Por
Jânsen
Leiros Jr.
Quando chamamos de culto aquilo que Deus
chama de vida
John Stott
" A verdadeira adoração
não se limita ao que acontece no templo, mas se expressa na vida inteira vivida
sob o senhorio de Cristo. Separar culto de obediência é esvaziar ambos."
A. W. Tozer
" Não podemos afirmar
que adoramos a Deus se nossa vida cotidiana permanece intocada por Sua
santidade. Toda adoração que não transforma o caráter é apenas ruído religioso."
Lesslie Newbigin
" A Igreja não é um
ajuntamento religioso que ocasionalmente testemunha ao mundo, mas uma
comunidade moldada por uma história diferente, vivendo publicamente sob o
reinado de Deus."
Eugene Peterson
" A espiritualidade
cristã não é um momento de intensidade religiosa, mas uma longa obediência na
mesma direção, onde o ordinário da vida se torna o lugar do encontro com Deus."
Há
algo profundamente equivocado na forma como o cristianismo contemporâneo fala
sobre culto. Chamamos de culto aquilo que acontece em um dia específico da
semana, em um horário determinado, dentro de um espaço previamente organizado —
e, ao fazê-lo, deslocamos o centro da fé do cotidiano para o evento, da vida
para o rito, da entrega para a agenda.
O
resultado é previsível: vidas fragmentadas que se sentem espirituais por
algumas horas, mas continuam intactas em sua lógica, valores e práticas ao
longo da semana. A consciência se tranquiliza com a participação; a alma,
porém, permanece inalterada. Confundimos presença com devoção, frequência com
fé, e liturgia com obediência.
A
Escritura, no entanto, nunca tratou o culto como um compartimento da vida. Ao
contrário, ela insiste em desmontar qualquer tentativa de confinar Deus a um
lugar, a uma forma ou a um momento específico. Quando o profeta Amós registra a
repulsa divina por solenidades religiosas desconectadas da justiça, ele não
está atacando a liturgia em si, mas denunciando uma fé que aprendeu a celebrar
sem se converter (Am 5.21–24). Jesus, por sua vez, foi ainda mais incisivo ao
afirmar que nem o monte, nem o templo, nem Jerusalém seriam os referenciais do
verdadeiro culto, mas a vida rendida “em espírito e em verdade” (Jo 4.21–24).
Talvez
o problema não esteja na maneira como realizamos nossos cultos, mas na
facilidade com que chamamos de culto aquilo que jamais ousaríamos chamar de
entrega total. Talvez estejamos oferecendo a Deus reuniões bem organizadas para
evitar oferecer a Ele a própria vida.
Se
essa suspeita for verdadeira, então não precisamos de cultos melhores. Precisamos
de arrependimento — não daquele que inaugura a fé, mas daquele que a sustenta —
porque a Escritura não conhece conversão que dispense transformação.
O Culto – A vida que não nos
pertence mais
O
apóstolo Paulo não escreveu Romanos 12.1 como uma metáfora devocional. Ele não
estava sugerindo uma espiritualidade poética, nem oferecendo uma figura de
linguagem para embelezar a fé. O que ele faz ali é redefinir radicalmente o que
significa cultuar a Deus:
“Rogo-vos,
pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por
sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.”
Paulo
não aponta para um lugar, mas para um corpo.
Não
indica um rito, mas uma entrega.
Não
fala de momentos, mas de pertencimento.
Culto,
à luz da Escritura, não é aquilo que fazemos para Deus — é aquilo que nos
tornamos diante d’Ele. É a vida inteira colocada no altar, não em estado de
morte, mas de disponibilidade contínua. Sacrifício vivo não é o que se oferece
uma vez; é o que permanece, dia após dia, sob a soberania daquele a quem agora
pertence.
Aqui
reside a primeira grande ruptura com o imaginário religioso confortável: se a
minha vida é culto, então ela já não me pertence mais. Meus afetos, minhas
escolhas, meus impulsos, meus projetos, minha ética, minhas palavras e meus
silêncios passam a ser avaliados não pela conveniência pessoal, mas pela
fidelidade ao Deus que me chamou. Não há mais áreas neutras, nem compartimentos
autônomos. Tudo é vivido coram Deo.
Essa
compreensão desmonta a falsa segurança de quem imagina que pode oferecer a Deus
uma celebração semanal e, ao mesmo tempo, administrar a própria vida segundo
critérios estranhos ao Evangelho. O culto bíblico não convive com duplicidade.
Ele exige coerência. Por isso Paulo continua dizendo que esse culto só é
possível mediante transformação — não adaptação, não maquiagem espiritual, mas
renovação da mente (Rm 12.2). Onde não há transformação progressiva, o que há é
apenas religiosidade funcional.
Cultuar
a Deus, portanto, é orar sem cessar não como técnica, mas como estado de
consciência. É meditar na Palavra não como obrigação devocional, mas como
reconfiguração do olhar sobre o mundo. É perceber, no meio do cotidiano, os
desvios sutis do coração e, à luz do Espírito, reconsiderar atitudes, confessar
pecados, pedir perdão e repaginar decisões. É viver em permanente estado de
escuta e resposta[i].
Quando
Paulo afirma que fomos comprados por preço e que já não somos de nós mesmos
(1Co 6.19–20), ele não está fazendo uma afirmação abstrata sobre redenção, mas
estabelecendo uma ética radical de pertencimento. A salvação não nos concede
autonomia espiritual; ela nos retira dela. O culto verdadeiro nasce exatamente
aí: quando deixamos de nos pertencer.
É
por isso que Jesus desloca o culto do espaço sagrado para a verdade vivida. “Em
espírito e em verdade” não significa subjetividade emocional, mas
correspondência entre aquilo que se confessa e aquilo que se vive. Um culto que
não alcança o caráter, as relações, o trato com o próximo e o uso do poder é
apenas barulho religioso — ainda que acompanhado de belas canções e discursos
eloquentes.
Se
a minha vida não é culto, nenhuma celebração conseguirá compensar essa
ausência. E se ela é, então o culto não começa quando a congregação se reúne;
ele apenas se torna visível.
Pare
aqui. Respire. Leia de novo.
Esse
texto não pede concordância imediata — pede exame de consciência.
No
próximo movimento, entraremos em A Congregação – o encontro dos que já
vivem em culto e, depois, em A Celebração – o transbordamento
comunitário da salvação.

