos e guardai-vos de toda espécie de cobiça; porque a vida do homem
não consiste na abundância das coisas que possui. 16 Propôs-lhes então uma
parábola, dizendo: O campo de um homem rico produzira com abundância; 17 e ele arrazoava consigo,
dizendo: Que farei? Pois não tenho onde recolher os meus frutos. 18 Disse então: Farei isto:
derribarei os meus celeiros e edificarei outros maiores, e ali recolherei todos
os meus cereais e os meus bens; 19 e direi à minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens
para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te. 20 Mas Deus lhe disse:
Insensato, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem
será? 21 Assim é aquele que para
si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus."
Lucas 12:13-21 - JFA
Final do ano chegando! E como de
costume nos deparamos com pessoas que se ocupam em planejar seus ritos de virada de ano, imaginando
atrair coisas boas e positivas para suas vidas e para a vida de
seus familiares. São pequenos gestos e manias,
a princípio inofensivos, que na verdade traduzem nossa constante inclinação por
garantias. Usar roupas de uma ou
outra cor, mergulhar no mar, comer determinadas comidas, fazer gestos ou falar
umas e outras palavras... Tudo com o tempero das simpatias de fim de ano.Um jogo de lógica retributiva, onde a força
a que ou a quem se pretende agradar, recompensará com algo bom e relevante. Eu
faço isso, logo garanto aquilo. "Não custa nada tentar. Vai que dá certo!"
Ou, "pelo menos eu fiz a minha parte".
Nos versículos seis e sete desse mesmo
capítulo, Jesus falou de não temermos circunstância desfavorável, porque Deus,
que cuida de passarinhos tão baratos, muito mais cuidará de nós. Porém a soberba
humana natural é buscar segurança no ter
e no fazer.
Ter recursos materiais e com eles a
sensação de controle, ou fazer alguma
coisa por si mesmo, que garanta ou se pretenda a garantir que o que se quer
será. São nossas tão sonhadas garantias, que se sustentam prioritariamente
naquilo que é tangível, naquilo que é palpável. Esperar importa em incerteza e
isso é sinal de fraqueza. Afinal, quem
sabe faz a hora não espera acontecer.
Foi requerendo esse tipo de garantia,
que o filho desfavorecido de uma determinada partilha, pediu a interveniência
de Jesus. O texto não registra as razões que o levaram a ter sido injustiçado,
ou ter a sensação de não haver sido favorecido justamente na partilha. Mas de
qualquer forma, ao sentir-se prejudicado, ele pediu que Jesus interviesse,
trazendo para aquela circunstância, a justiça a que entendia ter direito. Jesus
porém não só se eximiu de tal responsabilidade, como reforçou por parábola, a
ideia de que recursos materiais em nada podem garantir a justiça, ou o cuidado
de Deus. Ninguém pode produzir a própria justiça.
Na parábola, o homem rico e avarento, diante
da prosperidade de seus campo, a despeito de já ter produzido o bastante para
seu sustento e para o bom lucro de seu empreendimento, não pensou em estender
ajuda a quem quer que fosse. Antes ele pensou apenas em si mesmo e na garantia
de seu próprio futuro; na segurança dos dias vindouros. Ele decidiu ampliar sua
capacidade de armazenamento, para que tais recursos lhe permitissem descansar
de suas preocupações com o amanhã.
Alma,
tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te.
Essa é toda a insensatez das garantias materiais e da segurança que advêm dos
recursos estocados; nada pode garantir a vida, ou a possibilidade de aproveitar
o que se acumulou. Insensato, esta noite
te pedirão a tua alma. Em outra tradução diz Louco!... Ora, se o acumulo de bens e a segurança nas riquezas é vã
mesmo para quem a tem de verdade, quanto mais fugaz é a sensação de se garantir
em pequenas posses ou simpatias, para aqueles que pouco ou nada têm. Mas são
muitos os que, mesmo vivendo remediadamente, acreditam que suas seguranças e
garantias, podem estar condicionadas ao que lhes seja palpavelmente conquistado,
ou presumivelmente encaminhado.
E
o que tens preparado, para quem será? A avareza e a
ansiedade de acumular o bastante para um futuro que não pode ser garantido pela
posse de qualquer riqueza, fez com que aquele homem não se permitisse ser
generoso, e ajudasse alguém com o que lhe sobejava. Sua insensatez culminou na
distribuição, não só do que lhe sobraria, mas de tudo o que já havia guardado.
Toda sua riqueza se perdeu, quando perdeu a própria vida.
Quando no deserto, o povo de Israel,
liberto da escravidão do Egito, precisou aprender a depender do sustento de
Deus dia a dia, alimentando-se do maná que descia do céu toda manhã. E não
podia nem mesmo guarda-lo de um dia para o outro pois estragava. Era preciso
confiar que no dia seguinte, nova porção do cuidado de Deus se encarregaria de
suas necessidades. A única garantia que tinham, era o cuidado, a providência e
a fidelidade de Deus.
Garantias materiais não combinam com fé.
Ser generoso é abençoar o próximo com a prosperidade do que Deus nos concede.
Quão melhor é dizer comam, bebam, aproveitem... comigo, tudo isso que Deus me
proporcionou. Não são as cores certas, nem as palavras exatas, e muito menos a
quantidade de mergulhos que moverão a mão de Deus. Mas sim o seu amor e o seu
cuidado, no que devemos confiar e descansar.
Vivemos buscando recompensas e
prosperidade que garantam nossa segurança e confiança no futuro, quando na
verdade esse futuro precisa, por fé, ser garantido e sustentado por Deus. Que
nossa fé se exercite na dependência de Deus, e que a eventual prosperidade ou a
falta dela não nos torne insensatos e loucos, buscando em mandingas ou posses, as garantias de que haverão de nos dar aquilo
que pedimos ou pensamos.







