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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

É doando que se esquece


Por Jânsen Leiros Jr.


"12 Disse também ao que o havia convidado: Quando deres um jantar, ou uma ceia, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem os vizinhos ricos, para que não suceda que também eles te tornem a convidar, e te seja isso retribuído. 13 Mas quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os mancos e os cegos; 14 e serás bem-aventurado; porque eles não têm com que te retribuir; pois retribuído te será na ressurreição dos justos."
Lucas 14:12-14 - JFA

Normalmente esse texto faria parte do exercício anterior, uma vez que narra uma continuidade do que se passa no evento para o qual Jesus havia sido convidado. Um banquete fora oferecido por um dos principais fariseus, e o Mestre estava ali, como sempre, ensinando o evangelho, confrontando comportamentos e costumes dos religiosos proeminentes. E esse texto isolamos propositalmente, porque trás relevantes ensinamentos quanto as atitudes livres de intenções camufladas.

Provavelmente Jesus percebeu o nível social das pessoas que se encontravam naquele evento. Pessoas que por suas condições e proeminências, haviam sido convidadas porque fazia parte do protocolo social, se convidarem mutuamente para banquetes; fulano nos convidou, agora precisaremos convidá-lo também, conversariam os anfitriões. Não é mais ou menos assim mesmo até os dias de hoje? Vivemos de retribuições protocolares como sugere a etiqueta.

Há algo de errado nisso? De forma alguma. E nem mesmo Jesus está condenando tal hábito protocolar. Na verdade ele está apontando para uma outra conversa entre os anfitriões, uma conversa onde as intenções vão além de seguir uma etiqueta social; vamos convidar fulano porque assim seremos chamados por ele também. Ficará obrigado a isso. Uma conversa que expõe a lógica do fazer algo por alguém, para que por esse alguém nos seja retribuído. É para essa atitude que Jesus aponta; uma conveniência que pretende uma vantagem futura relevante. Uma barganha velada.

Agir em favor de quem pode retribuir o bem recebido, é pretender-se à recompensa, à retribuição. É convenientemente contar com o cumprimento de um protocolo que garante um retorno, um equilíbrio que não nos deixará no papel de quem só , sem nada receber. Não há qualquer altruísmo em oferecer banquete a quem nos pode pagar com a mesma moeda.

Pobres, aleijados, coxos e cegos, não eram exatamente o tipo de pessoa que pudessem retribuir qualquer convite que lhes fosse feito. Alijados do convívio social, marginalizados por suas presumida inutilidades, essa gente jamais seria capaz de oferecer de volta o que quer que fosse, pois tudo lhes era negado socialmente, a exceção de uma vida isolada e distante, sem qualquer envolvimento, cuidado ou olhar da sociedade. Quem lhes auxilia e socorre, não tem como esperar nada em troca.

Ao sugerir um convite aos desfavorecidos, Jesus dá ênfase às atitudes altruístas, de um amor doador. Fazer o bem a quem não nos pode recompensar. É um bem que vai sem volta. É um dar sem nada receber. É doar-se a si mesmo. Aliás, doação é via de uma só mão. Não se pretende à retribuição.

Isso mesmo! Poderia alguém concluir brilhantemente. Afinal, quem dá aos pobres empresta a Deus! Não! Eu replicaria, pois assim sendo, teríamos a lógica da retribuição mantida. Pior, estaríamos instituindo uma barganha com Deus. Darei aos pobres, pois receberei de Deus. Que provérbio popular infeliz...

E serás bem-aventurado; porque eles não têm com que te retribuir; pois retribuído te será na ressurreição dos justos. Essa frase não sustenta uma barganha com Deus. De modo algum. Não diz que dando aos pobres receberemos recompensa de Deus. Diz antes que não precisamos agir com vistas a qualquer retribuição, de quem quer que seja, pois a nossa recompensa já está garantida na ressurreição dos justos, não por termos dado algo ou feito qualquer bem aos pobres, mas por termos sido salvos para toda boa obra[1]. Devemos considerar a salvação como toda recompensa a receber, à qual, inclusive, sequer fazemos justiça.

Não é difícil incorrer no erro velado da barganha. Estamos quase sempre medindo atitudes e avaliando consequências que nos possam ser convenientes e proveitosas. Esperamos dar e receber, plantar e colher, agir e conseguir. Quase nunca fazemos por gratidão, ou esquecemos do bem que fizemos, por devoção. Que o Senhor nos conceda corações doadores.



[1]  2 Timóteo 3:17

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O que temos pedido a Deus?


Por Jânsen Leiros Jr.


1 Estava Jesus em certo lugar orando e, quando acabou, disse-lhe um dos seus discípulos: Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou aos seus discípulos. 2 Ao que ele lhes disse: Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; 3 dá-nos cada dia o nosso pão cotidiano; 4 e perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todo aquele que nos deve; e não nos deixes entrar em tentação, [mas livra-nos do mal.] 

5 Disse-lhes também: Se um de vós tiver um amigo, e se for procurá-lo à meia-noite e lhe disser: Amigo, empresta-me três pães, 6 pois que um amigo meu, estando em viagem, chegou a minha casa, e não tenho o que lhe oferecer; 7 e se ele, de dentro, responder: Não me incomodes; já está a porta fechada, e os meus filhos estão comigo na cama; não posso levantar-me para te atender; 8 digo-vos que, ainda que se levante para lhos dar por ser seu amigo, todavia, por causa da sua importunação, se levantará e lhe dará quantos pães ele precisar. 

9 Pelo que eu vos digo: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á; 10 pois todo o que pede, recebe; e quem busca acha; e ao que bate, abrir-se-lhe-á. 11 E qual o pai dentre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente? 12 Ou, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião? 13 Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?"
Lucas 11:1-13 - JFA

Na esfera da religiosidade, a oração sempre esteve envolta em mistérios, tornando-se objeto de constante de questionamentos, estudos, e diversas análises por parte de teólogos, cientistas da religião, palestrantes e curiosos. Sendo chamada de oração, reza, ou prece, conforme a doutrina professada, o ato ou rito que pretende impulsionar o devoto àquilo que considera sagrado, sempre causou expressivo interesse de todos os que se envolvem no aprofundamento do conhecimento de suas essências divinais.

Com os discípulos de Jesus não foi diferente, embora suas motivações tenham sido um pouco mais imediatistas. O texto de Lucas revela que João Batista já havia se ocupado em ensinar seus discípulos a orar. Os de Jesus, por sua vez, talvez achassem estranho que até aquele momento ele não o tivesse feito, ou mesmo demonstrado interesse em fazê-lo. Lucas parece ter uma preocupação temática, e não é sem motivo que ele coloca aqui este relato, ainda que breve, sobre o Pai Nosso, conhecida como a oração ensinada por Jesus.

- Pai que reina no céu, igualmente reine aqui na terra. Que tenhamos diariamente apenas o bastante para o nosso sustento, e a exemplo do perdão que concedemos aos que nos fazem mal, perdoa também as nossas transgressões. Somos fracos, por isso não nos deixe sequer ser envolvidos em tentações, livrando-nos antes do mal que nos avizinha. Essa seria uma interpretação livre do que Jesus ensina, que nada tem a ver com uma oração, reza ou prece a ser repetida, sendo antes de mais nada, uma postura que o seu discípulo deve ter diante do domínio de Deus sobre sua vida cotidiana. Um reinado efetivo de Deus, que em vez de se dar à barganha por uma vida de abastança, prosperidade material, ou mesmo de realização pessoal, garante o sustento da vida e das boas relações entre os homens, além de um coração puro.

Ora, se atender a um pedido insistente de alguém é mais do que natural entre os seres humanos, mesmo que seja apenas para se livrar do pedinte, muito mais nos atenderá o Senhor. Pois se nós, por pior que sejamos como indivíduos, sabemos e nos interessamos em dar bons presentes aos nossos filhos, muito mais nos fará o bem, o bom e misericordioso Deus e Pai. Tal insistência, porém, tem alvo e direção; quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem.

Os discípulos de Jesus, aqueles que conviviam diariamente com ele, percebiam que a capacidade para realizar todos os milagres que presenciaram, tinha alguma ligação com sua dedicação à oração. E talvez pensassem que o segredo estivesse na forma ou no conteúdo da oração. E como ele estivera há pouco orando, que melhor ocasião e oportunidade para pedir; Senhor, ensina-nos a orar?

Ora, eles claramente tinham em mente que Jesus lhes passaria uma regra, uma fórmula mágica, que engendrasse as palavras de uma maneira que lhes funcionasse como um chave para abrir as portas do poder realizador, de tudo a que se pretendessem fazer. Outros rabinos também se ocupavam em ensinar suas orações, suas rezas. Entre os povos gentios era comum o uso de vãs repetições, numa sequência que se pretendia mágica, ou capaz de mover a mão de Deus[1].

O que Jesus porém, ensina nas entrelinhas de seu discurso, é que a capacidade de executar tudo o que realiza, não vem da forma ou do conteúdo de sua oração, mas do Espírito Santo, que Deus o pai concede a quem quer que lhe peça. Por isso, pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á; pois todo o que pede, recebe; e quem busca acha; e ao que bate, abrir-se-lhe-á. Se queremos realizar tudo aquilo a que Jesus nos comissiona, precisamos estar inspirados e plenos do seu Espírito. É isso que devemos pedir a Deus.

Como há gente ensinando mantras, orações, rezas e preces poderosas, que ditas de determinadas formas, proferidas em determinados lugares[2], ou ainda pronunciadas em horários específicos, tocará os céus de um modo especial, de sorte que Deus se verá obrigado ou constrangido a atender. Procuramos adular Deus para que ele faça-nos o que pretendemos. Seja lá o que venhamos a pretender. No reino de Deus, o poder realizador é do seu Espírito, que habita em nós, e em nós realiza tanto o querer, quanto o efetuar[3].

Que Deus nos ensine a pretender aquilo que interessa ao seu reino e à sua vontade[4]. Para que deixemos de ser como meninos que anseiam por realizações frívolas e passageiras, enquanto o mundo jaz no maligno[5].


[1]  Mateus 6:7
[2]  João 4:19-24
[3]  Filipenses 2:13
[4]  Mateus 6:33
[5]  1 João 5:19

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Quando suas posses expressam amor


Por Jânsen Leiros Jr.


1 Logo depois disso, andava Jesus de cidade em cidade, e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus; e iam com ele os doze, 2 bem como algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios. 3 Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Susana, e muitas outras que os serviam com os seus bens."
Lucas 8:1-3 - JFA

Nunca fui muito de falar desse assunto. Na verdade quase sempre fugi dele. Seu caráter polêmico e o receio de ser confundido com aproveitadores e charlatões que pululam em nossos dias, sempre me mantiveram afastado da questão do sustento dos empreendimentos missionários, exclusivamente dedicados ao anúncio do evangelho.

Quando falo de empreendimentos missionários, não me refiro a  missões como ações em terras distantes apenas. Mas também, e igualmente importante, do que chamo de missões ao lado, que acontecem dentro do universo alcançável por nossos passos cotidianos e rotineiros, normalmente realizados no âmbito de nossas igrejas locais.

E me sinto muito mais à vontade para tocar nesse assunto, tendo em vista o texto acima. Pela dedicação exclusiva ao anúncio do evangelho do reino de Deus, o próprio Jesus recebeu ajuda de pessoas piedosas, no caso mulheres, que a exemplo de seus doze discípulos mais chegados, o acompanhavam em suas jornadas de cidade em cidade, e de aldeia em aldeia, como narrado aqui em Lucas.

Ora, todos sabem que Jesus era carpinteiro, tendo aprendido a profissão de seu pai José. Isso certamente lhe rendeu algum sustento enquanto vivia junto de sua família. Após ser batizado, porém, Jesus passou a dedicar-se exclusivamente ao anúncio do evangelho, não lhe sendo mais possível fazer do trabalho seu meio de subsistência. As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça[1].

O cuidado de algumas mulheres em prover os recursos necessários, a Jesus e aos doze, parece não ter sido colocado aqui por acaso. O final do capítulo 7 de Lucas, do qual falamos no Exercício Diário 008[2], falava de uma mulher pecadora, cuja gratidão levou a uma extremada expressão de adoração, lavando com lágrimas e enxugando com os próprios cabelos os pés de Jesus, e ainda beijando-os e ungindo-os com um produto de grande valor no contexto social daquela época.

Nos evangelhos de Mateus, Marcos e João[3], a mesma cena se desenvolve com algumas variáveis, porém a mais destacada é a reação aparentemente piedosa daqueles que condenaram a atitude daquela mulher, considerando que ela deveria vender aquela especiaria tão valiosa, e dar aos pobres. Uma acusação de desperdício estava implícita, pois sua atitude fora julgada e desqualificada. A avareza de tais homens, no entanto, não lhes permitira valorizar o gesto de amor e devoção. Somos sempre tentados a buscar utilidade e pragmatismo em todos os nossos atos e gestos. A adoração extremada e com aquilo que possuímos parece aos olhos dos outros, um exagero e um despropósito sem sentido ou utilidade.

Aquela mulher pecadora, segundo o texto, encontrou um meio de declarar sua satisfação e devoção a Jesus pelo que lhe havia feito; ele a resgatara de sua vida de pecados. Da mesma maneira, as mulheres que acompanhavam Jesus em sua jornada, encontraram no sustento de sua missão, uma forma adequada às suas possibilidades, para expressarem seu amor e agradecimento pelo que Jesus havia realizado em suas vidas, pois as curara de diferentes e infelizes condições.

É importante ressaltar que o que realizavam não era uma barganha; eu te dou você me dá. Muito pelo contrário, elas ajudavam com espírito de devoção, movidas pela gratidão de quem já havia recebido inteiramente de graça, e pela graça, tudo o que mais desejavam; uma vida nova e restaurada. O sustento ao ministério de Jesus era para aquelas mulheres, portanto, um ato de amor e consagração, além da expressão prática de quem apoia algo que espera ver anunciado a muitos.

Nossa adoração e louvor têm refletido nossa gratidão pelo perdão infinito que de Deus temos recebido? Temos nos oferecido como sacrifícios vivos em um culto racional? Ou não passamos de fariseus que apenas convidam Jesus para um jantar, numa mera formalidade de quem não se imagina necessitado do amor de Cristo? E se nesse caminho de entrega e dedicação nos for necessário abrir mão de posses ou usa-las; as doamos ou perdemos?

Que o Senhor que não precisa de nada do que lhe venhamos a oferecer, receba nossa gratidão, e que essa se expresse da maneira que nos for mais valorosa, mas não pelo maior preço. Deus conhece todos os corações[4].



[1]  Mateus 8:20
[2]  http://teologandoso.blogspot.com.br/p/1-quisera-eu-me-suportasseis-umpouco.html
[3]  Mateus 26:6-13; Marcos 14:3-9; João 12:1-8
[4]  2 Coríntios 9:7

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

=> Ou se morre para a vida, ou se vive para morrer


         

34 Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. 35 Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á. 36 Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? 37 Que daria um homem em troca de sua alma? 38 Porque qualquer que, nesta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos.”
             Marcos 8:34-38–RA

Quase sempre que lemos ou ouvimos esse texto, principalmente o verso trinta e quatro, somos remetidos às dificuldades e sacrifícios que passaremos ou teremos de fazer para seguir o caminho de Jesus. A maioria das pessoas, inclusive, tende a se lamentar de suas “cruzes”, aproveitando para desfilar um corolário de queixas e murmurações, quase que nos pedindo para carregar com elas ou por elas, o que chamam de “cruz”, pois a cruz é popularmente entendida como provações que a vida nos reserva. O que quase ninguém percebe, ainda que não seja nenhum segredo, é que a “cruz” a qual Jesus se refere, não é o assunto principal do texto, mas sim o que vem depois dela.

A crucificação era uma das formas de execução utilizadas na época. O uso dessa prática estava destinado prioritariamente a punir escravos rebeldes, criminosos violentos ou subversivos políticos. Usualmente o condenado à cruz sofria tortura antes de sua execução, para reduzir sua resistência. Mas uma prática era ainda mais comum; a de fazer com que o condenado leva-se a própria cruz até o lugar de sua execução, como um anúncio à população do que iria se dar com ele em breve. Estão vendo? Eu irei morrer! Uma execução que se pretendia exemplar e inibidora de qualquer atitude criminosa.

Após decidida e declarada, a execução na cruz, não poderia mais ser revogada ou adiada. Quem a carregasse anunciava que sua morte estava próxima. E igualmente quem testemunhava a passagem de alguém carregando uma cruz, sabia que estava diante de uma pessoa morta, ainda que vivesse seus últimos instantes. Para aquele condenado não havia escapatória.

Quando Jesus diz “tome a sua cruz” ele está anunciando a morte de quem o pretender seguir. Ele não promete recompensa, deleites ou vantagens. Ele anuncia que a decisão em segui-lo levará a morte. Por isso “tome a sua cruz e siga-me”, pois você irá morrer tanto quanto eu. E há uma absoluta e perturbadora contundência nessa afirmação. Não há escapatória. Não há sequer a possibilidade de um jeitinho brasileiro; um meio termo. Pois quem quiser ganhar a sua vida irá perdê-la, diz Jesus em seqüência no verso trinta e cinco. Ou morre para a vida, ou vive para a morte.

Num mundo em que políticos prometem o que não cumprem. Em que pais garantem o que não sabem se poderão conseguir, e quase todos falam sempre aquilo que não pensam ou não sentem, só para não desagradarem seus circunstantes, dar a morte como destino certo por conta de uma decisão, parece um contra-senso de quem espera arregimentar seguidores. Não parece a isca ideal para pescar o tipo de peixe que se imagina comer. Acontece que Jesus não queria e não quer qualquer peixe.


57 Indo eles caminho fora, alguém lhe disse: Seguir-te-ei para onde quer que fores. 58 Mas Jesus lhe respondeu: As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. 59 A outro disse Jesus: Segue-me! Ele, porém, respondeu: Permite-me ir primeiro sepultar meu pai. 60 Mas Jesus insistiu: Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos. Tu, porém, vai e prega o reino de Deus. 61 Outro lhe disse: Seguir-te-ei, Senhor; mas deixa-me primeiro despedir-me dos de casa. 62 Mas Jesus lhe replicou: Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás é apto para o reino de Deus.”
             Lucas 9:57-62–RA

Se há uma coisa da qual o Reino de Deus não precisa, é de quem imagina poder manter um pé lá e outro cá. Garantir-se dos dois lados. Obter o maior número de vantagens possível. Viver sem ter de fazer escolhas. Surfar na onda dos acontecimentos e aproveitar o que tiver de melhor, nesse ou naquele outro lado. O Reino de Deus não precisa de oportunistas ou claudicantes, mas de abnegados convictos e determinados. Escolher é declarar preferências, é abandonar o que não se escolheu. Sem medo de arrependimento, ou remorso pelo abandono do que ficou para trás. O Reino de Deus requer urgência e dedicação.

Não há qualquer possibilidade de barganha. Mas há quem considere possível, dependendo do que fizer ou do que falar, poder manter-se no muro até o último instante. Se é que acredita em um último instante. Mas Jesus adverte não haver nada, em absoluto, que se possa dar em troca da própria alma. Nem dinheiro, nem bens, nem conversa. Nada. Ou morre agora, ou não viverá mais.

Mas morrendo eu não perco tudo de qualquer forma, e muito mais cedo que perderia se morresse mais tarde? Perguntaria alguém numa argumentação emprenhada de duplo sentido. Ora, quando Jesus fala de morrer, fala de escolha, de decisão sem volta. De abandono total de tudo o que ficar para trás. Das vantagens escusas, dos bens ilícitos, das paixões lascivas, da vida de onde Deus é excluído, para se dar lugar à possibilidade de se viver à própria vontade e dissolução. Até porque, a luz impede a escuridão.

Não podemos ter vergonha da nossa escolha. Não podemos ter vergonha da morte a que nos submetemos, nem da ressurreição que esperamos. Uma vez mortos testemunhamos a vida que renasce em nós pelo Espírito do Senhor. Porque morremos para nós mesmos e vivemos para Deus. Jesus prometeu uma vida nova, próxima de Deus e cheia de possibilidades que agradam ao novo ser em que nos transformamos. A única forma de não termos vergonha disso, é tendo convicção da opção que fizemos, é não olhando para trás, pensando no que deixamos.


20 Portanto, se, depois de terem escapado das contaminações do mundo mediante o conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, se deixam enredar de novo e são vencidos, tornou-se o seu último estado pior que o primeiro. 21 Pois melhor lhes fora nunca tivessem conhecido o caminho da justiça do que, após conhecê-lo, volverem para trás, apartando-se do santo mandamento que lhes fora dado. 22 Com eles aconteceu o que diz certo adágio verdadeiro: O cão voltou ao seu próprio vômito; e: A porca lavada voltou a revolver-se no lamaçal.”
             2 Pedro 2:20-22–RA


12 Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus. 13 Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, 14 prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.”
             Filipenses 3:12-14–RA

Que Jesus nos sustente em grande confiança e esperança n’Ele, para que nossa caminhada tenha passadas ainda mais convictas e determinadas, à carreira que nos está proposta, e à nossa soberana vocação.
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