quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

O Livro de Jó - Construindo as bases

Por Jânsen Leiros Jr.


“Onde estou? O que significa dizer: o mundo? Qual é o sentido dessa palavra? Quem me colocou nesta fria e agora me deixou aqui feito bobo? Quem sou eu? Como eu vim parar neste tal de mundo? Por que eu não fui indagado a respeito disto? Por que eu não fui informado dos regulamentos e normas gerais de funcionamento, mas antes fui simplesmente lançado nas fileiras desta turba, como se tivesse sido comprado de um mercador de escravos? Como eu fui envolvido nesta grande aventura chamada de realidade? E por que deveria eu estar envolvido? Não seria isto uma questão de escolha? E uma vez que me sinto compelido a envolver-me, onde está o gerente? A quem devo apresentar minhas reclamações? E já que a vida é um debate, posso eu pedir que minhas observações sejam levadas em consideração? Se temos que aceitar a vida assim como é, não seria adequado descobrirmos como as coisas funcionam?”.

 O anônimo jovem apaixonado ao dirige-se, perplexo, a Constantin Constantius

Obra A Repetição

Søren Kierkegaard

 Seguindo nosso passeio pelo Livro de Jó, e já tendo na memória um resumo bem condensado de seu conteúdo, precisamos abrir espaços para reflexões que nos permitirão olhares mais profundos e um pouco fora do lugar comum, no que se refere a análises mais corriqueiras desse livro e de seus propósitos. Não que o lugar comum não tenha seu espaço garantido e sua importância firmada em boa tradição. Longe disso. Mas entendemos que ângulos mais oblíquos de nossas percepções, podem nos conceder maior amplitude e identificação de questões mais profundas, tratadas com excelência no texto, e que são tão pertinentes em nossos tempos, quanto efetivamente o foram no tempo em que o Livro de Jó foi incorporado à tradição judaica e posicionado em seu cânon. Como obra atemporal, o Livro de Jó tem um significado teológico tão desafiador, e uma narrativa tão rica e intensa, que nos permitirá ultrapassar limites de tempo e de circunstâncias culturais, aplicando sua revelação com total adequação aos dias atuais. Talvez daí se entenda a popularidade tão impressionante desse livro.

Como afirmamos anteriormente, muitos e competentes estudiosos se debruçaram sobre o Livro de Jó, empreendendo profundas e responsáveis abordagens sobre seu conteúdo. E ainda que haja mais convergências nestes estudos do que divergências, algumas e singulares observações precisam ser pontuadas preliminarmente neste nosso trabalho, para que o exercício a que nos dedicaremos não sofra de insuficiência comparativa ou rigidez de pensamento, diante do que mais à frente apresentaremos como pontos particulares de inflexão.

Entre os especialistas que ao longo de nossas páginas citaremos, estão aqueles cujos pensamentos e afirmações nos parece, independente de concordarmos ou não, melhor estruturam suas convicções. Um deles é Gustavo Gutiérrez, teólogo, que abordou a narrativa do Livro de Jó como uma reflexão profunda sobre a natureza do sofrimento humano, destacando o papel da fé diante das adversidades que a vida nos impõe. Outro, em contraste a isso, é o filósofo Søren Kierkegaard que interpretou o livro como um desafio à fé cega, sugerindo que a história de Jó é uma espécie de inspiração divina para que o comportamento religioso ultrapasse suas próprias convenções. Já na esfera da teologia judaica, o Livro de Jó é frequentemente analisado à luz da justiça divina. O Rabino Harold Kushner, autor de "Quando Coisas Ruins Acontecem a Pessoas Boas", explora a ideia de um Deus que não é responsável pelo sofrimento humano, mas sim um consolador diante das tribulações.

            De um jeito ou de outro, nas três abordagens que vimos acima, a análise parte do que acontece ao Jó, e não do que lhe sobrevém pelo que ele é, vive, age ou mesmo pelo que demonstra crer como modelo de existência e relacionamento com Deus. Talvez isso se dê porque sua ilibada e inatacável conduta e reputação o coloque, na maioria das análises, como uma vítima perplexa das circunstâncias, ou no mínimo um inocente envolvido na rixa entre Deus e Satanás, narrada nos primeiros capítulos do livro. Coitado do Jó, tinha nada com isso... estava quieto no seu canto, e vejam onde foi parar...

Não estou, com isso, afirmando ou atribuindo a Jó qualquer culpa, dolo ou responsabilidade direta ou indireta pelo que lhe acontece na história. De modo algum. Pelo menos, não ainda. Entendo, porém, que isola-lo da tensão que a narrativa traz, dando a entender que se trata de alguém apenas envolvido na trama, ou caído de paraquedas, é minimizar ou mesmo desprezar uma oportunidade importante de se entender, com melhores possibilidades, o propósito primordial de sua história, e por que razões sua narrativa encontrou lugar de destaque para inspiração de povos antigos, com força para atravessar séculos e séculos de história. Interessou-se por isso? Eu também. Mas nisso nos aprofundaremos mais adiante, ao comentarmos alguns textos específicos da narrativa de Jó.

Por agora nos concentraremos em enunciar os diferentes temas que costumam ser listados como principais assuntos abordados no livro, e que fundamentam a atenção dispensada a ele mundo afora, com um pequeno resumo sobre o que cada um desenvolve baseado no texto do livro.

O Problema do Sofrimento

Jó enfrenta um intenso sofrimento físico, emocional e financeiro, que o leva a questionar diversos princípios que até então determinavam seu modo de viver. Isso levanta questões sobre a natureza do sofrimento humano, bem como sua origem e seu propósito. Por que pessoas boas sofrem?

A Fé em Meio à Adversidade

A história de Jó questiona a natureza e firmeza da fé em momentos de provação extrema, explorando como a devoção pode persistir apesar de circunstâncias calamitosas e desfavoráveis.

A Justiça Divina e seu Sistema Retributivo

A narrativa do livro, segundo alguns, aborda a questão da aplicação da justiça divina como um processo legal de retribuição do bem e do mal. Para estes, o livro desafia noções tradicionais de recompensa e castigo em relação às atitudes humanas; cada um de nós recebe apenas o que merece?

A Relação Pessoal com Deus

O Livro de Jó aponta para a importância de uma relação pessoal consciente com Deus, optativa e voluntária, indo muito além de rituais formais ou formatos de repetição. Ele destaca ainda a necessária e indispensável autenticidade de uma devoção genuína e legitima por parte de seus adoradores.

O Papel do Apoiador e Conselheiro

Os diálogos entre Jó e seus amigos que o buscavam consolar, provocam profundas reflexões sobre como oferecer o conforto e o conselho, e como devem ser aplicados em momentos de sofrimento e dor inconsoláveis.

A Natureza Insondável de Deus

A narrativa ressalta a impossibilidade de se compreender os meios e propósitos de Deus em sua totalidade, destacando a limitação humana em avaliar as motivações de sua providência e as razões de suas escolhas no tempo. O finito querendo entender o infinito.

A Paciência de Jó e sua Resiliência

Jó é frequente e popularmente citado como um exemplo de paciência e resiliência diante das adversidades cotidianas da vida. Suas atitudes ao longo da história do livro, nos inspira a reflexões sobre a virtude convicta e persistente em meio às tribulações. 

O Valor da Sabedoria

Por isso posicionado entre os livros poéticos e sapienciais no Antigo Testamento, boa parte do Livro de Jó é composta por discursos poéticos e filosóficos, que ensejam inevitável reflexão no leitor, evidenciando o valor da sabedoria na compreensão da vida e da fé.

A Dimensão Ética da Fé

Uma das mais abandonadas questões nas comunidades cristãs na atualidade, a narrativa do livro aborda questões éticas relacionadas à fidelidade a Deus, à integridade moral e à responsabilidade particular diante do sofrimento alheio, quer individual ou coletivo.

A Restauração e Renovação da Vida

O final do livro que narra a restauração de Jó, tanto de sua saúde física, quanto de suas condições financeiras e emocionais, sugere uma mensagem de esperança, apontando para uma consequente renovação da vida após períodos de tribulação, para aqueles que persistem e resistem juntos a Deus, em meio e apesar do caos.

            Em nossos estudos aqui, nos aprofundaremos em cada um desses temas, buscando olhar de forma responsável para cada um deles, sem necessariamente entender que se excluem entre si como temas abordados. Não obstante, tentaremos aprofundar nossos olhares sobre eles, de modo a encontrar suas aplicações mais diretas e transformadoras, para a vida e para as circunstâncias em que nos inserimos hoje. Mantendo o viés poético e teológico que o texto traz, tentaremos compreender a atualidade do livro, à luz do sentido original aplicado ao seu tempo.

Assim, beba um copo d’água e respire fundo. Os próximos mergulhos serão mais longos e demorados. Vamos precisar de fôlego e vontade, tempo e disposição, para seguir nessa aventura empolgante, de explorar tudo aquilo que pode revelar o Livro de Jó.

domingo, 21 de janeiro de 2024

O Livro de Jó - Desafios Preliminares I

Por Jânsen Leiros Jr.

 


 
"Baseado neste enredo simples, um escritor desconhecido de gênio superlativo erigiu uma obra monumental. As perguntas mais persistentes acerca do relacionamento entre os homens e Deus receberam tratamento teológico poderoso em poesia cuja majestade e emoção não são superadas em qualquer literatura, antiga ou moderna. 

JÓ - Introdução e Comentário

De Francis I. Andersen

Pág. 14; Introdução – A história de Jó

 Uma das tarefas mais preliminares e ajuizadas a que um estudioso deve se lançar ao empreender um comentário, qualquer que seja o livro que pretende comentar, é identificar e qualificar seu autor, e conhecer quando, como e porque tal livro foi escrito. Só depois, então, de satisfeito com os dados colhidos e organizados sobre estas questões, poderá iniciar, com alguma segurança, um comentário responsável.  Ato contínuo, o estudo e a compreensão do texto do livro, será minimamente orientado pelas informações acumulados nesta fase. Assim rezam as boas práticas. O livro de Jó, porém, sofre do que costumo chamar impertinência normativa.

Escrito, por alguém que não se sabe quem, em um lugar que não se sabe onde, e por uma razão que não se sabe ao certo porque, o livro de Jó é um case de insucessos especulativos dos mais diversos e renomados estudiosos bíblicos e teólogos mundo afora, que se lançaram na elucubração metodológica de pontuar assertivamente, cada um dos fatores preliminares de qualquer estudo: quem, quando, onde e por que.

As especulações sobre o livro de Jó se iniciam mesmo antes das pesquisas preliminares, quando o próprio personagem central da história, tem sua existência questionada pelo próprio processo crítico-literário de seu conteúdo. Apresentado como uma dramatização bem organizada e com discursos bem estruturados, coerentes e lógicos, a narrativa apresenta uma complexidade muito bem elaborada, difícil de encontrar paralelismo na realidade cotidiana da vida humana, onde o improviso das falas, argumentos e contra-argumentos, não permitiriam um encadeamento tão perfeito de ideais e conceitos a se defender por seus oradores.

             Por estas questões, o estudo do livro de Jó, entendo, começa bem parecido com a história de seu próprio personagem; mesmo buscando fazer o que é certo se vê, por sua nova realidade, mergulhado em incertezas profundas, que o obriga a desconstruir muitas de suas percepções anteriores, para reiniciar um melhor entendimento e conhecimento de Deus; legitimado, transformado e renovado. Nossas convicções, creio, passarão pelo mesmo e estreito caminho.

Assim, para facilitar-nos a compreensão e nos provocarmos às mais corajosas induções e deduções ao longo do estudo, iremos ordenadamente cumprir o passo a passo do manual do bom comentário, indo desde um resumo necessário do conteúdo do livro, até a avaliação da integridade de seu texto, passando pela discussão de sua autoria, onde e quando foi escrito, e por que participa do compêndio bíblico, sendo assim aceito como Palavra de Deus.


              I.        A história do Livro de Jó

A história de livro de Jó muito provavelmente figura entre as histórias bíblicas mais conhecidas em todo o mundo. Usada até mesmo como ditado popular, a história de Jó não possui questões teológicas intrincadas, conceitos filosóficos complexos, ou mesmo apelos éticos de difícil elaboração. Muito pelo contrário, sua história é simples, sua comunicação direta, e seu recado pra lá de evidente. Por que, então, e apesar de toda a simplicidade, esse livro traz tantas inquietações e provoca tanta curiosidade nos mais diversos grupos religiosos com acesso à sua história?

Uma resposta possível, talvez, sejam os temas que o livro abordará, mesmo sem que possamos ter a certeza de que tal tenha sido a pretensão original de seu autor. Assuntos como o mal, o sofrimento, a justiça e a soberania de Deus, ocuparão páginas e páginas, visitando os discursos feitos por Jó, seus amigos, e por fim pelo próprio Deus, numa sequência de tirar o fôlego, quase não deixando espaço para o leitor descansar. 

Começando por uma rápida qualificação do personagem principal, o autor logo corta para uma conversa de bastidor entre Deus e Satanás, que servirá de estopim para todos os infortúnios que advirão sobre Jó e sua família. Numa sequência que lembra o início do filme Desventuras em Série, tudo de ruim acontecerá para Jó, que ao final dos trágicos acontecimentos preliminares, vai dizer: louvado seja Deus. 

Não bastasse a tragédia que se abate sobre sua vida, a esposa do nosso personagem, assistindo seu sofrimento e perplexa diante de sua aceitação dos fatos, propõe, com uma das mais controversas falas bíblicas na atualidade: amaldiçoe a Deus e morra. Por que? Ela teria razão no que está dizendo? Estaria consciente do devaneio de sua fala? Jó entende que não. Mas seus amigos entendem que sim. Ou que ao menos toda aquela coleção de infortúnios só pode querer dizer uma coisa: Jó teria aprontado alguma coisa muito feia. Inominável. Um segredo que o consumia, posto que, guardado, lhe vinha provocar desonra pública e muitas chagas. A demonstração inquestionável da reprovação de Deus. Uma punição direta e dolorida. Ele precisaria então confessar seu pecado para que tudo viesse a ser restaurado em sua vida. E enquanto isso, seus amigos estariam ali para lhe consolar e amparar. Seria mesmo só essa a intenção daqueles homens?

Jó resiste bravamente. Incitado continuamente a confessar o que não fizera, seu discurso se volta para aquele que entende estar agindo com injustiça para com ele; Deus. Que diante das argumentações e defesa que Jó faz de si mesmo, não se ocupa em responder tais argumentos. Em vez disso, revela ao próprio Jó a grandeza e magnitude de seus propósitos desde a concepção do universo, até o momento presente daquela conversa, afirmando-se eterno, onisciente e soberano. É verdade, o texto não registra. Mas minha impressão é a de que Jó empalidece, posto que seus argumentos cessam.

Transformado em todo seu entendimento e conhecimento de Deus, Jó demonstra novo olhar sobre a própria existência, e tem, por Deus, restaurada toda a sua vida, em condições superlativas àquelas que tinha anteriormente. E tudo acaba bem. 

Ora, não parece tudo simples e fácil como história? Penso que sim. Bem simples. E fiz questão de escrever toda esta sequência de memória, sem sequer recorrer a esboços ou resumos acadêmicos sobre o Livro de Jó, tamanha a simplicidade de sua história narrada. Fácil de memorizar. 

                Acontece que esta banda é na verdade uma orquestra. Tudo isso que, como melodia fácil de ser lembrada se reconhece de longe quando executada, de perto se revela uma das mais extraordinárias composições do universo, repleta de compassos, fusas e semifusas, fermatas e acordes dissonantes, tocados por diferentes e inesperados instrumentos, que harmoniosamente produzem uma das mais belas obras primas da literatura bíblica, e por que não dizer, universal?

domingo, 29 de outubro de 2023

O Livro de Jó - Desafio Transformador

 Por Jânsen Leiros Jr.



 "É uma atitude presunçosa comentar sobre o livro de Jó. Ele está repleto da realidade temível do Deus Vivo. Como Jó, somente se pode por a mão na boca (40:4). Deus, porém, Se revelou conservando, ao mesmo tempo, o mistério inacessível da Sua própria existência. Devemos, portanto, tentar esta coisa impossível que Ele toma possível (Mc 10:27). Por mais medo que Ele cause, Ele nos fascina irresistivelmente até que, mediante “a bondade e a severidade” (Rm 11:32), nos leva à própria maneira, à satis[1]fação e alegria finais de Jó. A história de Jó é um convite e um guia para descobertas como a dele. É especialmente o livro para quaisquer pessoas que se acham “no dia da doença de Jó” como resultado dalguma experiência abaladora.” 

JÓ - Introdução e Comentário

De Francis I. Andersen

Pág. 8; prefácio do autor

 Sempre que somos colocados diante de questões complexas, temos a tendência de, ou minimizar tal complexidade desconcertante, ou eleva-la a um grau de exigibilidade e pertinência, que eventualmente está muito além de nossas parcas capacidades para desvendar. Relativamente ao livro de Jó não é diferente. Muito pelo contrário! 

Se a tarefa teológica de comentar livros bíblicos já é por si só desafiadora, já que falamos de textos antigos, contextos remotos, e de culturas passadas com pouco ou nenhum registro histórico-científico confiável, imagine quando tal tarefa se concentra em um livro em que as poucas fontes se tornam ainda mais escassas, ou não existem na prática. Esta é a realidade de quem se pretende a desafiar Jó.

 Diante de tal circunstância, penso que o professor Francis, de quem emprestamos o texto acima, tem toda a razão ao afirmar ser uma atitude presunçosa partir para um estudo deste livro. Mas considerando que tal presunção não o impediu de enveredar-se por este caminho – e ele mesmo tornou-se uma das boas referências sobre o assunto, devo acreditar que o desafio se lhe tornou prazeroso em bem pouco tempo ao partir em sua jornada, pois o que vemos em seu comentário é um estudioso encantado com suas descobertas, muito mais do que academicamente ocupado em extrair obviedades do texto. Seria esta a parte do temor e fascínio que ele mesmo afirma sentir? Talvez, mas penso que daqui, da porta, não será possível respondermos esta questão. Então é melhor entrarmos. Você é meu convidado.

  Quando propus aos meus alunos o tema Jó entre outros livros do Antigo Testamento, houve plena unanimidade em sua escolha como tema para o novo período de estudos. Penso que eles não imaginavam no que estavam se metendo. Mas confesso que eu também não. Porque, sem querer dar spoiler sobre as questões que já já debateremos, posso adiantar que poucas vezes em minha razoavelmente adiantada experiência cristã, estive tão confrontado em meus instintos religiosos mais básicos, primitivos e equivocados. Andei sobre a linha tênue que divide uma legitima vida piedosa, do ufanismo religioso hipócrita, muito comum e de grande oferta em nossos dias.

 
Assim, lembrando que todos os nossos registros aqui constituem uma obra aberta, posto que sustentada em convicções transitórias sempre em busca de melhores percepções, convido você a inaugurar uma jornada inquietante por este livro tão desafiador, revelador, e sobretudo transformador. Aliás, esta foi a sensação principal do próprio Jó ao sair do outro lado do túnel que atravessou; “antes... mas agora”. Porque, no final das contas, texto que apenas informa e não transforma, embrulha o peixe.

domingo, 12 de março de 2023

Antegosto da Glória

Por Jânsen Leiros Jr.

 

”3 Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua grande misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, 4 para uma herança incorruptível, incontaminável e imarcescível, reservada nos céus para vós, 5 que pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé, para a salvação que está preparada para se revelar no último tempo; 6 na qual exultais, ainda que agora por um pouco de tempo, sendo necessário, estejais contristados por várias provações, 7 para que a prova da vossa fé, mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo; 8 a quem, sem o terdes visto, amais; no qual, sem agora o verdes, mas crendo, exultais com gozo inefável e cheio de glória, 9 alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas.”

1 Pedro 1:3-9 – ARA

 A capacidade de enxergar além do que nossos olhos alcançam, parece, desde sempre, uma das grandes dificuldades de nossa existência. O que não vemos ou não podemos tocar, provocam curiosidade, e até alguma perplexidade, diante da tentativa de vislumbre do além; quer seja do nosso, em particular, quer seja do mundo como o conhecemos. Sem sombra de dúvida, a pergunta universal que há milênios mais perturba a humanidade é: existe vida para além da vida?

É impossível não considerar que, ao longo de nossa história, nossa existência teve sua dinâmica alterada diversas vezes e por múltiplas influências. E é claro, as percepções e perspectivas a respeito da vida e de sua continuidade para além "do sono", foram revisitadas a cada novo contexto, à medida que os anseios e conclusões da humanidade concernentes à vida, foram se ajustando à sua realidade e premências.

Não muito diferente do que acontece hoje, a preocupação primeira e comum nas diversas sociedades desde a antiguidade, era conquistar uma feliz vida boa. A vida que valia à pena ser vivida. Longa, tranquila e próspera. Nesta direção e com esse propósito, tudo o mais se realizava dia após dia. Longevidade, com dias tranquilos e razoável prosperidade, foi e ainda é sinônimo de felicidade e sucesso na vida. Muitos foram os trilhos utilizados ao longo dos séculos. Mas o destino a se alcançar foi quase sempre o mesmo.

Com o passar do tempo, vez por outra alguém atravessava essa ideia de vida boa, com conceitos divergentes e até mesmo assustadores, pois fugiam dos padrões tão consagrados, e aos conceitos tão convenientemente construídos. Alguns foram até mesmo taxados como loucos, ou no mínimo como sonhadores. Ora, alguns personagens na narrativa bíblica se colocaram como expoentes desse rompante contrário ao "duradouro, sereno e compensador", e caminharam na contramão do que se considerava razoável

Tais personagens, apesar de experimentarem circunstâncias confortáveis, que naturalmente tendenciavam ao sucesso, entenderam que a existência humana, ou pelo menos as suas existências, precisariam buscar um sentido além ou muito além e adverso daquele a que haviam se proposto antes do click inquietante; a centelha do além. Além de tudo isso aqui, além de mim aqui, além da vida que vivo aqui.

Abraão deixou tudo. Moisés deixou tudo. E tantos outros abandonaram o que tinham ou o que eram, para se abandonarem em um caminho novo, desconhecido e sem quaisquer garantias tangíveis. Tudo movido pelo desejo de ir além. Afinal, a vida, por melhor que estivesse, não podia ser apenas aquilo. Salomão que o diga! Temos então, que alguns poucos, em toda nossa história, olharam para a vida que há além da vida, e buscaram ver, ouvir, sentir, e até tocar, no que existe para além do instante da morte.

Muito já se especulou, portanto, quanto ao que acontece após a temida morte; mais temida hoje que outrora. E entre os cristãos também há muitas especulações, já que diferentes e até divergentes interpretações, provocam variadas teorias sobre o que é e onde se dá a vida que teremos além da vida que temos.

Lamentavelmente, posso afirmar categoricamente, que ninguém, quer seja leigo, quer seja o mais preparado dos teólogos, conseguirá fechar conceito minimamente perto do que efetivamente viveremos. Afinal, nem olhos viram nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano, o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Algumas pistas, no entanto, bem podemos seguir, acompanhando o que o texto bíblico em todo o seu conjunto, nos apresenta sobre novos céus e nova terra.

É disso que nos ocuparemos nas próximas duas ou três quintas-feiras. Vamos buscar possibilidades e trabalhar na construção de algumas convicções. A ideia não é nem de perto fecharmos questão sobre o tema que é tão amplo e controverso. Mas é, sem qualquer sombra de dívida, nos proporcionar o mais apetitoso, saboroso e inspirador, antegosto da gloria.


terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Quem foi que mandou?

Por Jânsen Leiros Jr.

 

 "1 Depois da morte de Moisés, servo do Senhor, falou o Senhor a Josué, filho de Num, servidor de Moisés, dizendo: 2 Moisés, meu servo, é morto; levanta-te pois agora, passa este Jordão, tu e todo este povo, para a terra que eu dou aos filhos de Israel.3 Todo lugar que pisar a planta do vosso pé, vo-lo dei, como eu disse a Moisés.4 Desde o deserto e este Líbano, até o grande rio, o rio Eufrates, toda a terra dos heteus, e até o grande mar para o poente do sol, será o vosso termo. 5 Ninguém te poderá resistir todos os dias da tua vida. Como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei, nem te desampararei. 6 Esforça-te, e tem bom ânimo, porque tu farás a este povo herdar a terra que jurei a seus pais lhes daria.7 Tão-somente esforça-te e tem mui bom ânimo, cuidando de fazer conforme toda a lei que meu servo Moisés te ordenou; não te desvies dela, nem para a direita nem para a esquerda, a fim de que sejas bem sucedido por onde quer que andares.8 Não se aparte da tua boca o livro desta lei, antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme tudo quanto nele está escrito; porque então farás prosperar o teu caminho, e serás bem sucedido.9 Não to mandei eu? Esforça-te, e tem bom ânimo; não te atemorizes, nem te espantes; porque o Senhor teu Deus está contigo, por onde quer que andares.

Josué 1:1-9 - JFA

Essa passagem bastante conhecida do texto bíblico, revela muito sobre o que é agir com confiança em Deus, apesar de circunstâncias e condições desfavoráveis, que insistem em nos amedrontar, ou até mesmo nos paralisar diante de desafios que se impõem sem qualquer aviso prévio. Quem nunca?


O contexto histórico nos remete aos momentos posteriores à morte de Moises, líder do povo hebreu, que o conduziu por longos 40 anos pelo deserto do Sinai, após a saída do cativeiro de 400 anos no Egito. Ora, o povo não havia perdido um líder qualquer. E não ter mais Moises à frente do povo, mesmo para os mais experientes e preparados, significava não ter mais de sua incontestável liderança, capacidade de decisão, e relacionamento profundo com Deus. A perda de um líder tão presente e atuante podia mesmo causar receios, cuidados e incertezas, como o texto acima sugere.

Moises é morto; levanta-te, pois, agora. O texto é claro. E não é necessário ser grande intérprete, para compreender que a fala de Deus a Josué, não é uma notícia, mas um alerta, uma chamada à responsabilidade; está esperando o quê? É claro que a ausência do líder gerou alguma espécie de espera contemplativa, uma atitude bem comum diante do desconhecido à frente. Os discípulos que acompanhavam Jesus quando ele foi assunto aos céus, tiveram um lapso semelhante, olhando para cima, sem ação, sem saber o que fazer a partir daquele momento.

O mais comum em circunstâncias como esta, quando a pessoa que consideramos essencial nos falta, é pensarmos que, seja quem for o próximo ocupante da função, ninguém poderá fazer melhor ou minimamente igual, de modo a trazer resultados semelhantes, ou causar segurança parecida. Mais especialmente em relação a Moises, quem o poderia superar? Quem poderia minimamente se equiparar a ele? E diante dos receios, a inércia.


Acontece que o próprio Deus, no texto em destaque, começa a colocar as coisas sob as perspectivas corretas. Como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei, nem te desampararei. Ou seja, não foi Moises quem fez, mas eu. Logo, se ele fez porque eu estava com ele, você também fará porque eu estarei com você; o realizador ainda é o mesmo. O próprio Deus.

Ainda que até aqui tudo pareça meio óbvio, na prática não é. Tendemos a subestimar capacidades, preparos, condições e circunstâncias, tentando encontrar razões em nós mesmos, em coisas ou em condições, para um eventual fracasso futuro diante daquilo para o que somos chamados a realizar. Dessa forma produzimos uma espécie de conforto prévio e bastante conveniente. Uma espécie de desconfiança legitima, que recai, não sobre Deus, claro, mas sobre nossas próprias impossibilidades; confiar em Deus eu confio. Eu não confio é em mim. Ora, não somos chamados a confiar em quem quer que seja. Nem em nós ou em nossas capacidades, senão exclusivamente em Deus, que confronta com veemência, esse sutil gatilho de falta de fé.

É evidente, porém, que Deus nos conhece profundamente. Conhece a alma humana e suas armadilhas. Ele conhece nossas ardilosas sabotagens contra nós mesmos, que se concentram em maior número, não na falta de capacidade ou na inexistência de um cenário perfeito, mas na verdadeira falta de vontade. De boa vontade; bom ânimo.


Esforça-te e tem bom ânimo
. Para entusiastas da meritocracia, essa frase dita por Deus a Josué é a demonstração inquestionável de que o Criador premia aqueles que se esforçam e vencem seus desafios, em quaisquer níveis em que se apresentem; “seus esforços serão recompensados”. Mas não é disso que Deus está falando. Não é de esforço próprio, obra de nossas mãos. Não é da dedicação atlética que abre caminho à vitória. Nem mesmo está falando, apenas de outro jeito, sobre o famoso “faça por ti que eu te ajudarei”. Deus está falando de fé. De confiança. Daquela chama que tira da inércia. Da certeza incondicional de que “assim será se Ele quiser”. Ele está falando de levanta e anda.

Transpõe o Jordão. Não te falta nada para isso. Assim como estive com Moises estarei contigo. Ninguém te resistirá. Eu estarei contigo. Levanta e anda, não porque em levantando eu recompensarei tua atitude, mas porque já está feito. Transpõe o Jordão. Eu já o determinei que assim é.

Uma das características que mais me encanta nesse texto, confesso, é a ideia de que Deus se antecipa às possíveis objeções de Josué, à medida que lhe é revelada a missão que está em suas mãos. Tão somente esforça-te. Não há outra tarefa a realizar. Não há outro preparo a atingir. Não há contingente a reunir, ou mesmo tempo a esperar. Tão-somente esforça-te e tem mui bom ânimo. Sai da inércia, confie, levanta e anda. Transpõe. Empolgue. Sim, contagie. Não artificialmente, mas por firmeza de propósito, próprio dos que sabem em quem têm crido, e de que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo aquilo que pedimos ou pensamos. E se é assim quando pedimos, imagina quando ordena!


Tão-somente esforça-te e tem mui bom ânimo, cuidando de fazer conforme toda a lei que meu servo Moisés te ordenou.
E aí está mais uma armadilha para os meritocracistas de plantão. Há quem defenda que a obediência à palavra foi a condição imposta por Deus para o sucesso de Josué. Mas isso não está escrito aqui. Ao contrário, Deus está falando de ganho em confiança, em ânimo, em força realizadora. Não em barganhas.

Não se aparte da tua boca o livro desta lei, antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme tudo quanto nele está escrito; porque então farás prosperar o teu caminho, e serás bem-sucedido. Observe o quanto o versículo 8 acima, é semelhante ao Salmo primeiro. A observância da Palavra prospera o caminho. Não é uma recompensa de Deus; porque então farás (tu mesmo) prosperar o teu caminho. A Palavra melhora a capacidade de decisão, amplia as percepções, aumenta nossa sensibilidade. A Palavra nos melhora e dá bom ânimo. A Palavra nos amplia a confiança. Ou não é na Palavra que encontramos razões para esperar contra a esperança?

                    Por fim, ainda que não por último, Não to mandei eu? Esforça-te, e tem bom ânimo; não te atemorizes, nem te espantes; porque o Senhor teu Deus está contigo, por onde quer que andares. Que podemos livremente traduzir como: Não fui eu que te mandei ir? Então não tema a caminhada.

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