segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Eu quero você, vivo ou morto



Por Jânsen Leiros Jr.


“9 Mas evita questões tolas, genealogias, contendas e debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs. 10 Ao homem faccioso, depois da primeira e segunda admoestação, evita-o, 11 sabendo que esse tal está pervertido, e vive pecando, e já por si mesmo está condenado.
Tito 3:9-11 - JFA


“13 Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom procedimento as suas obras em mansidão de sabedoria. 14 Mas, se tendes amargo ciúme e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. 15 Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica. 16 Porque onde há ciúme e sentimento faccioso, aí há confusão e toda obra má. 17 Mas a sabedoria que vem do alto é, primeiramente, pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia. 18 Ora, o fruto da justiça semeia-se em paz para aqueles que promovem a paz.
Tiago 3:13-18 - JFA

Seguindo nosso compromisso de comentarmos sobre os acontecimentos da última quinzena, nesse texto falaremos do mais perigoso e letal motivador de extremismo; o radicalismo religioso. É importante ressaltar que isso nada tem com um rigor do devoto em seguir os preceitos de sua crença. A intolerância religiosa não transita pelos corredores da pregação que pretende a uma conversão, mas sim pelo submundo da imposição de conceitos e práticas, que pretende estabelecer um só modelo de pensamento e conduta; uma unidade gerada à força, e uma concordância nascida na opressão.

Ao fiel o céu, ao infiel a morte. Esse comportamento separatista e sectário, não traduz senão o desejo de dominação de líderes que pretendem controle absoluto dos atos, desejos e projetos de seus adeptos. Toda resistência a seus costumes e ordenanças é, na prática, risco iminente ao seu domínio sobre a vida de outros. Para essa gente, a liberdade é a mais repugnante das possibilidades humanas, e a mais aviltante ambição. Se alguém se pretende livre ou se dá o direito de pensar diferente, precisa necessariamente ser eliminado. E não só isso, mas arrancado exemplarmente do mundo dos vivos. Suas mortes precisam ser, antes de mais nada, a instauração do terror; a conveniente imposição da dominação pelo medo. Foi assim nas Cruzadas e na inquisição, bem como o é hoje no Oriente Médio e em diversas partes pelo mundo afora, onde a religião de uns, é violentamente imposta a outros, eliminando-se os resistentes.

De qualquer forma, quando se chega a esse grau de extremismo, é mais simples identificar o espírito faccioso. Ele se torna flagrante e expresso de uma forma inconfundível. Todos sabem o que é um radical extremista. Mas é importante lembrar que nenhum movimento extremista, por mais radical que seja, se inicia terrivelmente violento ou flagrantemente exposto. Pelo contrário, todo extremismo começa lento e subreptício, com atos simples de sectarismo pseudo-piedoso, como uma louvável atitude de separação entre coisas puras e impuras. Um ato aceitável de santidade aparente. Nós somos e eles são. Nós aqui e eles acolá. Nós pra cá, eles pra lá. Depois vêm os rótulos, e em seguida a escalada ao radical e ao extremo.

Tudo e qualquer coisa é capaz de servir de mote para um faccioso. A predileção esportiva, os ideais políticos, as opiniões controversas, as doutrinas divergentes. E tanto isso é verdade, que Paulo alerta Tito sobre o perigo de questões tolas, genealogias, contendas e debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs. Elas provocam amargo ciúme e sentimento faccioso, dirá Tiago mais a frente. E por que é assim? Simples, porque o motivo pouco importa. Há gente por aí sedenta, à caça de motivos para dar vazão à sua sanha por contendas, disputas e guerras. Porque onde há ciúme e sentimento faccioso, aí há confusão e toda obra má.

Ora, não há razão nem motivação, por mais nobre que esta possa parecer, que justifique o radicalismo e a intolerância. Nem mesmo as nobres pretensões religiosas, pretensiosamente puras e santas, pois o fruto da justiça semeia-se em paz para aqueles que promovem a paz. Não há como justificar uma guerra santa. Não há qualquer nobreza na intolerância e nem no radicalismo. Mas a sabedoria que vem do alto é, primeiramente, pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia.

Por isso mesmo é muito importante manter atenta vigilância às potenciais atitudes, ou discursos facciosos que surgem nos mais improváveis e insuspeitos grupos, independente do que têm em comum ou que os irmana. Separatismos e segregações brotam e forçam passagem todo o tempo. Nada é mais primitivo que o surgimento de tribos. Se é natural nos juntarmos por afinidades e projetos em comum, crer que nossos códigos é o sumo bem e que os dos outros é o mal a ser extirpado, é o primeiro passo para sangrentas disputas religiosas, por mais inocentes e bem-intencionadas possam ser em seus nascedouros.

É por isso que Paulo lança o discurso de que nossa luta não é contra carne nem contra o sangue[1]. Não é contra pessoas que nos levantamos. Nossa luta é nas regiões celestiais. Ora, regiões celestiais são acessadas com oração e devoção a Deus[2]. Como então se justifica a luta contra pessoas? Corremos o risco da incoerência, mas é necessário ser intolerante com a intolerância. O espírito faccioso se alimenta da omissão de quem o assiste crescer, considerando ser impossível evitar sua proliferação. E como bem se diz, para que o mal se instale, basta que o bem se cale.

O que temos assistido acontecer ao redor do mundo, não começou desse tamanho. Ninguém iniciou ontem o processo de intolerância que culminou nas mortes de Paris. O espírito faccioso foi espalhando ideias, implantando o ódio, formando opinião de que os outros devem ser convertidos ou mortos. Eles nos querem vivos ou mortos. E sem qualquer predileção, desde que não haja mais qualquer pessoa pensando diferente.

Portanto, nesses dois últimos textos falamos de dois tipos de comportamento que precisam ser reconhecidos e apontados, além de tratados. Eles são camufláveis e bem disfarçados. Se o descaso do espírito sabotador pode causar mortes, o espírito faccioso causa matanças. Ambos demandam nossa atenção, nosso cuidado. Porque sempre nos disporemos a solucionar seus estragos. Mas tenho certeza de que sempre nos será muito mais interessante e feliz, impedir seus estragos. Sejamos atentos, firmes e constantes, sempre abundantes no Senhor[3].



[1]  Efésios 6:10-20
[2]  Romanos 15:30-33
[3]  1 Corintios 15:58

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

No espelho, em frente o inimigo



Por Jânsen Leiros Jr.


“5 Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo, 6 não servindo somente à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus, 7 servindo de boa vontade como ao Senhor, e não como aos homens. 8 Sabendo que cada um, seja escravo, seja livre, receberá do Senhor todo bem que fizer.
Efésios 6:5-8 - JFA


“22 Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo somente à vista como para agradar aos homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor. 23 E tudo quanto fizerdes, fazei-o de coração, como ao Senhor, e não aos homens, 24 sabendo que do Senhor recebereis como recompensa a herança; servi a Cristo, o Senhor. 25 Pois quem faz injustiça receberá a paga da injustiça que fez; e não há acepção de pessoas.
Colossenses 3:22-25 - JFA

Ontem falamos das tragédias ocorridas em Mariana-MG e em Paris-França, onde motivações diferentes causaram perdas materiais mas sobretudo humanas, causando grande consternação em todo o mundo. A reboque, deixaram um rastro de medo e de dúvida sobre o que virá à frente. Tais fatos são estopins, ou desfechos? Olhando a história, ainda que considerando as diferenças de suas origens, percebemos que não passam de mais um triste capítulo na história da humanidade.

Também ontem falamos que tais episódios se caracterizavam por duas matrizes distintas, sustentadas no comportamento humano viciado; o descaso e o radicalismo, que chamamos respectivamente de espírito sabotador e espírito faccioso. Pois então hoje nos concentraremos no primeiro; o sabotador que provoca acidentes, desastres e tragédias, com pequenos ou grandes prejuízos. Nem mesmo ele sai ileso. Seu inimigo íntimo.

Antes de mais nada é necessário entender que, ao usarmos espírito, não falamos de uma pessoa, um único personagem. Não estamos aqui tentando encontrar um vilão estabelecendo um culpado. Estamos identificando, isso sim, um comportamento temerário, uma atitude de desleixo e descaso, que ora por preguiça, ora por falta de interesse naquilo que não lhe é próprio ou conveniente, faz com que distrações ou questões menores recebam atenção e empenho, no lugar de tarefas ou preocupações realmente imperiosas e vitais. A inversão das prioridades.

O que convencionamos chamar de espírito sabotador, é aquela ambiência em que tudo se faz por menos. Menos empenho, menos atenção, menos cuidado, menos planejamento, e principalmente menos atitude responsável com tudo aquilo que não seja eu. Esse comportamento é aquele que não completa as tarefas necessárias, não cumpre os prazos acordados, não segue as normas definidas, não age com prudência, e que se exime de seguir toda e qualquer regra. O espírito sabotador é aquele em que se pensa levar vantagem em transgredir a conduta que se espera de nós. - É pra eu fazer isso, mas como eu sou eu, então eu não faço isso, ou faço o contrário ou aquilo. Um protagonista do desvio ou um antagonista ao bem.

O sabotador transgride por princípio e sabota por costume. Ele compra o material mais barato ainda que de menor qualidade e fora das especificações, ele induz processos normativos para atender seus interesses, ele vicia concorrências para se favorecer de dinheiro público, ele enrola durante o expediente e jamais realiza o que se espera dele. E se algo precisa dar certo, ele inercialmente torce contra e visceralmente espera que dê tudo errado, para que então possa dizer que ninguém faz melhor que ele. Ou seja, o espírito sabotador é um câncer que adoece mortalmente qualquer instituição, seja ela uma empresa, um órgão público, uma ONG, um clube, ou mesmo uma simples e despretensiosa família. Vidas são ceifadas no rastro do sabotador. Inclusive a dele. E depois ele diz, o inferno são os outros.

Quando determinados cuidados precisaram ser tomados no monitoramento das barragens de Mariana, certamente o sabotador agiu minimizando os riscos e preferindo análises superficiais a custos mais baixos. Quando algum funcionário precisou realizar diligentemente suas inspeções, ele fez por menos pois tinha algum outro compromisso ou interesse para o mesmo horário. Quando os índices de controle precisaram ser checados e conferidos, faltou exatidão e empenho na tarefa, pois o que o responsável menos queria era estar ali, cumprindo seu papel com enfado e à meia-boca. A característica mais aguda do sabotador é ser preferencialmente relapso.

Não é difícil perceber, portanto, que para o sabotador, o único interesse é ele mesmo. O custo de ser diligente e agir preventivamente, pensa ele, diminui seu lucro ou lhe gera prejuízo, seja ele financeiro, social ou apenas casual. O sabotador trabalha em favor do caos, ainda que às vezes inconscientemente, para que ele se apresente como solução. Vaidade, arrogância e presunção; lucro e vantagem desejados na sabotagem.

Quando Paulo escreve os textos acima, tanto em sua Carta aos Efésios quanto em sua Carta aos Colossenses, ele muda a ótica do servo, ou trabalhador nos dias atuais. Ele sabe que muitos servos realizam suas tarefas contrariados, mal suportando viverem sob a dominação romana, ou mesmo não aceitando suas condições de trabalho ou exigências e circunstâncias. Paulo precisa orientar tais servos, deixando claro que qualquer descaso no cumprimento de suas tarefas, bem denota desrespeito com Aquele que nos concede todas as coisas.

Paulo também sabe que o comportamento humano natural, é agir corretamente apenas diante daqueles que possuem alguma autoridade ou superioridade hierárquica. Assim ele atravessa o mundo das desculpas que justificariam o menos, e lhes diz que suas atitudes e realizações, mesmo que sem a supervisão de alguém, devem ser, como ato de adoração, executadas com diligência e esmero, como se para o Senhor o fosse. Isso igualava tanto servos quanto livres, tanto os felizes quanto os insatisfeitos. A ótica de realizar como se para Deus o tivesse realizando, iguala toda a humanidade, independendo de condição social, profissional ou ideológica. Assim não há espaço para o sabotador, pois não se trata mas de não fazer o errado, mas antes esmerar-se em fazer sempre certo, como oferta ao Senhor.

O mundo inteiro está infestado do espírito sabotador. O Brasil, por sua vez, lotado dele, desde seus governantes, até os mais simples cargos em uma empresa privada qualquer. O espírito sabotador passa por prestadores de serviço, hospitais, delegacias, quartéis, repartições públicas, e órgãos de serviços essenciais. Acha que eu exagero? Tente depender de qualquer desses entes em casos prementes, e então repense sua dúvida. O espírito sabotador é aquele que gera a dificuldade, para que então possa vender a facilidade. Ele se alimenta de pequenas e desprezíveis vantagens.

Quando nosso empenho está alicerçado fora de nós e de nossos umbigos, quando nossos interesses estão olhando para além de nós mesmos e de nossas conveniências, o espírito sabotador perde força. Um clima de boa vontade e generosidade se instala, mobilizando pessoas que jamais pensávamos que se engajariam em qualquer ideologia ou método exemplar de conduta profissional. A negligência da lugar à diligência e o relapso é substituído pelo dedicado e devotado. Todos buscam um bem comum.


Portanto, diz Paulo, aquele que trabalha, trabalhe como que para Deus, que em segredo recompensa. O que espera reconhecimento humano, por esse reconhecimento viverá a sabotar a si e aos outros. Mas quem descansa no cuidado de Deus e em sua justiça, sabe a quem deve agradar com seu labor. Quem sabe assim, outras tragédias não venham a ser evitadas, outras vidas e bens sejam poupados, o mundo inteiro seja livrado desse mal? Que Deus nos inspire a isso.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Vai faltar bandeira



Por Jânsen Leiros Jr.


“5 Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo, 6 não servindo somente à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus, 7 servindo de boa vontade como ao Senhor, e não como aos homens. 8 Sabendo que cada um, seja escravo, seja livre, receberá do Senhor todo bem que fizer.
Efésios 6:5-8 - JFA


“22 Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo somente à vista como para agradar aos homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor. 23 E tudo quanto fizerdes, fazei-o de coração, como ao Senhor, e não aos homens, 24 sabendo que do Senhor recebereis como recompensa a herança; servi a Cristo, o Senhor. 25 Pois quem faz injustiça receberá a paga da injustiça que fez; e não há acepção de pessoas.
Colossenses 3:22-25 - JFA


“9 Mas evita questões tolas, genealogias, contendas e debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs. 10 Ao homem faccioso, depois da primeira e segunda admoestação, evita-o, 11 sabendo que esse tal está pervertido, e vive pecando, e já por si mesmo está condenado.
Tito 3:9-11 - JFA


“13 Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom procedimento as suas obras em mansidão de sabedoria. 14 Mas, se tendes amargo ciúme e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. 15 Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica. 16 Porque onde há ciúme e sentimento faccioso, aí há confusão e toda obra má. 17 Mas a sabedoria que vem do alto é, primeiramente, pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia. 18 Ora, o fruto da justiça semeia-se em paz para aqueles que promovem a paz..
Tiago 3:13-18 - JFA

As redes sociais continuam cumprindo um papel importantíssimo na sociedade, principalmente o de lançar na nossa cara a realidade de que continuamos lutando pelo que menos importa, fazendo de coisas menores e sem importância, bandeiras que hasteamos em nome de predileções pessoais, como se estivessem eivadas do que é certo, em contraste de bandeiras outras, defendidas por outros, que reputamos arrogantemente como erradas, ou na melhor das hipóteses impróprias. Um comportamento faccioso de origem; um outro lado de uma mesma moeda.

Falo da disputa insana e descabida de qual dos fatos deve obter maior consternação e solidariedade na mídia; o desastre de Mariana-MG, ou os atentados terroristas de Paris. Em uma corrida frenética e desmedida, diversas pessoas através de suas páginas nas redes sociais, disputaram a preferência de seus amigos e seguidores, crendo que a tragédia que defendiam, merecia chocar mais, condoer mais, trazer maior e mais amargo sofrimento que o outro, desfilando um corolário de motivos relacionados às pressas, mas sustentados em pura opção pessoal e simpatia.

Sim, por simpatia reafirmo. Porque qualquer pessoa minimamente isenta, percebe que tanto um fato quanto o outro, merece toda a atenção, preocupação, e reflexão de nossa parte. Por circunstâncias e razões diferentes, é verdade, mas impulsionadas por um mesmo motor; a temerária intervenção humana na causa, na execução e no desfecho de ambos.

Se por um lado o descaso, a falha de monitoramento ou de operação, provocou o desastre em Mariana-MG, por outro a intolerância religiosa de extremistas radicais, provocou uma das mais sanguinárias matanças urbanas dos últimos anos. Ora, tanto um fato quanto o outro originou-se da atitude humana, um pelo espírito sabotador, e o outro pelo espírito faccioso. Nos aprofundaremos nesses dois aspectos nas reflexões seguintes.

Temos diante de nós dois grandes dramas, cujas causas precisam ser efetivamente combatidas, e suas consequências dirimidas para o bem do futuro do planeta e das futuras gerações. Sim, porque do contrário, viveremos sobressaltados e inseguros, com medo das circunstâncias mais simples, e de momentos o mais improváveis para uma terrível e amarga experiência de risco de morte. Ou quem poderia imaginar que um rio de lama invadiria casas, ruas e cidades inteiras, matando pessoas, fauna e boa parte da flora das regiões por onde passou? E quem poderia imaginar que a consagrada noite parisiense, pudesse reservar momentos de pânico, terror e morte? Sempre nos chocamos diante do improvável, e nos indignamos perante o inaceitável. Ainda bem que é assim.

Ora, se toda vez que um drama se abater sobre uma região, cidade ou país, disputarmos qual delas necessita de maior visibilidade, solidariedade e consternação, estaremos nos concentrando no que menos importa; qual deles tem maior importância? Desse jeito faltará espaço para tantas bandeiras nas fotos de perfil. É preciso dar atenção ao socorro, à reconstrução da normalidade, e principalmente ao que possa impedir, em futuro próximo, que fatos como esses voltem a se repetir.


Mariana ou Paris, tanto faz. Nem uma nem outra, ou na verdade as duas. Tanto uma tragédia quanto a outra precisa receber de nós toda a atenção, empenho e solidariedade. As soluções variam, os planejadores divergem, mas em comum precisa existir a verdadeira e permanente vontade de ajudar além do que é possível, contribuindo no espaço de mundo à volta de cada um de nós, com atitudes que inspirem mudança de comportamento, tanto do sabotador, quanto do faccioso. Para que nem o descaso e nem o radicalismo sigam história a fora, fazendo vítimas e causando tristeza sobre tristeza, naqueles que com tantas dificuldades tentam encaminhar suas vidas cotidianas; as pessoas comuns.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Em marcha, alegres e perseguidos


Por Jânsen Leiros Jr.


“10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.  

11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguiram e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa. 12 Alegrai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram aos profetas que foram antes de vós."
                      Mateus 5:9-12 - JFA

Chegamos ao final do que lá atrás chamamos de introdução ao Sermão do Monte; as Bem-Aventuranças. Acredito que até aqui conseguimos ser entendidos naquilo que pautou nosso desenvolvimento, tanto em relação ao conteúdo quanto em relação ao propósito; a apresentação de uma lógica diferente na abordagem desse tão famoso discurso de Jesus, começando por mudar o ponto de observação do que deve ser feito, para o que é feito por natureza transformada. Um princípio da ótica do evangelho, onde o que somos não o somos porque nós mesmos construímos, mas porque foi, pelo Espírito de Deus, construído em nós.

Tal inversão, já na partida, altera o conceito de que seremos bem-aventurados, para já somos bem-aventurados, deixando para o futuro apenas as inevitáveis e gratuitas recompensas a cada bem-aventurança relacionada. O que, na prática, nada mais são do que mera pluralidade expositiva, de uma mesma e única realidade à frente; o reino de Deus. Nesse aspecto a tradução de André Chouraqui substituindo bem-aventurados por em marcha, apresenta melhor a questão de um caminho onde já nos encontramos, porque nele fomos colocados, e que nos levará inevitavelmente a um destino certo e previamente revelado.

Mas por que isso? Se as bem-aventuranças não são a relação de atitudes a perseguir, mas as já potencialmente existentes nos redimidos e justificados, que sentido teria serem colocadas no início de um discurso como o Sermão do Monte? Sim, porque em tal sermão parecem desfilar inúmeros comportamentos requeridos aos santos, com vistas a, uma vez seguidos e cumpridos, conduzirem o indivíduo ao reino de Deus. Ou seja, dão a entender que, vividos em suas conformações justificarão seu agente, outorgando-lhe a entrada no reino de Deus. Ora, exatamente por contradição a esse entendimento equivocado. A ética do Sermão do Monte é uma espécie de vida a ser vivida, não uma relação de conduta a ser provada.

A autojustificação é a máxima em quase a totalidade das religiões espalhadas pelo mundo. Um conjunto de regras, uma sequência de ritos, variações de princípios filosóficos que permeiam publicações que sustentam uma ideia central, capaz de reunir pessoas ao redor de um mesmo fim; uma recompensa, seja ela qual for. Uma recompensa pela qual se faça jus, a partir do cumprimento de tudo aquilo que se estabelece como norma de conduta. Ou seja, todos compram, de um modo ou de outro, a sua própria recompensa, ou se preferirem, justificam sua própria herança.

As bem-aventuranças, contudo e portanto, como revelação das características dos redimidos pela justiça de Deus, explicitam de forma contundente que, iniciada a marcha, aquelas serão sempre as características de quem foi feito livre do pecado, mas servo da justiça[1].

Nossa reflexão de hoje, porém, se concentra na perseguição e isso obviamente causa um certo desconforto e um questionamento inevitável. Seria a perseguição uma característica do cristão? Como conciliar bem-aventurança com perseguição? Como juntar uma coisa positiva e uma negativa? Como pode ser bom, passar por uma coisa ruim? Seria isso um contracenso, uma impossibilidade ou um masoquismo? Nem uma coisa, nem outra. Na verdade, a perseguição não passa de um inevitável conflito entre dois sistemas de valores irreconciliáveis.

Na prática, todas as bem-aventuranças são impopulares. Ser pobre, pranteador, manso, ter fome e sede, ser misericordioso, transparente, pacificador e perseguido, em nada se parece com o perfil vanglorioso que as religiões costumam oferecer aos seus adeptos, como conduta e modelo de vida. Tanto quanto o evangelho de autoajuda, que vem crescendo assustadoramente em nossos dias, onde tudo de bom sempre acontece ao crente feliz e sempre vitorioso em seus projetos, sonhos, vontades e batalhas.

Há uma oposição natural ao princípio das bem-aventuranças, a medida que elas representam fraqueza humana e fragilidade diante da crueldade do mundo real. Todos querem ser ricos e não pobres, serem felizes e jamais chorosos. É normal elogiarem o valente e não o manso, bem como se admira a fartura ao contrário da fome e da sede. Não são comuns filmes em que o mocinho injustiçado se vinga de seus algozes? Como então aceitar de bom grado a misericórdia? Num mundo em que negociações são travadas na obscuridade das intenções sempre camufladas, sinceridade e transparência são fragilidades competitivas inaceitáveis. O mundo premia o forte e o guerreiro; aos pacificadores, a derrota! Morte e perseguição, aos que se opõem à necessária e conveniente ordem mundial.

Mas notem, não é sem motivo que o pacificador precede o perseguido. Isso é tanto necessário quanto pertinente, pois somente o pacificador é capaz de sofrer a perseguição e não revidá-la, uma vez que, seguro, confia plenamente em Deus a quem se entrega. Os mansos naturalmente não impõem medo, parecendo presas fáceis a seus eventuais perseguidores. As características essenciais de um cristão expressas nas bem-aventuranças, chocam e criam repulsa no homem natural, provocando-lhe a necessidade e o interesse urgente de anular e até mesmo aniquilar as perigosas ideologias de fragilidade humana, diante de sua constante luta por força e poder.

A perseguição é, portanto, uma chancela da vida cristã. Um sinal de que andamos no caminho certo, de que estamos em marcha. Não necessariamente porque incomodamos inconvenientemente, mas porque confrontamos, sem nem mesmo falarmos, a realidade pecaminosa do comportamento humano, que se rebela contra Deus, e dele se afasta deliberadamente. E não devemos nos vingar de tais perseguições, mas antes alegrai-vos e exultai. A perseguição assim motivada, foi igualmente sofrida pelos profetas bem como por Jesus, de quem somos discípulos. E que maior honra a um discípulo, do que o tornar-se igual a seu mestre?

O Sermão do Monte é assim a desconstrução de uma vida aprendida em um lodo religioso que premiava o aparente e não o real, bem como o superficial e não o profundo. Ele confronta uma religiosidade morta e ineficaz, a uma vida nova e transbordante, porém invertida em seus valores, alternativa em sua essência, e digna de ser apreciada por corações em marcha, mas ao mesmo tempo perseguida pela maldade do presente século. Afinal, o mundo jaz no maligno[2].




[1]  Romanos 6:17-19
[2]  1 João 5:19
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