terça-feira, 4 de junho de 2024

Busca por unidade - Desafios e esperanças da Igreja contemporânea

Por Jânsen Leiros Jr.

 

 “O cristianismo significa comunidade através de Jesus Cristo e em Jesus Cristo. Nenhuma comunidade cristã é mais ou menos do que isso. Seja um breve, único encontro ou a comunhão diária de anos, a comunidade cristã é apenas isso. Pertencemos uns aos outros apenas através e em Jesus Cristo. O que isso significa? Significa, primeiro, que um cristão precisa dos outros por causa de Jesus Cristo. Significa, segundo, que um cristão vem aos outros apenas através de Jesus Cristo. Significa, terceiro, que em Jesus Cristo fomos escolhidos desde a eternidade, aceitos no tempo e unidos para a eternidade.”  

Life Together; Dietrich Bonhoeffer – pág. 87 (edição inglesa, Harper & Row, 1954); tradução livre

 

A unidade na igreja de Cristo, um ideal exaltado nas Escrituras, enfrenta desafios significativos na realidade contemporânea. As diversidades humanas — culturais, sociais, teológicas e pessoais — criam barreiras que muitas dificultam a coesão. As necessidades individuais, pretensões variadas e sonhos distintos têm gerado tensões dentro da comunidade cristã, testando sua capacidade de permanecer unida. No entanto, é precisamente no meio dessa diversidade que a verdadeira essência da unidade cristã pode brilhar, quando a igreja se compromete a superar essas diferenças em favor de um propósito maior: refletir o amor e a graça de Deus no mundo.

Desafios e Oportunidades na Pós-Modernidade

Que a unidade é um tema fundamental para a saúde e eficácia do corpo de Cristo, ninguém discorda. A dificuldade está em entender o quanto esta unidade é crucial para que a igreja se mantenha relevante e pertinente no cenário social contemporâneo. E é determinante que a igreja busque e mantenha essa unidade em todos os aspectos da vida da comunidade. A tarefa, no entanto, não é fácil. Especialmente em uma época de pós-modernidade[1], quando as pessoas são expostas a uma variedade de influências e pressões que podem dividir e fragmentar a comunidade.

A igreja é composta por indivíduos com diferentes experiências, culturas e perspectivas, cada um com suas próprias necessidades e desafios. Isso pode levar a uma diversidade de opiniões e práticas, que, se não gerenciadas corretamente, podem causar divisões e conflitos. Além disso, a igreja também é influenciada pelas pressões sociais e culturais do mundo exterior, que podem tentar desviar a atenção da comunidade de seu propósito e missão.

O texto bíblico é categórico ao afirmar que a unidade é essencial para a igreja. Em João 17:20-23[2], Jesus orou para que os seus discípulos fossem unidos, e em 1 Coríntios 12:12-26[3], Paulo destacou a importância da unidade no corpo de Cristo. Logo, a unidade não é apenas um ideal teórico, mas uma necessidade prática que deve ser buscada e mantida em todos os aspectos e circunstâncias.

Nesse contexto, é fundamental que a igreja busque compreender e abraçar a diversidade, ao mesmo tempo em que busca manter a unidade. Isso pode ser feito através de uma compreensão profunda de sua natureza como o corpo de Cristo, onde cada membro tem um papel importante e é interconectado com os demais. A igreja também deve buscar uma compreensão profunda da natureza humana e de suas necessidades, para se apresentar acolhedora e amorosa com todos, sem deixar a convicção e a segurança de seus princípios.

A Pós-Modernidade e a Unidade na Igreja

A pós-modernidade afeta a percepção de unidade na igreja de várias maneiras. Em primeiro lugar, a pós-modernidade caracteriza-se por uma crítica à ideia de verdade universal e objetiva, o que pode levar a uma relativização dos valores e crenças. Isso pode causar desacordo e fragmentação dentro da igreja, pois diferentes membros podem ter diferentes perspectivas e compreensões sobre a verdade e a realidade[4].

Além disso, a pós-modernidade também traz uma crescente influência da cultura secular e do misticismo, o que pode atrair indivíduos que buscam experiências espirituais e transcendentes, mas que podem não ter uma compreensão clara da natureza da igreja e do Evangelho. Isso pode levar a uma mistura de doutrinas e práticas religiosas, tornando mais difícil a manutenção da unidade na igreja.

No entanto, a pós-modernidade também apresenta oportunidades para a igreja se adaptar e se renovar. A busca por significado e propósito na vida pode levar indivíduos a buscar a verdade e a unidade em Cristo. A igreja pode se encarnar na cultura pós-moderna, utilizando a linguagem e as estruturas da sociedade contemporânea para anunciar o Evangelho e manter a unidade.

Mantendo a Unidade na Igreja

Para superar os desafios da pós-modernidade e manter a unidade, a igreja precisa se qualificar como povo de pessoas cheias do Espírito Santo, discernindo a vontade de Deus e sendo solidárias com os pecadores. A igreja também precisa priorizar a formação de relacionamentos fortes, a vida espiritual e a adoração, além de se posicionar em amor, diante das desafiadoras mudanças culturais e sociais.

Ou seja, a pós-modernidade apresenta desafios para a unidade na igreja, mas também oportunidades para se adaptar e se renovar, mantendo sua relevância social. Afinal, a igreja precisa se manter coesa para anunciar o Evangelho de forma eficaz.

Nos próximos textos, exploraremos algumas dimensões cruciais da unidade na igreja, apoiadas por referências bíblicas e comentários teológicos relevantes. Essas dimensões incluem a unidade em Cristo, a unidade em espírito, a unidade em amor, a unidade em missão, a unidade em liderança e a unidade em comunicação. Ao abordar essas dimensões, esperamos fornecer uma visão mais completa e profunda da unidade na igreja, e inspirar seus membros a buscarem essa unidade em todos os aspectos de sua expressão.



[1] A pós-modernidade é uma corrente cultural, filosófica e artística que surgiu na segunda metade do século XX, caracterizada por uma crítica às metanarrativas e às verdades universais defendidas pela modernidade. Aqui estão alguns pontos-chave para entender a pós-modernidade:

1.       Relativismo e Pluralismo: A pós-modernidade rejeita a ideia de uma verdade absoluta e objetiva, promovendo a noção de que a verdade é relativa e depende do contexto cultural e individual.

2.       Desconstrução das Metanarrativas: Grandes narrativas ou ideologias que pretendem explicar a totalidade da experiência humana são desconstruídas e vistas com ceticismo.

3.       Fragmentação e Diversidade: Ao contrário da uniformidade e coesão buscadas na modernidade, a pós-modernidade celebra a fragmentação, a multiplicidade de perspectivas e a diversidade de identidades.

4.       Intertextualidade: A ideia de que os textos e os significados são formados por referências a outros textos e contextos, e que os significados são instáveis e abertos a múltiplas interpretações.

5.       Hibridização Cultural: Mistura de estilos, gêneros e práticas culturais diferentes, rejeitando as distinções rígidas entre alta cultura e cultura popular.

6.       Desconfiança das Instituições: Ceticismo em relação às instituições tradicionais como a igreja, o estado e as instituições educacionais, que são vistas como fontes de opressão e controle.

7.       Simulacros e Hiper-realidade: No campo da comunicação e da mídia, a pós-modernidade enfatiza a prevalência dos simulacros (cópias sem um original real) e a hiper-realidade, onde a distinção entre realidade e representação se torna obscura.

Essas características mostram como a pós-modernidade desafia as certezas e estruturas estabelecidas, promovendo uma visão do mundo mais fluida e menos centrada em verdades universais.

O conceito de "mundo líquido" de Zygmunt Bauman está intimamente relacionado às características da pós-modernidade. Bauman usa o termo "modernidade líquida" para descrever a condição social, cultural e econômica da sociedade contemporânea, onde as estruturas e instituições são fluídas, mutáveis e instáveis.

[2] João 17:20-23 (ARA):

20 Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; 21 a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. 22 Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos; 23 eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim.

Esses versículos destacam a oração de Jesus pela unidade entre Seus seguidores, desejando que eles sejam um assim como Ele é um com o Pai. Essa unidade é essencial para que o mundo creia que Jesus foi enviado pelo Pai e que os crentes são amados por Deus da mesma maneira que Ele ama Jesus.

[3] 1 Coríntios 12:12-26 (ARA):

12 Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo.13 Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito.14 Porque também o corpo não é um só membro, mas muitos.15 Se disser o pé: Porque não sou mão, não sou do corpo; nem por isso deixa de ser do corpo.16 Se o ouvido disser: Porque não sou olho, não sou do corpo; nem por isso deixa de o ser.17 Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde, o olfato?18 Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve.19 Se todos, porém, fossem um só membro, onde estaria o corpo?20 O certo é que há muitos membros, mas um só corpo.21 Não podem os olhos dizer à mão: Não precisamos de ti; nem ainda a cabeça, aos pés: Não preciso de vós.22 Pelo contrário, os membros do corpo que parecem ser mais fracos são necessários;23 e os que nos parecem menos dignos no corpo, a estes damos muito maior honra; também os que em nós não são decorosos revestimos de especial honra.24 Mas os nossos membros nobres não têm necessidade disso. Contudo, Deus coordenou o corpo, concedendo muito mais honra àquilo que menos tinha,25 para que não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros.26 De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam.

Paulo destaca a importância da unidade e da diversidade dentro da comunidade cristã. Ele compara a comunidade com o corpo humano, onde cada membro tem uma função específica, mas todos são necessários para a saúde e a função do corpo. Paulo afirma que, embora os membros sejam diferentes, todos são unidos em Jesus Cristo e que a unidade é essencial para a comunidade cristã. Ele também destaca que a dor ou a honra de um membro afeta todos os demais, e que a unidade é alcançada pelo Espírito Santo.

[4] Um especialista que discute a influência da pós-modernidade na igreja é David F. Wells. Em sua obra "No Place for Truth: Or Whatever Happened to Evangelical Theology?" (1993), Wells argumenta que a pós-modernidade, com sua ênfase no relativismo e na rejeição da verdade objetiva, tem um impacto significativo na unidade da igreja.

"A pós-modernidade, ao minar a própria noção de verdade objetiva e ao promover o relativismo, levou a uma fragmentação na igreja onde a coerência doutrinária é sacrificada no altar da preferência individual e das tendências culturais." — David F. Wells, "No Place for Truth: Or Whatever Happened to Evangelical Theology?" (p. 78).

 

quinta-feira, 2 de maio de 2024

A vida pode ter sentido Parte 2 - Frutificando o caráter de Cristo

 Por Jânsen Leiros Jr.

 


“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas não há lei.”  

Gálatas 5:22 e 23

 

Desde sempre a humanidade busca compreender seu propósito e significado de existência. Entre as várias filosofias e sistemas de crenças, uma ideia persiste: fomos criados para a glória de Deus. Esta concepção transcende culturas e épocas, sendo central para muitas religiões, especialmente o cristianismo. Neste contexto, a formação do caráter de Cristo no crente emerge como uma jornada de descobertas e transformações, onde o indivíduo, dia a dia, se molda à imagem divina para cumprir seu propósito máximo; o ser à semelhança de seu Filho[1].

A formação do caráter de Cristo no crente é um tema central nas Escrituras, refletindo o propósito divino para a humanidade desde os tempos antigos. No Antigo Testamento, encontramos passagens como Gênesis 1:27, que declara que fomos criados à imagem de Deus, e Deuteronômio 10:12, que nos instrui a temer o Senhor, andar em todos os seus caminhos, amá-lo e servi-lo de todo o coração e de toda a alma, enfatizando assim a busca pela semelhança com o caráter divino.

No Novo Testamento, o apóstolo Paulo escreve em Romanos 8:29 sobre a predestinação dos crentes para serem conformes à imagem de Cristo, destacando o processo de transformação espiritual que ocorre na vida do cristão. Além disso, em Efésios 4:22-24, Paulo exorta os crentes a se despojarem do velho homem e a se revestirem do novo homem, criado segundo Deus em verdadeira justiça e santidade, evidenciando a necessidade de renovação interior para refletir o caráter de Cristo.

O cerne da formação do caráter de Cristo reside na imitação de seus atributos e ensinamentos. Cristo é frequentemente retratado como a encarnação do amor, da bondade, da misericórdia e da justiça divina. Assim, o crente é chamado a refletir essas virtudes em sua própria vida. Este processo não é instantâneo, mas gradual e contínuo, exigindo uma entrega total e uma colaboração ativa com o Espírito Santo. Afinal, nenhuma árvore dá frutos desde o seu nascimento. Mas se alimenta, fortalece, desenvolve e então frutifica.

Uma das características centrais do caráter de Cristo é o amor incondicional. Jesus ensinou-nos o amor, amando incondicionalmente não apenas aqueles que lhes eram afáveis, mas também os seus inimigos atrozes[2]. Este amor transcende barreiras e preconceitos, alcançando a todos sem distinção. Ao praticar o amor abnegado, o crente não apenas reflete a natureza divina, mas também promove a reconciliação e a unidade na comunidade, sendo-lhe promotor da paz.

Reforçando nosso argumento, Calvino enfatiza que o amor de Deus é fonte do amor humano e argumentou que os cristãos são capacitados pelo Espírito Santo a amar incondicionalmente, a exemplo do que fez o Senhor. E não somente ele, pois N. T. Wright, um dos principais estudiosos do Novo Testamento, explora profundamente o tema do amor de Deus, destacando o amor sacrificial de Cristo como o modelo supremo de amor incondicional. Ele argumenta que os cristãos devem imitar esse amor cotidianamente.

Além do amor, outro aspecto bastante relevante é a humildade; traço primordial do caráter de Cristo. Ele, sendo o próprio Filho Unigênito de Deus[3], escolheu se humilhar, servindo aos outros e submetendo-se à vontade do Pai[4]. Da mesma forma, o crente é chamado a renunciar ao orgulho e à arrogância, adotando uma postura de humildade e serviço. Ao fazê-lo, ele segue o exemplo de Cristo e testemunha a verdadeira grandeza que se encontra na simplicidade e na entrega.

A humildade é uma virtude que envolve reconhecer nossas limitações, defeitos e dependência de Deus, bem como valorizar os outros e estar disposto a servi-los sem esperar reconhecimento ou recompensa. Ela se manifesta em uma atitude de submissão voluntária e respeito em relação a Deus e aos outros, e muitas vezes está associada a características como modéstia, gentileza, simplicidade e desprendimento. E embora a humildade possa se manifestar de maneiras diferentes em diferentes contextos e situações de vida, ela é uma virtude que transcende a condição econômica, social ou indisposição de se fazer evidente. É uma postura do coração que independe de circunstâncias externas.

Outro aspecto crucial na formação do caráter de Cristo é a paciência e a perseverança. Jesus enfrentou inúmeras adversidades e contratempos durante seu ministério terreno, mas jamais desistiu de sua missão. Da mesma forma, o crente é chamado a manter a fé e a esperança mesmo diante das tribulações, confiando que Deus está trabalhando todas as coisas para o bem daqueles que o amam[5]. Esta perseverança fortalece o caráter e a fé do crente, capacitando-o a enfrentar os desafios da vida com confiança e determinação.

Além dessas virtudes, a formação do caráter de Cristo também implica na renovação da mente e na transformação dos padrões de pensamento e comportamento[6]. O apóstolo Paulo exorta os crentes a serem renovados em sua mente, deixando para trás os velhos hábitos e assumindo uma nova identidade em Cristo. Esta renovação interior é um processo contínuo, que ocorre através da meditação na Palavra de Deus, da oração e do companheirismo cristão.

Jesus Cristo é o exemplo máximo de amor, humildade, paciência e perseverança, como visto em passagens como João 13:34-35, onde Ele ensina sobre o mandamento do amor mútuo, e Mateus 20:28, onde Ele declara que veio para servir e não para ser servido. A imitação de Cristo é fundamental para a formação do caráter do crente, conforme destacado em 1 João 2:6, que nos instrui a andar como Ele andou.

A formação do caráter de Cristo no crente é uma jornada de crescimento espiritual e pessoal, onde o indivíduo se torna cada vez mais semelhante ao seu Salvador. Tendo o caráter de Cristo como sentido da vida, o crente reflete os atributos divinos em sua própria existência, testemunhando ao mundo o poder transformador do Evangelho. Que abracemos esta disposição com fé e determinação, confiando que aquele que começou a boa obra em nós há de completá-la até o dia de Cristo Jesus[7].

 



[1] Romanos 8:29

[2] Lucas 23:34

[3] João 3:16

[4] Filipenses 2:5-7; Mateus 26:39

[5] Romanos 8:28

[6] Romanos 12:1-2

[7] Filipenses 1:6

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Mordomos do Reino - Cuidando do que nos é confiado

Por Jânsen Leiros Jr. 


 
“Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar.”  

Gênesis 2:15 

A mordomia cristã é um princípio fundamental na vida do seguidor de Jesus Cristo, baseado na compreensão de que Deus é o dono de todas as coisas e nós somos seus administradores. Esse conceito tem raízes sólidas nos ensinamentos bíblicos e na teologia cristã, e é essencial para uma vida cristã autêntica e comprometida.

Desde o princípio, nas Escrituras, vemos o padrão estabelecido por Deus de mordomia sobre a criação. No livro de Gênesis, Deus confiou a Adão e Eva a responsabilidade de cuidar e administrar o jardim do Éden, indicando que somos chamados a ser mordomos responsáveis dos recursos que Ele nos confiou.

Jesus também ensinou sobre a importância da mordomia em suas parábolas e ensinamentos. Em uma das parábolas mais conhecidas, a parábola dos talentos (Mateus 25:14-30), Jesus ilustra como Deus nos concede recursos e espera que os usemos sabiamente em prol do Reino. Ele também enfatizou que aquele que é fiel no pouco será fiel no muito, mostrando que a fidelidade na mordomia demonstra preparo e maturidade espirituais.

A mordomia cristã abrange diversas áreas da vida, incluindo finanças, talentos, tempo, corpo e meio ambiente[1]. Somos chamados a administrar fielmente nossos recursos financeiros, dando com generosidade para a obra do Reino e cuidado dos necessitados. Além disso, devemos usar nossos talentos e habilidades para servir a Deus e ao próximo, investir nosso tempo de maneira significativa e responsável, cuidar do nosso corpo como templo do Espírito Santo e ser bons mordomos dos recursos naturais que Deus nos deu.

No entanto, viver uma vida de mordomia cristã não é fácil, especialmente em um mundo dominado pelo materialismo e pelo consumismo. Enfrentamos desafios diários para resistir à tentação do egoísmo e da ganância, e para priorizar as coisas do Reino de Deus em vez das coisas temporais deste mundo; as infelizes distrações. No entanto, as recompensas espirituais da fidelidade na mordomia superam em muito os desafios que enfrentamos. Experimentamos uma maior proximidade com Deus, um senso de propósito e significado na vida, e a alegria de fazer parte da obra de Deus no mundo.

                    Abracemos com devoção o princípio da mordomia cristã em todas as áreas da nossa vida, buscando ser fiéis administradores dos recursos que Deus nos confiou. Que vivamos de maneira responsável e generosa, investindo nossos recursos para o avanço do Reino de Deus e para a glória do Seu nome. Que o nosso exemplo de mordomia inspire outros a fazerem o mesmo, para que juntos possamos testemunhar a transformação do mundo pela graça e o poder de Deus.


[1] Lucas 16:10-12: Jesus ensina sobre a fidelidade na administração dos recursos, indicando que aquele que é fiel no pouco será fiel no muito.

Mateus 25:14-30: A parábola dos talentos, onde Jesus ilustra a responsabilidade de administrar os recursos que Deus nos confia e as recompensas para aqueles que são fiéis.

1 Coríntios 6:19-20: Paulo ensina sobre o corpo como templo do Espírito Santo, incentivando a cuidar dele.

Tiago 1:27: Tiago fala sobre a importância de cuidar dos órfãos e das viúvas, o que pode ser aplicado ao cuidado dos necessitados em geral.

sábado, 30 de março de 2024

Fiz porque quis!

 Por Jânsen Leiros Jr.


Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.”  

Filipenses 2:5-8

 A sexta-feira que antecede ao Domingo de Páscoa, a chamada Sexta-feira Santa, ou Sexta-feira da Paixão, é um feriado cristão lembrado em quase todo o mundo[1]. E mesmo fora das comunidades cristãs, a história da crucificação de Jesus é amplamente conhecida, e rememorada como um fato aceito, no mínimo, como realidade histórica. Isso o torna extremamente popular, e sua importância é reconhecida por senso comum.

Que Jesus foi morto em uma cruz, portanto, não é segredo pra ninguém, e poucos são os contestadores desse evento que ultrapassa as paredes da crença religiosa, e se traduz em pinturas, esculturas e diversas outras expressões artísticas e culturais mundo afora há mais ou menos dois mil anos.

O que não é muito comum, e desde tempos idos, é a cruz tomar o centro da pregação da salvação proclamada pelas igrejas, no Brasil e no mundo. Poderíamos atribuir isso às novidades culturais da pós-modernidade, mas estaríamos escondendo uma realidade já denunciada no Novo Testamento, e que preocupava demasiadamente o apóstolo Paulo, por exemplo, como se pode notar em alguns textos bíblicos[2].

Não que sobre a crucificação como fato histórico paire qualquer dúvida plausível, uma vez que sustentado, inclusive, por documentos não religiosos[3]. Mas grande é o número daqueles que entendem a crucificação como um martírio consequente, causado pelos assim considerados posicionamentos políticos e religiosos assumidos por Jesus, e não como um sacrifício espontâneo, em que o Cristo de Deus se ofereceu como Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Considerado como mártir, e ainda como um homem cuja mensagem de amor e paz estava muito à frente da sociedade de seu tempo, Jesus tem sua cruz considerada como um final inevitável para quem contrariou os interesses dos dominadores da época, ou mesmo dos pretenciosos rebeldes, que buscavam um líder que comandasse alguma insurgência contra o Império Romano[4].

As distorções sobre o significado da cruz na história da salvação, no entanto, não ficam do lado de fora, nem mesmo dos muros do próprio cristianismo, ou das mentes de seus dedicados fiéis. Infelizmente. E não foi por falta de empenho de quem, logo cedo, percebeu que tal descaminho poderia acontecer em algumas comunidades cristãs ainda no primeiro século.

É importante ressaltar a essa altura, que ao enfatizarmos a cruz como mensagem central do evangelho, não o estamos fazendo com a finalidade de sacraliza-la como objeto primordial da cristandade. Jamais. Em vez disso, a ideia é posicioná-la como instante de realização do sacrifício vicário de Jesus em nosso lugar. Como ápice de seu propósito redentor. Lugar de expiação dos nossos pecados[5].

                    Além disso, e não menos importante, precisamos entender que a crucificação tem sua relevância na história da redenção, não meramente como modelo de morte, sem sombra de dúvida agressivo, desumano e indigno, e que por isso tenha elevado o caráter sacrificial de Jesus ao tomar nosso lugar em expiação. Até porque, ele não foi o único a sofrer tal sentença de morte[6]. Mas então, por que na cruz?

Digamos que a sentença de morte para o crime pelo qual Jesus foi condenado, em vez de crucificação fosse o enforcamento. Será que o texto do apóstolo Paulo não teria sido porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este enforcado? Certamente sim. E por que? Simplesmente porque Paulo não está se referindo ao modo pelo qual Jesus foi morto, mas sim ao fato de ter se entregado à morte em nosso lugar. Espontaneamente, e resoluto, até a totalidade de seu sacrifício. Mas por qual razão a cruz chamava tanto a atenção do apóstolo, a ponto de fazê-lo trocar qualquer argumento humano convincente, pela aparente vergonha da cruz?

Naqueles tempos, e desculpem dizer mas será necessário para melhor compreensão do argumento, além da crucificação, alguns outros métodos de execução eram passíveis de uso. Pessoas morriam pela espada, perfuradas por flechas e lanças, rompidas ao meio por métodos que variavam desde serem cruelmente cerradas, até puxadas pelos membros por juntas de cavalos em direções contrárias, e ainda atiradas de um penhasco ou enforcadas, como adiantamos acima. Todas execuções relativamente rápidas e diretas, que variavam em crueldade, mas que davam ao executado pouca ou nenhuma chance de resistir à morte, ou ao menos prolongar seus instantes finais.

Já a crucificação, como método de execução, tinha possibilidades múltiplas. A primeira e mais interessada ao Império, era o seu caráter didático, por incrível que pareça. Havia uma exposição imensa do executado, desde os momentos que antecediam à sua execução. Já pendurado na cruz, os motivos de sua condenação eram declarados ao público, e por um tempo razoavelmente longo, a execução ficava à vista das pessoas, que iam, segundo entendiam, sendo ensinadas a não cometerem crimes que as levassem a semelhante desfecho. Mas também havia um mórbido pensamento velado de que, pendurado na cruz, o executado teria algum tempo de pensar no fez, e arrepender-se do mal cometido, o que era utilizado como uma espécie de minimização da crueldade daquela pena de morte.

        Olhando pelo prisma do tempo transcorrido entre a execução e o efetivo falecimento do executado, ele não somente tinha tempo para se arrepender, como também, contava com a possibilidade de ver seus entes queridos, e falar com eles uma última vez antes de calar-se definitivamente. No caso de Jesus, o tempo entre ser levantado na cruz e morrer efetivamente, não só permitiu-lhe as últimas palavras, ainda que em agonia, mas oportunizou em sua história mais um instante de provação de seu amor por nós. E por que concluímos isso?

Em seu livro "A Última Tentação de Cristo" o renomado escritor grego Nikos Kazantzakis[7], retratou a vida de Jesus Cristo de uma maneira ficcional, claro, explorando questões existenciais e espirituais bastante relevantes, sobre os momentos vividos pelo Senhor na cruz. Segundo o escritor, e o que me parece extremamente plausível, por todo o tempo pendurado na cruz, Jesus foi tentado, pela dor e agonia que experimentava, a descer dali, estancando repentinamente o plano de salvação da humanidade, e cessando toda a imensa aflição que lhe acometia.

Na prática, a suposição romanceada de Kazantzakis, ressaltou que, na cruz, um importante traço de espontaneidade e determinação de propósito foi revelado por Jesus. Não há uma fatalidade incidental em sua morte “e morte de cruz”. Antes, seu sacrifício é uma escolha dele e de Deus. Não foi um acaso ou muito menos uma lamentável imponderável infelicidade. Ele quis e efetivamente morreu pela humanidade. Ainda que doído, e doído até o fim. Tudo isso deixando evidente, que seu amor por nós foi além do limite da agonia e do interesse pessoal pelo alívio e pela continuidade da própria vida. Ele poderia ter pedido ao Pai para tirá-lo dali. Poderia ter desistido do processo que já o vinha angustiando como no Getsêmani. Em vez disso, e apesar da sensação de desamparo, preferiu dar-se por nós, dando tudo por “consumado”, e entregando o espirito nas mãos de Deus. Uma declaração pra lá de poderosa, do imenso e incondicional amor de Deus por você e por mim.   

            É claro que há muitos outros aspectos relevantes na morte de Jesus. Mas todos eles convergem para um mesmo e importante lugar; foi amor e foi espontâneo. Não o tivesse sido, o caráter acidental e inevitável do feito, apagaria o aspecto vicário do sacrifício, reduzindo o feito do Senhor a um ativismo ideológico, e a um martírio consequente à luta por uma causa. Não deixaria de ser historicamente relevante, mas jamais seria redentor. Em vez disso, suas escolhas reveladas antes e sobretudo na cruz, nos fazem praticamente ouvi-lo dizer: Foi por você. Fiz por amor e fiz porque quis.

[1] A Sexta-feira Santa, que marca a crucificação de Jesus Cristo, é uma tradição cristã que remonta aos primeiros séculos do Cristianismo. Sua comemoração foi instituída pela Igreja Católica como parte da Semana Santa, que culmina na celebração da Páscoa. A data específica da instituição da Sexta-feira Santa como feriado nacional varia de país para país.

No Brasil, a Sexta-feira Santa é reconhecida como feriado nacional devido à influência do Cristianismo, predominantemente católico, na cultura do país.

[2] 1 Coríntios 1:18-25; Gálatas 6:11-14; Hebreus 12:2

[3] Existem vários textos e documentos históricos não religiosos que mencionam a crucificação de Jesus como um evento histórico. Aqui estão alguns exemplos:

Flávio Josefo: Um historiador judeu do primeiro século, em sua obra "Antiguidades Judaicas", menciona Jesus e sua crucificação, embora algumas partes tenham sido questionadas por estudiosos quanto à autenticidade.

Tácito: Um historiador romano do primeiro e segundo séculos, em suas "Anais", faz referência à crucificação de Jesus sob o reinado de Tibério, durante o governo de Pôncio Pilatos.

Plínio, o Jovem: Um escritor e administrador romano do primeiro e segundo séculos, em suas cartas ao imperador Trajano, menciona os seguidores de Jesus e seus costumes, indicando a existência de Jesus e sua crucificação. 

Luciano de Samósata: Um escritor e satírico grego do segundo século, em sua obra "A Morte de Peregrino", faz menção a Jesus e sua crucificação.

Esses são apenas alguns exemplos de fontes não religiosas que corroboram a crucificação de Jesus como um evento histórico. Esses escritos fornecem evidências de que a crucificação de Jesus era conhecida e discutida por historiadores e escritores contemporâneos, independentemente de suas crenças religiosas.

 [4] Algumas correntes filosóficas, pensadores e até mesmo religiões não cristãs podem interpretar a crucificação de Jesus como um evento motivado principalmente por questões políticas e religiosas da época, em vez de um sacrifício redentor voluntário. Aqui estão algumas dessas perspectivas:

Perspectiva Judaica: Do ponto de vista judaico, a crucificação de Jesus pode ser vista como resultado de sua oposição às autoridades religiosas judaicas da época e às tensões políticas com o governo romano. Jesus foi considerado uma ameaça ao status quo religioso e político, levando à sua condenação à morte.

Perspectiva Secular: Alguns filósofos e historiadores seculares podem interpretar a crucificação de Jesus como um evento político em vez de um evento divino. Eles podem ver Jesus como um líder religioso e social que desafiou as estruturas de poder estabelecidas e foi executado como resultado de sua contestação política.

Perspectiva Filosófica: Certos filósofos podem analisar a crucificação de Jesus como um exemplo de conflito entre o indivíduo e o sistema estabelecido. Eles podem ver Jesus como um mártir que defendeu seus princípios éticos e morais, mesmo que isso o levasse à morte nas mãos das autoridades.

Perspectiva Religiosa Não Cristã: Em algumas tradições religiosas não cristãs, a crucificação de Jesus pode ser vista como um evento histórico sem significado divino. Ele pode ser considerado apenas como um líder religioso que encontrou oposição das autoridades e foi executado como resultado de sua pregação e atividades.

[5] Efésios 2:16; Colossenses 1:20-22

[6] É difícil fornecer um número exato, pois os registros históricos são limitados e muitos casos podem não ter sido documentados. No entanto, a crucificação era uma forma de punição comum no Império Romano, especialmente para criminosos considerados ameaças à ordem pública, como rebeldes, escravos e criminosos violentos. Durante o período em que a prática foi utilizada, milhares de pessoas foram crucificadas, incluindo judeus e pessoas de diversas outras nacionalidades. O número exato varia de acordo com diferentes estimativas e períodos históricos, mas é razoável afirmar que um grande número de pessoas foi submetido a essa forma brutal de execução durante o domínio romano.

[7] "A Última Tentação de Cristo" foi publicado em 1955. Já o filme, homônimo, foi lançado em 1988 e dirigido pelo renomado cineasta Martin Scorsese. Kazantzakis também é conhecido por outras obras influentes, como "Zorba, o Grego", que também foi adaptado para o cinema e 1964 e "Alexis Zorba".

Powered By Blogger