domingo, 21 de janeiro de 2024

O Livro de Jó - Desafios Preliminares I

Por Jânsen Leiros Jr.

 


 
"Baseado neste enredo simples, um escritor desconhecido de gênio superlativo erigiu uma obra monumental. As perguntas mais persistentes acerca do relacionamento entre os homens e Deus receberam tratamento teológico poderoso em poesia cuja majestade e emoção não são superadas em qualquer literatura, antiga ou moderna. 

JÓ - Introdução e Comentário

De Francis I. Andersen

Pág. 14; Introdução – A história de Jó

 Uma das tarefas mais preliminares e ajuizadas a que um estudioso deve se lançar ao empreender um comentário, qualquer que seja o livro que pretende comentar, é identificar e qualificar seu autor, e conhecer quando, como e porque tal livro foi escrito. Só depois, então, de satisfeito com os dados colhidos e organizados sobre estas questões, poderá iniciar, com alguma segurança, um comentário responsável.  Ato contínuo, o estudo e a compreensão do texto do livro, será minimamente orientado pelas informações acumulados nesta fase. Assim rezam as boas práticas. O livro de Jó, porém, sofre do que costumo chamar impertinência normativa.

Escrito, por alguém que não se sabe quem, em um lugar que não se sabe onde, e por uma razão que não se sabe ao certo porque, o livro de Jó é um case de insucessos especulativos dos mais diversos e renomados estudiosos bíblicos e teólogos mundo afora, que se lançaram na elucubração metodológica de pontuar assertivamente, cada um dos fatores preliminares de qualquer estudo: quem, quando, onde e por que.

As especulações sobre o livro de Jó se iniciam mesmo antes das pesquisas preliminares, quando o próprio personagem central da história, tem sua existência questionada pelo próprio processo crítico-literário de seu conteúdo. Apresentado como uma dramatização bem organizada e com discursos bem estruturados, coerentes e lógicos, a narrativa apresenta uma complexidade muito bem elaborada, difícil de encontrar paralelismo na realidade cotidiana da vida humana, onde o improviso das falas, argumentos e contra-argumentos, não permitiriam um encadeamento tão perfeito de ideais e conceitos a se defender por seus oradores.

             Por estas questões, o estudo do livro de Jó, entendo, começa bem parecido com a história de seu próprio personagem; mesmo buscando fazer o que é certo se vê, por sua nova realidade, mergulhado em incertezas profundas, que o obriga a desconstruir muitas de suas percepções anteriores, para reiniciar um melhor entendimento e conhecimento de Deus; legitimado, transformado e renovado. Nossas convicções, creio, passarão pelo mesmo e estreito caminho.

Assim, para facilitar-nos a compreensão e nos provocarmos às mais corajosas induções e deduções ao longo do estudo, iremos ordenadamente cumprir o passo a passo do manual do bom comentário, indo desde um resumo necessário do conteúdo do livro, até a avaliação da integridade de seu texto, passando pela discussão de sua autoria, onde e quando foi escrito, e por que participa do compêndio bíblico, sendo assim aceito como Palavra de Deus.


              I.        A história do Livro de Jó

A história de livro de Jó muito provavelmente figura entre as histórias bíblicas mais conhecidas em todo o mundo. Usada até mesmo como ditado popular, a história de Jó não possui questões teológicas intrincadas, conceitos filosóficos complexos, ou mesmo apelos éticos de difícil elaboração. Muito pelo contrário, sua história é simples, sua comunicação direta, e seu recado pra lá de evidente. Por que, então, e apesar de toda a simplicidade, esse livro traz tantas inquietações e provoca tanta curiosidade nos mais diversos grupos religiosos com acesso à sua história?

Uma resposta possível, talvez, sejam os temas que o livro abordará, mesmo sem que possamos ter a certeza de que tal tenha sido a pretensão original de seu autor. Assuntos como o mal, o sofrimento, a justiça e a soberania de Deus, ocuparão páginas e páginas, visitando os discursos feitos por Jó, seus amigos, e por fim pelo próprio Deus, numa sequência de tirar o fôlego, quase não deixando espaço para o leitor descansar. 

Começando por uma rápida qualificação do personagem principal, o autor logo corta para uma conversa de bastidor entre Deus e Satanás, que servirá de estopim para todos os infortúnios que advirão sobre Jó e sua família. Numa sequência que lembra o início do filme Desventuras em Série, tudo de ruim acontecerá para Jó, que ao final dos trágicos acontecimentos preliminares, vai dizer: louvado seja Deus. 

Não bastasse a tragédia que se abate sobre sua vida, a esposa do nosso personagem, assistindo seu sofrimento e perplexa diante de sua aceitação dos fatos, propõe, com uma das mais controversas falas bíblicas na atualidade: amaldiçoe a Deus e morra. Por que? Ela teria razão no que está dizendo? Estaria consciente do devaneio de sua fala? Jó entende que não. Mas seus amigos entendem que sim. Ou que ao menos toda aquela coleção de infortúnios só pode querer dizer uma coisa: Jó teria aprontado alguma coisa muito feia. Inominável. Um segredo que o consumia, posto que, guardado, lhe vinha provocar desonra pública e muitas chagas. A demonstração inquestionável da reprovação de Deus. Uma punição direta e dolorida. Ele precisaria então confessar seu pecado para que tudo viesse a ser restaurado em sua vida. E enquanto isso, seus amigos estariam ali para lhe consolar e amparar. Seria mesmo só essa a intenção daqueles homens?

Jó resiste bravamente. Incitado continuamente a confessar o que não fizera, seu discurso se volta para aquele que entende estar agindo com injustiça para com ele; Deus. Que diante das argumentações e defesa que Jó faz de si mesmo, não se ocupa em responder tais argumentos. Em vez disso, revela ao próprio Jó a grandeza e magnitude de seus propósitos desde a concepção do universo, até o momento presente daquela conversa, afirmando-se eterno, onisciente e soberano. É verdade, o texto não registra. Mas minha impressão é a de que Jó empalidece, posto que seus argumentos cessam.

Transformado em todo seu entendimento e conhecimento de Deus, Jó demonstra novo olhar sobre a própria existência, e tem, por Deus, restaurada toda a sua vida, em condições superlativas àquelas que tinha anteriormente. E tudo acaba bem. 

Ora, não parece tudo simples e fácil como história? Penso que sim. Bem simples. E fiz questão de escrever toda esta sequência de memória, sem sequer recorrer a esboços ou resumos acadêmicos sobre o Livro de Jó, tamanha a simplicidade de sua história narrada. Fácil de memorizar. 

                Acontece que esta banda é na verdade uma orquestra. Tudo isso que, como melodia fácil de ser lembrada se reconhece de longe quando executada, de perto se revela uma das mais extraordinárias composições do universo, repleta de compassos, fusas e semifusas, fermatas e acordes dissonantes, tocados por diferentes e inesperados instrumentos, que harmoniosamente produzem uma das mais belas obras primas da literatura bíblica, e por que não dizer, universal?

domingo, 29 de outubro de 2023

O Livro de Jó - Desafio Transformador

 Por Jânsen Leiros Jr.



 "É uma atitude presunçosa comentar sobre o livro de Jó. Ele está repleto da realidade temível do Deus Vivo. Como Jó, somente se pode por a mão na boca (40:4). Deus, porém, Se revelou conservando, ao mesmo tempo, o mistério inacessível da Sua própria existência. Devemos, portanto, tentar esta coisa impossível que Ele toma possível (Mc 10:27). Por mais medo que Ele cause, Ele nos fascina irresistivelmente até que, mediante “a bondade e a severidade” (Rm 11:32), nos leva à própria maneira, à satis[1]fação e alegria finais de Jó. A história de Jó é um convite e um guia para descobertas como a dele. É especialmente o livro para quaisquer pessoas que se acham “no dia da doença de Jó” como resultado dalguma experiência abaladora.” 

JÓ - Introdução e Comentário

De Francis I. Andersen

Pág. 8; prefácio do autor

 Sempre que somos colocados diante de questões complexas, temos a tendência de, ou minimizar tal complexidade desconcertante, ou eleva-la a um grau de exigibilidade e pertinência, que eventualmente está muito além de nossas parcas capacidades para desvendar. Relativamente ao livro de Jó não é diferente. Muito pelo contrário! 

Se a tarefa teológica de comentar livros bíblicos já é por si só desafiadora, já que falamos de textos antigos, contextos remotos, e de culturas passadas com pouco ou nenhum registro histórico-científico confiável, imagine quando tal tarefa se concentra em um livro em que as poucas fontes se tornam ainda mais escassas, ou não existem na prática. Esta é a realidade de quem se pretende a desafiar Jó.

 Diante de tal circunstância, penso que o professor Francis, de quem emprestamos o texto acima, tem toda a razão ao afirmar ser uma atitude presunçosa partir para um estudo deste livro. Mas considerando que tal presunção não o impediu de enveredar-se por este caminho – e ele mesmo tornou-se uma das boas referências sobre o assunto, devo acreditar que o desafio se lhe tornou prazeroso em bem pouco tempo ao partir em sua jornada, pois o que vemos em seu comentário é um estudioso encantado com suas descobertas, muito mais do que academicamente ocupado em extrair obviedades do texto. Seria esta a parte do temor e fascínio que ele mesmo afirma sentir? Talvez, mas penso que daqui, da porta, não será possível respondermos esta questão. Então é melhor entrarmos. Você é meu convidado.

  Quando propus aos meus alunos o tema Jó entre outros livros do Antigo Testamento, houve plena unanimidade em sua escolha como tema para o novo período de estudos. Penso que eles não imaginavam no que estavam se metendo. Mas confesso que eu também não. Porque, sem querer dar spoiler sobre as questões que já já debateremos, posso adiantar que poucas vezes em minha razoavelmente adiantada experiência cristã, estive tão confrontado em meus instintos religiosos mais básicos, primitivos e equivocados. Andei sobre a linha tênue que divide uma legitima vida piedosa, do ufanismo religioso hipócrita, muito comum e de grande oferta em nossos dias.

 
Assim, lembrando que todos os nossos registros aqui constituem uma obra aberta, posto que sustentada em convicções transitórias sempre em busca de melhores percepções, convido você a inaugurar uma jornada inquietante por este livro tão desafiador, revelador, e sobretudo transformador. Aliás, esta foi a sensação principal do próprio Jó ao sair do outro lado do túnel que atravessou; “antes... mas agora”. Porque, no final das contas, texto que apenas informa e não transforma, embrulha o peixe.

domingo, 12 de março de 2023

Antegosto da Glória

Por Jânsen Leiros Jr.

 

3 Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua grande misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, 4 para uma herança incorruptível, incontaminável e imarcescível, reservada nos céus para vós, 5 que pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé, para a salvação que está preparada para se revelar no último tempo; 6 na qual exultais, ainda que agora por um pouco de tempo, sendo necessário, estejais contristados por várias provações, 7 para que a prova da vossa fé, mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo; 8 a quem, sem o terdes visto, amais; no qual, sem agora o verdes, mas crendo, exultais com gozo inefável e cheio de glória, 9 alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas.

1 Pedro 1:3-9 – ARA

 A capacidade de enxergar além do que nossos olhos alcançam, parece, desde sempre, uma das grandes dificuldades de nossa existência. O que não vemos ou não podemos tocar, provocam curiosidade, e até alguma perplexidade, diante da tentativa de vislumbre do além; quer seja do nosso, em particular, quer seja do mundo como o conhecemos. Sem sombra de dúvida, a pergunta universal que há milênios mais perturba a humanidade é: existe vida para além da vida?

É impossível não considerar que, ao longo de nossa história, nossa existência teve sua dinâmica alterada diversas vezes e por múltiplas influências. E é claro, as percepções e perspectivas a respeito da vida e de sua continuidade para além "do sono", foram revisitadas a cada novo contexto, à medida que os anseios e conclusões da humanidade concernentes à vida, foram se ajustando à sua realidade e premências.

Não muito diferente do que acontece hoje, a preocupação primeira e comum nas diversas sociedades desde a antiguidade, era conquistar uma feliz vida boa. A vida que valia à pena ser vivida. Longa, tranquila e próspera. Nesta direção e com esse propósito, tudo o mais se realizava dia após dia. Longevidade, com dias tranquilos e razoável prosperidade, foi e ainda é sinônimo de felicidade e sucesso na vida. Muitos foram os trilhos utilizados ao longo dos séculos. Mas o destino a se alcançar foi quase sempre o mesmo.

Com o passar do tempo, vez por outra alguém atravessava essa ideia de vida boa, com conceitos divergentes e até mesmo assustadores, pois fugiam dos padrões tão consagrados, e aos conceitos tão convenientemente construídos. Alguns foram até mesmo taxados como loucos, ou no mínimo como sonhadores. Ora, alguns personagens na narrativa bíblica se colocaram como expoentes desse rompante contrário ao "duradouro, sereno e compensador", e caminharam na contramão do que se considerava razoável

Tais personagens, apesar de experimentarem circunstâncias confortáveis, que naturalmente tendenciavam ao sucesso, entenderam que a existência humana, ou pelo menos as suas existências, precisariam buscar um sentido além ou muito além e adverso daquele a que haviam se proposto antes do click inquietante; a centelha do além. Além de tudo isso aqui, além de mim aqui, além da vida que vivo aqui.

Abraão deixou tudo. Moisés deixou tudo. E tantos outros abandonaram o que tinham ou o que eram, para se abandonarem em um caminho novo, desconhecido e sem quaisquer garantias tangíveis. Tudo movido pelo desejo de ir além. Afinal, a vida, por melhor que estivesse, não podia ser apenas aquilo. Salomão que o diga! Temos então, que alguns poucos, em toda nossa história, olharam para a vida que há além da vida, e buscaram ver, ouvir, sentir, e até tocar, no que existe para além do instante da morte.

Muito já se especulou, portanto, quanto ao que acontece após a temida morte; mais temida hoje que outrora. E entre os cristãos também há muitas especulações, já que diferentes e até divergentes interpretações, provocam variadas teorias sobre o que é e onde se dá a vida que teremos além da vida que temos.

Lamentavelmente, posso afirmar categoricamente, que ninguém, quer seja leigo, quer seja o mais preparado dos teólogos, conseguirá fechar conceito minimamente perto do que efetivamente viveremos. Afinal, nem olhos viram nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano, o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Algumas pistas, no entanto, bem podemos seguir, acompanhando o que o texto bíblico em todo o seu conjunto, nos apresenta sobre novos céus e nova terra.

É disso que nos ocuparemos nas próximas duas ou três quintas-feiras. Vamos buscar possibilidades e trabalhar na construção de algumas convicções. A ideia não é nem de perto fecharmos questão sobre o tema que é tão amplo e controverso. Mas é, sem qualquer sombra de dívida, nos proporcionar o mais apetitoso, saboroso e inspirador, antegosto da gloria.


terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Quem foi que mandou?

Por Jânsen Leiros Jr.

 

 "1 Depois da morte de Moisés, servo do Senhor, falou o Senhor a Josué, filho de Num, servidor de Moisés, dizendo: 2 Moisés, meu servo, é morto; levanta-te pois agora, passa este Jordão, tu e todo este povo, para a terra que eu dou aos filhos de Israel.3 Todo lugar que pisar a planta do vosso pé, vo-lo dei, como eu disse a Moisés.4 Desde o deserto e este Líbano, até o grande rio, o rio Eufrates, toda a terra dos heteus, e até o grande mar para o poente do sol, será o vosso termo. 5 Ninguém te poderá resistir todos os dias da tua vida. Como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei, nem te desampararei. 6 Esforça-te, e tem bom ânimo, porque tu farás a este povo herdar a terra que jurei a seus pais lhes daria.7 Tão-somente esforça-te e tem mui bom ânimo, cuidando de fazer conforme toda a lei que meu servo Moisés te ordenou; não te desvies dela, nem para a direita nem para a esquerda, a fim de que sejas bem sucedido por onde quer que andares.8 Não se aparte da tua boca o livro desta lei, antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme tudo quanto nele está escrito; porque então farás prosperar o teu caminho, e serás bem sucedido.9 Não to mandei eu? Esforça-te, e tem bom ânimo; não te atemorizes, nem te espantes; porque o Senhor teu Deus está contigo, por onde quer que andares.

Josué 1:1-9 - JFA

Essa passagem bastante conhecida do texto bíblico, revela muito sobre o que é agir com confiança em Deus, apesar de circunstâncias e condições desfavoráveis, que insistem em nos amedrontar, ou até mesmo nos paralisar diante de desafios que se impõem sem qualquer aviso prévio. Quem nunca?


O contexto histórico nos remete aos momentos posteriores à morte de Moises, líder do povo hebreu, que o conduziu por longos 40 anos pelo deserto do Sinai, após a saída do cativeiro de 400 anos no Egito. Ora, o povo não havia perdido um líder qualquer. E não ter mais Moises à frente do povo, mesmo para os mais experientes e preparados, significava não ter mais de sua incontestável liderança, capacidade de decisão, e relacionamento profundo com Deus. A perda de um líder tão presente e atuante podia mesmo causar receios, cuidados e incertezas, como o texto acima sugere.

Moises é morto; levanta-te, pois, agora. O texto é claro. E não é necessário ser grande intérprete, para compreender que a fala de Deus a Josué, não é uma notícia, mas um alerta, uma chamada à responsabilidade; está esperando o quê? É claro que a ausência do líder gerou alguma espécie de espera contemplativa, uma atitude bem comum diante do desconhecido à frente. Os discípulos que acompanhavam Jesus quando ele foi assunto aos céus, tiveram um lapso semelhante, olhando para cima, sem ação, sem saber o que fazer a partir daquele momento.

O mais comum em circunstâncias como esta, quando a pessoa que consideramos essencial nos falta, é pensarmos que, seja quem for o próximo ocupante da função, ninguém poderá fazer melhor ou minimamente igual, de modo a trazer resultados semelhantes, ou causar segurança parecida. Mais especialmente em relação a Moises, quem o poderia superar? Quem poderia minimamente se equiparar a ele? E diante dos receios, a inércia.


Acontece que o próprio Deus, no texto em destaque, começa a colocar as coisas sob as perspectivas corretas. Como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei, nem te desampararei. Ou seja, não foi Moises quem fez, mas eu. Logo, se ele fez porque eu estava com ele, você também fará porque eu estarei com você; o realizador ainda é o mesmo. O próprio Deus.

Ainda que até aqui tudo pareça meio óbvio, na prática não é. Tendemos a subestimar capacidades, preparos, condições e circunstâncias, tentando encontrar razões em nós mesmos, em coisas ou em condições, para um eventual fracasso futuro diante daquilo para o que somos chamados a realizar. Dessa forma produzimos uma espécie de conforto prévio e bastante conveniente. Uma espécie de desconfiança legitima, que recai, não sobre Deus, claro, mas sobre nossas próprias impossibilidades; confiar em Deus eu confio. Eu não confio é em mim. Ora, não somos chamados a confiar em quem quer que seja. Nem em nós ou em nossas capacidades, senão exclusivamente em Deus, que confronta com veemência, esse sutil gatilho de falta de fé.

É evidente, porém, que Deus nos conhece profundamente. Conhece a alma humana e suas armadilhas. Ele conhece nossas ardilosas sabotagens contra nós mesmos, que se concentram em maior número, não na falta de capacidade ou na inexistência de um cenário perfeito, mas na verdadeira falta de vontade. De boa vontade; bom ânimo.


Esforça-te e tem bom ânimo
. Para entusiastas da meritocracia, essa frase dita por Deus a Josué é a demonstração inquestionável de que o Criador premia aqueles que se esforçam e vencem seus desafios, em quaisquer níveis em que se apresentem; “seus esforços serão recompensados”. Mas não é disso que Deus está falando. Não é de esforço próprio, obra de nossas mãos. Não é da dedicação atlética que abre caminho à vitória. Nem mesmo está falando, apenas de outro jeito, sobre o famoso “faça por ti que eu te ajudarei”. Deus está falando de fé. De confiança. Daquela chama que tira da inércia. Da certeza incondicional de que “assim será se Ele quiser”. Ele está falando de levanta e anda.

Transpõe o Jordão. Não te falta nada para isso. Assim como estive com Moises estarei contigo. Ninguém te resistirá. Eu estarei contigo. Levanta e anda, não porque em levantando eu recompensarei tua atitude, mas porque já está feito. Transpõe o Jordão. Eu já o determinei que assim é.

Uma das características que mais me encanta nesse texto, confesso, é a ideia de que Deus se antecipa às possíveis objeções de Josué, à medida que lhe é revelada a missão que está em suas mãos. Tão somente esforça-te. Não há outra tarefa a realizar. Não há outro preparo a atingir. Não há contingente a reunir, ou mesmo tempo a esperar. Tão-somente esforça-te e tem mui bom ânimo. Sai da inércia, confie, levanta e anda. Transpõe. Empolgue. Sim, contagie. Não artificialmente, mas por firmeza de propósito, próprio dos que sabem em quem têm crido, e de que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo aquilo que pedimos ou pensamos. E se é assim quando pedimos, imagina quando ordena!


Tão-somente esforça-te e tem mui bom ânimo, cuidando de fazer conforme toda a lei que meu servo Moisés te ordenou.
E aí está mais uma armadilha para os meritocracistas de plantão. Há quem defenda que a obediência à palavra foi a condição imposta por Deus para o sucesso de Josué. Mas isso não está escrito aqui. Ao contrário, Deus está falando de ganho em confiança, em ânimo, em força realizadora. Não em barganhas.

Não se aparte da tua boca o livro desta lei, antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme tudo quanto nele está escrito; porque então farás prosperar o teu caminho, e serás bem-sucedido. Observe o quanto o versículo 8 acima, é semelhante ao Salmo primeiro. A observância da Palavra prospera o caminho. Não é uma recompensa de Deus; porque então farás (tu mesmo) prosperar o teu caminho. A Palavra melhora a capacidade de decisão, amplia as percepções, aumenta nossa sensibilidade. A Palavra nos melhora e dá bom ânimo. A Palavra nos amplia a confiança. Ou não é na Palavra que encontramos razões para esperar contra a esperança?

                    Por fim, ainda que não por último, Não to mandei eu? Esforça-te, e tem bom ânimo; não te atemorizes, nem te espantes; porque o Senhor teu Deus está contigo, por onde quer que andares. Que podemos livremente traduzir como: Não fui eu que te mandei ir? Então não tema a caminhada.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

A busca, o encontro, e a fartura

Por Jânsen Leiros Jr.
 

"1 Ó Deus, tu és o meu Deus; ansiosamente te busco. A minha alma tem sede de ti; a minha carne te deseja muito em uma terra seca e cansada, onde não há água. 2 Assim no santuário te contemplo, para ver o teu poder e a tua glória. 3 Porquanto a tua benignidade é melhor do que a vida, os meus lábios te louvarão.  

4 Assim eu te bendirei enquanto viver; em teu nome levantarei as minhas mãos. 5 A minha alma se farta, como de tutano e de gordura; e a minha boca te louva com alegres lábios. 6 quando me lembro de ti no meu leito, e medito em ti nas vigílias da noite, 7 pois tu tens sido o meu auxílio; de júbilo canto à sombra das tuas asas.8 A minha alma se apega a ti; a tua destra me sustenta.

Salmos 63:1-8 - ARA

 O desejo, diria Platão em uma de suas obras mais conhecidas, O Banquete[1], é a busca por aquilo que nos falta. Segundo o filósofo, o desejo parte da carência pelo que não encontramos em nós mesmos ou pelo que não possuímos. E se não temos, ou não possuímos, logo buscamos, para suprir a carência. Quanto maior a carência, maior o desejo. E quanto maior o desejo, maior e mais intensa é a busca pelo objeto do desejo.

 Considerando tal afirmação, se eu desejo aquilo que não tenho, e se busco pelo que desejo, também podemos afirmar que ninguém deseja o que já tem, e, portanto, não busca, já que por ter, não o deseja, não o anseia. O anseio é fruto da carência. Pode parecer repetitivo ou mesmo óbvio, mas vale a pontuação dessa lógica, porque voltaremos a ela mais adiante.

 

No texto que lemos acima, o salmista declara buscar ansiosamente. Em algumas traduções ele diz buscar intensamente, em uma demonstração clara de que sua carência por Deus é imensa e profunda. Ele sofre a ausência de Deus. Ele sente falta. Ele está carente de Deus e por essa razão seu desejo o conduz a uma busca ansiosa e intensa. De tal modo, que ele se diz sedento, como que em uma terra seca e cansada. Uma terra onde “não tem água”, ele afirma, demonstrando que não só tem sede de Deus, como também não há qualquer outra fonte da qual pudesse lançar mão para mitigar a falta que lhe consome. “Minha alma tem sede de ti”.

 Trazendo um pouco de histórica para nossa leitura, quando compôs este salmo, Davi se encontrava no deserto de Judá, fugido da guarda do rei Saul que buscava matá-lo. Ele se encontrava em ambiente de profunda perplexidade e penúria. Certamente faltava-lhe de tudo: comida, segurança, conforto, e principalmente água. No deserto a carência se fazia sentir em quase todas as demandas naturais da vida. Davi, porém, não declara ou não lamenta a ausência por nenhuma dessas coisas naturais e obviamente necessárias à qualquer pessoa. Ele poderia dizer eu tenho sede de água, ou eu sinto falta de um bom bife com batata frita. Ou poderia ainda reclamar que precisaria dormir em uma cama aconchegante e na segurança de sua casa. Não que Davi não considerasse essas coisas bem-vindas. Certamente tais privações o incomodavam, e passava por sua mente o dia em que poderia voltar a satisfazer-se de todas elas. Mas uma carência era ainda mais incômoda; a falta da presença de Deus. “Ansiosamente te busco”.

 

Note que, ao declarar a falta que Deus lhe faz, Davi demonstra uma dependência vital de sua relação com Ele, a ponto de dizer sentir sede de Deus, e que onde se encontra, não há qualquer opção de ser saciado daquilo que somente Deus poderia oferecer. “É uma terra seca” e, portanto, sem vida. Mais que isso. Davi está pedindo socorro. Pois se sente sede de Deus e não há como saciá-la, ele irá morrer. Davi sabe que sem Deus, não terá a menor chance de seguir vivendo, ainda que todas as demais necessidades e carências lhe fossem supridas, já que é da transcendência de Deus, que nos alimentamos da perspectiva da superação. “Minha alma tem sede de Ti”, é como se o salmista dissesse É de Ti, ó Deus, que preciso. E de mais nada, e de mais ninguém.

 Há uma curiosa e aparente incoerência na fala de Davi, logo no início do salmo. “Ó Deus, tu és o meu Deus”. Ora, se Deus é o Deus de Davi, se ele assim O considera, como pode então dizer-se sedento e carente de alguém com quem afirma ter relação? Os dois versículos seguintes, nos dão pistas importantes. “Recordo-me dos dias em que te contemplei no santuário, para me embeber do teu poder e da tua glória” (v. 2 - KJA). A tradução da King James Atualizada aponta para uma lembrança citada por Davi, relativamente àquilo que sentia e vivia na presença de Deus antes do deserto, quando participava da adoração a Deus no santuário. Davi está falando de instantes de devoção e relacionamento com Deus que, no deserto, ele não consegue ter. Isso é tremendamente revelador.

 A comparação de Davi não está querendo dizer que Deus não pudesse estar ali com ele, no deserto, já que ele O encontrava sempre no santuário. Davi estava se referindo exatamente ao exercício contínuo e pleno do seu relacionamento com Deus, que até então ele entendia somente ser possível no santuário, de modo que Lhe sentia ausente no deserto, porque ali, até então, não o havia buscado com empenho. Logo a Ele, o seu Deus. Crescido no meio de um povo para quem o tabernáculo, uma espécie de santuário nômade era a morada de Deus, e portanto o lugar onde poderia ser encontrado, Davi leva um bom tempo sofrendo a carência da presença de Deus.

 

Nos versículos 2 e 3, portanto, Davi demonstra perceber-se de que a sede que ele declara sentir, está muito mais perto e possível de ser saciada do que imaginava. E em lugar de lamentar-se pela carência, a lembrança da presença de Deus e de sua relação com Ele o enche de confiança, trazendo paz ao seu coração, e fazendo-o descansar em relação ao seu medo de morte. “Minha alma tem sede de ti”; “a Ti eu busco dia e noite”. Mas na verdade eu já te encontrei. “Porque tens sido o meu socorro”. Mesmo fora e distante do santuário, onde eu achava que estaria longe, teu cuidado tem me protegido. Por essa razão é que ele podia, “à sombra das tuas asas”, cantar louvores de alegria. Tu estás comigo. Eu te encontrei, Senhor meu e “meu Deus”.

 Davi precisou entender que não era Deus quem não estava com ele, mas que ele, Davi, é que não enxergava que Deus seguia caminhando ao seu lado, mesmo em meio aquele deserto árido, de terra seca e sem água. Davi sentia sede de um Deus presente, porque ele próprio não percebia as evidências de seu cuidado e de sua presença, que se traduzia nas mais efêmeras e imperceptíveis realidades da vida cotidiana, por mais difíceis e desfavoráveis as circunstâncias que estivesse atravessando.

 Davi então buscou Deus e o encontrou. Como quem anseia por água, dia e noite, ansiosa e intensamente o buscou e o encontrou. E como foi que o encontrou? Pedindo, buscando, clamando. “Ó Deus, tu és o meu Deus”. “Todo o meu ser anseia por ti”; quer estar contigo, tem vontade de estar em tua presença. Eu te busco porque te desejo, te quero, tenho vontade de estar contigo. E se eu quero tanto, logo busco.

 

É muito importante atentarmos para o que significa buscar. Nossa sociedade ocidental não tem tradição no desenvolvimento da vontade. Trabalhamos a vontade como um desejo estático, que sonha com alguma coisa que pode fazer bem, mudar mesmo a vida, mas que, quase sempre, está fora do alcance. Temos por hábito entender a vontade como um sonho irrealizável, ou uma utopia; um desejo além do possível ou provável.  Ah! Se eu ganhasse na loteria, viajaria pelo mundo inteiro; ou ainda se eu trabalhasse na empresa tal, minha vida seria bem mais fácil. Uma ilusão apenas. Um sonho fugaz, uma vez que nem eu jogo na loteria, e nem estudo para tornar-me o profissional adequado para o quadro da empresa tal. Da mesma forma, em relação à comunhão com Deus, vivemos a olhar as estrelas. Ah! se Deus me desse atenção, ou se eu fosse um escolhido por Ele, adoraria estar em sua presença. Davi não faz assim. Muito pelo contrário.

 Querer é agir na direção do desejo. E Davi quer Deus. Ele o busca “dia e noite”, “intensamente”. Algumas traduções trazem “de madrugada”, evidenciando o empenho e o esforço empreendido pelo salmista em sua busca. Afinal, entende Davi, Deus sempre esteve com ele; sempre próximo. É ele quem precisa sair de si mesmo e ir ao Seu encontro. Ele deseja. Ele quer. Ele buscará. Não esperará cair do céu.

 Confiança é uma atitude de esperança ativa, estimulada pela narrativa bíblica em diversas passagens; realização demanda esforço. “Esforça-te”[2], “levanta... e anda”[3], “sem fé é impossível agradar a Deus”[4]. A fé nos impulsiona na direção de nossa esperança. Foi assim com os amigos do paralítico, que destelharam o local onde Jesus estava[5]. A mesma atitude teve a mulher siro-fenícia para ser curada[6]. Por isso o salmista busca dia e noite, e de madrugada. Ele se dispõe a Deus e o reconhece em seus caminhos[7].

 

Por que não buscamos? Por que atravessamos nossos desertos com o discurso retórico de que estamos indo como Deus quer, em flagrante demonstração de desistência de nós mesmos, ou de nossos sonhos? Somos fracos de vontade. Somos fracos de querer. O mundo moderno nos incute a ideia da felicidade a toda prova, e isso nos faz fracos diante de qualquer circunstância que nos infelicite. Não está gostoso joga fora, não agradou troca, se te incomoda afaste-se. Tudo precisa ser prazeroso sempre, sem qualquer dor ou custo. Talvez por isso o jovem rico tenha se entristecido ao ser desafiado por Jesus. Ele até cogitou seguir o Mestre. Achava querer isso. Mas diante do custo que tal decisão teria para ele, sua vontade fraca o fez abandonar seu fraco querer.

 Mas quem pode garantir que a busca por Deus pode me fazer encontrá-lo? Quem garante que meu esforço e empenho nessa direção poderá me colocar em sua presença? Porque eu oro e nada acontece, poderá dizer alguém. Rezo, e tenho a sensação de estar falando sozinho, afirmarão outros tantos. Ora, quem garante que nossa busca por Deus será recompensada é o próprio Deus.

 

 "17 O sacrifício aceitável a Deus é o espírito quebrantado; ao coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus.

Salmos 51:17 - ARA

 

 "5 Porque tu, Senhor, és bom, e pronto a perdoar, e abundante em benignidade para com todos os que te invocam.

Salmos 86:5 - ARA

 

 "18 Perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade.

Salmos 145:18 - ARA

 

 "12 Porquanto não há distinção entre judeu e grego; porque o mesmo Senhor o é de todos, rico para com todos os que o invocam.

Romanos 10:12 - ARA

 

Se então na busca por Deus é possível encontrá-lo, logo o meu desejo é saciado e a carência por Deus termina, certo? Sim. Então não há mais desejo por Ele? Não. Calma. Não fiquei louco. Acontece que desejo saciado não gera desprezo, mas apreço. Se ocorresse desprezo, logo voltaria a carência e então reacenderia o desejo. Porém o encontro com Deus finda a busca motivada na carência, mas desperta o apreço, que mantém viva uma relação de presença permanente. “A tua graça é melhor que a vida”. “Como em um banquete, na tua presença a minha alma se farta”. “A minha alma se apega a Ti”. Assim, se antes a carência me impulsionava para a busca, agora o prazer do encontro e da presença de Deus me preenche de um jeito tal, que não quero jamais deixar de vivê-la. Se antes eu tinha sede, agora a satisfação transborda. É isso! O encontro com Deus provoca satisfação transbordante. “Meus lábios te louvam”; “a ti bendirei”; “em teu nome levantarei as minhas mãos”.

 

 "35 Declarou-lhes Jesus. Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim, de modo algum terá fome, e quem crê em mim jamais terá sede.

João 6:35 - ARA

 

 "35 Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior correrão rios de água viva.

João 7:38 - ARA

É isso, “pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á”[8].

A verdade é que quem busca encontra. E se encontra se satisfaz, porque dessedenta a alma. E se para cada busca, um encontro, para todo encontro, fartura.



[1] O Banquete, é um diálogo platônico escrito por volta de 380 a.C.. Constitui-se basicamente de uma série de discursos sobre a natureza e as qualidades do amor (eros). O Banquete é, juntamente com o Fedro, um dos dois diálogos de Platão em que o tema principal é o amor. - https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Banquete

[2]  Josué 1:7 - ARC

[3]  João 5:8 - ARA

[4]  Hebreus 11:6 - ARA

[5]  Lucas 5:18-20 - ARA

[6]  Lucas 8:43-48 - ARA

[7]  Provérbios 3:6 - KJA

[8]  Mateus 7:7

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