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quinta-feira, 2 de maio de 2024

A vida pode ter sentido Parte 2 - Frutificando o caráter de Cristo

 Por Jânsen Leiros Jr.

 


“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas não há lei.”  

Gálatas 5:22 e 23

 

Desde sempre a humanidade busca compreender seu propósito e significado de existência. Entre as várias filosofias e sistemas de crenças, uma ideia persiste: fomos criados para a glória de Deus. Esta concepção transcende culturas e épocas, sendo central para muitas religiões, especialmente o cristianismo. Neste contexto, a formação do caráter de Cristo no crente emerge como uma jornada de descobertas e transformações, onde o indivíduo, dia a dia, se molda à imagem divina para cumprir seu propósito máximo; o ser à semelhança de seu Filho[1].

A formação do caráter de Cristo no crente é um tema central nas Escrituras, refletindo o propósito divino para a humanidade desde os tempos antigos. No Antigo Testamento, encontramos passagens como Gênesis 1:27, que declara que fomos criados à imagem de Deus, e Deuteronômio 10:12, que nos instrui a temer o Senhor, andar em todos os seus caminhos, amá-lo e servi-lo de todo o coração e de toda a alma, enfatizando assim a busca pela semelhança com o caráter divino.

No Novo Testamento, o apóstolo Paulo escreve em Romanos 8:29 sobre a predestinação dos crentes para serem conformes à imagem de Cristo, destacando o processo de transformação espiritual que ocorre na vida do cristão. Além disso, em Efésios 4:22-24, Paulo exorta os crentes a se despojarem do velho homem e a se revestirem do novo homem, criado segundo Deus em verdadeira justiça e santidade, evidenciando a necessidade de renovação interior para refletir o caráter de Cristo.

O cerne da formação do caráter de Cristo reside na imitação de seus atributos e ensinamentos. Cristo é frequentemente retratado como a encarnação do amor, da bondade, da misericórdia e da justiça divina. Assim, o crente é chamado a refletir essas virtudes em sua própria vida. Este processo não é instantâneo, mas gradual e contínuo, exigindo uma entrega total e uma colaboração ativa com o Espírito Santo. Afinal, nenhuma árvore dá frutos desde o seu nascimento. Mas se alimenta, fortalece, desenvolve e então frutifica.

Uma das características centrais do caráter de Cristo é o amor incondicional. Jesus ensinou-nos o amor, amando incondicionalmente não apenas aqueles que lhes eram afáveis, mas também os seus inimigos atrozes[2]. Este amor transcende barreiras e preconceitos, alcançando a todos sem distinção. Ao praticar o amor abnegado, o crente não apenas reflete a natureza divina, mas também promove a reconciliação e a unidade na comunidade, sendo-lhe promotor da paz.

Reforçando nosso argumento, Calvino enfatiza que o amor de Deus é fonte do amor humano e argumentou que os cristãos são capacitados pelo Espírito Santo a amar incondicionalmente, a exemplo do que fez o Senhor. E não somente ele, pois N. T. Wright, um dos principais estudiosos do Novo Testamento, explora profundamente o tema do amor de Deus, destacando o amor sacrificial de Cristo como o modelo supremo de amor incondicional. Ele argumenta que os cristãos devem imitar esse amor cotidianamente.

Além do amor, outro aspecto bastante relevante é a humildade; traço primordial do caráter de Cristo. Ele, sendo o próprio Filho Unigênito de Deus[3], escolheu se humilhar, servindo aos outros e submetendo-se à vontade do Pai[4]. Da mesma forma, o crente é chamado a renunciar ao orgulho e à arrogância, adotando uma postura de humildade e serviço. Ao fazê-lo, ele segue o exemplo de Cristo e testemunha a verdadeira grandeza que se encontra na simplicidade e na entrega.

A humildade é uma virtude que envolve reconhecer nossas limitações, defeitos e dependência de Deus, bem como valorizar os outros e estar disposto a servi-los sem esperar reconhecimento ou recompensa. Ela se manifesta em uma atitude de submissão voluntária e respeito em relação a Deus e aos outros, e muitas vezes está associada a características como modéstia, gentileza, simplicidade e desprendimento. E embora a humildade possa se manifestar de maneiras diferentes em diferentes contextos e situações de vida, ela é uma virtude que transcende a condição econômica, social ou indisposição de se fazer evidente. É uma postura do coração que independe de circunstâncias externas.

Outro aspecto crucial na formação do caráter de Cristo é a paciência e a perseverança. Jesus enfrentou inúmeras adversidades e contratempos durante seu ministério terreno, mas jamais desistiu de sua missão. Da mesma forma, o crente é chamado a manter a fé e a esperança mesmo diante das tribulações, confiando que Deus está trabalhando todas as coisas para o bem daqueles que o amam[5]. Esta perseverança fortalece o caráter e a fé do crente, capacitando-o a enfrentar os desafios da vida com confiança e determinação.

Além dessas virtudes, a formação do caráter de Cristo também implica na renovação da mente e na transformação dos padrões de pensamento e comportamento[6]. O apóstolo Paulo exorta os crentes a serem renovados em sua mente, deixando para trás os velhos hábitos e assumindo uma nova identidade em Cristo. Esta renovação interior é um processo contínuo, que ocorre através da meditação na Palavra de Deus, da oração e do companheirismo cristão.

Jesus Cristo é o exemplo máximo de amor, humildade, paciência e perseverança, como visto em passagens como João 13:34-35, onde Ele ensina sobre o mandamento do amor mútuo, e Mateus 20:28, onde Ele declara que veio para servir e não para ser servido. A imitação de Cristo é fundamental para a formação do caráter do crente, conforme destacado em 1 João 2:6, que nos instrui a andar como Ele andou.

A formação do caráter de Cristo no crente é uma jornada de crescimento espiritual e pessoal, onde o indivíduo se torna cada vez mais semelhante ao seu Salvador. Tendo o caráter de Cristo como sentido da vida, o crente reflete os atributos divinos em sua própria existência, testemunhando ao mundo o poder transformador do Evangelho. Que abracemos esta disposição com fé e determinação, confiando que aquele que começou a boa obra em nós há de completá-la até o dia de Cristo Jesus[7].

 



[1] Romanos 8:29

[2] Lucas 23:34

[3] João 3:16

[4] Filipenses 2:5-7; Mateus 26:39

[5] Romanos 8:28

[6] Romanos 12:1-2

[7] Filipenses 1:6

segunda-feira, 30 de março de 2015

Se cremos por convencidos, convertidos?





1 Ora, a fé é a certeza de que haveremos de receber o que esperamos, e a prova daquilo que não podemos ver. 2 Porquanto foi mediante a fé que os antigos receberam bom testemunho.
3 Pela fé compreendemos que o Universo foi criado por intermédio da Palavra de Deus e que aquilo que pode ser visto foi produzido a partir daquilo que não se vê. "
     Hebreus 11:1-3 - RA

Ainda falando da fé como independente de provas e contra-provas, seria interessante reafirmarmos o caráter incondicional da crença no contexto da redenção. Sim, porque num mundo que se caracteriza pelo pragmatismo das utilidades e de seus resultados, tudo o que um indivíduo empreende necessita, por vício de adequação social, estar ligado a alguma utilidade que conduza a um certo resultado prático. Nesse contexto maniqueísta, qualquer conjunto de crenças precisa estar sustentado por alguma racionalidade, algum sentido lógico, mesmo que não resistam tais crenças a argumentações preliminares sobre suas coerências e pertinências. O importante é ter fé em alguma coisa, diz a sabedoria popular.

Mas na prática, em que é que se deve crer, para que a defesa do conjunto das crenças que nos tocam, seja aos mesmo tempo capaz de satisfazer a consciência que se percebe necessitada do sagrado, bem como capaz de conferir um certo status de admiração e respeito pela racionalidade pretendida por essa mesma fé. Assim, quanto mais comprovações daquilo que se acredita puder ser reunida, sobre qualquer pretexto, é preciso relacionar em um conjunto de argumentações bem organizadas e arrumadas criteriosamente, para que a defesa daquilo que se crê, possa ter grande penetração e convencimento.

Convencimento! Essa então parece ser uma palavra mágica, capaz de inebriar algumas pessoas na perseguição do poder de impor a outros aquilo em que acredita. Quanto mais convincente, atraente. E quanto mais atraente, sedutor. A sedução é capaz de encantar as massas; e encantadas, as massas são manipuláveis. A manipulação confere poder. E poder é tudo que mais interessa, àqueles que argumentam sobre a pertinência de suas próprias crenças, com vistas a sobrepujar a fé de outros.

Ora, nem precisamos ir tão longe de onde estamos, para conferir se o que proponho tem algum fundo de realidade. Na internet, nas diversas comunidades teológicas, evangélicas, e em milhares de vídeos pelo Youtube, lideranças religiosas e estudiosos proeminentes se digladiam diuturnamente, buscando convencer seus interlocutores de que seus pressupostos são mais verdadeiros que os de seus oponentes, utilizando textos bíblicos e pensamentos de toda ordem. Às vezes o fazem baseados em um mesmo texto bíblico, contextualizados obviamente nas conveniências particulares de cada um.

Ora, se hipoteticamente eu me coloca-se entre esses diversos defensores de suas crenças particulares, e de suas argumentações depende-se para decidir em que é que eu iria crer, aquele que me fosse mais sedutor, dado o seu contundente esclarecimento, teria sobre mim exercido poder, convencendo-me de que suas idéias fazem mais sentido que a do outro. Ou seja, finda a batalha pela minha alma, o vencedor levaria por despojos de guerra uma mente convencida da razoabilidade de um determinado conjunto de crenças, que se tenha demonstrado mais aceitável ou provável, segundo minha capacidade de percepção. No entanto, meu coração não necessariamente estaria cativo junto com a minha mente. Aliás, as sensações costumam mesmo não seguir a razão. Convencimento, portanto, não é conversão.


6 Em verdade, sem fé é impossível agradar a Deus; portanto para qualquer pessoa que dele se aproxima é indispensável crer que Ele é real e que recompensa todos quantos se consagram a Ele."
     Hebreus 11:6 - KJA

Quando Deus se revela ao longo da narrativa bíblica, Ele não o faz para tornar-se provável em sua existência, ou mesmo para definir um modelo de conduta, ou uma filosofia de vida que deva ser seguida por um grupo de pessoas a quem denomina Seu povo. Aliás, a existência de Deus é um conceito não problematizado pela Bíblia. Não há nela trecho algum que se ocupe em defender sua existência. Ao contrário, partindo do pressuposto de que quem de Deus se aproxima crê que Ele existe, a Bíblia ocupa-se em revelar Deus e toda sua essência pessoal,

Perdoem-me a analogia improvisada, mas a entendo plenamente adequada ao que queremos demonstrar. A coisa funciona mais ou menos como em um chat pela internet. Duas pessoas, sem trocar fotos, iniciam um papo interessante e agradável. Um e outro vão se revelando em gostos e predileções, escolhas e formas de ver o mundo. Ao longo de muitas conversas essas pessoas se encantam mutuamente, mesmo sem terem se visto. Nem rosto ou silhueta, uma da outra. Passado algum tempo, percebem que já não sabem mais viver uma sem a outra. A vida de ambas se resume em horas intermináveis diante do computador, e o fato de ainda não se conhecerem fisicamente já não faz a menor diferença. Suas verdades intrínsecas, suas personalidades desnudas, revelaram mutuamente que foram feitas uma para a outra. Suas essências se encontraram antes de suas formas temporais e corruptíveis. Desse encontro às cegas nasceu o amor.

Mal comparando, repito, esse é o propósito da Bíblia. Revelar o Criador de forma crescente e harmoniosa, cadenciada, de modo que o desvelo de seu ser vá descortinando um alguém impressionantemente interessado por mim. Amoroso e zeloso, que ainda que não faça qualquer distinção entre as pessoas, move tudo e qualquer coisa para me buscar e me manter perto d'Ele. E diante desse insondável ser, flagrando-me completamente envolvido por seu cuidado e encantado por seu amor, já não me importa nem um pouco qualquer coisa que se pretenda provar a seu respeito. Porque informação alguma, argumento algum, por mais racional que seja, por mais contundente que se apresente, mesmo que extremamente sedutor, me afastará, ou me fará desistir desse amor, que surgiu não de mim para Ele, mas que nasceu em mim em resposta ao amor revelado n'Ele.


38 Portanto, estou seguro de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, 39 nem altura nem profundidade, nem qualquer outra criatura poderá nos afastar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor."
     Romanos 8:38-39 - KJA

Portanto a Bíblia revela o encontro de Deus com a humanidade. A narrativa bíblica apresenta um Deus Criador, cuidadoso e dedicado. Detalhista nas condições de sustentabilidade e autonomia, gerando um ser humano capaz e cheio de potencialidades. A relação com sua criação é próxima e interativa, porém compulsória, à medida que esse homem desconhece qualquer outra possibilidade. Assim, tal relação ainda que intensa é desprovida de plena liberdade. O amor não é pleno em ambiente em que não haja liberdade. O amor pleno só pode existir legitimamente, quando há liberdade para que os amantes decidam entre amar e não amar.

A Bíblia avançou na história, e revelou uma humanidade rebelada, desejosa de uma independência capaz de lhe atender os próprios interesses. O homem abandonou o Criador, em atitude unilateral, supondo que esse mesmo criador lhe escondia algo; uma capacidade encoberta de ser tão deu,s quanto Deus era o Criador. Já não bastava ser essencialmente imagem do Criador. Era desejável e atraente o seu poder e conhecimento irresistível. Se o homem pudesse ser tão deus quanto Ele, o Ser criador já não seria tão primordial e necessário. A humanidade então exerceu o pleno direito de liberdade e rejeitou Deus e sua relação com Ele.

Longe de Deus e exilado de seu cuidado, uma vez que dele mesmo partiu a iniciativa de ser livre, a humanidade inteira caminhou errante, protagonizando situações alternadas de aproximação e afastamento, que construíram ao longo dos séculos um conhecimento do Criador, a quem ela mesma virou as costas. Acontecimentos narrados de modo a revelar um Deus constantemente desejoso de resgatar e reaproximar o homem.

Assim, a narrativa bíblica subverte a lógica das relações, em que o ofensor deve buscar o ofendido para resgate da relação rompida. E em vez disso, o próprio Deus, o ofendido, o abandonado, aquele a quem viramos as costas, faz o caminho no sentido da humanidade. E na impossibilidade do homem se fazer deus, Ele se faz homem, redimindo toda sua criação e resgatando a relação com todos nós, um a um, por intermédio de Jesus, o seu Cristo. O redentor.

Findo o registro histórico na Bíblia, inaugura-se um tempo de salvação em que a relação Deus-humanidade se faz fruto da decisão divina de nos amar. Passamos a desejar outra vez ser iguais a Ele, mas agora com Ele e para Ele, e não mais como Ele e no lugar d'Ele.

Resumindo-se assim, pretensiosamente, a revelação divina contida na Bíblia, pode alguém apontar em que parte caberiam incondicionalmente? A Bíblia não fala de regras, mas da incapacidade dessas mesmas regras aproximarem o homem de Deus. Não fala de filosofia de vida ou inteligência de comportamento; isso privilegiaria uns em detrimento de outros conforme circunstâncias inimputáveis. A Bíblia, em lugar disso tudo fala de amor, revela um Deus amoroso, que espera que por esse seu amor sejamos atraídos. E não por provas. Afinal, bem-aventurados aqueles que não viram, mas creram.

sábado, 28 de março de 2015

"Só acredito vendo". E quem não viu?





24 Contudo, Tomé, um dos doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando Jesus apareceu. 25 Os outros discípulos, no entanto, anunciaram-lhe: “Nós vimos o Senhor!” Mas ele respondeu-lhes: “Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não acreditarei.”
26 Após oito dias, os discípulos estavam reunidos ali outra vez, e Tomé estava com eles. As portas estavam trancadas; quando Jesus apareceu, pôs-se no meio deles e disse: “A paz seja convosco!” 27 Então dirigiu-se a Tomé, dizendo: “Coloca o teu dedo aqui; vê as minhas mãos. Estende tua mão e coloca-a no meu lado. Agora não sejas um incrédulo, mas crente.” 28 E Tomé confessou a Jesus: “Meu Senhor e meu Deus!” 29 Ao que Jesus lhe afirmou: “Tomé, porque me viste, acreditaste? Bem-Aventurados os que não viram e creram!"
     João 20:24-29 - KJA

Quando decidi criar esse blog, pretendia ocupar-me com abordagens diferentes, mas nem sempre e não necessariamente contrárias. Na prática, significaria que os conceitos teológicos comumente aceitos seriam em sua maioria os mesmos, mas as abordagens e as argumentações buscariam observar e encaminhar os assuntos por trilhos menos frios e duros, do que aqueles por quais costumam trilhar o pensamento apologético de comprovações e de certezas. E nesse tema, em especial, não poderia ser diferente.

Assim, em vez de gastarmos tempos infinitos na discussão sobre a inerrância da Bíblia e na defesa de sua inspiração, pretendendo apresentar provas que garantam uma crença insofismável naquilo que ela nos relata, prefiro deixar que o exercício epistemológico se encarregue de defender-se a si mesmo, garantindo-se ou não por afirmações que se pretendem absolutas e inequívocas. Na verdade há mestres maravilhosos que fizeram isso com maestria. Eu, por minha vez, prefiro concentrar-me no objetivo final da narrativa bíblica, cujo exercício de exposição dispensa o enfadonho labor da comprovação, trocando a exaustão do fato, pela sensação do afago, ainda que sem desprezar a verdade; mas essa desejada e percebida, jamais imposta ou obstinada. A Bíblia pretende tão somente revelar Deus, anunciando seu amor e apresentando sua redenção.

Partindo da premissa de que Deus não é um ídolo, e muito menos um objeto inanimado, a cuja observação e estudo se presta imóvel, aguardando impassível pelo resultado das análises humanas, não podemos e nem devemos implementar avaliação qualquer que seja, partindo do pressuposto de que nossas conclusões de hoje serão as mesmas de amanhã ou depois. Estaria assim hereticamente defendendo alguma mutabilidade em Deus? Não, de forma alguma, mas é impossível imaginar que tanto as circunstâncias dos observadores, quanto o momento histórico em que tais observações acontecem, não influenciam direta ou indiretamente o resultado de qualquer análise responsável e honesta. Em outras palavras, o encontro com Deus se altera em sua ambiência e relevância, bem como em seus conteúdos e propósitos, a medida que avançam no tempo e na história da humanidade, e por suas próprias percepções do mundo em que habita. Sim, porque ainda que Deus seja o mesmo, o homem que com Ele se relaciona e o observa obviamente não o é, transformado que foi pela soma dos encontros anteriormente protagonizados por seus antepassados. O encontro com Deus é necessariamente transformador.

Desse modo, entendo que se torna mais pragmática e enriquecedora, a experiência da análise das afirmações bíblicas, não a partir dos atributos imutáveis de Deus, ou das comprovações sôfregas de sua pertinência na atualidade, mas a partir da narrativa simples e por assim dizer romanceada de seus fatos e ilustrações em seus respectivos contextos históricos, nas quais Deus se revela em todos os aspectos de seu ser, convivendo com as oscilações e contradições da humanidade em transformação. Uma história de relacionamento dinâmico, em que as circunstâncias se alternam no desvelo de Suas pretensões e vontade. Mais do que um manual contendo regras de conduta e bem viver, a Bíblia é uma fonte inesgotável de histórias e possibilidades da relação Deus-humanidade, onde o seu amor se apresenta desde a criação, atraindo essa mesma criatura de volta para perto de Si mesmo, e redimindo-a de vez, ao fazer-se tão humano, quanto mais humano um homem pode ser.

Por essa razão, a Bíblia assim considerada, como o grande romance da relação de Deus com a humanidade, ganha aspectos de causa e efeito simultaneamente e em um só volume, sendo responsável tanto por levar o homem ao conhecimento do que o encontro com Deus é capaz de realizar em sua vida, quanto por servir de sustentação e orientação para a caminhada de fortalecimento nessa mesma relação. Ou seja, a Bíblia tanto exerce o fascínio da atração, quanto acolhe o desejo pelo conhecimento do Deus a quem anuncia e revela. Sendo assim, não foi a verdade garantida ou comprovada que atraiu o crente à Bíblia, mas o amor revelado e sentido na seqüência de suas páginas. Realidade ou não, fato ou mito, o amor de Deus revelado e concebido arrebata o homem que se enche de amor de volta, preferindo-O a tudo o mais que viveu, vive ou poderia viver adiante.

Imagino que a essa altura, os defensores da teologia clássica e das acadêmicas defesas apologéticas já tenham rasgado suas vestes, ou popularmente falando, já tenham colocado meu nome na boca do sapo. Azar, porque ainda lhes darei razões supinamente mais contundentes para me execrarem. Isso porque, segundo penso, qualquer comprovação que se pretenda tornar irrefutável aquilo que afirma a Bíblia, retira dela o propósito de registro da história da fé humana e da relação de Deus com o homem, passando a lhe conferir um perfil de livro técnico-científico, onde se registram fatos comprovados e por assim dizer irrefutáveis. Em outras palavras, a Palavra deixa de ser uma revelação para ser uma constatação. E por óbvia constatação, não mais uma comunicação de fé, mas sim de inevitável realidade, incondicional e irresistível. A verdade comprovada se impõe à opção de nela se crer. Suprime a liberdade de se colocar ou não fé.

Creio que em outro texto eu já tenha utilizado essa analogia, mas a repetirei aqui por ser bastante adequada, ainda que resumidamente. Na antiguidade cria-se que a Terra era quadrada ou um plano que se estendia até ao horizonte dos olhos. Galileu foi condenado por afirmar não só que ela era redonda, mas que também era ela que girava em volta do sol, e não o contrário. Por tempos a discussão se arrastou, e ainda algumas pessoas resistiam com alguma dúvida disso, até que a primeira foto da Terra foi tirada a partir do espaço. Pronto, não cabia mais qualquer dúvida. Comprovada que foi a tese de que a Terra é redonda e que é ela que orbita em volta do sol, quem tinha convicção disso passou a ter certeza. E por sua vez, quem duvidava deixou de ter o privilégio da dúvida, sob pena de ser considerado louco, por alienado que se fizesse de uma realidade incontestável. Assim não há mais crença ou fé em um pressuposto. Uma prova inconteste que aceita-se irresistível, acata-se, sem qualquer valor de crença.


1 Ora, a fé é a certeza de que haveremos de receber o que esperamos, e a prova daquilo que não podemos ver. 2 Porquanto foi mediante a fé que os antigos receberam bom testemunho.
3 Pela fé compreendemos que o Universo foi criado por intermédio da Palavra de Deus e que aquilo que pode ser visto foi produzido a partir daquilo que não se vê. "
     Hebreus 11:1-3

Portanto, para que haja fé não pode mesmo haver comprovação. Na fé, a verdade que se percebe não se constata; é antes uma convicção incondicional que independe da realidade. Logo, a verdade da fé é aquilo que se comprova apenas pela sensação de se estar no caminho certo. Suspeitas tão intensamente palpáveis, quanto concretas são suas esperanças. Um fundamento do que se espera surgir do nada.

Ora, então se alguém depende de provas ou indícios táteis para crer em Deus e naquilo que a Bíblia narra, ainda que entenda a algo semelhante ter alcançado, nada sabe, nada entende, e na verdade em nada crê. Como diz Hebreus, a fé é a certeza... a fé é a prova.


Finalizando, ou começando; quem sabe onde isso vai parar? Luto para que o diálogo teológico se torne mais humano, como coisa de humanas é. De exatas, já bastam a matemática e a física, que jamais alteram seus produtos, ainda que se troquem a ordem dos tratores, na montagem do viaduto.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Humanidade, propósito de Deus

   

Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.”
Gênesis 1:26-28

Eis o ponto alto da narrativa da criação do universo... A criação do homem. A seqüência dos dias parece e efetivamente converge para esse momento. Até então o cenário vinha sendo preparado e Deus via que “era bom”, ou mais apropriadamente viu Deus que estava adequado para seu intento. Após criar a humanidade, porém, Deus diz que “era muito bom”, como se numa tradução mais livre dissesse “agora sim... está perfeito!” Perfeito?

Sim, perfeito. E não apenas porque estava adequado ao propósito, mas também porque correspondeu perfeitamente ao planejado. E isso precisa ser devidamente destacado: Planejado. E esse planejamento implícito na narrativa, convida o leitor a um olhar diferente para a criação; planejamento pressupõe objetivo, finalidade... Planejamento pressupõe propósito.

Enquanto todas as demais cosmogonias contemporâneas (mitos sobre a criação do mundo) lidavam com o surgimento do planeta como um acaso, uma conseqüência a partir de lutas e guerras entre deuses, onde os elementos nada mais eram do que derivações existenciais dos derrotados, Gênesis trata o planeta como criação planejada e propositada de Deus. E mais, o Homem deixa a condição de apenas mais um espécime animal, evoluída ou derivada de uma matéria primordial, para se tornar “imagem e semelhança de Deus”, conceito completamente novo e estranho até mesmo entre os israelitas saídos do Egito.

“Dominai sobre...”, mais que o estabelecimento de uma atribuição da humanidade, define o Homem como subordinador e não como subordinado a qualquer espécie animal, fosse ela do mar, dos céus ou da terra. Isso contrariava também os cultos aos deuses pagãos, normalmente assemelhados a animais domésticos ou selvagens, que habitavam comumente as regiões de adensamento populacional da época. A criação da humanidade narrada em Gênesis, portanto, inaugura uma visão totalmente nova do ser humano e suas possibilidades sobre a terra.

Portanto, o planeta a partir daqui deixa de ser o foco de Gênesis. No processo de concentração do geral para o particular, a narrativa dá seu primeiro salto. Esse Homem será o objeto das manifestações divinas. Deus movimentará o universo em favor desse Homem. Buscará sua proximidade, sua compreensão e seu amor, sem jamais impor a esse mesmo Homem essa condição. Ele será livre até para negá-lo, mas seu Criador jamais deixará de chamar por ele.

A redenção do ser humano é, portanto, um objetivo traçado e trabalhado por Deus desde sempre. A proclamação do seu amor realizador que busca trazer o Homem do caos à ordem, é uma tarefa nossa, que já vivemos tão grande salvação. Pois o amor de Deus nos constrange.

Que o Deus criador dos céus e da terra, inspire-nos desejo ardente e constante de anunciar a salvação que há em Cristo Jesus, apontando esse Homem como objeto de tão grande amor.

Bom treino!

domingo, 28 de setembro de 2014

X Quero ser mais humano - Por Ricardo Gondim




É curioso como, com o passar dos anos e o aproximar da velhice, nossos valores mudam. Posições que ambicionávamos, conquistas que valorizávamos e pessoas que nos impressionavam, perdem seus encantos. Vamos fechando portas atrás de nós, para euforias juvenis e idealismos inconseqüentes. Já não invejamos o triunfo dos insolentes ou o sucesso dos ufanistas. Hoje, ainda sem ser velho, já consigo sentir indiferença para os sonhos mirabolantes dos messiânicos. Confesso que perdi, inclusive, a vontade de ter a última palavra sobre qualquer assunto e não me empolgo com debates que só dão uma falsa sensação de prestígio.

Esse processo começou, quando enfrentei uma crise, lá por volta dos meus quarenta anos. A própria consciência de que vivia na meia idade, me fez desistir de querer ser herói, conquistador, eleito especial ou semi-deus. E de lá para cá, caminho cada vez mais consciente, que muito dos meus esforços lendo, estudando, trabalhando, madrugando e virando noites, para “não perder tempo”, eram vaidade e correr atrás do vento. Olho para trás e percebo que não foi de minhas poucas conquistas ou dos reconhecimentos humanos, que obtive meus melhores contentamentos. Vieram do amor de minha família e de amigos verdadeiros; gente que não temia partilhar o mesmo jugo que eu.

Assim, fiz alguns ajustes. Redirecionei minha leitura bíblica. Mais do que saber os detalhes exegéticos ou técnicos, ansiei que a Palavra me levasse a uma relação mais íntima com Deus. Reli a Bíblia de capa a capa, procurando o coração paterno de Deus. Dialoguei com pessoas que tratam da Espiritualidade Clássica. Recompus minha vida devocional. Aprendi sobre oração contemplativa e redescobri a meditação bíblica. Devorei alguns clássicos como “A Imitação de Cristo” de Tomás de Kempis, “A Volta do Filho Pródigo” de Henry Nowen, “A Montanha dos Sete Patamares” de Thomas Merton e o “Schabat” de Abraham Joshua Heschel. Eles e outros se tornaram meus mentores nessa nova busca interior.

Talvez, a maior descoberta que faço, nesse tempo que antecede o outono de minha vida, é que minha maior vocação é tornar-me mais humano. Desejo aprender a ser generoso e sereno. Almejo rir, risos contagiantes; quero amar coisas simples e contemplar mais a natureza; saber me deliciar com arte; brincar com crianças, ler poemas e ouvir a melhor música. Preciso ser mais empático com o pobre, acolher o perdido e dar minha mão para o abandonado.

Nessa jornada espiritual, perdi o medo de me desnudar e mostrar vulnerabilidade. Outrora, eu temia a censura daqueles que poderiam se escandalizar com minha fragilidade. Tentei, muitas vezes, impressionar as pessoas com discursos valentes, quando, inseguro, pedia que Deus segurasse minha mão. Receava que algum psicólogo detectasse disfuncionalidades em mim e na minha família. Acreditava que, se alguém diagnosticasse meu envolvimento no evangelho como uma fuga, perderia toda credibilidade. Evitava contatos íntimos, para que as pessoas não notassem que eu não era tão “resolvido”, como demonstrava.

Na mitologia grega as sereias eram criaturas de extraordinária beleza e de uma sensualidade irresistível. Quando cantavam, atraíam os navegantes que não conseguiam pelejar contra seu poder de sedução. Obcecados por aquela melodia sobrenatural, os pilotos arremessavam seus navios contra as rochas da ilha, naufragavam, e as sereias devoravam os tripulantes. Os gregos relatam que apenas dois conseguiram vencer o encanto de inimigas tão terríveis.

Orfeu, o deus mitológico da música e da poesia, encontrou um recurso. Quando sua embarcação aproximou-se de onde estavam as sereias, ele salvou seus parceiros, tocando uma música ainda mais doce e envolvente do que aquela que vinha da ilha. A outra solução foi encontrada por Ulisses. O herói da Odisséia não possuía talentos artísticos. Sem dons, sabia que não vence-ria as sereias. Reconhecido de sua fraqueza e falibilidade, concebeu outro plano. No momento em que sua embarcação começasse a se aproximar da ilha sinistra, mandaria que todos os homens tapassem os ouvidos com cera e que o amarrassem ao mastro do navio.
Depois que encarou sua fraqueza e incapacidade de enfrentar as armadilhas das sereias, rumou para a ilha conforme o plano. Do mesmo modo, deu ordem aos tripulantes: mesmo que implorasse para que o soltassem, as cordas deveriam ser apertadas ainda mais. Quando chegou a hora, Ulisses foi seduzido pelas sereias como previra, mas seus marinheiros não o libertaram. Quase louco, pedindo para ser solto, passou incólume pelo perigo. O relato mitológico termina afirmando que as sereias, decepcionadas por haverem sido derrotadas por um simples mortal, afogaram-se no mar. O que salvou Ulisses não foi a percepção de sua superioridade, mas a consciência de sua fragilidade. Ele não tentou enganar a si mesmo. Eu também não quero me iludir com os meus dotes órficos. Dependerei que meus amigos me amarrem aos mastros para não ceder aos cantos sirênicos.


Assim, descanso. Sinto-me livre para afirmar que ainda estou em construção. Sou um projeto inacabado e não escamotearei minhas ambigüidades. Agora, quando me sentir cansado, terei liberdade de desabafar como Jesus: “Ó geração incrédula e perversa, até quando estarei com vocês? Até quando terei que suportá-los?”. (Mateus 17.17) Quando precisar lamentar, lamentarei, igual a ele, quando, triste e angustiado, disse: “A minha alma está cheia de tristeza até a morte”. (Mateus 26.37). Quando tiver vontade de rir, rirei e dançarei de alegria.

Hoje, já não me importo de parecer incoerente ou politicamente incorreto. Dizem que os pensamentos dos anciões tendem ao enrijecimento e que os velhos resistem mudar de opinião. Busco não me engessar, apegado às minhas velhas idéias e indiferente às novas. Quero seguir o exemplo de Jesus que, em nome da vida, não temeu contradizer as rígidas normas religiosas – Mateus 12.2-7; não respeitou os preconceitos sociais, quando conversou com prostitutas e acolheu gentios – Marcos 7.24-30; não teve receios de voltar atrás em sua palavra, para atender uma mulher siro-fenícia – Marcos 7.24-30. Permanecerei alerta para não me tornar um dogmático e faccioso; cego por minha obstinação.

Recuso encarnar o personagem de Álvaro de Campo (heterônimo de Fernando Pessoa) no poema “A Tabacaria”. A experiência do poeta foi acordar do próprio passado, como um pesadelo e perceber que perdeu contato com a sua própria alma. Viveu uma mentira da qual não pôde escapar. Perdido de si mesmo, não se encontrou mais.

“Vivi, estudei, amei, e até cri.
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu...
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi no espelho, já tinha envelhecido“.

Anseio por uma humanidade não fingida, que não tenta transformar a mensagem do evangelho em um espelho mágico, que fala o que desejo ouvir. Lerei a Bíblia também contra mim. Permitirei que, como espada, ela penetre no mais profundo de meu ser, discernindo, inclusive, as intenções nebulosas de meu coração.

Atenderei a admoestação do profeta Miquéias (6.8): “Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus”.

Acredito que vem dele, minha teimosia de acreditar que não precisamos esperar morrer para começar a viver. E como passamos rapidamente, sugiro que comecemos já.

Soli Deo Gloria.
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