Por
Jânsen
Leiros Jr.
Um ensaio teológico sobre a confusão
entre Reino e projeto político. O Reino não se constrói por ativismo;
manifesta-se pela transformação.
Herman Bavinck
" Toda tentativa de
identificar o Reino de Deus com um sistema político — seja ele conservador ou
progressista — reduz o Evangelho ao tamanho de uma ideologia humana, e destrói
a transcendência do Reino que não procede deste mundo."
Abraham Kuyper
" Quando o cristão trata
um movimento político como extensão necessária da fé, ele perde a distinção
entre graça comum e graça especial, e confunde o que Deus ordenou para o mundo
com aquilo que Ele reservou para a Igreja."
Karl Barth
" A Igreja falha quando
se deixa arrastar pela corrente das ideologias de seu tempo. Ela é chamada não
a repetir a voz do século, mas a anunciar a Palavra que o julga."
Dietrich Bonhoeffer
" O cristão que se
confunde com uma causa política perde a capacidade profética de contradizê-la
quando ela se torna injusta. A fidelidade de Cristo não admite cativeiro
ideológico."
Jonathan Bernis
"O Cordeiro
Pascal, sacrificado durante o Êxodo, é uma sombra que aponta diretamente para
Yeshua, o verdadeiro Cordeiro de Deus, cuja morte nos liberta de toda
escravidão espiritual."
C. S. Lewis
" O diabo não se importa
se atacamos o cristianismo de esquerda ou de direita, desde que o adotemos como
um partido. O primeiro passo para afastar o homem de Deus é fazê-lo crer que a
salvação está na Política."
Há
fenômenos que não nascem grandes, mas tornam-se ruidosos pela insistência de
seus adeptos. Um deles é a obstinação de certos cristãos em aderir ao partidarismo
político como se ele fosse parte intrínseca, necessária e imanente da vida cristã
— quase um sacramento moderno. Para muitos, ser cristão e ser, ou progressista ou
conservador, não são duas identidades distintas: uma “explica” a outra, como se
a fé tivesse finalmente encontrado seu braço secular, sua missão pública, ou sua
tradução social.
Trata-se
de um equívoco antigo em roupagem nova. Não é a primeira vez que cristãos se
deixam seduzir pela promessa de uma história com “rumo inevitável”: já o
fizemos com impérios, com revoluções, com iluminismos, com nacionalismos. Mas a
versão contemporânea tem um fascínio particular, porque imita a linguagem do
Evangelho sem carregar sua substância — promete justiça, redenção, igualdade ou
moralidade, mas sem o Cordeiro, sem a cruz, sem conversão. E quando o cristão,
sedento por relevância, abraça esse discurso, costuma trocar a fonte viva pelas
cisternas rotas (Jr 2.13) sem sequer perceber.
O
problema, em termos teológicos, é simples de formular e difícil de admitir:
quando o cristão toma um projeto político e o trata como se fosse
escatologia, transforma meios em fins e ideologias em evangelho.
1.
Quando a política quer ser missão
É
verdade que o cristianismo possui uma vocação pública — amar, servir, proteger,
reconciliar, denunciar injustiças. Mas a missão da Igreja jamais pode ser confundida
com a agenda de qualquer partido, porque “não nos conformamos com este século”
(Rm 12.2).
O
partidarismo, entretanto, seduz com uma oferta tentadora: uma espécie de
“teologia social” laica, ou um “movimento moralista do bem”, onde cada causa é
tratada como ministério, cada bandeira como virtude e cada pauta identitária
como expressão de amor ao próximo. O que muitos não percebem é que essa
estrutura é profundamente humanista, não cristã. Ela parte do princípio
de que o ser humano é o agente supremo de transformação — e de que a história
avança para melhor por meio da ação política correta.
A
Bíblia, ao contrário, afirma que Deus “determinou tempos e limites das nações”
(At 17.26), e que nenhum projeto humano contém em si o poder de redenção,
qualquer que seja a finalidade de sua aplicação.
2.
O erro teológico: transferir escatologia para o Estado
O
partidarismo possui, sim, seu próprio “evangelho”:
- uma antropologia: o homem é
naturalmente bom, apenas oprimido ou enganado;
- uma soteriologia: a libertação vem
por reformas sociais ou morais;
- uma escatologia: a história progride
inevitavelmente em direção ao “mundo melhor”.
O
cristão que não percebe essa teologia concorrente acaba assumindo-a como
complemento da fé — ou pior, como interpretação necessária do ministério de
Cristo.
E assim, aos poucos, vai lendo o Evangelho com lentes ideológicas, até que João
18.36 (“meu Reino não é deste mundo”) se torna uma frase incômoda demais, quase
inconveniente. Esquece-se que todo sistema político — seja progressista, seja
conservador — nasce de um espírito deste século. E Paulo alerta: “Cuidado com as
filosofias vazias, segundo os homens” (Cl 2.8).
3.
A armadilha psicológica do “lado certo da história”
Uma
das seduções mais fortes do progressismo, e do conservadorismo, é a ideia de
que existe um “lado moralmente superior” do qual se pode fazer parte. A adesão
política vira uma forma de santidade, e o militante se sente iluminado — não
pelo Espírito, mas pela narrativa do momento.
Esse
impulso não surge do coração transformado, mas da necessidade humana de
pertencimento e distinção moral. É o farisaísmo secular: a justiça própria
travestida de causa.
Jesus
nunca pediu que escolhêssemos “o lado certo da história”. Pediu que escolhêssemos
a cruz — onde não há aplauso, nem progressismo, nem conservadorismo.
Há apenas renúncia.
4.
Quando a ideologia sequestra a ética
O
cristão que se entrega a um movimento político como se fosse extensão
obrigatória da fé tende a distorcer doutrina para proteger a causa. Relativiza
princípios, flexibiliza textos, reinterpreta moral segundo a conveniência da
agenda. “Outro evangelho”, diria Paulo (Gl 1.6–10).
Essa
é a etapa mais perigosa: quando Cristo deixa de ser o critério para julgar a
política, e a política passa a ser o critério para julgar Cristo. É assim que ideologia
de lado a lado, deixa de ser uma posição possível e se torna quase uma
liturgia.
5.
A alternativa cristã: crítica profética, não adesão devocional
A
posição madura é simples: O cristão não é progressista. O cristão não é
conservador. O cristão não é liberal. O cristão é de Cristo. E por ser de
Cristo: analisa tudo, discerne o espírito por trás das ideias, retém o que é
bom, rejeita o que é mal.
(1Ts 5.21-22)
A
fé não exige que se renuncie à política; exige que se renuncie à idolatria.
Não é a política que define o cristão, mas o cristão que avalia a política com
a mente renovada, independente da ideologia deste ou daquele lado do
pensamento.
6.
Conclusão – Quando o centro se perde, o norte se dissolve
O
progressismo não é o Reino. O conservadorismo, tão pouco. Pode ecoar virtudes
do Reino — e às vezes ecoa — mas não nasce dele. E quando o cristão o assume
como extensão necessária da fé, incorre no velho erro de transformar instrumentos
em dogmas, bandeiras em sacramentos, história em salvação.
No
fim, o problema não é a agenda ideológica em si, mas a pretensão
escatológica que alguns cristãos lhe atribuem. Porque aquilo que toma o
lugar de Cristo — mesmo que seja justiça, inclusão, compaixão ou igualdade —
não se torna cristão.
Torna-se ídolo. E o ídolo, por definição, exige culto.


Excelentes colocações, sempre equilibradas...Em um mundo de tantas vozes, precisamos discenir " A VOZ". Uma boa pista está em João 10 27-28.
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