segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Quando suas posses expressam amor


Por Jânsen Leiros Jr.


“1 Logo depois disso, andava Jesus de cidade em cidade, e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus; e iam com ele os doze, 2 bem como algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios. 3 Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Susana, e muitas outras que os serviam com os seus bens."
Lucas 8:1-3 - JFA

Nunca fui muito de falar desse assunto. Na verdade quase sempre fugi dele. Seu caráter polêmico e o receio de ser confundido com aproveitadores e charlatões que pululam em nossos dias, sempre me mantiveram afastado da questão do sustento dos empreendimentos missionários, exclusivamente dedicados ao anúncio do evangelho.

Quando falo de empreendimentos missionários, não me refiro a  missões como ações em terras distantes apenas. Mas também, e igualmente importante, do que chamo de missões ao lado, que acontecem dentro do universo alcançável por nossos passos cotidianos e rotineiros, normalmente realizados no âmbito de nossas igrejas locais.

E me sinto muito mais à vontade para tocar nesse assunto, tendo em vista o texto acima. Pela dedicação exclusiva ao anúncio do evangelho do reino de Deus, o próprio Jesus recebeu ajuda de pessoas piedosas, no caso mulheres, que a exemplo de seus doze discípulos mais chegados, o acompanhavam em suas jornadas de cidade em cidade, e de aldeia em aldeia, como narrado aqui em Lucas.

Ora, todos sabem que Jesus era carpinteiro, tendo aprendido a profissão de seu pai José. Isso certamente lhe rendeu algum sustento enquanto vivia junto de sua família. Após ser batizado, porém, Jesus passou a dedicar-se exclusivamente ao anúncio do evangelho, não lhe sendo mais possível fazer do trabalho seu meio de subsistência. As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça[1].

O cuidado de algumas mulheres em prover os recursos necessários, a Jesus e aos doze, parece não ter sido colocado aqui por acaso. O final do capítulo 7 de Lucas, do qual falamos no Exercício Diário 008[2], falava de uma mulher pecadora, cuja gratidão levou a uma extremada expressão de adoração, lavando com lágrimas e enxugando com os próprios cabelos os pés de Jesus, e ainda beijando-os e ungindo-os com um produto de grande valor no contexto social daquela época.

Nos evangelhos de Mateus, Marcos e João[3], a mesma cena se desenvolve com algumas variáveis, porém a mais destacada é a reação aparentemente piedosa daqueles que condenaram a atitude daquela mulher, considerando que ela deveria vender aquela especiaria tão valiosa, e dar aos pobres. Uma acusação de desperdício estava implícita, pois sua atitude fora julgada e desqualificada. A avareza de tais homens, no entanto, não lhes permitira valorizar o gesto de amor e devoção. Somos sempre tentados a buscar utilidade e pragmatismo em todos os nossos atos e gestos. A adoração extremada e com aquilo que possuímos parece aos olhos dos outros, um exagero e um despropósito sem sentido ou utilidade.

Aquela mulher pecadora, segundo o texto, encontrou um meio de declarar sua satisfação e devoção a Jesus pelo que lhe havia feito; ele a resgatara de sua vida de pecados. Da mesma maneira, as mulheres que acompanhavam Jesus em sua jornada, encontraram no sustento de sua missão, uma forma adequada às suas possibilidades, para expressarem seu amor e agradecimento pelo que Jesus havia realizado em suas vidas, pois as curara de diferentes e infelizes condições.

É importante ressaltar que o que realizavam não era uma barganha; eu te dou você me dá. Muito pelo contrário, elas ajudavam com espírito de devoção, movidas pela gratidão de quem já havia recebido inteiramente de graça, e pela graça, tudo o que mais desejavam; uma vida nova e restaurada. O sustento ao ministério de Jesus era para aquelas mulheres, portanto, um ato de amor e consagração, além da expressão prática de quem apoia algo que espera ver anunciado a muitos.

Nossa adoração e louvor têm refletido nossa gratidão pelo perdão infinito que de Deus temos recebido? Temos nos oferecido como sacrifícios vivos em um culto racional? Ou não passamos de fariseus que apenas convidam Jesus para um jantar, numa mera formalidade de quem não se imagina necessitado do amor de Cristo? E se nesse caminho de entrega e dedicação nos for necessário abrir mão de posses ou usa-las; as doamos ou perdemos?

Que o Senhor que não precisa de nada do que lhe venhamos a oferecer, receba nossa gratidão, e que essa se expresse da maneira que nos for mais valorosa, mas não pelo maior preço. Deus conhece todos os corações[4].



[1]  Mateus 8:20
[2]  http://teologandoso.blogspot.com.br/p/1-quisera-eu-me-suportasseis-umpouco.html
[3]  Mateus 26:6-13; Marcos 14:3-9; João 12:1-8
[4]  2 Coríntios 9:7

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Saulo, Saulo... Por que resistir ao Espírito?



Por Jânsen Leiros Jr.


“12 Indo com este encargo a Damasco, munido de poder e comissão dos principais sacerdotes, 13 ao meio-dia, ó rei vi no caminho uma luz do céu, que excedia o esplendor do sol, resplandecendo em torno de mim e dos que iam comigo. 14 E, caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que me dizia em língua hebráica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões. 15 Disse eu: Quem és, Senhor? Respondeu o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues; 16 mas levanta-te e põe-te em pé; pois para isto te apareci, para te fazer ministro e testemunha tanto das coisas em que me tens visto como daquelas em que te hei de aparecer; 17 livrando-te deste povo e dos gentios, aos quais te envio, 18 para lhes abrir os olhos a fim de que se convertam das trevas à luz, e do poder de Satanás a Deus, para que recebam remissão de pecados e herança entre aqueles que são santificados pela fé em mim."
Atos 26:12-18 - JFA

No texto que lemos acima, Paulo está diante do rei Agripa, contando sobre sua vida como fariseu, e relatando sua conversão ao Caminho, como o próprio autor de atos chama o movimento mais tarde nomeado cristianismo. Mas a despeito do que geralmente observo em termos de análise do texto bíblico, o contexto aqui pouco importa, pois o cenário principal não está no instante que se desenrola tal relato, mas no instante onde se passa o fato relatado. Este sim nos interessa em especial.

Saulo, como era conhecido anteriormente, por zelo e sincero sentimento de dever e devoção, havia solicitado autorização dos líderes religiosos de Jerusalém, para sair por diversas regiões buscando e prendendo para julgamento, todos os que professassem fazer parte do Caminho. Em Jerusalém ele já havia participado do martírio de Estevão, o que pareceu ter-lhe estimulado a um empreendimento mais contundente e eficaz, na tentativa de neutralizar o que acreditava ser uma nova heresia.

Saulo, Saulo... A própria narrativa de Paulo sobre o ocorrido, demonstra da parte de Jesus, ma atitude de compaixão por seu equívoco, que se demonstrava incoerente com seu zelo e sinceridade de coração. Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões, definitivamente demonstra que em seu íntimo, Paulo de certa forma vinha sendo persuadido pelo Espírito quanto a verdade sobre o Cristo. Ele lutava e relutava em não aceitar aquilo que, de certa forma, vinha crescendo em seu coração como verdade incontestável; Jesus era mesmo o Cristo, o Filho do Deus vivo.

Isso é tão claro em Paulo e na narrativa de sua conversão, que muito pouco tempo depois, ele já estava pregando nas sinagogas, defendendo a fé a que acabara de aderir. Tal fato dá a entender ainda mais contundentemente, que muito do que ele então passou a acreditar, vinha se consolidando em seu coração e mente, pois o seu conhecimento da lei e das tradições judaicas, no fundo se constituíram como fundamento para sua fé em Jesus.

Ora, quanta gente conhecemos em nossos dias, que recalcitram contra os aguilhões que a vida lhes impõe? Que fingem não entenderem o chamado de Deus nas diversas circunstâncias por quais passam em seus cotidianos? Não cruzamos por vezes infinitas, por amigos queridos que insistem em fugir do cuidado e da bondade de Deus, se obrigando a uma rebeldia aparente e insustentável? Deveriam ser gratos pela providência, mas preferem levantar a voz para se queixarem de tudo o que, no fundo, lhes causa inquietação e estranhamento, pela familiaridade dos acontecimentos.

Dura coisa lhes é recalcitrar contra os aguilhões... Dura e desnecessária, porque poderiam já estar provando de tudo o que Deus reservou de vida edificante e plena, aos que a Ele se rendem por meio da fé em Cristo. Mas não obstante o convencimento que lhes faz o Espírito, trocam a benção por alguns pratos de lentilha. Pratos e iguarias que não lhe podem mitigar a fome e a sede de justiça que arrastam por tempos imemoriáveis, em seus corações sombrios e enganados.


Saulo, Saulo... Por que resistir ao Espírito? Que a exemplo de Paulo, nossos corações se rendam ao convencimento da Palavra, e que a verdade do evangelho nos inspire a uma vida de devoção e gratidão a Deus, por sua graça e salvação.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Coração limpo enxerga além



Por Jânsen Leiros Jr.


“Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus."
                      Mateus 5:8 - JFA

É quase impossível lermos as Bem-Aventuranças, sem que isso nos cause uma certa inquietação por uma aparente inadequação pessoal com seu conteúdo. Se é com sinceridade que as lemos, logo somos levados a uma auto-confrontação, que nos impele a uma reflexão minimamente honesta, em que nos vemos distantes daquilo que nos apresentam; mansidão, humildade, misericórdia... E agora mais essa, limpos de coração.

Ora, quem pode se considerar honestamente limpo de coração. Sem mácula, sem erro... sem pecado? E se os limpos de coração é que verão a Deus, quem então o verá? Quem é limpo de coração para tamanha recompensa? Quem diante disso pode dizer eu verei a Deus? Pois ninguém jamais o viu[1].

Se considerarmos que Jesus está falando do reino de Deus, para onde marchamos todos os que vivemos sob seu domínio, nenhuma das bem-aventuranças descritas pode ser uma utopia ou uma condição inatingível. Portanto ver a Deus será efetivamente uma circunstância natural e decorrente aos que são limpos de coração. Logo, há quem seja ou se torne limpo de coração. Mas quem é limpo de coração? Ou melhor, o que é ser limpo de coração?

O coração é o centro do ser e da personalidade do indivíduo, diria Martyn Lloyde-Jones, ao comentar essa bem-aventurança. E ele não está muito longe da verdade, pelo menos em termos de correlação bíblica. Toda vez que um autor bíblico fala da origem da vontade, intenções e pretensões humanas, coloca o coração como sua fonte[2].

Quando questionado por não lavar as mãos antes de comer, Jesus afirmou que limpar o exterior do copo e do prato, não passava de exterioridade frívola, pois em contra-partida, seus interiores estavam repletos de sujeira e podridão. E logo depois disse para que seus discípulos se guardassem do fermento dos fariseus. Isso nos dá uma boa pista de que, ao referir-se a um coração limpo, Jesus estivesse falando de corações verdadeiros, sem falsidades. Não de corações perfeitos e imaculados, mas sinceros e sem fingimentos.

Há comentadores que defendem a existência de uma relação entre as Bem-Aventuranças. Assim, os humildes estariam ligados aos misericordiosos, os que choram com os limpos de coração, e os mansos com os pacificadores. Confesso que esse modo de análise do texto me agrada, principalmente pela obviedade da interdependência das condições. Pois os que humildemente se percebem dependentes da misericórdia de Deus agem com misericórdia com o próximo, assim como os que choram pranteando sua condição de pecador está purificado em seu coração contrito e quebrantado[3].

Logo, um coração limpo não é obra humana. Não é uma condição alcançada por vontade própria. Um coração limpo é um coração justificado pela graça de Deus. Não é um coração puro, mas purificado, lavado. Limpos de coração, são aqueles que não esconderam suas mazelas em uma pureza aparente. Antes se derramaram em lágrimas diante de Deus, confessando seus pecados[4].



[1]  João 1:18; 1 João 4:12
[2]  Provérbios 4:23
[3]  Salmos 51:17
[4]  1 João 1:9

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Amor, o milagre que permanece


Por Jânsen Leiros Jr.


“8 Contudo, recebereis poder quando o Espírito Santo descer sobre vós, e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra!"
Atos 1:8 - JFA


“14 Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte. 15 Toda pessoa que odeia seu irmão é homicida, e sabeis que nenhum assassino tem a vida eterna em si mesmo. 16 Nisto conhecemos todo o significado do amor: Cristo deu a sua vida por nós e devemos dar a nossa vida por nossos irmãos. 17 Se alguém possuir recursos materiais e, observando seu irmão passando necessidade, não se compadecer dele, como é possível permanecer nele o amor de Deus? 18 Filhinhos, não amemos de palavras nem de boca, mas sim de atitudes e em verdade."
1 João 3:14-18 - KJA


“8 Aquele que não ama não conhece a Deus, porquanto Deus é amor. 10 Assim, nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. 11 Amados, considerando que Deus amou dessa forma, nós também devemos amar uns aos outros. 12 Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é aperfeiçoado em nós.

20 Se alguém declarar: “Eu amo a Deus!”, porém odiar a seu irmão, é mentiroso, porquanto quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não enxerga. 21 Ora, Ele nos entregou este mandamento: Quem ama a Deus, ame de igual forma a seu irmão! "
1 João 4:8, 10-12;20-21 - KJA

Em nossa sociedade, tão acostumada aos termos jurídicos, testemunha é sempre entendida como alguém que poderá atestar sobre alguma coisa que demande comprovação. Nesse cenário de significado semântico, se dissermos que precisamos ser testemunhas de Jesus, logo somos entendidos como quem sugere que saiamos pelo mundo a contar o que Jesus fez em nossas vidas.

Assim, muitos são os "ex" alguma coisa que se lançam a apregoar o que eram, e o como faziam isso e aquilo, fazendo alarde sobre seus passados, como se comparativamente, baseando-se no que eram antes, agora estão totalmente referendados a testemunhar sobre o que Jesus fez em suas vidas. É claro que o Senhor transforma vidas. E também é claro que condutas inadequadas são abandonadas após genuínas e legítimas conversões. Mas eu pergunto, esse é o significado de sermos testemunhas de Jesus a todos os povos?

Ao longo dos evangelhos, de Mateus a João, por diversas vezes aqueles a quem Jesus dirigiu-se realizando milagres, passaram a testemunhar suas curas com alegria e espanto. Porém, não precisaram do Espírito Santo para isso. Realizado o milagre, e constatadas as curas, eles falavam abertamente sobre o que o Senhor lhes havia feito. Ora, se mesmo antes da descida do Espírito Santo em Jerusalém, na festa de Pentecostes, havia quem contasse efusivamente o que Jesus lhe havia feito, fosse o que fosse, por que então o próprio Jesus prometeu que seríamos revestidos do poder do Espírito Santo para sermos suas testemunhas?

O poder do Espírito Santo, é um poder realizador. Uma condição que aponta para uma realização que demanda uma capacitação sobrenatural, cujos resultados e o sucesso não podem depender apenas da própria vontade, ou do próprio talento. Dependerá sobretudo da forte atuação de Deus, através de seu Espírito, que presente em nós, realizará aquilo que não nos é possível realizar, ou nos fará chegar onde, por nossos próprios meios não nos seria possível chegar. Ora, então que testemunho é esse, que para realizá-lo nos é preciso receber poder do Espírito?

 Se observarmos a dinâmica de nossas relações com o mundo sem Deus, mundo onde nosso universo existe, as pessoas que nos cercam, que convivem conosco, não são de modo algum interessadas em leitura da Bíblia, pregações ou louvores que lhes possam tocar o coração. Eles vivem seus cotidianos envolvidos em suas tarefas pessoais, cuidando de seus interesses ou meios de subsistência. Não têm qualquer acesso a uma atividade religiosa perene, onde o testemunho bíblico lhes sejam comum e experimentado. O que conhecem da bíblia muita das vezes é superficial ou caricato, dando uma percepção distorcida do evangelho de Cristo.

É nesse cenário de desconexão com Deus, que nós, discípulos de Jesus, temos que ser suas testemunhas. Não contando apenas o que Deus fez em nossas vidas, mas também e principalmente sendo a novidade de vida que seu Espírito realiza em nós. Nosso testemunho é viver como Jesus viveu, uma vez que o mesmo Espírito que o capacitava, habita também os nossos corações. Em um mundo que não se ocupa em conhecer Jesus através de suas palavras, nós devemos ser o Jesus que eles podem conhecer, assim como somos a Bíblia que eles lêem.

Em sua primeira epístola, João se ocupa em apresentar o amor como a maior e mais eficaz demonstração da habitação de Deus em nós, a ponto de dizer que quem não ama ainda está morto. Em sua expressão de entrega e dedicação, o amor precisa ser uma expressão de nossa fé, testemunhando através de nossas atitudes, o quanto de Jesus habita em nós. Sim, amor traduzido em atos legítimos, não circunscritos em palavras mortas e sem qualquer efetiva eficácia.


O amor vivido e praticado é o nosso testemunho; para o que somos capacitados pelo poder realizador do Espírito Santos que habita em nós. Ora, não amemos de palavras nem de boca, mas sim de atitudes e em verdade. Se alguém declarar: “Eu amo a Deus!”, porém odiar a seu irmão, é mentiroso, porquanto quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê? Quem não testemunha por amor, não reflete a imagem de Cristo em sua vida, ainda que conte histórias de milagres. Pois qualquer milagre realizado já passou. O milagre que permanece, é o amor de Deus em nós.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Amor, um sentimento que valoriza pessoas


Por Jânsen Leiros Jr.


“18 No amor não há medo antes o perfeito amor lança fora o medo; porque o medo envolve castigo; e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor. 19 Nós amamos, porque ele nos amou primeiro. 20 Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, não pode amar a Deus, a quem não viu. 21 E dele temos este mandamento, que quem ama a Deus ame também a seu irmão."
1 João 4:18-21 - JFA

É impressionante como temos a facilidade de inverter a prioridade de tudo na vida. Ainda que racionalmente tenhamos muito bem estabelecido o que devemos realizar primeiro, buscar antes de tudo ou pensar na frente de qualquer outra coisa, quase sempre nos flagramos corrompendo a ordem do que nós mesmos planejamos ou pretendemos. Deixamos o que importa para depois de um sem número de distrações ou futilidades, que a rigor sequer mereceriam qualquer tempo ou atenção de nossa parte.

Os motivos para essas inversões são muitos e de variadas possibilidades, e por isso não nos deteremos neles nesse texto. Nosso objetivo aqui será apontar para a importância que é prioritário, daquilo que é essencial para a vida. A idéia é nos dedicarmos ao que efetivamente importa. E aqui já fazemos uma escolha; falarmos das prioridades e não das distrações. Mesmo que um dia falar das distrações seja prioridade, aqui, nesse momento, não é. E por isso escolhemos deixá-las de lado.

Entre os diversos fatores que constituem o cotidiano de nossas vidas, os relacionamentos se apresentam como aqueles que permeia toda a existência humana. Nascemos de uma relação, qualquer que seja sua profundidade ou pertinência. Vivemos relacionamentos desde que nascemos. E ao longo da vida, desenvolveremos relações diversas que se estenderão desde nossos coleguinhas de infância, até a última pessoa com quem você falou há poucos instantes, passando por professores, amigos adolescentes, paqueras, o porteiro do prédio, empregados e patrões.

Praticamente tudo o que fazemos na vida demanda, em maior ou menor grau, algum relacionamento com alguém. Também em maior ou menor grau haverá alguma troca, algum envolvimento, algum sentimento. Nenhum encontro é nulo, por mais indiferente que se possa encará-lo. Toda relação provocará uma sensação. E dessa sensação brotarão reações que poderão variar conforme nossas predisposições em sentir e agir.

O corriqueiro em nossos dias, porém, é definir a qualidade de atenção disponibilizada a uma determinada relação, pelo grau de retorno que essa mesma relação poderá nos proporcionar, conforme nossas necessidades ou conveniências. Assim, se me empenho em ser simpático com o porteiro do prédio em que trabalho, é porque volta e meia esqueço o crachá sobre a mesa e ele me deixa passar sem precisar portá-lo. Se você trata com cordialidade o manobrista do estacionamento, é porque ele sempre lhe arruma uma vaga, mesmo com o pátio lotado. O trato com o cliente é amistoso... Sim, mas afinal ele paga o meu salário.

Ou seja, a maneira com que nos relacionamos em nosso dia a dia sofre muito mais influência de nossos interesses, do que de nossa disposição de tratar todas as relações com cordialidade, boa vontade e amor. E por isso, desde que não haja qualquer utilidade prática, imediata ou futura, em qualquer que seja a relação, nos condicionamos a não despender tempo ou atenção a ela; agimos com implacável desprezo.

Acontece que, ao dizer que devemos amar o nosso próximo como a nós mesmos, Jesus transformou TODAS as pessoas em nós mesmos, e eu não conheço ninguém que se despreze ou seja indiferente a si mesmo, por mais que aparentemente possa parecer não se valorizar como deveria. Seja o próximo um próximo ou distante, de interesse iminente ou eventual, útil ou não, conveniente ou não, é preciso valorizar essa relação sempre que ela existir. Porque o amor é um sentimento transbordante, que não obedece a convenções de oportunidades e aplicações, sendo naturalmente, quando existente, oportuno e aplicável.

É claro que ninguém imagina que do nada alguém passe a amar o próximo, apenas por exigência ou por mandamento. O amor seja não fingido[1], de modo que não nasce de atitudes auto-impostas, ou de cheklists presos no espelho do banheiro. Mas também é verdade que o amor precisa ser exercitado. Assim como alguns músculos que existem em nossos corpos, podem por falta de uso atrofiarem, a falta de prática do amor pode nos tornar apáticos em nossas relações, permitindo que aquilo que é na verdade acidental ou colateral, tome o lugar do que é essencial e desejável.

Por que damos mais importância às nossas conveniências e aos nossos interesses, mesmo no âmbito de relações mais relevantes? Porque no fundo, damos muito mais valor a nós mesmos e ao que pretendemos com essa relação, do que à manutenção de relacionamentos saudáveis e amorosos. Farinha pouca meu pirão primeiro, diz o provérbio popular; seja com quem for. E assim alimentamos e desenvolvemos relações condicionadas ao pragmatismo do oportunismo e da utilidade.

Esse povo honra-me com lábios, mas seus coração está longe de mim[2]. Imagino o pesar no coração de Deus ao proferir essa frase, mais tarde repetida por Jesus aos fariseus. O povo tinha com ele uma relação de conveniência e oportunismo. Era evidente que o buscavam com outras intenções, que não a de terem uma relação de intimidade e amor. Estar próximo de Deus lhes era interessante e proveitoso. Esperavam algo em troca. O valor não estava na relação, mas na eventual recompensa.

Por outro lado, o Samaritano na estrada para Jericó não tinha qualquer outra intenção, senão tratar e cuidar daquele homem tão maltratado pelos salteadores. Ele não esperava qualquer retorno dele. Coberto de ferimentos e roubado de seus pertences, ele provavelmente não teria como realizar qualquer ressarcimento do que com ele foi gasto pelo Samaritano. Pleno de compaixão, e no exercício de profundo e incondicional amor, ele tratou daquele homem jogado à beira da estrada, o deixou em uma hospedaria, e ainda autorizou, sem medida, qualquer gasto que se fizesse necessário para que aquele homem fosse recuperado de seu estado físico. O que ele esperava em troca? Nada.

Portanto relações valorizadas têm seu valor nas pessoas e não naquilo que elas nos possam proporcionar. E por isso mesmo essas pessoas não nos podem ser indiferentes, simples passantes, que nenhuma influencia têm em nossas vidas. É preciso exercitar o amor e o cuidado. Devemos priorizar as pessoas e ter por elas paixão e compaixão, para que valorizadas, possam ser as verdadeiras jóias de todos os nossos relacionamentos. O amor precisa ser em nós natural, transbordante e irresistível.

Que Deus nos inspire a nutrir com amor e verdade, todas as nossas relações. Para que pessoas e não coisas, e o que elas são, e não o que podem dar ou proporcionar, sejam as reais motivações de nossos corações e mentes, no exercício excelente do amor.

Por Jânsen Leiros Jr


[1]  Romanos 12:9
[2]  Mateus 15:8
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