quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Os soldados da crucificação: a revelação diante da cruz

 


Estudo III — Os soldados da crucificação: a revelação diante da cruz

Por Jânsen Leiros

Textos fundamentais: Mateus 27:27–54; Marcos 15:16–39; Lucas 23:33–47; João 19:16–37.

Introdução — Os homens que testemunharam a morte de Jesus

Entre os personagens presentes na crucificação de Jesus, os soldados romanos ocupam uma posição particularmente intrigante.

Não eram discípulos. Não haviam acompanhado seus ensinamentos pelas aldeias da Galileia. Não pertenciam ao círculo daqueles que esperavam dele a restauração de Israel.

Estavam ali para cumprir uma determinação do poder imperial.

A crucificação era um instrumento de execução pública, concebido não apenas para eliminar condenados, mas também para demonstrar a autoridade de Roma sobre aqueles que ousassem desafiar sua ordem.

Os soldados responsáveis por sua realização estavam habituados à violência, ao sofrimento e à morte.

Entretanto, os Evangelhos registram que, diante da morte de Jesus, pelo menos um daqueles militares pronunciou uma declaração extraordinária.

Em Marcos 15:39, o centurião afirma:

“Verdadeiramente este homem era Filho de Deus.”

Mateus registra uma declaração semelhante, atribuída ao centurião e aos que estavam com ele.

Lucas, porém, apresenta uma formulação diferente:

“Verdadeiramente este homem era justo.”

João, por sua vez, não registra qualquer declaração semelhante. Em lugar dela, apresenta acontecimentos específicos envolvendo os soldados e o corpo de Jesus.

Essas diferenças não devem ser ignoradas.

Elas revelam que cada evangelista selecionou e organizou os acontecimentos segundo uma perspectiva narrativa e teológica própria.

Nosso propósito será examinar essas diferenças, investigar o significado das declarações atribuídas aos militares e avaliar até que ponto podemos interpretá-las como manifestações de fé.

A questão central é esta:

O que aqueles homens reconheceram em Jesus quando testemunharam sua morte?

1. A crucificação como instrumento do poder romano

Para compreender a presença dos soldados no Calvário, precisamos recordar a natureza da crucificação no mundo romano.

A execução na cruz era uma punição particularmente humilhante, frequentemente aplicada a escravizados, insurgentes e indivíduos considerados ameaças à ordem pública.

Não se tratava apenas de matar.

A exposição pública do condenado comunicava uma mensagem política: o poder de Roma alcançava não somente a liberdade, mas também o corpo e a vida daqueles submetidos à sua autoridade.

A crucificação de Jesus ocorreu nesse contexto.

A acusação associada à sua execução — sua identificação como rei dos judeus — possuía evidente significado político.

Mesmo que os Evangelhos apresentem a inocência de Jesus e a natureza singular de seu Reino, a execução foi realizada pelos instrumentos do poder imperial.

Os soldados não estavam presentes como observadores religiosos.

Estavam exercendo uma função militar.

Essa circunstância torna suas reações posteriores especialmente significativas.

O homem que deveria ser apenas mais um condenado terminou provocando declarações que ultrapassavam o significado ordinário de uma execução.

2. Os soldados antes da crucificação: escárnio e humilhação

Mateus 27:27–31 e Marcos 15:16–20 descrevem os soldados reunidos em torno de Jesus antes de sua condução ao local da execução.

Eles o vestem com um manto, colocam-lhe uma coroa de espinhos e simulam homenagens reais.

O gesto constitui uma paródia de coroação.

Aquele que havia sido acusado de reivindicar o título de rei é transformado em objeto de escárnio.

Os soldados reproduzem símbolos de autoridade régia para ridicularizar sua pretensão.

Mateus acrescenta que colocaram uma vara em sua mão direita, como representação de um cetro.

Depois, retiram-lhe os símbolos da zombaria e o conduzem à crucificação.

A cena contém uma ironia teológica profunda.

Os soldados pretendem ridicularizar a realeza de Jesus.

Entretanto, dentro da perspectiva cristológica dos Evangelhos, estão diante daquele cuja autoridade ultrapassa a de qualquer governante humano.

A coroação simulada torna-se, para o leitor cristão, uma representação involuntária de uma verdade que os próprios soldados desconhecem.

Contudo, devemos resistir à tentação de atribuir a esses homens uma consciência religiosa que o texto não demonstra.

Naquele momento, os soldados aparecem como agentes de humilhação.

Não há indicação de que reconhecessem a identidade divina de Jesus.

O contraste entre a zombaria inicial e as declarações posteriores será um dos elementos mais relevantes de nossa investigação.

3. Marcos: o centurião diante da maneira como Jesus morreu

Marcos 15:39 apresenta uma das declarações mais importantes de todo o relato da paixão.

O evangelista informa que o centurião estava diante de Jesus e, ao observar a maneira como ele morreu, declarou:

“Verdadeiramente este homem era Filho de Deus.”

O detalhe decisivo está na relação entre a declaração e a morte de Jesus.

Marcos não apresenta o centurião reagindo principalmente a um terremoto ou a uma sucessão de fenômenos extraordinários.

Sua declaração surge diante da maneira como Jesus expira.

O texto grego utiliza uma construção que associa a percepção do centurião ao modo como Jesus morreu.

Isso merece atenção.

O oficial romano estava habituado a execuções.

A morte de condenados não constituía, necessariamente, um acontecimento capaz de provocar espanto religioso.

Entretanto, a morte de Jesus parece produzir nele uma reação singular.

O evangelista não explica integralmente o processo interior que conduziu à declaração.

Não sabemos se o centurião foi impressionado pela serenidade de Jesus, por seu clamor final, pela maneira como suportou o sofrimento ou pelo conjunto dos acontecimentos.

Qualquer tentativa de reconstruir sua experiência psicológica permanece hipotética.

Mas Marcos estabelece uma conexão narrativa clara entre a morte de Jesus e a declaração do militar.

A expressão “Filho de Deus”

A declaração exige uma análise linguística.

O texto grego de Marcos 15:39 apresenta a expressão huiòs theoû — Filho de Deus.

A ausência de artigo definido nessa construção levou alguns intérpretes a discutir se a declaração poderia ser compreendida como “um filho de deus” ou “um ser divino”, considerando as possibilidades semânticas do ambiente greco-romano.

Entretanto, a ausência do artigo não determina automaticamente um sentido indefinido.

A interpretação precisa considerar a gramática, o contexto e a intenção narrativa.

No Evangelho de Marcos, a identidade de Jesus como Filho de Deus possui importância desde o início da obra.

A declaração do centurião, portanto, ocupa uma posição literária extraordinária.

Aquilo que constitui uma das grandes questões do Evangelho é pronunciado, diante da cruz, por um representante do poder responsável pela execução.

Há aqui uma ironia cristológica poderosa.

Um gentio, integrante do aparato militar romano, declara algo que corresponde à identidade apresentada pelo próprio evangelista.

Mas surge uma distinção indispensável.

O significado teológico da declaração dentro da narrativa não precisa coincidir integralmente com o grau de compreensão religiosa do personagem que a pronunciou.

Marcos pode apresentar uma confissão verdadeira sobre Jesus sem necessariamente afirmar que o centurião possuísse uma cristologia plenamente desenvolvida.

A declaração é extraordinária.

Sua equivalência a uma conversão formal, entretanto, não é demonstrada.

4. Mateus: o centurião e os soldados diante dos acontecimentos

Mateus 27:54 apresenta uma diferença importante.

O evangelista não atribui a declaração exclusivamente ao centurião.

Ele menciona o oficial e aqueles que estavam com ele guardando Jesus.

Além disso, relaciona sua reação ao terremoto e aos acontecimentos que acompanharam a morte.

O texto registra que ficaram tomados de grande temor e declararam:

“Verdadeiramente este era Filho de Deus.”

A diferença em relação a Marcos merece destaque.

Em Marcos, a declaração está diretamente associada à maneira como Jesus morre.

Em Mateus, ela surge diante de um conjunto de acontecimentos extraordinários.

O evangelista menciona o rompimento do véu do templo, o terremoto, a abertura de sepulcros e outros sinais associados à morte de Jesus.

Não é necessário concluir que todos esses acontecimentos tenham sido percebidos diretamente pelos soldados.

O texto destaca particularmente o terremoto e aquilo que presenciaram.

A narrativa de Mateus confere à morte de Jesus uma dimensão cósmica e escatológica.

Não se trata apenas da execução de um inocente.

A própria ordem da criação parece reagir ao acontecimento.

Nesse contexto, a declaração dos militares assume significado ainda mais expressivo.

Homens responsáveis por executar a sentença romana encontram-se diante de acontecimentos que lhes provocam grande temor.

A reação não é descrita apenas como admiração.

É apresentada como medo intenso.

O termo grego relacionado ao temor, phóbos, pode expressar diferentes formas de medo, incluindo o temor diante de manifestações extraordinárias.

Entretanto, não devemos concluir automaticamente que esse temor corresponda à reverência religiosa madura.

O texto registra uma reação intensa diante dos acontecimentos.

A natureza completa da experiência espiritual daqueles homens permanece indeterminada.

Ainda assim, a declaração coletiva é relevante.

Mateus amplia o testemunho: não apenas o oficial, mas também os soldados que o acompanhavam reconhecem algo extraordinário na identidade de Jesus.

Aqueles que participaram da execução tornam-se, no plano narrativo, testemunhas de uma verdade que ultrapassa sua função militar.

5. Lucas: o reconhecimento da justiça de Jesus

Lucas 23:47 apresenta uma formulação diferente das encontradas em Mateus e Marcos.

Ao observar o que havia acontecido, o centurião glorifica a Deus e declara:

“Verdadeiramente este homem era justo.”

O termo grego empregado é díkaios (δίκαιος).

Seu campo semântico inclui as ideias de justo, reto e inocente.

No contexto judicial da paixão, a tradução “inocente” possui força interpretativa considerável.

Lucas havia apresentado repetidamente a ausência de culpa de Jesus.

Pilatos declara não encontrar fundamento para sua condenação.

Herodes também não identifica motivo para aplicar-lhe a pena capital.

O próprio criminoso crucificado ao lado de Jesus reconhece que ele nada fez de errado.

A declaração do centurião, portanto, integra uma sequência narrativa dedicada à inocência do condenado.

Entretanto, o termo díkaios também possui significado teológico importante nas Escrituras.

A justiça não se limita necessariamente à ausência de culpa jurídica.

Pode envolver retidão moral e fidelidade à vontade divina.

Por isso, reduzir a declaração do centurião a uma simples constatação processual talvez empobreça sua profundidade.

Lucas acrescenta um elemento particularmente significativo: o centurião glorifica a Deus.

Essa informação não aparece da mesma maneira em Marcos e Mateus.

O oficial não apenas reconhece a justiça de Jesus.

Sua reação é descrita como um ato de glorificação divina.

No vocabulário lucano, glorificar a Deus frequentemente aparece como resposta a acontecimentos nos quais a ação divina se manifesta.

Isso não comprova uma conversão formal.

Mas permite reconhecer uma dimensão religiosa explícita na reação do centurião.

A diferença é importante.

Marcos destaca a declaração sobre a filiação divina de Jesus.

Mateus associa essa declaração ao temor provocado pelos acontecimentos.

Lucas destaca a justiça de Jesus e a glorificação de Deus.

As três narrativas convergem na excepcionalidade da reação do militar, mas não são idênticas em suas formulações.

6. As declarações são contraditórias?

Uma pergunta inevitável surge da comparação.

Se Mateus e Marcos registram que o centurião declarou ser Jesus Filho de Deus, enquanto Lucas informa que ele o chamou de justo, estaríamos diante de relatos contraditórios?

A resposta depende do que entendemos por contradição.

As declarações não são semanticamente incompatíveis.

Alguém poderia reconhecer simultaneamente a justiça de Jesus e sua filiação divina.

Também é possível que o centurião tenha pronunciado mais de uma frase, e que os evangelistas tenham selecionado declarações diferentes.

Entretanto, essa harmonização não pode ser demonstrada apenas pelos textos.

Outra possibilidade é que as tradições utilizadas pelos evangelistas tenham preservado formulações distintas do testemunho.

Nesse caso, cada autor teria incorporado a declaração que melhor expressava a perspectiva teológica de sua narrativa.

A investigação histórica não permite reconstruir com certeza absoluta as palavras exatas pronunciadas pelo centurião.

Mas a comparação literária permite compreender a função de cada declaração.

Marcos enfatiza a identidade de Jesus. Mateus destaca o reconhecimento provocado pelos sinais extraordinários. Lucas ressalta sua justiça e a glorificação de Deus.

Essas diferenças não eliminam a convergência fundamental: os evangelistas apresentam uma reação extraordinária de um militar romano diante da morte de Jesus.

7. João: os soldados que não fazem uma confissão

O Evangelho de João apresenta uma perspectiva diferente.

Embora descreva a participação dos soldados na crucificação, não registra uma declaração do centurião semelhante às encontradas nos Evangelhos sinóticos.

Essa ausência é importante.

João não precisa reproduzir todos

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