Mostrando postagens com marcador crença. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crença. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de janeiro de 2016

E pra falar de Fé, é preciso crer?


Por Jânsen Leiros Jr.


" Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem."
Hebreus 11:1 - JFA

" Ora, a fé é a certeza de que haveremos de receber o que esperamos, e a prova daquilo que não podemos ver."
Hebreus 11:1 - KJA

"στιν δ πίστις λπιζομένων πόστασις, πραγμάτων λεγχος ο βλεπομένων."
Hebreus 11:1 - Grego

" Now faith is [the] substantiating of things hoped for, [the] conviction of things not seen."
Hebreus 11:1 - Darby Bible Translation


Há algum tempo, em virtude dos textos que divulgo aqui, sou questionado por diversas pessoas que, ora querem uma explicação mais detalhada sobre algum texto, ora querem entender melhor alguma posição doutrinária que tenha declarado. Não poucas vezes, porém, há quem queira questionar fundamentos da cristandade, ou mesmo os fundamentos da divindade.

Um dos textos que mais gera esse tipo de retorno é o intitulado Impossível explicar Deus[1]. Uns respondem que "é claro que se pode explicar Deus", talvez me considerando um herege. Outros, porém, na outra extremidade, afirmam que crer em Deus seja um delírio, utilizando-se do título do livro Deus um delírio, de Richard Dawkins.

De qualquer forma, não são poucas as vezes que preciso reafirmar ou ampliar a sustentação de minhas posições, já que aquilo a que nos pretendemos com esse blog tem sido alcançado. Provocar o pensamento e a fé, ou não, dos que se ocupam em pensar em Deus. Teólogos de ocasião ou por dedicação, que fazem do tema uma deliciosa e prazerosa fonte de devoção, seja por aceitação ou negação.

Assim, e motivado por esses adoráveis interlocutores, passo a descrever alguns desses debates, obviamente ocultando o nome dos participantes, até mesmo porque adaptamos algumas partes e editamos outras, com vistas a melhor compreensão de quem dele participará a partir desse novo texto. Espero que lhes seja relevante.
. . .


Por que vocês consideram a fé uma prova de coisas que não podem ser vistas? Como a fé pode ser prova de alguma existência? Se alguém tiver absoluta na existência de duendes eles passam a existir?


Ótima observação. Mas há mesmo um equívoco nisso. A fé não prova nada. Não no sentido jurídico, que é o sentido como entendemos prova em nossa cultura. A fé me faz agir mas não baseado em prova, e sim em convicção. Quando o texto traduz prova, dá a ideia de que o objeto da fé não pode sequer ser questionado, que no senso comum, sugere algo semelhante a fato irrefutável ou inquestionável. Creio que a palavra seria melhor traduzida como convicção, o que melhor demonstraria o poder impulsionador da fé. Diante daquilo para o que não há qualquer prova ou evidência irrefutável, o que nos move é a convicção, o que nos impulsiona é tão somente a fé.

O valor da fé está exatamente em conduzir ao improvável. Caso a fé se baseasse em fatos e evidências, como ressalto no texto, não seria fé, mas apenas constatação razoável, uma conclusão inevitável, que não deixaria qualquer margem de dúvida. Não há como crer ou não crer no que é irrefutável; apenas aceita-se ou não. Mas não cabe fé ou não fé quando o fato está diante dos próprios olhos. O apóstolo Paulo faz bem essa advertência . Por isso insisto que a tentativa de explicar Deus não pode ser, senão, uma elucubração sobre a experiência pessoal com ele, que apesar de poder ser comunicada, é uma realidade individual e intransferível.

Obviamente ter fé de que duendes existem não os farão existir no mundo e nem para todos. Mas os farão existir para aqueles que neles acreditam. Você encontrará quem relate encontros com duendes, como há quem creia em ETs, e garante com todas as suas forças e argumentações, tê-los vistos, ter conversado com eles, ou mesmo ter sido raptado e até operado por eles. Isso nos leva a uma outra e pertinente questão, em que o ponto de distinção não está na fé como exercício da convicção, mas no que é que se tem fé.
O texto que você leu, entre outros aspectos, tem o intuito de dizer aos demais crentes em Deus, nosso Criador, e em seu Filho Jesus, nosso Salvador, que aquilo em que nós cremos e aceitamos, que aquilo que nos impulsiona e nos faz viver, pode, no máximo, ser comunicado, mas jamais imposto a ninguém. Por quê? Porque a fé é uma experiência única e exclusivamente individual. Ela é intransferível, ainda que comunicável pelo testemunho e pela argumentação. A afirmação é direito de quem crê, mas jamais a imposição ou o sugestionamento. Do contrário, onde estaria a legitimidade da fé? Voluntariedade, uma outra característica insofismável da fé. Não há nada pior do que alguém infernizando o nosso juízo, querendo nos impor uma crença ou mesmo uma não crença, pela qual não temos impulso íntimo e genuíno.

Portanto, fé não é prova, mas uma convicção que me impulsiona a vida.


Discordo totalmente da ideia de que ter fé faça com que algo exista para uma determinada pessoa. A existência não está condicionada a crença e sim a realidade. Se uma pessoa tiver muita fé de que pode voar e se jogar do prédio, ela não vai cair pra mim e voar para ela...

Achar que existe valor em acreditar sem boas evidências (veja que não estou usando o termo prova mas sim evidências), é tão absurdo que você só abre exceção para a religião, pois se abrisse para o resto das questões cotidianas o mais provável é que acabasse morto.

Como tenho por meta acreditar na maior quantidade de coisas possíveis que sejam verdadeiras e na menor possível que sejam falsas, me baseio no método que se mostrou mais eficiente para esta função até hoje que é só acreditar naquilo para o que existam boas evidências, e portanto não considero bom para ninguém basear suas crenças na , ela estará somente aumentando as chances de estar errada.

Por isso apesar de saber que é com boas intenções, e que você não vê a fé como algo negativo como eu vou te pedir que não peça para que eu tenha fé.

Foi ótimo você usar a palavra evidência, porque outra vez voltamos para dentro do texto que eu escrevi, base de todo nosso debate até agora. Exatamente pelo que disse antes, não há qualquer prova da existência de Deus, como também não há de sua inexistência, senão as evidências que considero relevantes em minha relação íntima com ele. E o campo de atuação dessa eventual relação é a psiqué, onde ninguém mais além de mim, pode entrar e encontrar as evidências que encontro. Deus se revela separadamente a cada ser humano, ainda que determinadas evidências sejam públicas e disponíveis a todos. Eu explico.

O salmista afirma que os céus declaram a glória de Deus, e que eles anunciam as obras das suas mãos[2]. Ora, se declaram e anunciam o fazem a todos, pois todos têm acesso aos céus e às coisas criadas; as evidências. Porém elas não são provas para mim, mas hipóteses ou indícios de que há Deus. O que me levará a essa convicção impulsionadora à relação com ele é exatamente a fé. Portanto a convicção induz e conduz à crença.

Mas usando o próprio exemplo que você mesmo deu, veja como a fé é capaz de movimentar o indivíduo na direção daquilo em que acredita. Convicto de que há dinheiro na conta, alguém pode sair gastando esse dinheiro acreditado, porém não creditado. Ainda que não existente, ele agirá nessa fé. Convicto de que poderá voar, alguém pode atirar-se de um penhasco e morrer. E foi em sua fé que terá morrido.

Então retornamos ao ponto em que, a diferença, se estabelece pelo objeto em que é que se tem fé, e não na propriamente dita. Sim, porque confiando que suas ideias poderiam ser revolucionárias, Steve Jobs e Bill Gates se lançaram no mercado de informática, que ainda engatinhava, e se tornaram milionários com suas criações. Da mesma forma, crendo que seria capaz de desenvolver um equipamento que nos viabilizasse voar, Santos Dumont criou o avião. E tantas outras pessoas trouxeram à existência o que antes não existia, baseados em suas crenças e em suas convicções.

Ao contrário disso, muitos outros homens e mulheres, diante das mesmas evidências não creram ser possíveis os mesmos intentos ou inventos. As condições e possibilidades eram públicas, ainda que não populares. As tecnologias de sustentação eram acessíveis. Porém somente eles creram ser possível e realizaram. O nome disso? , ou convicção. Pode escolher.

É claro que eles poderiam ter acreditado intensamente, mas ainda assim não terem chegado a nada. Claro que poderiam ter morrido na praia. O 14 Bis não foi o primeiro protótipo de Santos Dumont. O mesmo deve ter acontecido com os mestres da informática. Mas suas convicções os mantiveram na perseguição daquilo em que acreditavam. A fé é mesmo impulsionadora e sustentadora. Mas se não tivessem chegado jamais aos seus objetivos, a fé deles teria sido em vão? De jeito algum, pois teria cumprido o seu papel; suas convicções os movimentaram, motivaram, e lhes foi incentivo permanente. Logrado o êxito, a fé acaba. Porque o que se crê então se torna realidade. E sendo realidade irrefutável e provada, não há mais em que se crer. É fato e é consumado.

Ora, os crentes em Jesus Cristo creem na salvação pela graça de Deus. Têm convicção disso e têm o Espírito como penhor dessa salvação[3]. Nessa fé se sustentam dia a dia, e por ela vivem[4]. Não se baseiam em fatos ou circunstâncias, mas na promessa de Deus[5]. E sabemos em quem temos crido[6]. Mas não há qualquer fato que nos garanta isso, senão as evidências que se revelam ao longo de nossa vida de relacionamento com Deus[7]. E mesmo essa relação se sustenta pela fé. E mesmo essa fé um dia deixará de ser necessária. Porque quando o objetivo da alma for alcançado, quando o reino de Deus for fato, então não se crerá mais em nada disso. Porque deixará de ser esperança para ser realidade.

Você diria a essa altura. Mas o reino de Deus é improvável. Sim, é verdade. Improvável. Mas a fé é o que nos move incondicionalmente. E eu amo viver por essa fé. Porque fé é exatamente isso. Crer no improvável; esperar contra a esperança. Talvez por isso seja tão difícil entender a fé. Quem vive dela não busca verdades. As tem, as vive. Insofismavelmente e ainda que ilogicamente. Pela fé se vive; pela fé se morre. E não são poucos aqueles que ao longo da história morreram por sua fé. Quem os poderá julgar? Mas ainda que os julgue, o que neles mudará tal julgamento?

De modo que, realidade ou não realidade, a fé continuará a mover o mundo. Crendo ou não crendo em Deus, pela mesma fé me convenço de que Ele continuará a se relacionar com a humanidade, queira ou não, quem quer que seja. Haverá perpetuamente quem, contrariado, se incomodará e tentará aniquilar a fé. Ela porém permanecerá até o fim. É inerente à humanidade. E por que permanecerá? Porque invisível e intransferível, ela existe na alma. Inatingível por quem quer que seja.

Mas pode alguém perder a fé? Talvez sim, talvez não. Quem o pode saber? Mas isso já é assunto para outro post.



[2]  Salmo 19:1
[3]  Efésios 1:13-14; 2 Coríntios 5:5
[4]  Habacuque 2:4; Romanos 1:17; Gálatas 3:11; Hebreus 10:38
[5]  2 Coríntios 5:7
[6]  2 Timóteo 1:12
[7]  Romanos 8:15-17

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Se conselho fosse bom, solução?





“Não havendo sábia direção, toda a nação é arruinada; o que a pode restaurar é o conselho de muitos sábios."
Provérbios 11:14 - KJA

 “O caminho do insensato é reto aos seus olhos; mas o que dá ouvidos ao conselho é sábio."
Provérbios 12:15 - JFA

“A arrogância só produz contendas, mas a sabedoria está com aqueles que buscam conselho."
Provérbios 13:10 - KJA

“Onde não há conselho, frustram-se os projetos; mas com a multidão de conselheiros se estabelecem."
Provérbios 15:22 - JFA

“quem parte para a guerra necessita de orientação estratégica, pois com muitos conselhos se conquista a vitória!"
Provérbios 24:6 - KJA

“Mais vale um jovem pobre e sábio do que um rei ancião e insensato, que em sua arrogância já não aceita mais conselhos."
Eclesiastes 4:13 - KJA

"Se conselho fosse bom ninguém dava; vendia." É o que diz a sabedoria popular. E interessante! esse ditado é argumento tanto para quem quer aconselhar, mas teme a reação de seu interlocutor, quanto para quem efetivamente não quer aceitar qualquer conselho sobre um assunto qualquer, principalmente se esse conselho sugere não realizar alguma coisa da qual se está muito interessado em fazer. Normalmente ouvimos de bom grado os conselhos que nos atendem as próprias inclinações. Servem sempre e convenientemente para justificar atitudes, ou para criar o "bode expiatório" a quem culparemos pelo que quer que dê errado. - Tá vendo?! Fui ouvir você... Olha no que deu!

Nesse cenário por onde caminha a realidade da conduta humana e suas conveniências, parece até desaconselhável, emitir conselhos sobre qualquer que seja o assunto, em quaisquer que sejam as circunstâncias, sob pena de ser inoportuno diante da inflexibilidade do aconselhado, ou de ser responsabilizado pela desventura daquele a quem se pretendeu ajudar. Dura é a vida do conselheiro. Bem faz o consultor que cobra pelo conselho que dá. Afinal, conselho bom se vende.

Mas nosso foco aqui não será o conselheiro e nem mesmo o conselho em si, mas a atitude sábia de se aconselhar, de se enriquecer com o máximo de informações e percepções sobre um determinado assunto, antes de tomar uma decisão, ou firmar posição. Na multidão dos conselhos habita a sabedoria. Mas qual é a conexão de tomar conselho, com o exercício filosófico a que se pretende a mania de pensar no que cremos? Eu diria que total.

Uma das características mais marcantes da filosofia é o seu método. No trabalho incessante de buscar respostas para suas questões, chegar a alguma resposta é menos importante que o próprio processo de se buscá-las. O exercício da investigação, é de fato, a chama inextinguível do pulsar filosófico. E isso se dá em grande medida, não se sabendo bem o que é causa e o que é efeito, porque a filosofia não trabalha com verdades absolutas, ensimesmadas que são de particulares observações do mundo à volta do filósofo, ainda que suas afirmações, oriundas de diferentes e variadas contribuições de seu cotidiano, sempre se pretendam à universalidade.

Desse modo, não havendo por princípio uma verdade absoluta a que alguém possa chegar por particular observação, a investigação de certas questões sempre estarão a mercê de sucessivos exercícios elucubrativos, que alternarão os assuntos em seus laboratórios, conforme circunstâncias históricas e sociais, que demandem posicionamento ou orientação do pensamento humano e de senso comum.

Esse perfil da atividade filosófica, é milenar. Nas escolas filosóficas da antiguidade, os alunos eram sempre estimulados por seus mestres a buscarem entendimentos divergentes de suas observações. Em vez de lhes ensinar apenas a conclusão a que chegavam, instruía-os no caminho que trilhavam até uma determinada idéia, incentivando-os a autonomia de pensamento. Assim, eram estimulados a discordarem e a criticarem seus mestres, trazendo novas concepções e possibilidades de entendimento das questões sobre as quais se debruçavam.

Ora, no mundo das idéias o tempo cronológico não limita e muito menos impede o debate entre os diversos pensadores da história universal. Ora contradizendo, ora corroborando, pensadores se sucedem na tarefa de trazer às suas ágoras contemporâneas, questões que serão discutidas livremente por diversos filósofos, quer estejam presentes fisicamente, quer se façam presentes por intermédio de suas obras, registros, ou tradição oral a eles atribuídas. Uma verdadeira academia do pensamento, onde o mundo pode se aconselhar com as idéias e contribuições deixadas por cada um dos seus membros históricos.

Esses conselhos a que me refiro, são contrapostos, criticados, discutidos e comentados. Quer aceitos na íntegra ou em partes, quer rejeitados por completo, todos inexoravelmente servirão de parâmetros que tangerão o pensamento humano pela história, em suas demandas por conhecimento e direcionamento existencial. A cada fase da nossa história, novos membros vão compondo essa academia do pensamento, enriquecendo todo e qualquer debate, e contribuindo para visões cada vez mais adequadas à contemporaneidade do debate mais recente. Na multidão dos conselhos habita a sabedoria. Não é erro de digitação. Estou repetindo essa frase propositalmente.

Não obstante a costumeira demonização da atividade pensante no que se refere a investigação das razões de nossa fé, penso que na multidão dos conselhos habita a sabedoria. Ou seja, quanto mais rodeado de conselhos, quanto mais enriquecido pela atividade do pensamento humano, quer para confirmá-lo, quer para rejeitá-lo, tanto mais consistente serão minhas posições, uma vez que frutos de uma conclusão robusta, não oriunda de uma mímica conveniente e oportunista qualquer, mas nascida de uma atividade responsável e prazerosa; a renovação do nosso entendimento, para entendemos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.[1]

A essa altura muitos já devem ter torcido o nariz. Mas haverá quem rasgue as próprias vestes[2]. Porque o questionamento bem como a confrontação de idéias e visões de mundo, são, em tese, os melhores e mais bem-sucedidos métodos de aprofundamento do conhecimento, qualquer que seja a disciplina ou ciência na qual esteja inserido. Inclusive na teologia. Ou não foi assim que avançou a revelação de Deus ao longo da história da humanidade, mais particularmente na história de Israel?

O questionamento das tradições judaicas, bem como a confrontação dos costumes religiosos dos escribas e fariseus, estão espalhados por todo o relato dos evangelhos. As idéias convenientemente estabelecidas sobre o que era religiosidade, davam à elite religiosa uma confortável condição de destaque, concedendo prestígios e acumulando-lhes vantagens oportunas. Mas Jesus lhes questionava a pertinência dos hábitos e a natureza das intenções. Ele confrontava repetidamente a superficialidade de seus ritos, como a realidade maldosa de suas pretensões. Não foi sem motivo que esses profissionais da religião e aproveitadores da boa fé do povo, foram chamados, sem hesitação, de hipócritas e de sepulcros caiados, dado o fingimento com que se apresentavam como piedosos e probos religiosos.

Paulo não agiu muito diferente. Toda sua teologia, em visível construção ao longo de suas cartas, é fruto do questionamento e confrontação do que se acreditava, com aquilo que se descortinava diante de seus olhos, a medida que a experiência da vida transformada lhe propiciava novas percepções sobre a relação da humanidade com Deus. Confrontando idéias e questionando a si mesmo, aquele zeloso judeu que consentiu com a morte de Estevão e empreendeu viagem para prender e julgar os seguidores de Jesus, tornou-se o principal expoente do cristianismo, sendo o principal evangelizador entre os gentios.

Ora, é preciso sair do casulo. Abrir os olhos. Tomar conselho com a vida e suas possibilidades. Rasgar as receitas de existências pré-moldadas, e se lançar às experiências enriquecedoras que a relação com Deus e as pessoas que nos cercam são capazes de produzir. Precisamos correr o risco do inédito em nosso cotidiano. Prestar um culto racional pela transformação da nossa mente. É na mente que são produzidas as idéias. É na mente que se armazena o entendimento. Se não cremos porque entendemos, é por entendermos que sustentamos e enriquecemos nossa relação com Deus, e somos renovados em nossas inclinações e conduta.


“Um homem sábio é poderoso, e quem possui entendimento potencializa sua força;"
Provérbios 24:5 - KJA

Portanto reitero o convite. Leia, ouça, assista, debata, pergunte e questione. Leia incessantemente sua Bíblia e abra espaço para outras literaturas. Ouça louvores e adore a Deus com inteireza de coração, mas não deixe ouvir poesia e cantar a vida em verso e prosa. Assista na TV seus programas prediletos e não perca a oportunidade de analisá-los comentá-los; a ficção ajuda a debater o mundo real. Do que entende e conhece, ensine; o que não sabe, pergunte. O que não compreende questione. Mente vazia, dizia minha avó, é oficina do diabo. Afinal de contas, é na multidão dos conselhos que habita a sabedoria.



[1] Romanos 12:1-2
[2] Mateus 26:65; Joel 2:13

segunda-feira, 30 de março de 2015

Se cremos por convencidos, convertidos?





1 Ora, a fé é a certeza de que haveremos de receber o que esperamos, e a prova daquilo que não podemos ver. 2 Porquanto foi mediante a fé que os antigos receberam bom testemunho.
3 Pela fé compreendemos que o Universo foi criado por intermédio da Palavra de Deus e que aquilo que pode ser visto foi produzido a partir daquilo que não se vê. "
     Hebreus 11:1-3 - RA

Ainda falando da fé como independente de provas e contra-provas, seria interessante reafirmarmos o caráter incondicional da crença no contexto da redenção. Sim, porque num mundo que se caracteriza pelo pragmatismo das utilidades e de seus resultados, tudo o que um indivíduo empreende necessita, por vício de adequação social, estar ligado a alguma utilidade que conduza a um certo resultado prático. Nesse contexto maniqueísta, qualquer conjunto de crenças precisa estar sustentado por alguma racionalidade, algum sentido lógico, mesmo que não resistam tais crenças a argumentações preliminares sobre suas coerências e pertinências. O importante é ter fé em alguma coisa, diz a sabedoria popular.

Mas na prática, em que é que se deve crer, para que a defesa do conjunto das crenças que nos tocam, seja aos mesmo tempo capaz de satisfazer a consciência que se percebe necessitada do sagrado, bem como capaz de conferir um certo status de admiração e respeito pela racionalidade pretendida por essa mesma fé. Assim, quanto mais comprovações daquilo que se acredita puder ser reunida, sobre qualquer pretexto, é preciso relacionar em um conjunto de argumentações bem organizadas e arrumadas criteriosamente, para que a defesa daquilo que se crê, possa ter grande penetração e convencimento.

Convencimento! Essa então parece ser uma palavra mágica, capaz de inebriar algumas pessoas na perseguição do poder de impor a outros aquilo em que acredita. Quanto mais convincente, atraente. E quanto mais atraente, sedutor. A sedução é capaz de encantar as massas; e encantadas, as massas são manipuláveis. A manipulação confere poder. E poder é tudo que mais interessa, àqueles que argumentam sobre a pertinência de suas próprias crenças, com vistas a sobrepujar a fé de outros.

Ora, nem precisamos ir tão longe de onde estamos, para conferir se o que proponho tem algum fundo de realidade. Na internet, nas diversas comunidades teológicas, evangélicas, e em milhares de vídeos pelo Youtube, lideranças religiosas e estudiosos proeminentes se digladiam diuturnamente, buscando convencer seus interlocutores de que seus pressupostos são mais verdadeiros que os de seus oponentes, utilizando textos bíblicos e pensamentos de toda ordem. Às vezes o fazem baseados em um mesmo texto bíblico, contextualizados obviamente nas conveniências particulares de cada um.

Ora, se hipoteticamente eu me coloca-se entre esses diversos defensores de suas crenças particulares, e de suas argumentações depende-se para decidir em que é que eu iria crer, aquele que me fosse mais sedutor, dado o seu contundente esclarecimento, teria sobre mim exercido poder, convencendo-me de que suas idéias fazem mais sentido que a do outro. Ou seja, finda a batalha pela minha alma, o vencedor levaria por despojos de guerra uma mente convencida da razoabilidade de um determinado conjunto de crenças, que se tenha demonstrado mais aceitável ou provável, segundo minha capacidade de percepção. No entanto, meu coração não necessariamente estaria cativo junto com a minha mente. Aliás, as sensações costumam mesmo não seguir a razão. Convencimento, portanto, não é conversão.


6 Em verdade, sem fé é impossível agradar a Deus; portanto para qualquer pessoa que dele se aproxima é indispensável crer que Ele é real e que recompensa todos quantos se consagram a Ele."
     Hebreus 11:6 - KJA

Quando Deus se revela ao longo da narrativa bíblica, Ele não o faz para tornar-se provável em sua existência, ou mesmo para definir um modelo de conduta, ou uma filosofia de vida que deva ser seguida por um grupo de pessoas a quem denomina Seu povo. Aliás, a existência de Deus é um conceito não problematizado pela Bíblia. Não há nela trecho algum que se ocupe em defender sua existência. Ao contrário, partindo do pressuposto de que quem de Deus se aproxima crê que Ele existe, a Bíblia ocupa-se em revelar Deus e toda sua essência pessoal,

Perdoem-me a analogia improvisada, mas a entendo plenamente adequada ao que queremos demonstrar. A coisa funciona mais ou menos como em um chat pela internet. Duas pessoas, sem trocar fotos, iniciam um papo interessante e agradável. Um e outro vão se revelando em gostos e predileções, escolhas e formas de ver o mundo. Ao longo de muitas conversas essas pessoas se encantam mutuamente, mesmo sem terem se visto. Nem rosto ou silhueta, uma da outra. Passado algum tempo, percebem que já não sabem mais viver uma sem a outra. A vida de ambas se resume em horas intermináveis diante do computador, e o fato de ainda não se conhecerem fisicamente já não faz a menor diferença. Suas verdades intrínsecas, suas personalidades desnudas, revelaram mutuamente que foram feitas uma para a outra. Suas essências se encontraram antes de suas formas temporais e corruptíveis. Desse encontro às cegas nasceu o amor.

Mal comparando, repito, esse é o propósito da Bíblia. Revelar o Criador de forma crescente e harmoniosa, cadenciada, de modo que o desvelo de seu ser vá descortinando um alguém impressionantemente interessado por mim. Amoroso e zeloso, que ainda que não faça qualquer distinção entre as pessoas, move tudo e qualquer coisa para me buscar e me manter perto d'Ele. E diante desse insondável ser, flagrando-me completamente envolvido por seu cuidado e encantado por seu amor, já não me importa nem um pouco qualquer coisa que se pretenda provar a seu respeito. Porque informação alguma, argumento algum, por mais racional que seja, por mais contundente que se apresente, mesmo que extremamente sedutor, me afastará, ou me fará desistir desse amor, que surgiu não de mim para Ele, mas que nasceu em mim em resposta ao amor revelado n'Ele.


38 Portanto, estou seguro de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, 39 nem altura nem profundidade, nem qualquer outra criatura poderá nos afastar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor."
     Romanos 8:38-39 - KJA

Portanto a Bíblia revela o encontro de Deus com a humanidade. A narrativa bíblica apresenta um Deus Criador, cuidadoso e dedicado. Detalhista nas condições de sustentabilidade e autonomia, gerando um ser humano capaz e cheio de potencialidades. A relação com sua criação é próxima e interativa, porém compulsória, à medida que esse homem desconhece qualquer outra possibilidade. Assim, tal relação ainda que intensa é desprovida de plena liberdade. O amor não é pleno em ambiente em que não haja liberdade. O amor pleno só pode existir legitimamente, quando há liberdade para que os amantes decidam entre amar e não amar.

A Bíblia avançou na história, e revelou uma humanidade rebelada, desejosa de uma independência capaz de lhe atender os próprios interesses. O homem abandonou o Criador, em atitude unilateral, supondo que esse mesmo criador lhe escondia algo; uma capacidade encoberta de ser tão deu,s quanto Deus era o Criador. Já não bastava ser essencialmente imagem do Criador. Era desejável e atraente o seu poder e conhecimento irresistível. Se o homem pudesse ser tão deus quanto Ele, o Ser criador já não seria tão primordial e necessário. A humanidade então exerceu o pleno direito de liberdade e rejeitou Deus e sua relação com Ele.

Longe de Deus e exilado de seu cuidado, uma vez que dele mesmo partiu a iniciativa de ser livre, a humanidade inteira caminhou errante, protagonizando situações alternadas de aproximação e afastamento, que construíram ao longo dos séculos um conhecimento do Criador, a quem ela mesma virou as costas. Acontecimentos narrados de modo a revelar um Deus constantemente desejoso de resgatar e reaproximar o homem.

Assim, a narrativa bíblica subverte a lógica das relações, em que o ofensor deve buscar o ofendido para resgate da relação rompida. E em vez disso, o próprio Deus, o ofendido, o abandonado, aquele a quem viramos as costas, faz o caminho no sentido da humanidade. E na impossibilidade do homem se fazer deus, Ele se faz homem, redimindo toda sua criação e resgatando a relação com todos nós, um a um, por intermédio de Jesus, o seu Cristo. O redentor.

Findo o registro histórico na Bíblia, inaugura-se um tempo de salvação em que a relação Deus-humanidade se faz fruto da decisão divina de nos amar. Passamos a desejar outra vez ser iguais a Ele, mas agora com Ele e para Ele, e não mais como Ele e no lugar d'Ele.

Resumindo-se assim, pretensiosamente, a revelação divina contida na Bíblia, pode alguém apontar em que parte caberiam incondicionalmente? A Bíblia não fala de regras, mas da incapacidade dessas mesmas regras aproximarem o homem de Deus. Não fala de filosofia de vida ou inteligência de comportamento; isso privilegiaria uns em detrimento de outros conforme circunstâncias inimputáveis. A Bíblia, em lugar disso tudo fala de amor, revela um Deus amoroso, que espera que por esse seu amor sejamos atraídos. E não por provas. Afinal, bem-aventurados aqueles que não viram, mas creram.
Powered By Blogger