sábado, 10 de setembro de 2016

Eu, Tio Patinhas e o dízimo


Por Jânsen Leiros Jr.


"8 Pode um ser humano roubar algo de Deus? No entanto estais me roubando! E ainda ousam questionar: ‘Como é que te roubamos?’ Ora, nos dízimos e nas ofertas! 9 Estais debaixo de grande maldição, porquanto me roubais; a nação toda está me roubando. 10 Trazei, portanto, todos os dízimos ao depósito do Templo, a fim de haja alimento em minha Casa, e provai-me nisto”, assegura o SENHOR dos Exércitos, “e comprovai com vossos próprios olhos se não abrirei as comportas do céu, e se não derramarei sobre vós tantas bênçãos, que nem conseguireis guardá-las todas. 11 Também impedirei que pragas devorem as vossas colheitas, e as videiras nos campos não perderão o seu fruto!”, promete Yahweh dos Exércitos. 12 “E todas as nações vos chamarão ‘âshar, bem-aventurados; porque a vossa terra será maravilhosa!”, promete o SENHOR dos Exércitos.
Malaquias 3:8-12 - KJA

Se tem um assunto polêmico e extremamente controverso em nosso meio, é o que trata de dinheiro. Toda vez que lideranças tocam no assunto, ou toda vez que pastores conclamam suas assistências a entregarem seus dízimos e suas ofertas, há em grande parte da plateia, ou mesmo entre os que assistem aos cultos pela TV ou pela internet, um enorme e incômodo desconforto.

Essa polêmica varia em grau conforme o perfil e origem da plateia, mas sempre é polêmica. Há muitos que encobrem suas posições contrárias, e outros que, por medo da avaliação de terceiros, agem conforme a maioria e seguem o fluxo da manada que vai para lá e para cá, muitas vezes sem qualquer sintoma genuíno de aceitação. Já que é para fazer, façamos.

Talvez, por essa razão, me chovam perguntas sobre dízimo e sua pertinência, sobre ofertas e sua necessidade no mundo pós Novo Testamento. Sempre me deparo com gente querendo legitimar sua vontade de reter consigo, o que se vê obrigado a dar. E por isso tentam encontrar, desesperadamente, alguém que lhes indique um caminho para a negação. Porém, mais do que um presumido contexto neotestamentário, o que mais provoca a inquietação com esse assunto está muito mais afeto à ligação que cada indivíduo desenvolve com o dinheiro em seu íntimo.

Num mundo em que tudo é relativo, obrigações e costumes seguem se alternando como legítimos e improcedente, atuais ou caducos, gerando sempre questionamentos sobre aplicabilidades e usos. E com o assunto dinheiro na igreja não poderia ser diferente. Afinal de contas, perguntou um leitor essa semana: o dízimo é ou não uma obrigação?

Por um momento, e para evitar o embate desde o primeiro parágrafo da resposta, vamos deixar temporariamente a palavra obrigação de lado e vamos tecer comentários sobre uma ótica alternativa; porém, bastante interessante, acredito. Sim, porque se tem uma coisa que no reino de Deus parece ter caído em desuso é a obrigação como ato aparente de cumprimento a um rito; esse povo honra-me com seus lábios, mas seu coração está longe de mim. No reino de Deus há um abandono ao que é aparente, e uma extrema valorização do que é essencial. O conhecido Sermão da Montanha traduz isso maravilhosamente bem.

Sendo assim, prefiro encarar o dízimo como um ato de adoração e desafio de fé, como desafiado foi o povo de Israel na passagem de Malaquias acima. Dízimo é adoração porque é desprendimento. Sou eu dizendo para mim mesmo que posso entregar o que recebi, porque por ação e cuidado de Deus haverá sustento, ainda que a princípio tal parcela pudesse fazer falta em meu orçamento doméstico. E o tamanho dessa entrega varia conforme o orçamento, porque muito ou pouco, a décima parte de alguma coisa será sempre a décima parte dessa mesma coisa. Assim, aquele que é fiel no que é pouco também o será no que for muito. Quando dizimista, ninguém o é mais ou menos do que ninguém. Deus não faz acepção de pessoas. Todo dizimista é igual.

A literatura infanto-juvenil nos empresta um personagem ideal para o debate sobre dinheiro: Tio Patinhas. Amante do dinheiro, ele é a imagem do avarento que só acredita no poder do dinheiro para a movimentação e validação de tudo na vida. E por pensar assim, ele se torna um acumulador contumaz, crendo que quanto mais dinheiro retiver, maiores serão suas chances e possibilidades de ter o que pretende. Dar ou doar, são palavras abomináveis para qualquer avarento acumulador.

Quando entregamos o dízimo, não cumprimos uma obrigação tão somente. Damos um passo de fé, crendo que nosso sustento e a nossa vida cotidiana não dependem da décima parte do que ganho, porque quem me supre a vida pode muito mais do que essa décima parte. Está aí implícito um belo e delicioso exercício de fé. Ora, se acreditamos em milagres e curas, se cremos em salvação pela graça, onde eu nada faço por merecê-la, como não creio que Deus me sustentará ainda que com dez por cento menos na minha renda? Será que por ser o bolso a parte mais sensível do corpo humano é que pensamos assim?

Dízimo, assim, é adoração. É honra a Deus em exercício de fé. É a superação íntima de se crer no que se tem, para crer em quem nos tem. Dízimo é entrega e rendição. Porque tudo com o que mais nos importa na vida, quase sempre está ligado àquilo com o que mais gastamos tempo e dinheiro. Por isso dízimo precisa ser prazer e alegria. Aliás, Deus ama o que dá com alegria. Deus ama um coração doador.

Quando colocamos o dízimo como obrigação, colocamos nele um peso de culpa e medo. E o medo não é perfeito em amor. Dízimo é privilégio de quem devolve a Deus por exercício de gratidão, parte de tudo aquilo que Deus já nos deu. Dízimo, portanto, não é barganha. Eu não dou para poder receber. Eu apenas devolvo por fé parte daquilo que já recebi. Dízimo é testemunho de bênção. Se Deus é doador, importa que seus adoradores o adorem doando e doando-se.
                     
Existe sim um mistério nesse processo de doação, de entrega, e de obediência em fé. Quanto mais me entrego e me doo, mais recebo para mais doar e me entregar. É como um canal de fluxo de enchente e vazante, que se alternam ao sabor da vontade daquele que é o dono de todas as coisas. Quanto mais doamos mais parecidos com Deus ficamos, porque Ele é o doador por excelência. Fez isso com a vida, repetiu doando-se na salvação, e seguirá doando vida na ressurreição e pela eternidade afora. Ele dá sem nada pedir em troca. Há, sim, quem não queira receber. Mas ninguém precisa fazer nada para receber o que já está dado. Com Deus não há barganha. Ele não vende nem troca; dá!

O dízimo é um prazer.


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Quem tem medo de ser rico?


Por Jânsen Leiros Jr.


"Jansen não precisa responder agora, quando puder.
Na tua concepção, diante de tudo que já viu e ouviu, a palavra de Deus diz: "Que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma fechadura do que um rico entrar no reino dos céus.
Analisando esta palavra, você acha que muitas pessoas não ficam ricas em virtude de Deus não permitir, pois Deus sabe que perderia esta pessoa para a riqueza?
Qual a tua opinião sobre este assunto?”
Pergunta encaminhada por Whatsapp


"16 E eis que se aproximou dele um jovem, e lhe disse: Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna? 17 Respondeu-lhe ele: Por que me perguntas sobre o que é bom? Um só é bom; mas se é que queres entrar na vida, guarda os mandamentos. 18 Perguntou-lhe ele: Quais? Respondeu Jesus: Não matarás; não adulterarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; 19 honra a teu pai e a tua mãe; e amarás o teu próximo como a ti mesmo. 20 Disse-lhe o jovem: Tudo isso tenho guardado; que me falta ainda? 21 Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue- me. 22 Mas o jovem, ouvindo essa palavra, retirou-se triste; porque possuía muitos bens. 23 Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no reino dos céus. 24 E outra vez vos digo que é mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus. 25 Quando os seus discípulos ouviram isso, ficaram grandemente maravilhados, e perguntaram: Quem pode, então, ser salvo? 26 Jesus, fixando neles o olhar, respondeu: Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível.”
Mateus 19:16-24

Antes de seguir com qualquer resposta, é muito importante entendermos o que Jesus está falando exatamente, ao afirmar ser mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no reino dos céus. É muito comum e natural que, ao ouvirmos essa expressão, nossa imaginação nos remeta à cena de um camelo tentando, sem sucesso, passar pelo buraco de uma agulha de costura, como aquelas que nossas avós usavam para fazer bainha, pregar botão, e outros ajustes diversos. Mas não, não é dessa agulha que Jesus está falando.

Antes de falarmos da agulha propriamente dita, é importante atentar para um princípio lógico na colocação de Jesus. Ele não disse ser impossível um rico entrar no reino dos céus. Apenas demonstrou ser mais difícil do que o camelo passar. Ou seja, se ele se referisse a uma agulha de costura, estaria falando no impossível e não do mais difícil. Logo, ainda que não se conheça exatamente de qual agulha fala Jesus nessa passagem, obviamente não poderia ser da agulha que conhecemos comumente.

As agulhas, como podemos ver na ilustração, eram espaços apertados e baixos, que serviam de entrada alternativa na cidade murada. Para passar por essas passagens conhecida como agulhas, era necessário retirar do camelo toda a carga que ele trazia. Além disso o animal precisava ser conduzido com cuidado, abaixando-o pela estreita a baixa abertura. Mas há controvérsias a esse respeito[1].

Na verdade, a teoria certa pouco importa, porque analisando o contexto em que a afirmação é proferida, fica muito claro que Jesus está se referindo às dificuldades que a pessoa rica tem em se despojar de tudo isso para se entregar ao domínio-reino de Deus, acostumada que está ao conforto e ao acesso a bens e serviços que o dinheiro pode proporcionar. O homem rico precisaria desfazer-se das garantias que acreditava ter por conta de suas posses, para aprender a viver apenas da fé no sacrifício do Cordeiro. Afinal, onde estiver o seu tesouro, ali estará também o seu coração[2].

De modo que a preocupação de Jesus não é com o ter, mas sim com o ser. Não há nada de errado em ter dinheiro e poder usufruir do que ele pode proporcionar, mas há tudo de errado em ser dependente das condições e garantias que tal pode dar, como falsa sensação de segurança e bem-estar. Louco, hoje te pedirão a sua alma[3].

Isso posto, voltemos à sua questão, onde Deus poderia impedir algumas pessoas de ficarem ricas, para não perdê-las para o dinheiro, uma vez que por sua onisciência sabe se esse ou aquele indivíduo o trocará pelo dinheiro e suas benesses. Essa me parece uma conjectura estranha, porque se Deus é capaz de impedir a riqueza para manter a lisura espiritual de uma pessoa, não seria também possível a Deus impedir que houvesse qualquer variação de devoção dessa mesma pessoa ao se tornar rica? Ou ainda, considerando que uma maioria esmagadora dos cristãos não possui riqueza alguma, estaria Deus segurando a riqueza de uma tão grande quantidade de gente, que não pode enriquecer porque senão se perderiam na fé?

Me parece curioso que Deus assim fizesse, sendo essa a sua lógica. Porque se para impedir o pecado do homem, ele impedisse uma ou outra condição ou circunstância que pudesse representar tal perigo, ele não teria posto a árvore do conhecimento do bem e do mal no Jardim do Éden. Ora, assim procedendo, o homem, em tese, não pecaria e estaríamos vivendo até hoje no Jardim do Éden.

A lógica que você imagina poder utilizar, é uma armadilha maniqueísta, que tenta encontrar respostas sustentáveis e nobres, para circunstâncias causadas por atitudes nem sempre tão probas assim. Há diversas causas para a não riqueza. Muito mais inclusive do que para a riqueza. Origem familiar, condições de estudos, oportunidades, capacidade profissional individual, empenho, determinação, inteligência, equilíbrio emocional, entre outras. Muitas são as causas possíveis de alguém não atingir a riqueza.

Mas note, não estou querendo dizer com isso que o Senhor não possa realizar em nossas vidas como bem entender. Evidente que sim. Mas me parece pouco provável que sua lógica fosse a sugerida por você, pois ela feriria um princípio básico da relação do homem com Ele mesmo; a liberdade de escolha. Pois que relação se legitimaria sem qualquer opção de não relação? Se Deus impedisse a riqueza para evitar perder o indivíduo para ela, ele igualmente impediria toda sorte de circunstâncias que nos cercam e nos seduzem, nos induzindo ao pecado e a nos afastarmos de Deus. Seríamos por assim dizer, como robôs ou fantoches.

A verdade é que as circunstâncias pouco importam para a relação com Deus. Seja riqueza ou pobreza, seja tranquilidade ou angústia, toda e qualquer condição humana precisa ser entendida como finita e temporal, produzindo no indivíduo a certeza de sua pequenez diante da grandeza do amor de Deus e do seu cuidado. Qualquer que seja sua condição, o indivíduo precisa caminhar na direção da dependência de Deus, seja por saber que tudo o que tem não o pode garantir, seja para saber que o Senhor poderá sempre lhe suprir, por maior e mais profunda seja sua pobreza.

Quer tenhamos dinheiro quer não, sejamos sempre dependentes de Deus



[2]  Mateus 6:21
[3]  Lucas 12:20

sábado, 5 de março de 2016

Se Deus não habita em templos...


Por Jânsen Leiros Jr.


"22 Sendo assim, Paulo levantou-se no meio da reunião do Areópago e discursou: “Caros atenienses! Percebo que sob todos os aspectos sois muitíssimo religiosos, 23 pois, caminhando pela cidade, observei cautelosamente seus objetos de adoração e encontrei até um altar com a seguinte inscrição: AO DEUS DESCONHECIDO. Ora, pois é exatamente este a quem cultuais em vossa ignorância, que eu passo a vos apresentar. 24 O Deus que criou o Universo e tudo o que nele existe é o Senhor dos céus e da terra, e não habita em santuários produzidos por mãos humanas. 25 Ele também não é servido pelas mãos dos homens, como se precisasse de algo, porquanto Ele mesmo concede a todos a vida, o fôlego e supre todas as nossas demais necessidades. 26 De um só homem fez Deus todas as raças humanas, a fim de que povoassem a terra, havendo determinado previamente as épocas e os lugares exatos onde deveriam habitar. 27 Deus assim procedeu para que a humanidade o buscasse e provavelmente, como que tateando, o pudesse encontrar, ainda que, de fato, não esteja distante de cada um de nós: 28 ‘Pois nele vivemos, nos movimentamos e existimos’, como declararam alguns de vossos poetas: ‘Porquanto dele também somos descendentes’. 29 Portanto, considerando que somos geração de Deus, não devemos acreditar que a Divindade possa ser semelhante a uma imagem de ouro, prata ou pedra, esculpida pela arte e idealização humana. 30 Em épocas passadas, Deus não levou em conta essa falta de sabedoria, mas agora ordena que todas as pessoas, em todos os lugares, cheguem ao arrependimento. 31 Porque determinou um dia em que julgará o mundo com o rigor de sua justiça, por meio do homem que para isso estabeleceu. E, quanto a isso, Ele deu provas a todos, ao ressuscitá-lo dentre os mortos!"
Atos 17:22-31 - KJA

Seguimos com enorme prazer respondendo aos amigos e leitores que nos encaminham as mais variadas perguntas. Temos respondido a todas, mas algumas selecionamos para dividir com todos os que nos acompanham, crendo que pode ajudar a mais gente. E é nesse propósito que hoje falaremos sobre o texto sublinhado acima, baseado no qual recebemos a seguinte pergunta: Se Deus não habita em templo feito por mão humanas, então não temos necessidade de construirmos templos e igrejas, certo?

Como já afirmamos anteriormente e nunca é demais reafirmar, não podemos fazer afirmações sobre textos, sem considerar seus contextos, sob pena de refletirmos sobre apenas uma parte da ideia do autor, ou mesmo não considerarmos o sentido em que ele estabelece esse ou aquele conceito. E esse é um exemplo clássico disso. Senão vejamos.

Lendo isoladamente o versículo 24, podemos ser levados a concluir que Paulo está dizendo não haver necessidade de construirmos templos para servir de santuário às igrejas, pois Deus não mora neles. Junta-se a isso a fala de alguns argumentadores de plantão de que a igreja primitiva não tinha templos, mas se reunia nas casas, e está montado o castelo de cartas. Por isso sempre digo que texto sem contexto vira pretexto.

Retornando então ao contexto que transcrevemos acima, notamos que Paulo está discursando aos atenienses, em pleno Areópago[1], uma espécie de tribunal onde se reunia o conselho local, e onde ideias eram debatidas entre os notáveis atenienses. nesse discurso ele está explicando os fundamentos de sua doutrina, e encaminha brilhantemente o assunto, ao reconhecer o comportamento religioso e devotado daquela gente. Isso o torna simpático aos ouvidos, uma vez que ele demonstra se agradar de um traço pertinente àquela sociedade, do qual ela mesma se orgulha.

Mas Paulo não está ali para adula-los, mas sim para anunciar as boas novas de salvação. E assim ele aponta para um altar onde está escrito "Ao Deus desconhecido". Inspirado, Paulo diz que é exatamente sobre esse Deus que eles não conhecem que vem falar-lhes, pois sendo o criador de todas as coisas, provavelmente não está ali como todos os demais deuses de sua mitologia, representado por suas imagens e esculturas, porque sendo o autor do universo, não habita em templos feitos por mãos humanas.

Ao dizer isso, Paulo está diferençando Deus de todos os demais deuses mitológicos, demonstrando ser pertinente e assertiva a inexistência de uma escultura qualquer naquele altar ao Deus Desconhecido reservado, já que não pode ser representado por qualquer imagem, ainda que esculpida em ouro ou qualquer outro material. E Paulo vai além, dizendo que também não seria semelhante aos outros deuses, pois não necessita ser servido ou agradado com ofertas, como se alguma necessidade tivesse em que pudesse o homem supri-lo.

Portanto ao dizer que Deus não habita em templos feitos por mãos humanas, Paulo não está dizendo profeticamente que nossos templos atuais são desnecessários e ineficazes para servir de moradia de Deus, porque tal ineficácia nos é, não só conhecida como crida. Tal crença em contrário nos seria herética, pois como poderíamos  pensarmos que Deus faria habitação em qualquer prédio ou lugar que fosse[2]. Paulo está se dirigindo a uma sociedade que acredita aprisionar seus deuses em templos e representa-los com imagens e esculturas. O Deus Desconhecido não habita em prédios!

Por outro lado, a pergunta do nosso leitor não é de toda infundada, pois há mesmo quem acredite que templos guardam a presença de Deus em suas paredes, como se de tais habitação fizesse uso. Ora, nos dias atuais, dado o avanço da revelação universal de alguns atributos de Deus, tais crenças chegam a ser absurdas mesmo aos olhos dos ímpios, que entendem naturalmente que Deus não pode ser guardado a sete chaves.

Portanto é claro que templos são desnecessários e ineficazes se tiverem como objetivo servirem de morada para Deus. Mas são extremamente úteis para o serviço da adoração e da comunhão dos santos que, sim, no passado se reuniam em casas, mas que hoje possuem a liberdade de se reunirem em templos construídos com a contribuição de seus adeptos, como um bem comum, e uma referência local para onde se pode afluir a congregação de adoradores.

É óbvio que a presença de Deus não se faz exclusiva nesses lugares. Por seu Espírito Deus habita o homem. O seu Espírito foi derramado sobre toda a carne[3]. Somos nós os seus templos. De modo que os templos que construímos em si nada é, mas nos são extremamente úteis e precisam ser adequados e preparados para o propósito que lhes conferimos; servir de lugar de adoração, comunhão e aprendizado da Palavra.

Ora, não podemos fazer isso em nossas casas? Claro que podemos. E Deus estará presente? Claro que estará. Mas não teríamos condição de reunir tanta gente. mas há lugares onde proibido o cristianismo e ajuntamentos religiosos, bem se faz uso de casas, lojas e até porões. Graças a Deus não precisamos disso no Brasil. Pelo menos não nos dias de hoje.

Portanto a pergunta se repete: Os templos são necessários? Sim, são. Para encontrarmos Deus que habita ali? Claro que não. Mas podemos ter o privilegio de os utilizarmos para o conforto da reunião dos que o adoram em espírito e em verdade.



[1]  Areópago (em grego antigo: Ἄρειος Πάγος areios pagos, "Colinas de Ares") era a parte nordeste da Acrópole em Atenas e também o nome do próprio conselho que ali se reunia. Além de supremo tribunal, o conselho também cuidou de assuntos como educação e ciência por algum tempo.
[2]  João 4:15-26
[3]  Atos 2:17

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Santos ou pecadores? As misérias da alma e nossa vitória


Por Jânsen Leiros Jr.


" 14 Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. 15 Pois o que faço, não o entendo; porque o que quero, isso não pratico; mas o que aborreço, isso faço. 16 E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. 17 Agora, porém, não sou mais eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. 18 Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; com efeito o querer o bem está em mim, mas o efetuá-lo não está. 19 Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico. 20 Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim.
21 Acho então esta lei em mim, que, mesmo querendo eu fazer o bem, o mal está comigo. 22 Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; 23 mas vejo nos meus membros outra lei guerreando contra a lei do meu entendimento, e me levando cativo à lei do pecado, que está nos meus membros. 24 Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte? 25 Graças a Deus, por Jesus Cristo nosso Senhor! De modo que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado."
Romanos 7:14-25 - JFA

" 20 Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres em relação à justiça. 21 E que fruto tínheis então das coisas de que agora vos envergonhais? pois o fim delas é a morte. 22 Mas agora, libertos do pecado, e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para santificação, e por fim a vida eterna. 23 Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor "
Romanos 6: 20-23 - JFA

para que vos torneis puros e irrepreensíveis, filhos de Deus inculpáveis, vivendo em um mundo corrompido e perverso, no qual resplandeceis como grandes astros no universo,."
Filipenses 2:15 - KJA

Entretanto, a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando cada vez mais até a plena iluminação do dia"
Provérbios 4:18 - KJA

Seguindo na série de perguntas e tentativas de respostas aos leitores do blog, temos diante de nós um desafio parecido com o da questão passada, sendo agora um duelo entre duas realidades de cujas expressões, de amplos significados, provocam em muitos uma certa dose de confusão e também inquietação, que bem podem trazer insegurança quanto a atitude espiritual, ou mesmo ansiedade relativamente ao futuro próximo da alma. Se Shakespeare indagava ser ou não ser, hoje há quem se pergunte, somos ou não somos.

Em que pese o uso da retórica e a contundência nas pregações de diversos calibres, vários púlpitos pelo Brasil apregoam às suas assistências, em larga maioria constituída de crentes em Cristo Jesus, que estes são pobres pecadores e miseráveis, carentes da graça de Deus. Já outros tantos, com o mesmo fervor e persuasão, insistem em chamar seus membros de santos, aos quais prometem as inefáveis bênçãos de Deus. Mas afinal, somos pobres pecadores miseráveis, ou já atingimos o status de santos, a quem as recompensas do Senhor serão concedidas de forma abundante? Que me perdoem os mais severos, eu não resisto; qual será o segredo de Tostines?

Honrando a sabedoria dos mais velhos, como diria minha avó, nem tanto ao mar nem tanto à terra. Entre as características do cristão bem-aventurado, está seu sentimento de pobreza, ou se preferir, humildade espiritual. E sabedor dessa pobreza, pois nada tem que possa ser considerado seu de modo a torná-lo altivo e orgulhoso, ele chora sua penúria, carente, sedento e faminto pela justiça de Deus, a quem clama por socorro; Senhor, sê propício a mim. Mas uma vez resgatada, toda nova criatura é separada para Deus, o que faz dela um santo em marcha para o reino dos céus.

Ou seja, não existe estado letárgico para os que estão em Cristo, seja ele de miserabilidade ou de santidade. Temos uma vida dinâmica, de caminhada alegre mas trabalhosa, onde as forças nos são renovadas cotidianamente por Deus, em bondade e graça. De modo que, seja a tal proclamada pobreza, ou mesmo a distinta santidade anunciada, pobre ou santo estamos, e não somos. Tal sentido de movimento é indispensável por um princípio muito claro; aquele que cuida estar em pé, cuide para que não caia.

Ora, como resgatados, sabemos de nossa incapacidade de nos apresentamos diante de Deus por nós mesmos, por nossas próprias virtudes, o que nos faz entender que somos dependentes d'Ele, e de que nada temos do que nos gloriarmos; por isso pobres humildes de espírito. E se o que demonstramos acima acerca do que somos ser mais pertinente se considerarmos estágio transitório, ou seja, se estamos pobres e humildes, também é verdade que não somos miseráveis ou pecadores. Ou não nos ensina João que aquele que tem o filho não vive pecando, ou ainda Paulo quando diz que uma vez livres do pecado, fomos feitos servos da justiça?

É comum utilizar o texto acima para sustentar que somos miseráveis, considerando que uma guerra interior se trava entre o bem do espírito e o mal no corpo, na carne. Porém, ao utilizar essa anatomia das pulsões humanas e nossa tendência pecaminosa, o apóstolo está demonstrando que, para o homem natural, que tenta viver corretamente a partir da lei, qualquer que seja essa lei, para esse sim há um futuro de morte, pois a ele, que confia em seu poder de autocontrole para resistir às tentações, para esse miserável não há qualquer chance de vitória. Miserável homem que sou (sou se referindo ao que é o ser humano), quem me livrará desse corpo de morte? E por isso ele dá graças a Deus, por Jesus Cristo, seu resgatador pela graça, pois a partir dela, a inclinação para o pecado não tem mais qualquer poder. Portanto, finda nossa condição de miséria e pecado.

Ora, diante disso então podemos considerar que somos santos inculpáveis e irrepreensíveis, donos de um corpo e mente incorruptíveis? De modo algum, pois também a santidade não é um estado de sermos, mas de perseguirmos. Sede santos, diz o texto. Ora, se ele diz para sermos, um estado mais ali, então é porque não somos ainda aqui. A santidade é aquilo que perseguimos, até chegarmos à estatura completa de Cristo.

Assim, nem somos mais pecadores, considerando estado perene que demande constante estado de lamúria, pois andamos em novidade de vida; o Senhor é a nossa salvação, mas também não somos santos ainda, no sentido de uma vida livre de pecados ou máculas pelo confronto da lei. Muitos há, porém, que mantêm suas assistências submissas a essa oscilação de euforia e depressão, tornando-os cativos de suas afirmações histriônicas. Para conveniências pessoais e interesses, sabe-se lá de que ordem, ora eles os fazem lastimar depressivamente seus estados de miserabilidade e total dependência de suas pessoais benesses, ora eles os lançam no mais efusivo estado de euforia, sustentado por uma crença de que já estão fora do alcance do mal. Príncipes e princesas, uma nobreza de vaidade e auto suficiência.

Então quer dizer que não somos nem pecadores nem santos? Sim e não. Não somos mais pecadores e somos santos porque justificados em Cristo, pela graça, que nos reconcilia com Deus. Mas por outro lado, somos pecadores e não somos santos ainda, porque em marcha caminhamos para nosso alvo; o reino de Deus, por Cristo Jesus, Senhor nosso. De modo que seguimos pecadores pois passíveis de cometê-los. Mas separados para Deus somos santos, separados para toda boa obra. De modo que quer estejamos santos, quer estejamos sujeitos a deslizes, temos um advogado que é Cristo. E nisso descansa nossa esperança, e temos o Espírito por penhor da nossa salvação.

Não há ninguém que possa desfazer nossa condição de justificados. Não há quem possa se ufanar de não depender de Deus. Santidade e pecado se alternam inversamente proporcionais à medida que marchamos. Perseguimos aqui e agora o que somente seremos em definitivo no reino de Deus. A quem damos honra, glória e louvor, por tão grande salvação. Porque se dos pecados ora cometidos somos culpados, quem nos intentará acusação? Ou quem nos separará do amor de Deus?

 Que o Senhor nos descanse o coração em confiança e graça, buscando a santidade, e nos ensinando a nos levantarmos sempre, certos de seu cuidado e amor. Como disse lá atrás nem tanto ao mar nem tanto à terra, e agora completando, mas a caminho do céu.
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