terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A vida que debate a arte que debate a vida. Quem bate? Quem apanha?


“Não sei se arte imita a vida ou a vida imita a arte. Não concebo a arte sem vida e muito menos a vida sem arte. Onde há vida, inspira-se arte. A vida é uma grande obra de arte, na qual existem bons e inexperientes artistas.

Obras de arte são tentativas frustradas e contraditórias (vistas sob a ótica humana) de se querer engarrafar o tempo, engaiolar momentos vividos ou imaginados, de dor ou de amor.

É o homem querendo, pretensiosamente, ser senhor do seu tempo!”

                   Hermes Petrini - Assessor da Pastoral Universitário do Centro UNISAL – Americana
Fonte: http://www.am.unisal.br/publicacoes/artigos-18.asp

Desde a semana passada venho ouvindo com atenção, de diversos colegas, amigos e circunstantes, comentários sobre cenas, conteúdos e mensagens que a minissérie da Globo Felizes para Sempre? vem apresentando. Há os que se dizem horrorizados com a “pouca vergonha” de cenas tórridas e sensuais. Há outros escandalizados pela variedade de traições e de relações confusas, convenientes. E há ainda os extremamente empolgados com a sensualidade dos atores e atrizes (principalmente das atrizes) que contam a trama criada pelo autor.

Tem muita gente que diz ser “um absurdo passarem uma minissérie dessas na televisão”, considerando que determinadas cenas e enredos não são apropriados para serem assistidos por crianças, jovens ou “famílias de bem”. Um arroubo moralista de reação rasa, que mais demonstra medo da influência que pode sofrer, do que uma posição consistente de quem não se interessa por esse tipo de contexto como entretenimento. Sim, um disfarce mentiroso, porque pelo menos nos aparelhos lá de casa existe uma tecla de “liga/desliga”, que obedece inexoravelmente ao meu comando. De modo que, quando começa a transmissão daquilo que não me interessa ou que eu considero inapropriado para mim e para meus filhos, eu simplesmente desligo, ou ainda troco de canal, com outra tecla mágica que me permite trocar a programação sempre que eu desejo fazê-lo.

Mas eu não quero trocar de canal. Não aqui. Não agora. Não quero fechar os olhos para um assunto, esse sim muito mais sério, que precisa ser debatido socialmente; a permanente afirmação de que princípios essenciais para a vida, tanto individual quanto em grupo, não passam de utopias, quimeras ou tabus, sejam religiosos ou impostos por uma sociedade hipócrita, que na prática não resistem às possibilidades e circunstâncias que nos envolvem no cotidiano de nossas realidades.

Tramas como essa que o seriado está propondo, discutem conceitos importantes da vida, como fidelidade, honestidade e lealdade, apenas para não alongarmos muito a lista de princípios que são trazidos à discussão da sociedade, onde suas reais e possíveis aplicações são questionadas. E não digo que eles não possam ser questionados. Não só podem como devem, pois é exatamente no contexto da discussão, que se firmam posições, tanto favoráveis quanto contrárias, dando-nos a capacidade de enxergarmos de nós mesmos, quem somos, o que cremos ou o que queremos assimilar como conjunto de valores para a vida.

Minha preocupação, no entanto, se concentra na maneira como a discussão é apresentada. Ao que parece, numa avaliação superficial do enredo, todas as relações afetivas, todos os casais envolvidos na trama, de uma forma ou de outra não têm uma relação honesta, fiel ou leal com o seu cônjuge. Há algum absurdo nisso em termos de irrealidade, visto que nossa sociedade apresenta exatamente esse cenário como verdade plácida? Não. Mas como arte, que pretende questionar conceitos inerentes ao dia a dia social, um único contra-ponto deveria ser deixado, como exemplo contrário de toda a realidade que se projeta amarga sobre os personagens. Eu explico.

Quando ainda lecionava, alguns alunos me procuraram para que eu opinasse sobre um seminário que estavam planejando realizar, cujo tema seria A Verdade. Apresentaram-me então o plano de exposição e os palestrantes, cada um responsável por discorrer sobre uma determinada percepção sobre o que é, e como se aplica a verdade na vida do ser humano. E por fim me perguntaram: - Está faltando alguma coisa? Ao que respondi: - Sim, está faltando o mentiroso. Como vocês querem falar sobre a verdade, sem que o ponto de vista do mentiroso seja trabalhado? Se bem me lembro eles não conseguiram um palestrante que falasse em defesa da mentira.

Obviamente minha resposta a eles foi retórica, mas em termos práticos, o que eu queria ressaltar, é que nenhuma tese, discussão, debate ou obra de ficção que se pretenda falar sobre conceitos sociais, essenciais para a formação do indivíduo pode, por vício de dever, pluralizar as versões sobre uma mesma polaridade, sem que em contrapartida ofereça pelo menos uma única visão em pólo contrário.

Trocando em miúdos, o seriado pode e deve trazer a discussão sobre a felicidade efetiva ou fingida das relações amorosas, e as diferentes formas em se buscar essa felicidade, ou ainda afirmar que na grande maioria das relações, o que existe é apenas uma hipócrita manutenção de uma convenção que não resiste a circunstâncias envolventes. Mas haveria a necessidade de haver um único contra-ponto que fosse. Um único casal no contexto da obra, em que os conceitos e os princípios tivessem trazido felicidade efetiva. Assim, os telespectadores teriam um leque mais amplo e honesto das possibilidades reais de felicidade num casamento, sem considerar, no final, que toda e qualquer relação não passa de uma convenção conveniente, onde traição, promiscuidade e devassidão, se revezam como ingredientes necessários para uma questionável solidez, ou para a desconstrução total das relações afetivas.

Quem tem um pouco mais de trinta anos, deve lembrar que nas décadas de 70/80 fomos bombardeados pela afirmação constante de que a família era uma “instituição falida”. Vivíamos a época da lei do divórcio, da liberação sexual... Ninguém era de ninguém. Comemos essas afirmações. Dormimos sobre elas. Acreditamos mesmo que a família não passava de uma convenção social, que mais servia como uma condição imposta e repressora, e instauramos na sociedade a idéia de liberdade a qualquer custo, ainda que custasse o bem estar de nossos filhos, nossos cônjuges e de nossos futuros. Importava apenas nos permitirmos aos desejos imediatos e que se danassem os outros. Acho que não preciso comentar aqui no que deu.

Agora estamos passo a passo retornando a esse cenário em que determinados conceitos estão sendo bombardeados unilateralmente, sem que haja qualquer possibilidade de contradição ou defesa dos princípios éticos e comportamentais. E isso na exata contramão do politicamente correto e do eticamente aceitável, onde firmar posição a favor da manutenção de determinados conceitos essenciais para a vida em sociedade, passou a “incorreto” e a “inaceitável”. Quem pensa diferente é chamado de “estranho”, quem não se corrompe é considerado “otário”, e quem busca ser fiel e leal ao seu cônjuge, leva o rótulo de “hipócrita” ou ainda de “enrustido”. Basta, mas os exemplos poderiam se multiplicar...

Não sou contra a arte. Não sou contra o autor da minissérie, nem contra seu diretor. Muito menos sou contra seu elenco, que, aliás, extremamente competente. Mas defendo que determinadas abordagens precisam ser plurais, tanto no sentido das trajetórias, quanto o são em suas direções. Pois não se pode chamar de ideologicamente democráticas, abordagens que trilham caminhos que levem a um mesmo destino. Se é para discutir sobre a verdade, vamos incluir quem defenda a mentira. Tanto assim, versando sobre a mentira, é preciso dar voz à verdade. Pois é na confrontação honesta das antíteses que se aprimoram as teses.

Um forte abraço.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Pode o dinheiro definir a fé?



3 Se alguém ensina alguma doutrina diferente e não concorda com as verdadeiras palavras do nosso Senhor Jesus Cristo e com os ensinamentos da nossa religião, 4 essa pessoa está cheia de orgulho e não sabe nada. Discutir e brigar a respeito de palavras é como uma doença nessas pessoas. E daí vêm invejas, brigas, insultos, desconfianças maldosas 5 e discussões sem fim, como costumam fazer as pessoas que perderam o juízo e não têm mais a verdade. Essa gente pensa que a religião é um meio de enriquecer. 6 É claro que a religião é uma fonte de muita riqueza, mas só para a pessoa que se contenta com o que tem. 7 O que foi que trouxemos para o mundo? Nada! E o que é que vamos levar do mundo? Nada! 8 Portanto, se temos comida e roupas, fiquemos contentes com isso. 9 Porém os que querem ficar ricos caem em pecado, ao serem tentados, e ficam presos na armadilha de muitos desejos tolos, que fazem mal e levam as pessoas a se afundarem na desgraça e na destruição. 10 Pois o amor ao dinheiro é uma fonte de todos os tipos de males. E algumas pessoas, por quererem tanto ter dinheiro, se desviaram da fé e encheram a sua vida de sofrimentos.
                                      1 Timóteo 6:3-10 - NTLH

Temos vivido tempos difíceis, em que a necessidade de avaliar os fatos e as intenções por detrás dos fatos, tem consumido uma importante parcela do tempo e da meditação responsável, de todo aquele que se pretende atento às astutas ciladas e armadilhas que se armam diante de nossos pés. Não há um só dia em que se possa relaxar e deixar a mente flutuar por um vazio revigorante e pretensamente merecido. É preciso estar alerta. O mais incômodo e preocupante, no entanto, é que esse estado de sentinela não tem podido adormecer sequer nas reuniões dos santos.

Não é de hoje que assistimos diversos movimentos invadirem as igrejas por suas portas e janelas, reivindicando para si um caráter profético, revelador ou mesmo inspirado “da parte de Deus”, em que o hedonismo e os interesses materiais e de enriquecimento, se travestem de piedosas convicções, com argumentos frívolos, mas de efeito retórico, que apresentam em uma de suas mãos promessas divinas de prosperidade, e na outra, caminhos fáceis e rasos para o progresso social e o sucesso financeiro.

Ora, isso de jeito algum é novo. O apóstolo Paulo ainda no primeiro século, poucos anos após o surgimento da igreja, percebeu movimentos como esses no seio da igreja em que Timóteo havia sido colocado como líder. E ele não só se indignava com tais pessoas que promoviam essas perturbações das sãs doutrinas, como requereu do próprio Timóteo que combatesse insistentemente essas ideologias, que jamais poderiam promover verdadeira integridade espiritual na vida de quem quer que fosse.

O mais interessante, contudo, é que Paulo percebia com ainda maior clareza a verdadeira intenção camuflada por todas as novidades trazidas à tona como verdades espirituais mais genuínas e condizentes com esse ou aquele principio ou especificidade da tradição oral; a de transformar a religiosidade num negócio rentável e lucrativo. Lembrem-se, estamos falando do primeiro século. Mas tenho certeza de que muitos de nós somos capazes de identificar coisas como essas em nossos dias.


“Um escravo não pode servir a dois donos ao mesmo tempo, pois vai rejeitar um e preferir o outro; ou será fiel a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e também servir ao dinheiro.”
                                      Mateus 6:24 - NTLH


20 Replicou-lhe o jovem: Tudo isso tenho observado; que me falta ainda? 21 Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. 22 Tendo, porém, o jovem ouvido esta palavra, retirou-se triste, por ser dono de muitas propriedades.”
                                      Mateus 19:20-22 - RA

É claro que a vida cristã tem como promessa uma vida de prosperidade, mas de modo algum está essa prosperidade relacionada a dinheiro ou status social. Muito pelo contrário. A riqueza quase sempre esteve ligada a uma condição espiritual perigosa e temerária, uma vez que o apego ao dinheiro pode trazer dificuldades e constrangimentos àquele que o possui. Não foi sem razão que o próprio Jesus fez os alertas acima.

Tanto Paulo quanto o autor de Hebreus, nos ensinam que a vida deve ser vivida com ações de graça. Ou seja, com gratidão pelo que se tem, e na confiança de que Deus supre as necessidades e acrescenta aquilo que lhe convier. Quem vive para buscar ter mais, não pode por definição estar satisfeito com o que tem. Mas como Paulo ressalta, tendo com que se manter fisicamente e estando abrigado, é para ele motivo de grande contentamento. A felicidade nasce exatamente de um coração grato, independente das circunstâncias.


“Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação.”
                                      Filipenses 4:11 - RA


5 Não se deixem dominar pelo amor ao dinheiro e fiquem satisfeitos com o que vocês têm, pois Deus disse: “Eu nunca os deixarei e jamais os abandonarei.” 6 Portanto, sejamos corajosos e afirmemos:
“O Senhor é quem me ajuda,
e eu não tenho medo.
Que mal pode alguém me fazer?”.”
                                      Hebreus 13:5-6 - NTLH

Portanto, não podemos, tanto quanto Paulo, camuflar as verdadeiras intenções de tais manifestações e lideranças que vêem grassando nossas igrejas e enganando a muitos; o enriquecimento próprio utilizando-se do despreparo bíblico da maioria de nossa gente, que se ilude seduzida igualmente pela possibilidade de também obter vantagens com a piedade. A ganância é a motivação daqueles que distorcem o evangelho com ideologias mundanas, oferecendo aquilo que não trará qualquer frutificação, qualquer benefício espiritual. Trocam verdadeiramente a benção por um prato de lentilha.


“Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas.”
                                      Jeremias 2:13 - RA

Manter-se com integridade na sã doutrina de Jesus teve para Paulo um custo pessoal, mas também, e ainda mais excelente peso de glória. Ele jamais se permitiu usar da boa fé dos irmãos que o recebiam ou mesmo ajudavam em sua missão evangelística. Antes confiou por todo o tempo no cuidado proveniente de Deus, para mantê-lo vivo e sustentado com aquilo que lhe fosse necessário. Pois Aquele que nem mesmo ao seu próprio Filho poupou, não nos dará gratuitamente todas as coisas? (Romanos 8:32).

Que os nossos corações e mentes estejam sempre atentos aos lobos travestidos de pastores, que não querem cuidar de ovelhas, mas se servirem de seus rebanhos, não lhes oferecendo em troca nada além de circo. Nem pão...


Um forte abraço.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Je prie pour le Brasil


1 Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, 2 em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito. 3 Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador, 4 o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.”
                      1 Timóteo 2:1-4 – RA


1 Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. 2 De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. 3 Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, 4 visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. 5 É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. 6 Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. 7 Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra.”
                      Romanos 13:1-7 – RA (ver também Jeremias 29:7)

É flagrante e crescente a onda de pessimismo que vem acometendo os diversos seguimentos da sociedade brasileira, quanto ao futuro próximo de nosso país. O noticiário vem acumulando fatos que têm estarrecido a população mais atenta aos rumos da nação. Mudanças de regras, inversões de prioridades, corrupção e instabilidade política, apontam para dias difíceis e conjunturas nada favoráveis a um transcurso tranqüilo e próspero da vida de nossa gente.

É claro que em circunstâncias como essas, os menos favorecidos, os pobres e os dependentes de amparo do Estado são sempre os mais prejudicados, ainda que pela falta de informação ou mesmo de formação, não sejam capazes de perceber o caminho nada promissor que a conjuntura sócio-econômica vem trilhando. Iludidos por paliativos que lhe mitigam as necessidades mais imediatas, são incapazes de enxergar que o futuro e o horizonte pode lhes estar sendo negados, à medida que as vigas para um amanhã consistente, oscilam afundadas em um lamaçal de negociatas de uma gestão confusa e de eficácia duvidosa.

Na outra ponta dessa corda, estão os presumidamente esclarecidos, que imaginam perceber as “ciladas” e “artimanhas” da atual administração pública, rebelando-se e multiplicando-se em críticas e acusações que oscilam entre infundadas e totalmente aceitáveis, demonstrando uma indignação latente e pulsante, mas que em contrapartida, admitem que o remédio, agora, terá mesmo que ser amargo, dada a extensão dos danos que a gestão doente sofreu. De prático, sobram críticas e dedos em riste, faltam idéias e soluções plausíveis, menos dolorosas para a maioria dos brasileiros. Falo maioria, porque obviamente há aquela parcela bem minoritária da sociedade, para quem as condições que o país atravessa, parece pouco incomodar ou mesmo em nada atingir suas vidas supostamente seguras e inatingíveis por questões menores e sem importância.

E nós cristãos, o que pensamos disso tudo? O que esperamos? Em quem acreditamos? Para qual lado torcemos ou tendemos? Somamos com os que acreditam que tudo o que tem aparecido na mídia é uma conspiração política para aplicar um golpe no governo legitimamente constituído, ou nos juntamos aos que apontam o dedo acusando a gestão pública de incompetência e corrupção, culpando-os exclusivamente pelas circunstâncias em que se encontra o país? De ambos os lados há razões e sobram argumentos, e qualquer discussão a respeito não parece melhorar em nada a realidade premente e preocupante.

Alheio a conflitos, mas atento à conjuntura e às circunstâncias sociais em que estavam inseridos os cristãos do primeiro século, Paulo exorta Timóteo a orar pelos reis e autoridades. Quer queiramos, quer não, vivemos em uma sociedade civil. Um país onde as decisões e os rumos definidos por seus governantes têm impactos diretos e indiretos em nossa vida cotidiana. O apóstolo sabia disso e entendia que a tranqüilidade e a facilidade para continuar pregando o evangelho atendendo à vontade de Deus de que todos sejam salvos, dependia de uma condução ordenada e calma por parte das lideranças políticas daquela região.

Ao dizer para orar por todos os homens, Paulo pretende que Timóteo não se furte de orar por um ou outro determinado governante, seja ele quem for, pense ele o que pensar, seja ele pagão ou não. Paulo amplia assim a percepção de Timóteo de que a pluralidade da condição humana não pode estreitar-nos em uma visão elitista e exclusivista. O importante era pedir a Deus que lhes garantisse uma condição social mansa e tranqüila, para que pudessem viver piedosamente, adorando e servindo de testemunhas de Deus sempre que oportuno.

Em Romanos, Paulo adverte quanto à importância do respeito e à submissão aos governantes, por Deus investidos de autoridade. Desse modo ele ressalta que Deus se mantém no controle da história, e seja lá de que modo tal autoridade tenha sido estabelecida, se por Deus não lhe fosse dado tal poder, ela não seria autoridade. Como já havia sido dito anteriormente por Jesus a Pilatos:


10 Então, Pilatos o advertiu: Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade para te soltar e autoridade para te crucificar? 11 Respondeu Jesus: Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fosse dada; por isso, quem me entregou a ti maior pecado tem.”
                      João 19:10-11 - RA

Portanto submissão às autoridades e súplicas a Deus por elas, é agradável ao Senhor. É a busca por dias menos difíceis para o conjunto da nação. A briga política não é nossa vocação direta, mas sim as intercessões, súplicas e ações de graças.

Ora, até quando assistiremos ao noticiário da TV, apenas emitindo indignadas considerações, sem levantar um clamor sincero e responsável a Deus em favor de nosso país? Se o mundo jaz no maligno, o Brasil não está diferente. É nossa responsabilidade suplicar a Deus por nossa nação. Ainda que sejamos peregrinos em terra estranha, como vivia Israel no exílio em Babilônia.


4 Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel, a todos os exilados que eu deportei de Jerusalém para a Babilônia: 5 Edificai casas e habitai nelas; plantai pomares e comei o seu fruto. 6 Tomai esposas e gerai filhos e filhas, tomai esposas para vossos filhos e dai vossas filhas a maridos, para que tenham filhos e filhas; multiplicai-vos aí e não vos diminuais. 7 Procurai a paz da cidade para onde vos desterrei e orai por ela ao Senhor; porque na sua paz vós tereis paz.
                      Jeremias 29:4-7 – RA

Que Deus nos inspire contínuo sentimento de intercessão por nosso povo e por nossa nação, para dias de paz e mansidão nos sejam concedidos. Para que o evangelho de Jesus possa ser pregado com singeleza de coração, em meio à tolerância e boa vontade.

Um forte abraço...

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Humanidade, propósito de Deus

   

Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.”
Gênesis 1:26-28

Eis o ponto alto da narrativa da criação do universo... A criação do homem. A seqüência dos dias parece e efetivamente converge para esse momento. Até então o cenário vinha sendo preparado e Deus via que “era bom”, ou mais apropriadamente viu Deus que estava adequado para seu intento. Após criar a humanidade, porém, Deus diz que “era muito bom”, como se numa tradução mais livre dissesse “agora sim... está perfeito!” Perfeito?

Sim, perfeito. E não apenas porque estava adequado ao propósito, mas também porque correspondeu perfeitamente ao planejado. E isso precisa ser devidamente destacado: Planejado. E esse planejamento implícito na narrativa, convida o leitor a um olhar diferente para a criação; planejamento pressupõe objetivo, finalidade... Planejamento pressupõe propósito.

Enquanto todas as demais cosmogonias contemporâneas (mitos sobre a criação do mundo) lidavam com o surgimento do planeta como um acaso, uma conseqüência a partir de lutas e guerras entre deuses, onde os elementos nada mais eram do que derivações existenciais dos derrotados, Gênesis trata o planeta como criação planejada e propositada de Deus. E mais, o Homem deixa a condição de apenas mais um espécime animal, evoluída ou derivada de uma matéria primordial, para se tornar “imagem e semelhança de Deus”, conceito completamente novo e estranho até mesmo entre os israelitas saídos do Egito.

“Dominai sobre...”, mais que o estabelecimento de uma atribuição da humanidade, define o Homem como subordinador e não como subordinado a qualquer espécie animal, fosse ela do mar, dos céus ou da terra. Isso contrariava também os cultos aos deuses pagãos, normalmente assemelhados a animais domésticos ou selvagens, que habitavam comumente as regiões de adensamento populacional da época. A criação da humanidade narrada em Gênesis, portanto, inaugura uma visão totalmente nova do ser humano e suas possibilidades sobre a terra.

Portanto, o planeta a partir daqui deixa de ser o foco de Gênesis. No processo de concentração do geral para o particular, a narrativa dá seu primeiro salto. Esse Homem será o objeto das manifestações divinas. Deus movimentará o universo em favor desse Homem. Buscará sua proximidade, sua compreensão e seu amor, sem jamais impor a esse mesmo Homem essa condição. Ele será livre até para negá-lo, mas seu Criador jamais deixará de chamar por ele.

A redenção do ser humano é, portanto, um objetivo traçado e trabalhado por Deus desde sempre. A proclamação do seu amor realizador que busca trazer o Homem do caos à ordem, é uma tarefa nossa, que já vivemos tão grande salvação. Pois o amor de Deus nos constrange.

Que o Deus criador dos céus e da terra, inspire-nos desejo ardente e constante de anunciar a salvação que há em Cristo Jesus, apontando esse Homem como objeto de tão grande amor.

Bom treino!

domingo, 18 de janeiro de 2015

A mão estendida de Deus e a rejeição humana



8 A palavra do Senhor veio a Zacarias, dizendo: 9 Assim falara o Senhor dos Exércitos: Executai juízo verdadeiro, mostrai bondade e misericórdia, cada um a seu irmão; 10 não oprimais a viúva, nem o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre, nem intente cada um, em seu coração, o mal contra o seu próximo. 11 Eles, porém, não quiseram atender e, rebeldes, me deram as costas e ensurdeceram os ouvidos, para que não ouvissem. 12 Sim, fizeram o seu coração duro como diamante, para que não ouvissem a lei, nem as palavras que o Senhor dos Exércitos enviara pelo seu Espírito, mediante os profetas que nos precederam; daí veio a grande ira do Senhor dos Exércitos.”
                   Zacarias 7:8-12 – RA


13 Passam eles os seus dias em prosperidade e em paz descem à sepultura. 14 E são estes os que disseram a Deus: Retira-te de nós! Não desejamos conhecer os teus caminhos. 15 Que é o Todo-Poderoso, para que nós o sirvamos? E que nos aproveitará que lhe façamos orações?”
                   Jó 21:13-15 - RA

“O mundo inteiro jaz no maligno”, afirma o apóstolo João em uma de suas cartas (1 João 5:19 - RA). Ao afirmar isso, João nos apresenta uma realidade não só percebida por ele já no primeiro século da era cristão, mas uma realidade permanente na história da humanidade, comentada por Jó, e reconhecida por Zacarias ao relatar os motivos que levaram o povo de Israel ao cativeiro babilônico; a rejeição a Deus.

É evidente que, se retrocedermos na história da narrativa bíblica, encontraremos outras tantas alusões à rebeldia humana, desde o livro de Gênesis ainda com o primeiro homem Adão, passando pela história dos patriarcas, pelo deserto do Sinai e por tantas outras etapas em que Deus chamou o homem para perto de Si, sendo, porém,  rejeitado e deixado de lado voluntariamente.

Mas esses dois textos acima nos chamam atenção especial, pois se assemelham a duas condições bastante contextualizadas em nossos dias; a corrupção e a prosperidade do erro. Sendo a primeira uma espécie de praga social que se alastra em todos os níveis da sociedade brasileira, e a segunda uma enganosa condição de independência, de quem imagina que a necessidade de Deus, provém da falta de recursos ou vantagens na vida.

É importante notar que o texto de Zacarias começa com uma realidade abominável; a injustiça proposital. O juízo enganoso que favorecia convenientemente à parte na verdade culpada, mediante suborno, amizade ou mesmo favorecimentos que intencionavam barganhas futuras. Fosse pelo que fosse, a verdade e o juízo não eram estabelecidos, devido à corrupção daqueles que deveriam zelar por sua correta aplicação. Além disso, a aplicação da lei era severa e inflexível sempre que o ofensor era alguém comum, ou sem capacidade de trazer qualquer vantagem aos aplicadores da lei. Principalmente àqueles que apresentavam tanto mais necessidade e carência do cuidado das autoridades públicas; viúvas, órfãos, estrangeiros (que não tinham qualquer direito de cidadão) e pobres. A corrupção tornou-se um meio fácil de enriquecimento e prestígio.

Em Jó se evidencia a conseqüência enganosa dessa condição de vida. Acreditando que sua prosperidade advém de seus próprios esforços, ainda que sejam esforços corrompidos, o homem rejeita a proximidade de Deus. Rejeita conhecer os seus caminhos. Sabe que isso lhe causaria prejuízo, pois suas atitudes lhes seriam necessariamente reprovadas. E interessante; não fogem da presença de Deus, mas ordenam que Ele se afaste, numa demonstração clara de se acharem donos legítimos da condição em que se encontram. Sai daqui, não vem estragar o que conseguimos construir por nossas próprias mãos, poderíamos imaginá-los falando a Deus.

O pior e mais flagrante comportamento humano na atualidade, contudo, está no final do versículo quinze do texto de Jó. Que vantagens teremos em servir ao Todo Poderoso? O que ganhamos com isso? A possibilidade de transformar Deus num negócio rentável e promissor, provocou enorme afluência de aproveitadores ao universo do sagrado e do religioso. Com aparente piedade, lideres mal intencionados têm se aproveitado da boa fé de muitos, enganando-lhes e sugando-lhes a vida, por mais simples que suas vidas sejam. Ganham na quantidade.


6 Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. 7 E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens.”
                   Marcos 7:6-7 - RA


9 Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; 10 como está escrito: Não há justo, nem um sequer, 11 não há quem entenda, não há quem busque a Deus; 12 todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. 13 A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, 14 a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; 15 são os seus pés velozes para derramar sangue, 16 nos seus caminhos, há destruição e miséria; 17 desconheceram o caminho da paz.18 Não há temor de Deus diante de seus olhos.”
                   Romanos 3:9-18 - RA

Faz-se importante ressaltar, contudo, que tanto corruptos, ímpios, religiosos enganadores e pretensos enganados, todos fazem peso em um mesmo barco. Sim, porque não há inocentes nesse jogo de barganha com Deus. Os presumivelmente enganados concordam em seus íntimos que, dando algo para Deus, dinheiro, tempo ou aquilo que lhes parecer mais valioso, em troca conseguirão algo que desejam, ou pelo menos manter o que já têm, ainda que pouco, numa imaginária relação de troca, que acreditam ser o que Deus espera deles. Fazem de Deus um mero ídolo a quem se devotam.

Quando multidões acorriam ao deserto em busca de serem batizados por João Batista, que pregava “arrependei-vos”, ele mesmo vendo a grande afluência de gente dize a esses: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? (Lucas 3:7 – RA). Vemos que a rejeição a Deus é muito mais sutil atualmente, do que as declaradas manifestações do passado. Mas não deixam de ser uma rebelião, que O afasta de seus corações. Rejeição essa voluntária, e sem qualquer desculpa, pois Deus sempre se deu e ainda se dá a conhecer abertamente, como diz Paulo no livro de Romanos:


18 Do céu Deus revela a sua ira contra todos os pecados e todas as maldades das pessoas que, por meio das suas más ações, não deixam que os outros conheçam a verdade a respeito de Deus. 19 Deus castiga essas pessoas porque o que se pode conhecer a respeito de Deus está bem claro para elas, pois foi o próprio Deus que lhes mostrou isso. 20 Desde que Deus criou o mundo, as suas qualidades invisíveis, isto é, o seu poder eterno e a sua natureza divina, têm sido vistas claramente. Os seres humanos podem ver tudo isso nas coisas que Deus tem feito e, portanto, eles não têm desculpa nenhuma. 21 Eles sabem quem Deus é, mas não lhe dão a glória que ele merece e não lhe são agradecidos. Pelo contrário, os seus pensamentos se tornaram tolos, e a sua mente vazia está coberta de escuridão. 22 Eles dizem que são sábios, mas são tolos. 23 Em vez de adorarem ao Deus imortal, adoram ídolos que se parecem com seres humanos, ou com pássaros, ou com animais de quatro patas, ou com animais que se arrastam pelo chão.”
                   Romanos 1:18-23 - RA

O mundo jaz no maligno, e essa afirmação de João talvez nunca tenha sido tão real como em nossos dias, pois em toda parte se encontra uma rebeldia intrínseca e uma rejeição inequívoca, sejam elas abertamente declaradas ou sutilmente camufladas com aparência de piedosa religiosidade.

Que nossos corações e mentes se mantenham atentos às artimanhas dos que com ardilosos discursos, tentam enganar a muitos. Que com ousadia e conhecimento de Deus, tenhamos condição de levar-lhes a palavra de salvação, que está em Jesus Cristo, nosso redentor, e esperança nossa.

Bom treino a todos!
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