segunda-feira, 22 de junho de 2015

Misericórdia quero. Mas quantos mais querem?


Por Jânsen Leiros Jr.


“Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia."
Mateus 5:7 - JFA

Seguindo nosso passeio pelo Sermão do Monte, chegamos à quinta bem-aventurança. E como passamos um tempo longo desde o último texto, penso ser importante recuperar alguns princípios que entendemos determinantes, na compreensão do que podemos considerar uma introdução ao discurso desse sermão.

Podemos começar relembrando que as bem-aventuranças formam um conjunto harmônico, que apresenta características correlatas da personalidade transformada, de todo aquele que sinceramente se devota a Deus. Não se trata de um faça isso logo aquilo, tão presente na literatura positivista dos mecanismos de auto-ajuda, mas sim de uma apresentação abrangente do caráter daquele que está em marcha para o Reino do Céus. É, na prática, a tradução desse caráter em atitudes relativas a si mesmo, dirigidas em benefício de terceiros, e por fim, que dizem respeito a seu posicionamento social diante daquilo que crê.

Se lembrarmos bem, ou se alguém preferir recorrer aos textos anteriores, as primeiras quatro bem-aventuranças diziam respeito àquilo que o sincero e devotado discípulo pensa e faz, de si e consigo mesmo. Ou seja, nas primeiras quatro bem-aventuranças o cristão é tanto o agente, quanto o beneficiado de seu entendimento e conseqüentes atitudes. Mas nessa e nas duas próximas beatitudes, haverá um benefício estendido a terceiros. Uma atitude cujo o bem se amplia no foco do que é correto e probo realizar, deixando assim a mensagem de que tudo o que melhora em cada um de nós individualmente, precisa refletir e se traduzir em bem aos outros também.

Tais características introdutórias, portanto, são reveladoras à medida que coloca a relação do homem consigo mesmo, com os outros, e com Deus, na base de todo o ensinamento que se desenvolverá em seguida, definindo-as como a expressão prática da vida cotidiana de uma pessoa piedosa.

Mas por que razão os misericordiosos seriam bem-aventurados? Que vantagens a misericórdia poderá trazer ao misericordioso. A misericórdia seria uma moeda de troca? E que valor teria? De que adianta ao ser humano agir com misericórdia, se o mundo real pertence aos implacáveis? Vamos pensar juntos sobre tudo isso.

Podemos começar tentando entender misericórdia, como palavra sempre presente no contexto religioso daqueles dias. Ou seja, a palavra utilizada por Jesus estava tão inserida no contexto social judaico, que nenhuma dúvida causou aos discípulos que o ouviam naquele instante. E como não é nosso objetivo aqui nos aprofundarmos muito nos significados possíveis da palavra na tradição e na literatura judaica, ficaremos com o sentido mais geral e mais amplamente utilizado; o de benevolência da parte ofendida, à parte que descumpriu um pacto ou uma aliança. Uma graça. Portanto, no sentido prático, misericórdia é um sentimento de bondade, que se deve traduzir em atitude bondosa. Mais tarde Paulo relacionará a bondade como fruto do Espírito[1].

É importante ressaltar, que Jesus não está estabelecendo uma condição; quem agir com misericórdia receberá misericórdia. Se assim fosse, a misericórdia de Deus para conosco dependeria de nossa atitude, e assim neutralizaria a graça, pois a alcançaríamos por nossos próprios esforços. Mas antes, a exemplo das características anteriormente relacionadas, é próprio do cristão piedoso agir com misericórdia, por está em marcha com aqueles que receberão misericórdia. Ou seja, o cristão deve exercer misericórdia por gratidão livre e espontânea[2], dada a sua consciência da misericórdia de Deus que o alcançou.

Entre outros tantos exemplos de bondade em exercício na narrativa bíblica, há dois pelos quais tenho particular encanto; o bom samaritano[3] e a mulher adúltera[4]. Entendo que esses dois acontecimentos exemplificam profundamente o significado desse sentimento, esclarecendo respectivamente, a misericórdia como  ato de bondade, e a misericórdia como ato de perdão. No primeiro, o samaritano se compadece do estado em que se encontra aquele homem à margem da estrada. Sem cuidado e abandonado ali, ele certamente iria morrer. e não obstante a todos os seus importantes afazeres, decide priorizar o cuidado pleno daquele homem, sem medir custos. Um ato efetivo de compaixão e bondade. No segundo, há um contraponto particularmente especial; não seria ilegal apedrejar aquela adúltera. A lei mosaica lhes autorizava a tanto. Havia ali um delito cujo castigo era o apedrejamento até a morte. Jesus então apresenta-lhes a misericórdia como a alternativa benevolente, de quem abandona o direito, em benefício do pecador. Um ato de compaixão e misericórdia.

Além desses dois exemplos, a Epístola aos Hebreus apresenta Jesus como o sumo sacerdote misericordioso[5]. E tal misericórdia ganha consistência, na medida em que Jesus, a exemplo de nós seres humanos, passou por tudo o que passamos, sabendo na carne, as dificuldades e carências que sofremos em nossa vida real e cotidiana. Ele se compadece de nós, embora o pecado nos faça merecedores do castigo de morte. Onde o pecado abundou, superabundou a graça[6].

A bíblia nos ensina que o amor cobre uma multidão de pecados. Isso nos reporta a uma situação confrontante com a realidade que vivemos em nossos dias. Vivemos tempos difíceis, em que somos tocados por um ímpeto de vingança pessoal e social. Talvez motivado por corações endurecidos, talvez pela falta de ação do Estado, ou as duas coisas somadas, diariamente flagramos casos em que a vingança, travestida de justiça pelas próprias mãos, tem feito vítimas nas mais diversas camadas e grupos sociais. E o que se instaura, na ausência da bondade, da misericórdia e da compaixão, é a maldade, a indiferença e a intolerância. Afinal, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará[7].

Misericórdia quero e não sacrifício[8]. Os fariseus se escandalizavam porque Jesus vivia rodeado por pessoas que os fariseus consideravam impuras, e portanto contamináveis. Manter-se "puro" segundo a tradição judaica, requeria restringir determinados contatos e convívios, principalmente com aqueles que estavam à margem daquela sociedade. Acontece que a falta de um sentimento de misericórdia, na essência da relação com Deus, torna nula toda a ritualidade religiosa. E isso incomodava profundamente o próprio Deus, como relatado no Antigo Testamento[9]. Um cristão sem um coração misericordioso, é um cristão vazio do sentimento mais básico em um coração transformado; o amor[10].

A verdade é que um coração misericordioso é uma referência da bondade e do amor de Deus no mundo. E nós, cristãos, não podemos deixar de ter essa marca. Numa realidade mundial onde o ódio, a indiferença e a intolerância dominam as atitudes e reações mais instintivas, a bondade e a misericórdia de Deus precisa estar traduzida em nossas relações, no compadecimento com todos, acolhendo e cuidando daqueles a quem o Senhor nos envia.




[1]  Gálatas 5:22
[2]  Mateus 18:23-35
[3]  Lucas 10
[4]  João 8:1-11
[5]  Hebreus 2:14-18
[6]  Romanos 5:20-21
[7]  Mateus 24:12
[8]  Mateus 9:13
[9]  Oséias 6:6; Amós 5:21-23; Miquéias 6:6-8; Mateus 23:23-26
[10]  I João 2:9-11; 3:14-15; 4:19-20

domingo, 14 de junho de 2015

Unção; poder e capacitação



Por Jânsen Leiros Jr.


“14 Então voltou Jesus para a Galiléia no poder do Espírito; e a sua fama correu por toda a circunvizinhança. 15 Ensinava nas sinagogas deles, e por todos era louvado. 16 Chegando a Nazaré, onde fora criado; entrou na sinagoga no dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler.17 Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías; e abrindo-o, achou o lugar em que estava escrito: 18 O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, 19 e para proclamar o ano aceitável do Senhor.20 E fechando o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele. 21 Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta escritura aos vossos ouvidos."
Lucas 4:14-21 - JFA;

No último texto, em que falamos do episódio de Pedro andando sobre as águas no Mar da Galiléia, comentamos que a convicção de Jesus para realizar seus feitos, vinha da ação do Espírito de Deus em sua vida, no cotidiano de seu ministério, durante o tempo em que viveu sobre a terra. Mas por que dissemos isso? Que fatores nos levam a identificar as realizações de Jesus, como dependentes da atuação do Espírito Santo em sua vida? No texto de hoje nos deteremos nesse aspecto de sua vida com maior atenção; Jesus, o ser humano perfeito, segundo a vontade de Deus.

O texto de Lucas é bastante contundente, e apresenta com excelência a convicção que Jesus tinha de quem era, e do que haveria de realizar no mundo; hoje se cumpriu esta escritura. Imaginem o quão corajoso foi Jesus, ao afirmar que ele próprio era o cumprimento daquela profecia, tendo os seus próprios feitos como sinal de seu messianismo.  Tendo somente Lucas a narra esse fato, não há muito como analisar historicamente o ocorrido, de modo a medir com precisão quanto tempo se passou entre o fim dos quarenta dias no deserto, e aquele sábado na sinagoga de Nazaré. Mas é patente que Jesus já havia realizado muitos milagres e acumulado feitos expressivos diante do povo, pois sua alusão ao texto de Isaias[1], relaciona tais sinais à profecia.

De onde vinha tamanha coragem e convicção? Sabidamente Jesus corria o risco de ser considerado blasfemo, e por blasfêmia condenado à morte. Ora ainda que tal destino já lhe fosse familiar, haveria um tempo para que isso ocorresse, tempo ainda não chegado naquele sábado. Vim proclamar o ano aceitável do Senhor. O novo tempo em que Deus dará resgate aos pobres, liberdade aos cativos, visão aos cegos, e o cancelamento das dívidas aos falidos espirituais[2]. Jesus não tinha qualquer dúvida de que a ele estava conferida a responsabilidade de cumprir as escrituras. Mas por quê?

No versículo 14, o evangelista diz que Jesus retornou dos quarenta dias no deserto, no poder do Espírito Santo - en tê dunamei, no grego - que trás a idéia de capacitado para realizar algo; autoridade para e poder para. Isso trás à tona a realidade de que, o que Jesus realizava em seu ministério, tanto os milagres quanto a autoridade com que proclamava as boas novas dos céus, o fazia por total e plena capacitação pelo Espírito Santo de Deus, que nele atuava plenamente, à medida que também ele, Jesus, era plenamente submisso à vontade de Deus, dada sua relação íntima e comprometida com o pai.

É importante ressaltar que Jesus não estava investido de todo esse poder realizador por ser Deus, condição à qual abdicou em favor da humanidade[3]. Não por isso, mas porque e exclusivamente, se submetia à condução do Espírito Santo de Deus. A submissão é um paradoxo do comportamento cristão. Quanto mais submisso, dedicado, fraco e dependente, maior a capacitação, o poder realizador, a força e convicção de caminhar conforme a vontade de Deus. Pois quando sou fraco, aí é que sou forte[4].

A narrativa do livro de Gênesis sobre o pecado original, apresenta um homem rebelando-se contra Deus e sua instrução. A desobediência é instrumental, é apenas a forma reveladora da atitude rebelada do homem; serei igualmente deus, conhecedor do bem e do mal. Não dependo mais de Deus. Era o que estava por trás da desobediência, influenciando-a e a determinando como inevitável. A humanidade decidiu livrar-se de Deus, e de sua dependência dele. Viver atendendo às próprias vontades e satisfazendo os próprios desejos. A simples presença de Deus já os incomodava.

Ao contrário de Adão, desde cedo Jesus é treinado na obediência, submetendo-se a seus pais[5], embora já apresentasse indícios de que sabia contundentemente qual seria o seu papel no mundo[6]. Os evangelhos narram inúmeras passagens em que Jesus se retira para orar. Se afasta para estar a sós com Deus. Ele sabe que depende de seus Espírito. Mais. Ele deseja estar com Deus. O prefere a si mesmo. Tem seu prazer em realizar a sua vontade, ainda que essa vontade o conduza inexoravelmente à morte, e morte de cruz. Sua submissão é total. Ele obedece por amor. E na dependência do Espírito de Deus, torna-se capaz e convicto, para realizar tudo o que Deus lhe coloca por tarefa.

Vivemos tempos de falta de convicção, como falei no texto anterior. Mas isso porque nos falta submissão e entrega. O custo dessa entrega é medido. Nossa dedicação, comedida. Concedemos apenas aquilo que não nos é efetivamente essencial para nossos projetos pessoais, ou para a realização de nossos sonhos mais íntimos. Ao contrário disso, nenhuma realização de Jesus foi sem custo. Ele andou de cidade em cidade. Orientava seus discípulos diária e diuturnamente. Curava os enfermos, falava às multidões. E por fim, não bastasse tudo isso, sua dedicação e submissão, custou-lhe a vida. Se possível, passa de mim esse cálice. Porém faça-se a tua vontade[7]. Ele foi obediente até o fim[8].

Sejamos nós igualmente submissos, para que o poder realizador do Espírito do Senhor nos capacite a realizar tudo aquilo que Deus nos propõe. Que nossas vidas espelhem entrega e dedicação, para que convictos, sejamos veículos de bênçãos, para a honra e a glória de Deus.




[1]  Isaias 61:1e2
[2]  No Antigo Testamento, o cativeiro diz respeito ao exílio de Israel (Lc 1.68-74). Aqui, o cativeiro alude ao pecado (Lc 1.77; 7.47; 24.47; At 2.38; 5.31; 10.43; 13.38; 26.18). Jesus deu vista aos cegos, uma referência às Suas obras milagrosas (Lc 7.22), com implicações espirituais (Lc 1.78,79; 10.23,24;18.41-43). Jesus pôs em liberdade os oprimidos. Esse era originalmente o chamado de Israel, mas a nação fracassou em sua tarefa (Is 58.6). O que Israel não conseguiu fazer, Jesus fez. A ilustração aqui remete à realidade física e espiritual. Jesus proclamou o ano aceitável do Senhor, uma alusão ao Jubileu. Este acontecia a cada 50 anos e, nesta época, os débitos eram perdoados, os escravos conseguiam sua liberdade, as terras voltavam para seus donos originais. O Ano do Jubileu permitia que se recomeçasse (Lv 25.10). Jesus ofereceu o cancelamento total da dívida espiritual e um novo começo àqueles que cressem em Sua mensagem.

[3]  Filipenses 2:5-8
[4]  2 Coríntios 12:9-10
[5]  Lucas 2:51
[6]  Lucas 2:49
[7]  Lucas 22:42
[8]  Filipenses 2:8

domingo, 31 de maio de 2015

Quando necessário andamos sobre as águas?





“28 Respondeu-lhe Pedro: Senhor! se és tu, manda-me ir ter contigo sobre as águas. 29 Disse-lhe ele: Vem. Pedro, descendo do barco, e andando sobre as águas, foi ao encontro de Jesus. 30 Mas, sentindo o vento, teve medo; e, começando a submergir, clamou: Senhor, salva-me. 31 Imediatamente estendeu Jesus a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste?"
Mateus 14:28-31 - JFA

Essa é uma passagem bíblica bastante conhecida, até mesmo pelos que não professam qualquer religião, ou mesmo não professam necessariamente uma religião cristã; Jesus andando sobre as águas do Mar da Galiléia. Para muitos críticos, um evento que, se considerado real,  parece apenas uma demonstração isolada e desmedida de poder sobrenatural, ou ainda, para alguns outros, apenas um relato fantasioso com o flagrante propósito de comentar as conseqüências de uma fé vacilante, cujo sujeito principal é a fé de Pedro.

Mais cedo Jesus havia protagonizado um milagre impressionante. Mais de  cinco mil pessoas haviam sido alimentadas a partir de cinco pães e dois peixes, que estavam com um menino que acompanhava aqueles que queriam escutar o que Jesus tinha a dizer[1]. De modo que o clima de assombro pelo feito ainda devia permear as conversas entre os discípulos mais chegados. Um misto de perplexidade e júbilo naqueles que certamente ainda não entendiam muito bem o que lhes havia acontecido. - Quem é esse homem? Uma pergunta que talvez fosse feita por todos, sem que ninguém, contudo, ousasse verbalizá-la.

Imediatamente Jesus obrigou seus discípulos a entrarem no barco e passarem para o outro lado. O texto dá a entender que ele precisou insistir com eles, talvez porque não tivessem qualquer intenção de saírem de perto do seu mestre. Afinal, um milagre como aquele, ainda que benéfico a muitos, era impressionante e contundente. Revelava muitas coisas, e acabava dizendo bem mais do que aparentemente se percebia[2]. Obviamente aqueles discípulos estavam inquietos e hesitavam.

Jesus não perdeu tempo. Enviando os discípulos mar a dentro, tratou de despedir a multidão, pois muitos já intencionavam, dado o milagre realizado, proclamá-lo rei[3]. Não era esse o objetivo de Jesus. Ele não podia permitir que seus propósitos fossem confundidos com objetivos políticos, qualquer que fosse. E mandando todos embora dali, subiu sozinho ao monte para orar[4].

Talvez tivesse sido essa a principal intenção de Jesus; conseguir um tempo a sós para dedicar-se à oração. Aliás, o que Jesus mais fazia e o que muitas vezes foi registrado ao longo dos evangelhos[5]. A extrema e constante comunhão com o Pai foi a condição mais relevante, dentre todas aquelas que mais tarde serão motivo de análise e estudo, dos fatores que sustentavam o caráter e a convicção de Jesus, sobre quem ele era, e o papel que exerceria na libertação do homem da escravidão do pecado, e da rejeição a Deus.

Quando Jesus terminou seu tempo de oração, ele viu o barco já em longa distância. E andando sobre as águas foi ao encontro de seus discípulos no barco. Jesus não andou na direção do barco, mas caminhou como quem passaria o barco. Isso pode sugerir que ele só foi visto, portanto, quando emparelhou com o barco, que navegava obviamente muito lentamente, dado o vento contrário que deveria lhe impedir velocidade maior. E isso faz sentido, pois dificilmente algum deles olharia para trás, como quem esperava Jesus alcançar o barco. Provavelmente não lhes passaria na cabeça que o mestre poderia tentar alcançá-los, muito menos andando sobre as águas[6].

Tal aparição, no entanto, aterrorizou os discípulos que imaginam mesmo ser um fantasma[7]. Novamente, porque alguém andar sobre as águas não era muito comum. Imagine alguém de seu convívio familiar, alguém de quem a fisionomia e silhueta você se gabe de conhecer extremamente, em qualquer que seja a circunstância, distância ou roupa que esteja utilizando. Muito bem, agora imagine essa pessoa andando sobre a água de um lago qualquer, ou andando acima do chão uns vinte centímetros, vindo em sua direção. Vai me dizer que você não levará alguns segundos, no mínimo, até confiar nos próprios olhos e entender minimamente o que está acontecendo, confirmando assim a identidade dessa mesma pessoa que você imaginou no começo da brincadeira? - É um fantasma! você dirá, pensará ou gritará de primeira. Para só depois então, menos assustado, gritar. - Mamãe! É você?!

Portanto não há nada de patético na reação dos discípulos. Podemos e devemos ser condescendentes com o susto deles. Afinal, o convívio com Jesus esteve sempre a lhes impelir um ineditismo jamais vivenciado por eles. Eles eram constantemente submetidos ao inesperado e ao improvável. Não é sem razão que suas emoções variavam tanto, e suas certezas eram postas a prova dia a dia. - Mestre, é você mesmo? Lhe deixamos há tempos lá atrás, em terra seca. Como pode estar aqui, agora, no meio do mar... Andando sobre as águas? Ainda seria razoável condenar a dúvida e o pavor dos discípulos? Eu penso que não.

- Senhor! se és tu, manda-me ir ter contigo sobre as águas. Pedro, sempre ele, impulsivo, ansioso, mas também mais corajoso, tomou a frente dos demais e pediu uma prova. Uma prova em que ele pudesse participar daquele acontecimento tão inusitado e majestoso. - Quero andar também sobre as águas como meu mestre. Ele poderá me fazer andar sobre as águas, tanto quanto ele está andando, provavelmente pensou Pedro, e por isso se ofereceu. Pedro não teve fé? Quero saber quem de nós se ofereceria assim, de pronto. E mais, sem ter ainda certeza de que falava realmente com Jesus.

Pedro desceu do barco. Ele, e só ele, ousou sair da segurança do barco, e caminhou sobre as águas. Ele não afundou direto, demonstra o texto. Ao contrário, segundo a narrativa, ele andou uma boa distância ao encontro de Jesus. Agora já não havia dúvidas; era realmente Jesus. Tanto que ele, Pedro, estava andando sobre as águas. Só Jesus poderia realizar tal feito, a exemplo dos cinco mil homens alimentados um pouco mais cedo. Só Jesus poderia fazer aquele homem rude, pescador e sem qualquer apuro intelectual, andar sobre as águas como se caminhando estivesse na areia da praia. Mas Pedro começou a afundar.

- Senhor, salva-me! Gritou Pedro com medo, após sentir o vento empurrando e desequilibrando seu corpo, em sua passada provavelmente ainda vacilante. Ele já havia mesmo andado uma distância razoável, tanto que Jesus estava próximo e em condições de imediatamente lhe estender a mão, puxando-o da água em que submergia. Então o que aconteceu para que começasse a afundar? Por que Pedro deixou as passadas cessarem, e passou a submergir? - Por que duvidaste? Perguntou Jesus após nos ter dado a explicação; - homem de pequena fé.

O que significou então homem de pequena fé? Qual foi a dúvida que de assalto tirou Pedro de sua caminhada na direção de Jesus e o fez afundar? E por que um experiente pescador, conhecedor do mar da Galiléia, provavelmente acostumado a nadar naquelas mesmas águas, gritou por socorro? Ele temia afundar? Temia afogar-se? Teve medo das ondas? São perguntas interessantes, cujas respostas não temos com precisão, mas bem podemos fazer suposições sem forçarmos o texto a nada além do que já nos traz.

Primeiro Pedro provavelmente não temeu afundar. Da mesma forma que não temeu afundar nas águas ao sair do barco. Sim, porque se não fosse Jesus, ele simplesmente nadaria e, não andar, seria exatamente o sinal de que aquele que estava em pé sobre as águas não era o seu mestre. Depois, ao efetivamente andar sobre as águas, sentiu a certeza de que era Jesus quem estava ali. Isso lhe sossegou do medo do desconhecido ou do fantasma, que foi o primeiro pensamento do grupo. Notem que o texto apresenta então um agente determinante na história; o vento.

Pedro caminhava seguro e confiante. Aquele era mesmo Jesus. Ele disse venha, e ele foi. E como sempre, ao fazer aquilo que Jesus manda, ele teve a segurança de que poderia realmente andar sobre as águas. E ele o fez, pelo menos até o vento lhe trazer à memória algumas realidades que sequer havia considerado ao iniciar a caminhada sobre o mar. Aquele que disse vem, poderia ser e era realmente Jesus. Mas esse aqui, cujas passadas ainda vacilantes avançam lentamente era Pedro. O vento lhe confrontou a realidade.

Pedro era apenas um pescador, apenas um homem qualquer do povo. Pedro era antes de tudo um pecador. Jesus sim podia andar sobre as águas; Pedro achou que ele próprio não. Jesus podia multiplicar pães e peixes; Pedro jamais se imaginou podendo tal coisa. Jesus podia tantos outros milagres aos quais havia ele mesmo presenciado; Pedro achou que ele mesmo nunca iria realizar qualquer coisa semelhante. - Como eu posso andar sobre as águas? Como eu posso realizar a mesma coisa que meu mestre, Pedro deve ter pensado naquela ora. Pedro não duvidou de Jesus. Pedro duvidou de si mesmo.

Antes que o leitor imagine que lá vem mais um texto de auto-ajuda, preciso completar a última frase; Pedro duvidou de si mesmo. Duvidou de que Aquele que operava em Jesus tudo o que ele realizava, poderia também nele operar, uma vez que lembrou-se indigno pecador, a exemplo do que fez quando conheceu Jesus na noite da farta pescaria que fizeram, quando foram chamados por Jesus a se tornarem pescadores de homens.[8]

Aliás, o que faltava em Pedro e nos falta em demasia nos dias de hoje é a mesma coisa. E isso não faltava absolutamente em Jesus. Convicção! Um motor capaz de nos impulsionar a tudo que nos é dado a realizar. A força geradora de atitudes que convergem para aquilo que acreditamos precisar ou ser imperioso fazermos. A convicção nos impulsiona incondicionalmente, nos orientando o caminho e legitimando projetos e horizontes. Convicto, somos capazes de marchar para o alvo que nos está proposto, por pior que ele seja, por mais difícil que se apresente o caminho. Custe o que custar, ainda que custe a própria vida.[9]

Jesus tinha total convicção. Ele sabia que o poder realizador nele presente era o Espírito de Deus. Ele sabia que cada um de seus passos, cada uma de suas atitudes e gestos, convergiam para a vontade de Deus. Ele conhecia seu destino, e portanto seu caminho e marcha. Estava convicto de que o Espírito de Deus o conduziria a tudo que deveria passar, realizando tudo conforme a vontade de Deus, que trabalhava para a redenção da humanidade. Jesus tinha convicção de sua obra. Em verdade em verdade vos digo... Eu sou.[10]

Pedro porém duvidou. Faltou-lhe fé. Faltou-lhe convicção. Ainda que cresse em Jesus e de certa maneira até em seu poder, imaginou que aquele poder realizador não lhe poderia produzir o mesmo efeito. Ou pelo menos não deveria, sendo ele quem era. - Senhor salva-me! E eu completo, - porque não sou digno disso.

A verdade é que vivemos assim, exatamente como Pedro vivenciou esse episódio. Primeiro Jesus nos assusta com sua presença. Depois nos acalmamos com sua voz que tranqüiliza as inquietações da alma. Ele diz vem, e nós vamos; seguimos até ele. Mas quando nos é exigido viver tudo aquilo que ele viveu. Quando nos é requerido passar pelas mesmas circunstâncias que ele passou. Quando nos é apresentada a demanda de vivermos tudo aquilo que ele viveu, em toda sua plenitude, tanto para o que é agradável quanto para o que é dolorido, quando nos é imperioso andar sobra as águas, ao percebermos o vento contrário, afundamos. Quase que dizendo para nós mesmo eu não posso, eu não consigo. - Não dou conta. Senhor! Salva-me! Me leva de volta para o barco!

Jesus não oferecia qualquer resistência à atuação do Espírito em sua vida. E talvez daí viesse sua extrema convicção. Sendo o Logos de Deus, do que também tinha total convicção, era um homem totalmente esvaziado de si mesmo, bem como sendo Deus, esvaziou-se de si mesmo, não lhe sendo empecilho nem mesmo o ser Deus[11]. Jesus foi um homem totalmente convicto de que o Espírito de Deus que nele operava, cumpriria cabalmente a vontade do Pai em sua vida. E assim, tudo o que ele viesse a viver, tudo o que viesse a sofrer e realizar, natural ou sobrenaturalmente, estaria realizando inexoravelmente a vontade de Deus.

Portanto precisamos ter convicção. Não existem graus de convicção. Ou se tem ou não se tem. Ou ela nos impulsiona, ou nos movemos vacilantes. Homens convictos viveram e também morreram pela vontade de Deus. Cheios do Espírito Santo, realizaram o que deles se esperava. Convictos levaram a cabo a carreira que lhes estava proposta. E nós? Andaremos sobre as águas, ou voltaremos para a segurança de nossos barcos?




[1] Mateus 14:15-21
[2] Mateus 14:22
[3] João 6:14-15
[4] Mateus 14:23
[5] Marcos 1:35; 6:46; Lucas 5:16; 6:12; 9:18; 22:41; entre outros
[6] Mateus 14:24-25
[7] Mateus 14:26-27
[8] Lucas 5:1-11
[9] Hebreus 12:1-3
[10] João 14:1-15
[11] Filipenses 2:5-8
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